Just Another Summer Love
7 She is more myself than I am
Notas iniciais
Connor's POV
Eu nunca pensei que me daria bem em Toronto. Para falar bem a verdade, eu nunca quis sair de Vancouver por conta disso. Mas, contrariando todos os meus pensamentos pessimistas, Isabela Heylmann surgiu na minha vida. Por mais estranho que pareça, essa menina fazia com que minhas esperanças sobre Toronto crescessem com o otimismo.
Acho que ela é descendente de alemães. Ou pelo menos, de descendência europeia, porque ela definitivamente aparentava ser de lá. Era relativamente bonita, com seus olhos azuis e cabelos castanhos. Mas acho que a aparência dela, para mim, não foi muito importante no dia em que nos conhecemos (e isso, acho eu, é uma qualidade própria.) Sou do tipo de pessoa que é muito observadora em relação aos outros. Reparo, sim, na aparência, mas primeiro de tudo, no conteúdo. Ás vezes, isso pode ser considerado um belo de um defeito em minha personalidade, o que explica minha mania de poucos amigos; mas acho que eu me contentava em ser assim.
Isabela Heylmann era uma pessoa curiosa. Poucos dias depois de nos conhecermos, ela já havia me contado um de seus segredos, sem mais nem menos, como se já fossemos amigos há anos. Naquela noite, na casa de sua amiga, eu quase a julguei mal. Como alguém tão... curiosa como ela poderia me contar uma coisa tão pessoal, em menos de 5 dias de “amizade”? Como ela pode confiar a mim um passado tão doloroso como esse, mal sabendo quem eu sou, ou como eu reagiria? Ela me fazia pensar demais, e minha cabeça parecia pesar 10 kg quando eu tentava juntar tais informações.
Quando tomei a iniciativa de machucar William naquela noite, eu me senti na obrigação de protegê-la, até porque o cara é um idiota e ela não merecia esse sofrimento todo, mas eu me senti... diferente. Não sou um cara que costuma brigar, principalmente com pessoas que mal conheço, mas com William, eu queria mesmo é ter socado a cara dele até ficar inchada. Queria ter o feito pagar por ter feito Isabela Heylmann sofrer. Era um sentimento estranho, eu sei, mas eu simplesmente não conseguia me controlar.
Faltavam menos de dois dias para meu último semestre no ensino médio, e eu não estava nem um pouco nervoso. Tudo isso por causa dela. É difícil de explicar, mas era como se ela conseguisse me compreender, mesmo não fazendo ideia sobre o que eu estava falando. Como se ela gostasse de falar comigo, e ao mesmo tempo me odiasse. Era... curioso. Essa era a única palavra que vinha em minha mente no momento para descrevê-la. Eu esperava, realmente, que ela pudesse ser útil como amiga nesse último semestre, mas também esperava conhece-la um pouco mais, e desvendar toda essa curiosidade que ela transmitia.
Terminei de empilhar os livros da escola em minha escrivaninha, depois tirando meu abajur azul-claro de uma das caixas de papelão que sobraram da mudança, e o ligando na tomada. Desci as escadas para a sala de estar, onde Liam estava, antes pegando uma maçã verde da fruteira na cozinha, recebendo uma repreensão de minha mãe pelo jantar estar quase pronto.
—Que bobeira é essa?!- perguntei, assim que adentrei a sala. Na T.V, um programa sobre dinossauros e alienígenas estava passando. Liam me encarou assim que apareci, cruzando as pernas no sofá e fazendo uma cara de nojo.
—Por que sua maçã é verde? – Ele perguntou, enquanto eu me aproximava para sentar ao seu lado.
Olhei para a maçã em minha mão, depois dando uma mordida nela e dando de ombros para Liam.
—Acho que é porque ela é radioativa. — brinquei, ao me sentar.
Liam fez uma cara de espanto engraçada.
—O que é radioativa?
Eu ri.
—Um dia eu te explico. – Empurrei seu ombro de leve.- Que programa é esse?
Liam voltou a olhar para a TV, depois dando de ombros e unindo suas sobrancelhas em confusão.
—Não sei. Eu queria assistir à Liga da Justiça, mas estava passando isso aí.
Observei enquanto um T-Rex abocanhava um marciano (de cor verde) e um líquido azul escorria de seus ferimentos. Fiquei imaginando quem, em sã consciência, faria um desenho desses para crianças.
