Just Breathe
1 You Are My Sunshine
Notas iniciais
Era tão estranho, aquele lugar naquela hora. Já eram 2 da manhã. O cemitério estava completamente vazio, a não ser por ela própria e Martin. Bem, os dois e o caixão.
Martin cochilava na cadeira ao seu lado, finalmente dominado pelo cansaço, tanto físico quanto psicológico.
Aquele dia tinha sido horrível. Estava tudo bem, até receber um telefonema no ginásio da escola, onde ela, Martin e China treinavam as coreografias do grupo de kpop.
Estavam só ela e China quando o telefone tocou, então ela mesma o atendeu, dizendo o alô sério costumeiro. China a olhava, perguntando se era para ele. Era para Martin.
A notícia, sua mãe morrera. Desligou assim que o garoto atravessou o portão, sorrindo para um amigo seu. Antes que pudesse se controlar, as lágrimas já lhe desciam pelas faces, como se apostassem corrida.
– O que foi? – Martin perguntou, abrindo a garrafa de água que comprara no bar ali em frente. – Anna, o que foi?
– Martin, sua...tia ligou... – China estava entre eles, tão confuso quanto Martin. Se pelo menos ele tivesse atendido o telefone, e não ela. – Sua mãe, ela...Ela se foi.
– Foi? Pra onde? – Ele perguntou, mas já sabia a resposta. – Anna?
– Martin... – Mas do que adiantou? Martin deu um berro tão alto que chegou a assustá-la. – Martin.
– Não, não, não... – Ele caiu no chão, atirando a garrafa aberta para longe. – NÃO!
– Martin. – Correu para o lado do amigo, abraçando-o pelos ombros. O corpo dele tremia tão violentamente que parecia a ponto de se romper. – Ok, calma.
– Eu perdi tudo. Tudo, Anna. – Anna sabia bem o episódio ao qual ele se referia. O suicido do irmão, dois anos antes. Ela sabia bem a cena, porque foi ela mesma que o viu puxar o gatilho.
– Você ainda me tem. – Falou, secando as lágrimas e abraçando-lhe a cabeça. China os abraçou por fora, calado.
O resto do dia passou tão rápido. O pai de Martin, o homem horrendo que largou os filhos e a mulher pela liberdade de ser solteiro e que já dera em cima de Anna, organizou o funeral. Provavelmente, o único sinal de compaixão que aquele coração sombrio dele já vira.
Passaram o dia na casa de Martin, esperando que o velório ficasse pronto. Já passava das 4 da tarde quando foram para o cemitério, velar o corpo da mulher.
Fora difícil, claro. Martin, no entanto, fechou os olhos marejados, pôs uma das mãos sobre o corpo frio da mãe e rezou, um leve sorriso no rosto.
A mulher parecia dormir. A expressão suave, quase sorridente, de alguém que morria sem remorsos. Talvez tivesse entrado para o bloco cirúrgico sem qualquer medo do que poderia acontecer.
Parentes e amigos iam e vinham. Por fim, sobraram apenas Anna e Martin, naquele momento abandonado do cemitério.
Respirou fundo, ficando de pé e parando ao lado do caixão. A urgência de chorar a atingiu de novo, mas conseguiu se controlar. Quantas tardes passou na companhia daquela mulher? E quantas noites lhe agradeceu pelos cobertores a mais no colchão?
Era difícil para Anna. Ela e Martin sempre foram próximos, então a família toda dele era, basicamente, dela também.
– Tia Cristina. – Chamou-a ao acaso, sabendo que não teria resposta. – Sentirei sua falta.
Voltou a se sentar, respirando fundo. Tinha de esperar ali até o enterro, às 9 da manhã. 6 horas e meia ainda lhe faltavam. E cada segundo lhe doía.
Acabou por dormir também, ali mesmo na cadeira. Ficara tão cansada. Exausta. Acordou com o som de soluços. Martin já acordara, revirando uma das bolsas que levaram para passar a noite.
– O que houve? – Ficou de pé, sentindo-se travada por dormir tanto tempo numa posição tão ruim.
– Rivotril. – Ele respondeu, pegando o remédio na bolsa. Martin passara as últimas horas, desde que os familiares começaram a ir embora, travado com remédio.
– Não devia tomar tantos. – Comentou, mas também não o impediu. Quem era ela para lhe dizer como lidar com a dor? Não via a resposta em remédios, mas não disse nada.
– Que horas são? – Martin suspirou, olhando pela porta de vidro trancada. Anna olhou o relógio de pulso. Aliás, presente de Cristina.
– Dez pras 6. – Respondeu, bocejando. – Seu pai vai voltar hoje?
– É, ele quer que eu vá para a casa dele. – Martin não gostava da ideia, tanto quanto não gostava do pai.
– Pode não ser tão ruim. – Ele a olhou quase incrédulo, cravando os olhos castanhos nela. – Pela primeira vez, seu pai tem sido gentil.
– É, pode ser. – Ele fungou, ainda olhando pela porta. Anna podia perceber que ele evitava olhar para o caixão.
