Just Breathe
2 Cinder And Smoke
Notas iniciais
A casa já era vazia sem Martin. Sem ele nem a mãe, ficava ainda mais solitária. Anna ajudava Xufei a tirar a poeira da estante da sala, com os fones de ouvido tocando as músicas mais tristes de seu celular.
– Anna. ANNA. – Piscou, tirando um dos fones. – Olha isso.
O amigo lhe estendeu uma moldura, prendendo a flanela que usava no cinto, como um mecânico. A garota sorriu olhando a foto. Fora a primeira apresentação que fizeram, dançaram num festival da escola. A mãe de Marin decidiu tirar uma foto com os três pelo sucesso.
Sorriu depois de um suspiro. Quem diria que aquela mulher partiria tão cedo? Passou o paninho que segurava sobre a superfície de vidro do quadro e o colocou de volta na estante.
– Pode terminar sozinho? – Ela perguntou, deixando a flanela ao lado da televisão. – Vou arrumar os quartos.
– Ah, tudo bem. Eu termino com o sala. – Ele deu um sorriso leve, voltando a limpar o globo de neve que enfeitava a sala.
O apartamento era pequeno, tinha apenas dois quartos: um de Martin, que ele um dia dividiu com o irmão, e o de Cristina. Foi para o quarto do garoto, carregando uma vassoura, um balde com água e um pano.
Olhou o cômodo com o coração pesado. Anna sentia falta de Gui. O irmão gêmeo de Martin era um doce com ela, desde que se conheceram. Anna tinha uma adoração por ele que ia além da amizade que tinha com Martin.
O quarto parecia intocado. A cortina azul escura estava recolhida no canto, deixando que o quarto ficasse iluminado, o guarda roupa marrom escuro, a beliche com a parte de cima com algumas caixas.
Suspirou. Acabaria rápido ali, para poder arrumar o quarto de Cristina e irem embora. A cozinha já estava limpa, assim como a área de serviço.
Trocou a roupa de cama, varreu, passou pano, tirou a poeira dos móveis, com o cuidado de não tirar nada do lugar. Fez o mesmo no quarto da “tia”, com ainda mais cuidado.
– Ei, China. – Chamou-o, voltando para a sala. – Acabou?
– Aham, só estava dando uma ajeitada aqui na mesa. – Anna olhou para a mesa de imediato, vendo a papelada e a bolsa de Cristina. Como eles não tinham escritório, ela trabalhava ali.
– Bem, vamos embora, então? – Perguntou, fechando as janelas e pegando a chave.
China foi na frente dela, abrindo o portão do prédio. Anna parou na porta, olhando a casa dali. Até mesmo aquelas paredes pareciam chorar, implorando pela volta de sua dona. Aquela que nunca mais pisaria ali.
Com um suspiro, ela apagou a luz e puxou a porta, trancando-a.
Depois da limpeza que deu na casa de Martin, considerou aquilo seu remédio. Não ia mais chorar e ficar naquele sofrimento. Nunca fora boa naquilo. Estava ali encerrado seu choro. Agora seriam só memórias felizes.
Claro que não era tão fácil para Martin. Ele ainda precisaria de tempo. Foi por isso que naquele dia ele faltou à aula. A matéria não estava tão difícil mesmo. E não havia condições dele se concentrar em física.
Anna também não prestava atenção, mas aquilo já era habitual. Como de costume, ela rabiscava qualquer coisa em seu caderno. Uma historinha, uma música, coisas assim.
– Anna. – Sua amiga, Cecília, virou-se na cadeira. – Como está o Martin?
– Um pouco melhor. – Respondeu, tirando finalmente os olhos do caderno, suspirando. – Mas bem pouco.
– É, eu imagino. E ele ficou em casa sozinho?
– Não, ficou com o pai.
– Nossa. – O ódio que Martin tinha do pai era evidente, para todos.
– Mudando de assunto, cadê o Filipe? – Filipe era colega de classe delas. Há dois ou três anos, ele e Anna eram bem próximos, mas então ele se afastou um pouco.
– Você não ficou sabendo? Ah não, falaram ontem, você estava na casa do Martin. A mãe dele está hospitalizada. Teve complicações numa cirurgia.
– Oh. – Aquilo a pegou desprevenida. Mal saíra de um choque total, já cairia em outro? Bem, preferia pensar que não.
Foi para casa cabisbaixa, sem nem esperar China. Sentia aquela tristeza que decidira deixar para trás voltando lentamente sobre ela. Até mesmo a rua parecia apenas algo distante perto daquilo.
Depois de chegar em casa e de almoçar, pegou o celular e ligou para Martin. O garoto atendeu assim que ela se deitou, abraçando uma almofada da cama.
– Ei, Martin.
– Ei, Anna.
– Como você está?
– Ocupado. Muito. – Ele falou. Podia perceber a tristeza ainda pregada em sua voz, mas continuou falando com a voz normal.
– É bom pra você. Ah, aquela garota da sua sala, Rafaela, ela me passou os deveres da sua turma.
– Ah, valeu. – Martin e ela eram de turmas diferentes, devido à organização alfabética. – Hum, vocês...
– A gente deu uma limpada na sua casa. – Ela falou, suspirando. – Não foi lá grandes coisas, mas é melhor que nada.
– Valeu, de verdade. Eu devo voltar amanhã ou depois. Não sei ainda.
– Legal. A gente vai poder voltar a ensaiar. – Falou, pensando que aquilo também o ocuparia e se lembrando do retrato na sala da casa dele.
– É. Vocês deviam ir escolhendo uma música. – Ele deu uma risada. Não a explosão alegre que eu tinha mania de dar, mas uma risada.
– Vou falar com o China. Bem, vou fazer dever. Te vejo depois.
– Ok, boa sorte. – Desligou, suspirando. Abriu as mensagens e colocou Filipe no destinatário.
“Ei cara, e ai? Você sumiu. A Cissa me avisou sobre sua mãe...Onde ela tá, eu posso ir ai te ajudar se quiser. Bj.”
Detestara ajudar Martin, mas sabia que era necessário. Até mesmo passar horas naquele cemitério, como uma alma penada largada ali.
O celular fez o “plim” das mensagens, atraindo-lhe a atenção.
“Oi, An. Vlw a preocupação, mas por agora acho que não precisa se incomodar não. Ela tá bem melhor J Mas seria bem legal se você conseguisse algum doador de sangue, tipo B positivo. Brigadão.”
Ela mesma não poderia doar. Primeiro por ser menor de idade, segundo por ser do tipo A. Ficou de pé, indo até a cozinha. A mãe lavava os pratos, murmurando a música do rádio.
– Que foi?
– A senhora conhece alguém B positivo?
– De sangue? Não sei. Não saio perguntando isso pros outros. E pra que precisa disso?
– É a mãe de um amigo quem precisa. – Falou, tomando um copo d’água. – Bom, se a senhora souber de alguém...
– Eu te falo. – Finalmente voltou para seu quarto e foi fazer o dever.
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