Just Call My Name
5 Corrida contra o relógio.
Notas iniciais
Fazer um trajeto de vinte horas em oito, não seria fácil. Ainda mais se a vida da pessoa mais importante, a sua amada e protegida, dependesse de cada passo seu. Tarou deixou o quarto do Hospital Seiko às pressas. Saltou da janela e, pouco antes de atingir o chão, asas brancas – lindas e enormes, quase maiores que o próprio anjo – lhe saíram das costas, rasgando sua camisa acinzentada. Enquanto ele voava pelo céu carregado de nuvens, o vento batia contra sua face, seus pensamentos iam longe. O que poderia ter acontecido a Mio durante essas quarenta horas? Ele bem sabia que demônios, como Ryosuke, eram traiçoeiros. Mas Ryosuke se difere de todos os outros por uma única característica: sua criatividade para “entreter” as vítimas. Tal pensamento fazia com que Tarou voasse cada vez mais rápido. Abaixo de si, a movimentada cidade ia dando lugar às árvores. Após um longo tempo, começou a ver as montanhas. Era até elas que se dirigia: uma longa cadeia de montanhas estendida no horizonte, coberta de neve.
Alguns minutos depois o anjo chega a seu destino. Olhando em volta, apenas encostas cobertas da mais branca e pura neve. Suas asas desapareceram. Ao chegar perto de um portão do inferno, asas lhe serão inúteis. Essa é uma das coisas que você aprende após ter como inimigo um demônio. Para chegar ao tal portão, Tarou andou por algum tempo, adentrando mais as montanhas. Quando o sol se punha – já devia ter se passado cerca de duas horas desde que acordara – avistou o que procurava: algo como a entrada de uma caverna. Estreita e escura.
Hesitou.
Era o único jeito de tê-la de volta em seus braços. Passou pela entrada. Assim que o fez, a entrada se fechou. Típico dos portais do inferno, pensou. Quando a entrada se fechou, sabia que não devia olhar pra trás, porque o que veria lhe impediria de continuar.
Espalhadas pela Terra existem cerca de seis entradas para o Inferno. Elas são desconhecidas pela maioria dos humanos, porém, todos os anjos e demônios que deixam o mundo astral sabem exatamente onde elas ficam e como fazer para atravessá-las. Assim que se atravessa qualquer uma dessas entradas, elas se fecham, para que quem a adentrou não volte atrás. E, assim que elas se fecham, é como se a pessoa estivesse em outra dimensão – o que não deixa de ser verdade. A temperatura aumenta e por todos os lados são ouvidos gritos de dor, angústia e desespero. Olhar para trás, ou parar por mais que alguns segundos para examinar a situação à sua volta era quase como um convite à loucura.
Tarou já estava sem camisa, suava demais. Segurava o cristal em sua mão esquerda. A caverna parecia um labirinto, possuía muitas entradas, que levavam a lugares terríveis. Sabendo disso, o anjo andava sempre em linha reta, sem olhar para trás ou para os lados. De repente, à frente do longo corredor que estava percorrendo, surge um vasto salão. Escuro e quente. Ali os gritos de dor pareciam aumentar ainda mais. Era possível ver apenas a figura de um homem encapuzado parado e encostado em um enorme pilar. O homem era magro, altura mediana. Estava sujo, a barba acinzentada lhe caía sobre o peito. Tarou parou em frente a ele. Ele apenas ergueu olhos esbranquiçados na direção do anjo. Não disse nada. Apenas estendeu a mão.
Quando pessoas más morrem, elas certamente vão para o Inferno. Ao chegarem lá, precisam passar por uma espécie de “porteiro”. Para que a entrada seja permitida, deve-se entregar ao porteiro uma espécie de pedra. Nessa pedra está a “sina” de seu portador. Quanto mais pesada e mais negra a pedra for, piores serão os castigos. Quando o porteiro estendeu a mão, Tarou apenas abriu uma brecha de seus dedos que envolviam o cristal. Logo, seu brilho preencheu todo o salão e ofuscou a visão do porteiro. Este caiu no chão ajoelhado e cobrindo os olhos. A intensidade do brilho lhe causava muita dor, porém, as outras almas que estavam ali, se sentiam atraídas pelo brilho e começavam a correr emsua. Se o anjo não se apressasse para o castelo de Ryosuke, agora que havia conseguido passar pelo porteiro, seria mutilado pelas almas ensandecidas.
Correu. Correu o mais rápido que pôde, sempre segurando o cristal. As almas vinham logo atrás dele, tentando agarrá-lo. Por vezes elas quase conseguiram: arranharam-lhe as costas, puxaram seus cabelos castanhos e rasgaram sua calça. Mas Tarou corria. Logo, pôde avistar uma imponente fortaleza feita de pedras negras. Um portão de madeira enorme se abriu quando o anjo se aproximava. Ele adentrou a fortaleza. Ali era o castelo de Ryosuke. As almas não podiam mais alcançá-lo. Parou e olhou em volta. O castelo, assim como a fortaleza, era todo feito de pedras negras. Não possuía janelas, apenas uma porta de madeira. Estava aberta. Tarou passou por ela. Assim que adentrou o enorme cômodo, estacou.
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