—Que porcaria. — Falei, também unindo minhas sobrancelhas, dando mais uma mordida em minha maçã.
—Pois é. – Liam respondeu, rindo sozinho.
Quando estiquei minha mão para alcançar o controle remoto, minha mãe nos interrompeu para nos chamar para o jantar. E eu não teria a audácia de me recusar a comer os tacos apimentados que ela fizera.
><
Assim que eu saí do banho e coloquei minha calça de flanela para me deitar, meu celular começou a tocar sem parar, fazendo com que o criado-mudo vibrasse juntamente com o Iphone. A foto de Tyler piscava na tela, seu sorriso branco contrastando com a pele morena parecia estar rindo de mim.
—Fala, Ty. – Atendi, sorrindo.
—“Fala Ty?” Você não me vê há quase duas semanas e o que você me diz é “Fala Ty?” – Ele respondeu, com uma voz que eu não havia percebido a falta que fez nos últimos dias.
—Idiota. –Eu ri.
Tyler soltou uma risada, que eu também percebi estar sentindo falta.
—Como estão as coisas aí, cara?
Suspirei, me sentando na beira da cama e encarando as caixas de mudança vazias empilhadas no canto do quarto, levando minha mão até a nuca.
—Ah, vão até que bem, — falei. — meu pai já falou com os empresários daqui e disse que vai começar o projeto logo. Liam e eu já fizemos a matrícula da escola... — suspirei. — E vamos indo...
—Ah, que bom. –Respondeu, — E você, como está?
—Legal. Um pouco deslocado, mas tô legal. — passei a mão livre em meus cabelos molhados sorrindo. –E a Diana, como vai?
Tyler riu, e eu quase pude o imaginar fazendo uma dancinha da vitória, onde quer que ele esteja.
—Ainda bem que perguntou cara. — ele disse. — Estamos oficialmente namorando agora.
Comemorei mentalmente pelos dois estarem finalmente namorando. Tyler era meu amigo de infância. Quando minha avó faleceu, Ty tinha acabado de se mudar para a casa ao lado. Na época, eu fazia visitas constantes ao meu avô, e ele sempre estava lá, brincando na rua, sozinho. Lembro-me até hoje do dia em que eu esbarrei com ele. Era um dia de neve, e eu usava uma toca um pouco grande demais para mim, dificultando minha visão. Aproveitando a situação, decidi brincar de piloto de avião, abrindo meus braços pequenos para simular asas, e assim, sem querer, colidindo com meu corpo contra a neve (e contra Tyler).
—Ei! – O menino disse, enquanto eu levantava as abas de minha touca para vê-lo melhor. Eu tinha caído em cima de seu boneco de neve (que não tinha sido terminado), o esmagando e deixando-o parecido com um bolo.- Você estragou meu boneco!
—Desculpe. — lamentei, me levantando e batendo em meu casaco com as mãos. — Posso te ajudar a reconstruí-lo, se quiser.
Ele fez cara de durão. Apesar de seus 9 anos, ele já tinha mania de chato para esse tipo de coisa.
—Qual teu nome? – Cruzou os braços sobre seu peito, o estufando, como se quisesse parecer maior que eu, o que definitivamente não funcionou.
—Connor.- eu disse.- E o seu?
—Tyler. — O garoto esticou sua mão enluvada para mim.
—Muito prazer. — respondi. E ele sorriu para mim.
De imaginar que eu tinha a idade de Liam quando conheci meu melhor amigo, me deixava intrigado pelo fato de sermos amigos até hoje.
><
—Fiz exatamente o que me recomendou- Tyler voltou a dizer, no telefone. — Dei flores vermelhas, e comprei um anel folhado a ouro. –Sua voz parecia empolgada. – Ah, cara, você devia ter visto a cara dela!
Sorri comigo mesmo, com saudades de Vancouver, da escola, e principalmente dos meus melhores amigos.
—Imagino que ela tenha gostado. –Respondi, me levantando para apagar as luzes do quarto e me preparar para ir dormir.
—Ela amou. — ele riu. — Mas me conta você, já achou alguém de interessante na vizinhança?
