Just Another Summer Love
9 The unexamined life is not worth living
Notas iniciais
Eu não via tia Susan há anos. A última vez que eu a vi, fora há quase três anos, quando eu e Nat fomos visitá-la em Brighton. Era uma mulher bastante divertida, e lembrava muito mamãe dos dias que ela ainda era viva. Tinha cabelos castanhos, com o corte no ombro, e os olhos dela eram castanho-claros. Lembro-me de que quando eu era pequena, nos almoços em família, eu sempre confundia tia Susan de mamãe. Isso por conta da estética é claro, porque com relação à personalidade, ela não era nada parecida com Clara Heylmann.
Tia Susan era um tanto quanto... Inconveniente. Acho que, no interior, ela nunca passara dos 18 anos de idade. Agia como uma adolescente, sempre indo á muitas festas e curtindo a vida de solteira ao máximo. Ás vezes, Nat e eu recebíamos ligações inusitadas dela na madrugada, dizendo que estava com saudades, e ficávamos mais de horas falando ao telefone como papagaios. Eu confio á ela meus maiores segredos, até mesmo os que eu não conto nem para Riley. Ela é como minha melhor amiga, só que 20 anos mais velha. Estava um pouco diferente da última vez que eu a vira, obviamente. Algumas manchas pequenas estavam espalhadas pelo rosto, e ela ganhara um pouco de peso, mas ainda continuava uma pessoa relativamente bonita para sua idade.
—Que saudade de vocês, queridas! –Ela disse, assim que se sentou no sofá da sala, tirando os sapatos e ficando apenas de meias brancas (ou não tão brancas), que a deixavam com cara de estar de pijamas.
Corri para me sentar ao seu lado, dando um abraço apertado nela e sorrindo comigo mesma.
—Eu estava morrendo de saudades! –falei, meio abafado por estar abraçada com ela.
Tia Susan riu, afagando meus cabelos.
—Quero saber de tudo que aconteceu enquanto eu não estava aqui, mas antes estou morrendo de fome e preciso de um milk-shake de chocolate urgentemente.
Natalie e eu rimos, e então resolvemos sair para a Gordon’s, para descontrair e para tia Susan tomar o milk-shake que queria. Ela escolheu o de chocolate, e ainda por cima pediu para o garçom colocar granulado por cima do chantilly, dando uma piscadela para o moço depois que finalizou o pedido.
Contei a ela sobre os últimos meses que se passaram. Falei sobre a escola, sobre meu jardim novo, sobre as festas que frequentei com Riley, sobre Connor...
—Epa! Espera aí, quem é esse Connor? –Perguntou, com um sorriso malicioso no rosto.
Nat riu.
—O vizinho que a Bela gamou. –Ela disse, cutucando com o cotovelo tia Susana, de brincadeira.
—Eu não gamei nele! –respondi, ouvindo as risadas das duas e soltando uma para acompanha-las. — Somos só amigos.
Tia Susan me lançou um olhar um tanto quanto malicioso.
—Ok então, só amigos. –E deu uma olhadinha de canto de olho para Natalie.
Continuei contanto á ela sobre Connor, como nos conhecemos, sobre o que conversamos, sempre com todos os mínimos detalhes. Contei sobre o jantar na casa dele, sobre as poesias e os desenhos que ele fazia. Fiz questão de mencionar o dia em que brigamos, há quase 2 semanas, e como eu o odiei por ter gritado comigo. Tia Susan brincou, dizendo que era nossa “primeira briga de casal”, e eu não pude deixar de rir.
—E você, Natalie, alguém em especial na sua vida? –Tia Susan deu mais 3 goles no milk-shake e cruzou os braços sobre a mesa, agora voltando o olhar para Nat.
—Ah, tem um cara...
—O QUÊ? –Perguntei alto. – Como assim você tá com alguém e não me contou?!
Natalie riu com a minha reação, assim como tia Susan.
—Calma! A gente não “tá junto”. Somos colegas de trabalho. –Ela explicou, cutucando as unhas da mão direita enquanto falava. –O nome dele é Finn, e ele trabalha na contabilidade.
