Just Another Summer Love
3 Once Thoughts have found Words
Notas iniciais
A manhã seguinte foi ainda mais complicada que a noite anterior. Depois da desagradável conversa com Connor, tive que inventar uma desculpa não muito boa para Natalie, por ter batido a porta com força e por ter chego em casa de mau-humor. Uma vez no segundo andar, fora das perguntas de Nat sobre minha noite, me distraí até que bem com O Morro dos Ventos Uivantes, livro que eu começara há quase dois dias. Até o momento em que eu tive que contar à Riley sobre minha tentativa de desculpas a Connor.
—Mas ele parecia ser um menino tão fofo!!- Ela choramingava, com uma voz baixa.
—Eu sei. — Respondi seca, cutucando minhas próprias unhas com a mão que não segurava o celular.
—Olha, só tenho uma coisa a dizer. — Ela falou, provavelmente sorrindo de lado. Aquele sorriso que eu conhecia muito bem e que me fazia ficar com medo dela. — Ele ainda continua um gato.
Soltamos risadas em uníssono.
Fui dormir depois da meia-noite, intrigada mais que o necessário com o romance não correspondido de Catherine e Heathcliff, na maior expectativa de que Connor não me enchesse mais o saco depois desse desentendimento todo.
Porém, minha sorte deve estar com uma extrema raiva de mim, pois quando eu saí para ir ao Café Gordon's na manhã seguinte, que ficava a duas esquinas de casa (comprar as rosquinhas que Nat amava e fazer uma surpresa no café da manhã), meu azar se multiplicou a mil. Quando eu pisei no degrau do Café, eu o avistei na varanda do lugar. Por morar num bairro afastado do centro e bem vazio, a Gordon's não parecia tão lotada e a figura que eu observava poderia ser qualquer vizinho meu, mas aquele topete loiro -que passei a odiar- não enganava ninguém. Subi as escadas e entrei no lugar bem arejado, indo sem desviar o olhar em direção ao caixa. Fiz o meu pedido de 10 mini rosquinhas de chocolate e escolhi uma das mesas vazias afastadas da saída para a varanda, ainda fazendo questão de me sentar de costas para Connor.
Novamente, minha sorte fugiu para algum outro lugar, e em menos de 3 minutos de espera, a cadeira á minha frente foi arrastada e o loiro de olhos verdes se sentou ali, sorrindo abertamente, como se nada tivesse acontecido entre nós.
—Acho que te devo uma explicação. — Ele disse, apoiando as mãos na mesa e me encarando nos olhos.
Soltei um sorriso irônico. "Claro, pode se sentar, fique á vontade!"
—Todo aquele desentendimento de ontem não foi o suficiente, vizinho? — dei uma leve ênfase na última palavra, arrancando um sorriso torto dele.
—Na verdade vim me desculpar por isso. Eu exagerei bastante em te dizer aquelas coisas... -ele se explicou, sorrindo um pouco e me encarando como se eu fosse um filhotinho de labrador brincalhão, em sua tentativa de pedir perdão. — Eu realmente fiquei revoltado por você ter batido a porta na minha cara.
Connor franziu a testa, me fazendo lembrar-me do exato momento em que eu bati a porta na cara dele, fazendo com que eu soltasse uma risada baixa.
—Desculpe por bater a porta na sua cara.
Connor deu de ombros.
—Se teremos que nos aguentar por mais um tempinho, acho que é minha obrigação me desculpar. — ele sorriu.
—E acho que tenho a obrigação de te perdoar- sorri de volta, sentindo minhas bochechas começarem a queimar e me deixar numa situação constrangedora de não saber para onde olhar.
Connor desviou seu olhar do meu antes que o momento ficasse ainda mais estranho, olhando ao redor e em seguida checando as horas em seu relógio de pulso preto com ponteiros pratas em fundo branco. Em seguida, se virou para mim e sorriu, descontraído.
—Por acaso tem algum compromisso essa manhã? — Perguntou, cruzando os braços sobre a mesa.
—Acho que não...?-respondi sorrindo.
—Então acho que não teria problema eu te pagar um café agora, teria?
Mordi meu lábio inferior em um sorriso.
—Isso é uma maneira de se desculpar?
Connor deu de ombros de novo.
—Acho que é alguma coisa do tipo.
><
—Então... Quer dizer que você gosta de poesia...? — Perguntei, enquanto a xícara de chá girava vazia por entre meus dedos frios.
—Eu não disse que gostava, eu disse que já li. — Ele sorriu, largado sobre sua cadeira de madeira de uma forma que o fazia parecer um verdadeiro modelo de revista que ficavam bonitos em qualquer pose. Sua jaqueta jeans e seus cabelos desgrenhados ajudavam nesse pequeno fato.
Não sei há quanto tempo estávamos ali conversando, mas os assuntos simplesmente não paravam de fluir e tomar o rumo da curiosidade.
—Pelo que disse, assumo que tenha gostado. — rebati, sorrindo também, ainda concentrada nos giros que minha xícara vazia fazia na mesa escura de madeira.
Connor ficou em silêncio, suspirando em um sorriso de lado enquanto encarava sua caneca de cappuccino açucarado, também quase vazia. Ele então se inclinou sobre a mesa, silenciosamente, afastando de mim a xícara giradora e pegando meu pulso esquerdo, onde eu usava a pulseira prata que mamãe tinha me dado de presente há alguns anos. Um pingente de Coração, um de diamante e um planeta Terra estavam pendurados nela. Connor a pegou delicadamente entre seus dedos, a examinando com os olhos como se fosse uma peça rara digna de museu.