E novamente, ele parecia ler meus pensamentos. Tyler era cheio de manias, mas essa era a que mais me incomodava. Ele parecia saber de tudo sobre mim, mesmo quando não estava perto. Uma vez, em uma festa do colégio, ele tinha ficado em casa porque estava doente, mas nada o impediu de me ligar depois para saber das fofocas. Ou melhor, para confirmar as fofocas. Tinha adivinhado por si só quantas meninas Harry Greyson tinha pego, o que Danielle fez para terminar com o namorado, e até quantos copos de bebida eu tinha tomado.
Olhei pela janela do quarto por instinto, vendo que as cortinas brancas e leves do outro lado da rua estavam fechadas, balançando lentamente de um lado para o outro, como ondas do mar. Uma sombra de cabelos compridos parou bem no meio dela, e eu a observei enquanto levantava seu cabelo para o alto e o prendia em um rabo de cavalo. Perguntei-me o que minha vizinha fazia acordada a essa hora da noite.
—Na verdade, tem sim. — respondi a Tyler.
Ele fez um barulho estranho que soou como uma risada e um murmúrio malicioso, ao mesmo tempo.
—E é uma garota? –Perguntou, com a voz baixa, como se eu estivesse prestes a contar a ele um segredo.
Continuei a observar a sombra, que de repente começou a dançar de um lado para o outro, lentamente, como se estivesse realmente dançando sozinha, enquanto seu rabo de cavalo balançava para lá e para cá, livre como um pincel em uma tela.
—É, é sim. — falei, nem prestando muita atenção na conversa, o que provavelmente fez com que minha voz saísse estranha.
Ouvi Tyler rir do outro lado, e tive que afastar o celular do rosto, pois corria o risco de ficar surdo. Tive de rir junto.
—EEEEITA! –Ele exclamou- Mandou bem, hein, Conn?
Observei por mais alguns segundos, enquanto Isabela dançava livremente. Parecia estar praticando valsa, ou tango, pelas mãos erguidas no ar, como se abraçasse um amigo imaginário. Quando me dei conta, eu estava sorrindo. Meneei a cabeça quando ela sumiu de minha vista, e aproveitei para ir até minha janela e fechar as cortinas, com um suspiro.
—Ela é só minha vizinha, Ty.- respondi, me jogando de bruços na cama.
—Aham, sei. – Ele disse, mais uma vez rindo baixo. — Me conta quando os dois derem o primeiro beijo, tá?
E então, meneei a cabeça novamente, dessa vez secretamente me perguntando se as previsões de Tyler estariam certas, afinal.
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Passei os próximos 35 minutos contando á Tyler sobre minha vizinha. Contei sobre a Gordon’s, a festa da Riley, William... E como eu já previa, Ty acertou em cheio quanto ao fato de eu ter dado um baita soco no ex-namorado dela. Ele riu com a reação, e disse que não me via brigar com alguém há um bom tempo, época que nem eu me lembrava mais. Contei a ele sobre o jantar que tivemos aqui em casa, e ouvi-o gritar comigo por eu não ter “investido” no momento, como ele previa. Encerramos a ligação depois de ele ter contado, em detalhes, o pedido de namoro que ele fizera para Diana. Em certos momentos, quase o mandei calar a boca de tanta melação que ele descrevia.
Assim que desliguei o celular, não me contive a ficar deitado, e fui até a janela, afastando as cortinas de leve. A janela do quarto dela se encontrava fechada, e as luzes apagadas. Suspirei. O que diabos eu estava fazendo? Ela deveria estar provavelmente dormindo àquela hora, e eu estava lá, como um idiota, esperando que ela aparecesse. Então, quase que instantaneamente, as luzes da cozinha, no primeiro andar, se acenderam, e lá estava ela. Observei minha vizinha ir até o balcão, desaparecer da minha vista por alguns segundos, e depois voltar á janela, com um copo de água em mãos. Bela deu uma olhada pela janela, e depois tomou todo o líquido do copo, se virando, apagando as luzes, e voltando a desaparecer de minha vista.
Sabendo que já era tarde, e que eu não tinha sono, acendi o meu abajur e peguei meu caderno marrom na primeira gaveta da escrivaninha. Deixei um pouco as cortinas abertas, no caso de ela aparecer na janela novamente, e comecei a rabiscar a página 14, deixando todos os meus pensamentos fluírem da cabeça ao papel.
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