Natalie disse que eles se conheciam há um tempo, e de lá pra cá, acabaram se tornando grandes amigos. Disse que nos últimos dias, os dois acabaram “se aproximando demais” –como ela descreveu- e estavam tendo um caso. Ela me prometeu que combinaria um jantar em casa para que eu pudesse conhecer o novo “caso” dela, e quem sabe convencê-lo a pedir minha irmã em namoro.
—Natalie namorando? Essa é nova. –Tia Susan comentou depois que deu o último gole de milk-shake do dia.
Ela apenas riu em resposta.
—Não estou namorando. E por que nova? Não posso namorar sem ser julgada? –Ela perguntou, cruzando os braços no peito e sorrindo para nós.
—Talvez porque você nunca namorou na vida? –Eu digo, recebendo um tapa no ombro logo que solto a frase.
No caminho de volta para casa, tia Susan nos contou sobre a vida dela nos últimos 3 anos. Contou sobre todas as infinitas paixonites dela, dos dias em que ela ficou de repouso por ter extraído um dente, e de todas as outras coisas que ela quis compartilhar conosco. Por fim, ela prometeu que nunca mais ia passar tanto tempo sem vir nos visitar, e então abraçou á nós duas como se fossemos suas próprias filhas.
><
Naquela noite, Natalie, tia Susan e eu estávamos assistindo um filme de romance na sala, assim que acabamos de jantar. No meio do filme, recebi uma mensagem de texto da última pessoa que eu imaginei ter enviado:
Já procurei em todo canto o que é Carcinogênicos ou Carcino sei-lá-o-que, e não faço ideia do que isso tem a ver com Genética. –Connor
Deixei um sorriso escapar enquanto lia, e assumi que ele teve dificuldade com o professor Ryans em sua primeira aula de Biologia.
Tem certeza que terminou o segundo ano? Isso é quase que inadmissível. –Bela
Não sou muito de Biológicas, tá legal? E, além disso, como eu ia saber que o professor tem sotaque Australiano? Tem noção do que é não entender uma palavra do que ele dizia?! –Connor
Mais uma vez, eu sorri sozinha.
Não é tão complicado assim de entender o Sr. Ryans. Mas se realmente não sabe nada sobre Genética, passa aqui em casa amanhã, e eu te explico. –Bela
Hesitei ao clicar em enviar, mas depois me dei conta do que eu estava fazendo. Era Connor Jacobs, meu vizinho e mais novo amigo. Eu era apaixonada em Biologia, então por que não ajuda-lo, certo? Depois de alguns segundos, uma última mensagem dele fez meu celular vibrar:
Ainda bem que sabe de Biologia, Jason não soube nem o que eram Cromossomos quando eu mencionei Genética. Passo aí de tarde, ok? Te vejo amanhã. –Connor
Tia Susan deve ter percebido minha concentração exagerada na tela do celular, porque começou a rir como se estivesse lendo as mensagens. Ela lançou um olhar malicioso para mim e eu alcancei a almofada mais próxima, arremessando nela com força, antes de voltar minha atenção para o filme.
><
No dia seguinte, fui à escola normalmente, e William não voltou a falar comigo. Na verdade, quando as aulas acabaram, eu o vi com uma menina, provavelmente uma das líderes de torcida do time do colégio, e os dois estavam aos beijos no corrimão da escada. Assim que passei pelos dois para ir embora, ele imediatamente se separou da loira e me deu uma piscadela, como se estivesse esperando o momento em que eu passasse por eles. Eu apenas o ignorei e continuei meu caminho em direção ao estacionamento.
Tive duas aulas com Connor, a primeira, de artes, e a terceira, de literatura. Na terceira aula, ele mostrou à professora seu talento para a matéria, quando ela foi até a carteira dele para se apresentar. Ele estava sentado há apenas alguns metros de mim, e eu vi que estava rabiscando palavras no caderno quando ela se aproximou. Connor tentou disfarçar e se apresentar normalmente, mas a Sra. Harries fez questão de elogiá-lo pela poesia que "rabiscava". No momento, quis ter algum tipo de poder para arrancar a folha das mãos dele e dar uma lida no que ele escrevera.