– Será que vão abrir logo? Estou com fome. – Falou, parando ao seu lado. Podia parecer frio, mas procurava distrair Martin.
– É difícil, sabe? – Ele falou, apertando os olhos à medida que a claridade do recinto ia aumentando com o raiar do sol. – Minha mãe foi a única que sempre me apoiou. Sem questionar, nem nada.
Era verdade. Enquanto todos riam ou maltratavam, a mãe de Martin aceitava facilmente o fato do filho ser gay. Anna também nunca ligou, mas o apoio da mãe era com certeza mais importante para ele.
– Ei, Martin. – Abraçou-o de lado, sorrindo. – Ela nunca vai parar de te amar, de te apoiar e te proteger. Nem nesse e nem em qualquer outro mundo.
– É. Eu sei. – Com os dedos trêmulos, ele secou uma lágrima que ameaçava cair. – Também estou com fome.
– Bom, parece que já vamos ser soltos. – O homem da recepção abriu a porta de correr com uma chave, desejando bom dia.
De novo, entrou naquele modo automático. O Rivotril começava a fazer efeito, Martin respondia com os olhos vidrados. China chegou e foi se sentar ao lado de Anna.
– Ei, Xufei. – Ela o cumprimentou, suspirando.
– Martin está bem?
– Rivotril. – Respondeu, dando de ombros. Ele pareceu entender, sorrindo.
– Eu e minha mãe passamos na casa dele. Demos uma limpada por lá, mas ainda está bem bagunçado. – O estrangeiro falou, suspirando. – Ele vai para a casa do pai?
– Creio que sim.
Achava estranho, estar ali. Sábado, dia 14, um sol lindo lá fora, nuvem nenhuma no céu. E ainda assim, parecia-lhe o dia mais triste do mundo. Um não combinava com o outro.
– Anna. Vem rezar. – Piscando, como se saísse de um transe, ficou de pé e foi para o lado de Martin. Pegou sua mão e apoiou o queixo em seu ombro, rezando em voz baixa.
A percepção daquele momento era ainda mais esquisita. O que aconteceria depois que a terra caísse? Martin ia embora com o pai, ela ia ajudar China a terminar a limpeza na casa do amigo...E depois? Acabava?
Foi seguindo o cortejo fúnebre, passando por corredores infinitos de túmulos e lápides. Martin voltara a tremer, ainda com os olhos vidrados no caixão claro da mãe.
– Martin... – O garoto segurava a rosa vermelha com a ponta dos dedos, trêmulo. – Tudo bem.
– Sei. – Ele murmurou, parando junto ao caixão. Anna sentia seu coração se despedaçando com a cena dos homens descendo com o auxílio de cordas o caixão, já fechado claro, até o buraco cavado previamente.
– Alguém gostaria de pronunciar algo? – O padre perguntou, segurando a bíblia contra o peito. Martin o fitou, abrindo levemente a boca.
– Mãe. – Ele disse, respirando fundo. Os olhos agora já cheios de lágrimas que não tardariam a cair. – Eu já disse que te amo? Porque eu amo. Mais do que qualquer pessoa, mais até do que a mim mesmo. E...
Anna já chorava, cobrindo a boca com uma das mãos. Martin soluçou, tentando secar o rosto.
– Mãe. O que eu vou ser sem você? Eu te amo. Para sempre. – E, como se para selar o que acabara de dizer, ele atirou a rosa que carregava sobre o tampo de madeira.
O padre começou a rezar, mais uma vez. Percebendo que Martin começava a arranhar os próprios braços, Anna segurou ambas suas mãos e beijou-lhe a testa.
Sábado, dia 14. O sol brilhando fortemente contra a vegetação mal cuidada do cemitério. Martin caia sobre os próprios joelhos, gritando. Talvez, por um último instante, sua mente tenha associado que aquilo seria o fim.
Nenhuma nuvem no céu. Era como se o planeta estivesse feliz, naquele dia. Anna segurava Martin, mas olhava aquele céu estupidamente azul. Doía nela também. Ver seu amigo naquele estado, uma quase-tia que virara só uma lembrança.
– Martin. – O pai dele chamou-o, abaixando-se ao seu lado. Parecia uma miragem, ver aquele homem com os olhos tão cheios de compaixão. – Vamos?
– Sim. – Secando o rosto, mas ainda com os olhos inchados, Martin ficou de pé. Sem olhar para os homens que jogavam terra sobre o caixão da mãe, ele deu um abraço em China e em Anna, agradecendo.
– Eu te amo. – Anna falou, as mãos segurando o rosto dele. – Sabe disso, certo?
– Sim. – Martin concordou, sorrindo fracamente. – Não se preocupe.
Anna o soltou, vendo-o se afastar. Tinha medo que Martin fizesse como o irmão e decidisse que desistia. Mas sabia que Martin era forte.
– Vamos. – China a empurrou pelas costas, tão suave quanto uma brisa.
– Sim. – Concordou, olhado uma última vez os homens trabalhando.
Sábado, dia 14. E o sol brilhava, não havia uma nuvem no céu.
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