Just Breathe
3 Future Days
Notas iniciais
– China. – O garoto fitou Anna, tirando os olhos da tela do computador. Eles estavam escolhendo uma música para ensaiarem quando Martin voltasse, mas Anna não conseguia se concentrar. – Qual seu tipo sanguíneo?
– O que? – Ele estranhou. Era de se esperar. Como a mãe dissera no dia anterior, não se sai perguntando isso para os outros.
– A, B, AB?
– Eu sou O. Por que?
– E você pode doar sangue?
– Não, eu sou menor de idade. Até parece que você não sabe quantos anos eu tenho.
– É verdade, eu esqueci. Desculpa. Mas então, seus pais...
– Os dois são B.
– B?
– É, por que?
– Eles doariam? Um deles ao menos?
– Pra quem?
– A mãe de um amigo. – Ela falou, pegando o celular.
– Hoje? Espera ai.
China pegou o próprio celular e ligou para a mãe. Anna escutava sem entender enquanto ele falava em chinês, sério. Depois de alguns instantes ele voltou a falar com Anna.
– Minha mãe pode ir depois das quatro. – Ele falou. – Tenho que passar os dados para ela.
– Ah, espera ai.
Mandou uma mensagem para Filipe, os dedos até meio trêmulos. Ia conseguir ajudar, talvez até mesmo salvar a vida da mulher. Com a esperança fervilhando dentro dela, enviou.
“Filipe, consegui uma doadora :3 Preciso do nome da sua mãe.”
Quase imediatamente o menino respondeu. Devia estar tão satisfeito quanto ela.
“Obrigado, Anna, muito obrigado. É paciente do quarto 305, Lúcia Machado.”
Passou o que precisava para China, que mandou uma mensagem para a mãe. Finalmente conseguiu prestar atenção nas músicas, tentando se decidir.
No dia seguinte, assim que acordou, mandou uma mensagem para Filipe. Queria saber se a mãe de China conseguira doar sem nenhum problema. Foi tomar banho, enquanto o celular ficou sobre a cama.
É estranho, não? Ao mesmo tempo em que uns estão se arrumando para a vida, outros estão dando de cara com algo pior.
Pegou o celular sobre a colcha, lendo a mensagem.
“Ei, An. Obrigado pelo esforço, fico grato, mas minha mãe faleceu agora de madrugada.”
Sentou-se, arrepiada. Não sentia frio, mas precisava de calor. Tremendo, discou o número do amigo. Respirava fundo, mas tudo lhe parecia distante. Inclusive ar.
– Alô?
– Filipe, oi. Eu sinto muito, eu... Cadê você?
– Em casa, arrumando pro velório. An, obrigado, eu...
– Eu vou pra sua casa. – Falou, ficando de pé. – Chego ai logo.
– Obrigado. – Desligou e pegou a primeira roupa em seu guarda-roupa. Uma camiseta preta e uma calça. Pegou seus óculos escuros e calçou os tênis, pegando a bolsa.
– Posso saber onde pretende ir? Tem que ir pra escola, Anna.
– A mãe do Filipe morreu.
– Quem?
– Filipe, mãe. O menino que toca violão. – Falou, vendo que a mãe reconhecia a descrição. – Eu vou pra casa dele.
– Tudo bem, eu aviso a escola. – Ela falou, meio sem reação. Anna nem esperou que ela se recuperasse e deixou a casa, indo para o ponto de ônibus. Já tinha visitado Filipe uma vez, num trabalho em grupo.
– Anna, ei. – Olhou para o outro lado da rua, vendo China. Ele passava perto de sua casa indo para o colégio, todos os dias.
– Ei, China. – Já usava os óculos, mas não tinha certeza se aquilo escondia suas lágrimas. Assim que passou pelo portão do prédio, conseguiu libertar aquilo preso dentro dela.
– Que foi? Não vai pra aula?