Depois que cheguei em casa, almoçamos a carne de forno que tia Susan tinha preparado, e que por sinal estava excelente. Subi para o quarto quando terminei, a fim de dar uma lida em um capítulo de O Morro dos Ventos Uivantes, o qual eu estava louca para terminar.
Ouvi as batidas na porta depois de mais ou menos uma hora e meia, quando eu finalmente havia chegado ao último capítulo do livro. Fiquei com vontade de xingar Connor por ter batido justamente àquela hora, mas desci correndo as escadas para atende-lo. Ignorei as perguntas de tia Susan sobre quem estaria batendo, e lancei a ela um olhar de repreensão antes de abrir a porta para meu vizinho.
Connor estava parecendo um cara pronto para uma entrevista de emprego. Não pela vestimenta, mas pela postura que ele tinha quando abri a porta. Segurava a apostila de Biologia sobre o braço, e as mãos estavam no bolso da jeans, como de costume.
—Sério, obrigado por me deixar vir. – Foi a primeira coisa que ele disse quando me viu. Sorri sincera, e abri espaço na porta para que ele entrasse.
Assim que ele apareceu no Hall, tia Susana soltou um suspiro lá da sala e fez questão de se levantar e vir até a divisória de cômodos com um sorriso de lado no rosto e os pés descalços no chão frio.
—Você deve ser o vizinho, né? –Ela perguntou, pegando Connor de surpresa e o fazendo girar o corpo para encará-la.
—Ah, sim, me mudei pra cá há alguns dias. –Ele respondeu, antes cumprimentando minha tia com um sorriso.
Eu queria repreender tia Susana no momento em que ela se levantou do sofá, mas me contive o máximo que pude para não ofendê-la.
—Connor, essa é minha tia, Susan. –Apresentei os dois, com os dentes levemente cerrados. Levantei as sobrancelhas para minha tia, dizendo silenciosamente para que ela não soltasse alguma bobagem sem querer.
—Ah sim, Bela falou muito de você. –Ela disse, cruzando os braços no peito e se se encostando à batente da divisória da sala.
Antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa que provavelmente me deixaria constrangida, empurrei Connor pelas costas até a cozinha.
—Tá legal, tia Susan, estamos subindo pro quarto, ok? –Não esperei que ela respondesse, apenas continuei empurrando um Connor risonho para as escadas.
—Irmã da sua mãe? — Ele perguntou, rindo, enquanto subíamos os degraus.
Revirei os olhos em afirmativa e sorri.
—Ás vezes ela acha que tem 18 anos. Não ligue se ela aparecer no quarto para nos assustar. –Eu disse, e Connor riu em resposta.
Meu vizinho demorou uns 10 segundos para analisar meu quarto com os olhos, e depois fazer um elogio qualquer em relação à decoração. Nós nos sentamos no chão mesmo, e eu alcancei minha mochila para puxar a apostila de Biologia lá de dentro.
Connor e eu então começamos pelo básico, como se eu estivesse dando uma aula particular para ele enquanto respondíamos às questões do fim do livro. Eu praticamente dei uma revisão geral para ele de toda a matéria do ano passado e o começo desse ano. Falamos sobre a história da Genética, Genética molecular, quantitativa e populacional. Depois, pulamos para o assunto de Genômica e DNA, e finalizei com as doenças e problemas genéticos, como o potencial Carcinogênico e outras coisas do tipo.
Demos uma pausa quando tia Susan subiu com um pote de salgadinhos para nós, e eu percebi que se passou quase uma hora e meia desde que abrimos o livro. Connor deu uma espreguiçada longa antes de encher a mão de salgadinhos e suspirar em cansaço.
—Então... – Disse. – Tive aula com William ontem, sabia?
Sorri comigo mesma.
—Ele me disse. –respondi, colocando um salgadinho na boca. — Aliás, ele comentou que você é um baita nerd em exatas.
Connor riu.
—Eu não me considero um nerd, mas acho que sou razoavelmente experiente nessa área. –Ele balançou a cabeça de leve, franzindo o nariz quando pronunciou a palavra "razoavelmente".
Mordi meu lábio inferior em resposta, abaixando meu olhar para o pote de salgadinhos e pegando mais um para leva-lo à boca.
—Mas enfim, — Ele suspirou, se apoiando no chão com uma das mãos e vindo se sentar ao meu lado, sem avisos prévios. Dei um pouco de espaço para ele, mas mesmo assim, me senti perto demais do meu vizinho que eu imaginava que estaria. – por que William foi falar com você?
Dei uma olhada rápida para ele e depois balancei um pouco a cabeça.
—Ah, você sabe, aquelas ameaças idiotas por você ter batido nele... É uma mania de Will, não dei muita bola. –respondi, puxando os joelhos para mim e encostando a cabeça no colchão da cama.
Ele assentiu com a cabeça.
—Preocupada? –perguntou.
—Na verdade, não. – admiti. –Não acho que ele volte a me incomodar depois do que você fez. Quer dizer, tirando essas ameaças idiotas dele, claro.
Connor esticou uma das mãos por cima do meu ombro, pousando-a no colchão. Com o canto do olho, eu pude ver que seus dedos estavam pertos demais dos meus cabelos.
—Sabe o que eu penso? –disse subitamente, fazendo com que eu o encarasse com um sorriso.
—O que?
—Que esse cara, em nenhum momento, mereceu alguém como você. –Ele murmurou. Meu sorriso desapareceu do rosto vagarosamente, e ele apenas me encarou nos olhos como se quisesse ler meus pensamentos. – Não acho que pessoas assim merecem alguém com um coração como o seu, entende?
E só então fui perceber o quão perto ele estava de mim. Os olhos pareciam não quererem desgrudar dos meus em momento algum, e sua boca rosada atraía alguns de meus olhares atrevidos. Ele estava tão perto, que conseguia sentir sua respiração bater em meu rosto com delicadeza. Conseguia até mesmo sentir o cheiro do perfume dele como se estivesse em mim mesma. Por mais que eu quisesse me afastar e dizer que eu não sabia o que estava fazendo, eu estava paralisada. Percebi sua mão encontrar alguns dos meus fios de cabelo, e o alisarem com gentileza.
—Ás vezes não, eu não te entendo. –Respondi também em um murmúrio. Fiquei tensa só de saber que á qualquer instante, tia Susana poderia aparecer na porta e dizer alguma coisa que não fizesse sentido algum, só para atrapalhar.
Connor sorriu de leve com minha resposta, e senti seu rosto se aproximar do meu com uma lentidão agradável. Fechei meus olhos assim que percebi do que aquilo tudo se tratava. Eu não sei se estava preparada para aquilo, e nem sei como ele reagiria, mas fechei meus olhos quando senti sua respiração mais perto da minha. Seu nariz chegou a encostar-se ao meu, e senti um leve arrepio subir pela minha espinha, antes de ouvir meu celular tocar em cima da cama.
Connor parou de se aproximar imediatamente, abrindo os olhos no mesmo instante que eu o fiz, e franzindo a testa em confusão. Eu queria, no momento, alcançar meu celular e o arremessar na parede com toda a minha força, depois voltando minha atenção para Connor, mas quando percebi, ele já tinha se afastado o suficiente para que eu não sentisse seu perfume de forma tão intensa.
—Eu...eu deveria ir pra casa agora... –Ele disse, enquanto meu celular tocava alto. Eu o alcancei rapidamente e o desliguei depois que vi o nome Riley na tela. Me levantei rápido o suficiente para alcança-lo na porta do quarto, prestes a descer as escadas, e me contive para não segurar seu braço. Eu queria o puxar de volta, e dizer que sentia muito, mas não consegui dizer uma palavra sequer. Não conseguia nem raciocinar o que acontecera. Senti meu rosto corar em poucos segundos, e tudo que consegui fazer foi observá-lo descer as escadas não com muita pressa, e me lançar um olhar curioso do último degrau, depois desaparecendo por trás das paredes da cozinha.
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