– Não. China, é meu ônibus. Te vejo depois. – Dando um sorriso fraco, esticou o braço chamando o ônibus e subiu no coletivo. Pelo horário, estava cheio. Pagou a passagem e se agarrou à uma das barras.
Tirou os óculos, para conseguir ver o ponto em que teria que descer direito. Podia perceber olhares sobre ela, mas não se incomodou. Eles estavam todos tão longe.
– Querida, tudo bem? – Foi uma senhora, sentada logo em sua frente, quem perguntou.
– Sim, senhora. – Concordou, secando um pouco o rosto.
– O que aconteceu?
– A mãe de um amigo faleceu. – Tentou falar como se apenas quisesse ajudar, mas não conseguiu. Porque era mentira. Não era só por Filipe. Não chegou a conhecer sua mãe, mas só de pensar que ele estava passando pelo mesmo que Martin passou...doía.
– Oh, eu sinto muito.
– Eu também. – Viu seu ponto se aproximando. – Com licença.
Deu sinal e desceu, colocando os óculos de novo. Lembrava-se bem do caminho que fizera na última vez, acompanhada de Cissa. As duas riam, felizes da vida.
A porta da casa estava aberta. Passou pelo homem sério na entrada, cumprimentou-o com a cabeça e entrou. Filipe estava sentado no sofá, sozinho, os olhos vermelhos.
– Anna.
– Eu sinto muito. – Fazia muito tempo que não abraçava Filipe. A namorada dele entrou na sala, também muito abalada. Anna apertava o corpo definido mas pequeno de Filipe. – Eu tentei, eu juro, mas...
– Eu sei, eu te agradeço muito. – Ele me soltou, secando o rosto que se molhara de novo. – Deus sabe o que faz.
– É, ele sabe. E ele sabe que você é forte para suportar isso. – Conseguiu dar um leve sorriso, apertando-lhe as mãos. – Ei, Larissa.
Deu um abraço na namorada dele também, bem mais rápido. A garota agradeceu em silêncio, apenas num sorriso.
– Posso usar seu banheiro? – Perguntou, depois que ele se sentou de novo. Queria lavar o rosto, tentar se livrar daquela sensação úmida que chorar deixava.
– Ah, segunda porta à...
– Direita. Eu sei. – Foi até o banheiro, trancando a porta. Lavou o rosto, respirando fundo. Ia se preparar praquilo tudo de novo. Não ia passar a noite com Filipe igual fez com Martin, mas teria que ir ao enterro.
Podia não ser ninguém próximo a ela, mas ainda assim, enterrar alguém...ver uma pessoa chorar por um caixão sendo coberto por terra...
Só aquilo a arrepiava.
Mas enfrentaria tudo de novo.
Saiu do banheiro, indo para um dos quartos. Uma menininha brincava lá dentro, calada. Entrou no cômodo, olhando a garotinha.
– Hey. O que faz aqui sozinha?
– O Lipe me mandou ficar aqui.
– Filipe? Ele é seu irmão?
– Uhum. Ele me disse pra esperar o papai aqui, para irmos dar tchau pra mamãe.
Sentou-se ao lado da criança com a boneca, cruzando as pernas. Era tão deprimente que uma menina daquela idade tivesse que passar por isso.
– A mamãe foi viajar?
– É quase isso, querida. – Respondeu a menina.
– E porque ela não leva a gente?
– Porque... – Aquilo a pegou desprevenida. O que poderia dizer? Por que ela não vai voltar não parecia bom. – Ela foi arrumar a casa de vocês, nesse lugar. Vocês vão encontrá-la, depois.
– Quando?
– Depois. – Sorriu, radiante. Era só por fora, mas preferia não destruir aquela menininha.
– Nessa, vai tomar banho. – Filipe falou, aparecendo na porta. – Vem.
– Ta. – A garota largou a boneca e saiu do quarto, indo para o banheiro.
– Obrigado. Por não...
– Eu não teria coragem. – Deu de ombros, ficando de pé.
– Meu pai vai nos buscar para o velório daqui a pouco. – Ele disse, voltando para a sala.
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