—Foi um presente? — Ele perguntou, curioso, colocando de lado o assunto de poesia por um instante.
—Da minha mãe... Antes dela... — eu não precisei terminar a frase, Connor apenas assentiu silenciosamente e suspirou.
—Acidente de carro?
—Avião. — respondi. Ele continuou brincando com meus pingentes, delicadamente alisando cada um deles, e os girando por entre seus dedos.
—Ah... Sinto muito. — ele disse, me encarando nos olhos com um olhar um pouco arrependido.
—Tudo bem... já faz tempo de qualquer maneira...- sorri timidamente para ele, na tentativa de transmitir tranquilidade.
Connor suspirou de novo, num intervalo de 3 segundos de silêncio, enquanto girava entre os indicadores o meu pingente de planeta terra.
—Sabe, eu tenho uma teoria própria na minha cabeça. -Ele mudou o assunto, ainda concentrado em girar meu pingente, e não me olhando nos olhos. — Acho que o mundo não passa de uma grande e extensa poesia...
Ele segurou firmemente o pingente em seus dedos e depois o soltou, voltando a encostar-se à cadeira de madeira e bebericar aos poucos o resto de seu cappuccino.
—Uma poesia? — Perguntei, franzindo a testa. Alguma coisa em suas palavras me despertava curiosidade, e eu estava ansiosa para saber mais.
—Exatamente. — Connor respondeu, despreocupado, cruzando os braços sobre a mesa mais uma vez e me encarando nos olhos seriamente.
—E... Quem seria o autor dessa poesia? — Levantei uma sobrancelha, colocando minha xícara de lado e cruzando meus braços sobre a mesa, em um sorriso brincalhão que parecia o deixar animado.
—Sinceramente, acho que a palavra "criador" seria mais adequada... — Ele colocou sua caneca de volta na mesa e franziu a testa. — Poesia não precisa ser necessariamente escrita. Poesia também se é criada.
Sorri de lado de uma maneira infantil. Ele me divertia com seus assuntos aleatórios. Nunca imaginaria que Connor seria uma pessoa intelectual de tal modo que "poesia" fosse um assunto importante para ele.
—Criada de que maneira?
Connor passou a mão esquerda no topete desajeitado e em seguida a repousou em cima de sua mão direita, sorrindo para mim desafiadoramente, como se ele soubesse de tudo.
—Sabe, eu vejo o ser humano como uma poesia também.- Ele pareceu por um segundo mudar de assunto.- Acredito que cada indivíduo no mundo possui uma...- Ele levantou os dedos e fez aspas no ar.- "poesia" interior... E assim como o trabalho de qualquer poesia, o trabalho de uma pessoa é conseguir interpretar, 'ler' e entender a vida, assim então... "lendo" outros seres humanos.
—Uau, falando assim você parece um nerd em literatura. -Brinquei, arrancando dele uma risada charmosa e gostosa de ouvir. Ele revirou levemente os olhos e encostou-se à cadeira, cruzando as pernas e o fazendo novamente parecer um modelo.
—Digamos que ainda estou em fase de treinamento. -Ele brincou também, sorrindo e deixando expostos seus dentes brancos cintilantes.
—Você consegue ler minha poesia? — Perguntei, lançando a ele meu olhar de dúvida com um sorriso desafiador como acompanhamento. Acho que era assim que as meninas inteligentes da minha sala se sentiam quando respondiam corretamente uma pergunta do professor. Desafiadoras. Connor me fazia sentir assim a todo o momento.
Ele morde o lábio em um sorriso, seus olhos rapidamente analisam meu rosto, como um scanner a laser, e então ele franze a testa, balançando levemente a cabeça.
— Ainda estou tentando descobrir como.
Inclinei minha cabeça para o lado, franzindo a testa como ele.
—Minha leitura é diferente das outras? — Perguntei curiosa, sorrindo com toda essa aleatoriedade.
Connor sorriu abertamente, correndo seus olhos pelo meu rosto rapidamente.
—Completamente diferente. — respondeu.
Eu ri.
—Isso é bom, ou ruim?
Connor se inclinou sobre a mesa sorrindo, pegou sua caneca azul claro e deu o último gole de cappuccino açucarado daquela manhã, em seguida colocando a caneca na mesa de madeira com um barulho um pouco alto de batida. Ele esticou sua mão para o chão e pegou uma sacola de papel marrom que continha o nome da padaria estampado em branco e o esticou para mim. Eram os meus 10 donuts que eu tinha encomendado mais cedo (e que provavelmente estavam murchos) dos quais eu havia me esquecido completamente. Ele sorriu, se levantando da cadeira e a colocando de volta para de baixo da mesa educadamente, em seguida voltando a me encarar no rosto para me lançar sua resposta.
—Acho que ainda não me decidi.
O caminho de volta para casa foi ainda mais interessante. Connor era completamente diferente do que eu imaginava. Não era egoísta, não ligava para aparência, não era nada egocêntrico e sabia como puxar papo como ninguém. As conversas dele me intrigavam. Conversamos sobre a família dele, onde descobri que ele tinha um irmão mais novo chamado Liam, que aparentemente era um menino inteligente e brincalhão, além de ter primos legais e uma mãe completamente carinhosa, pelas palavras dele. Connor me contou que gostava de ler todo tipo de coisa, desde jornais até poesias, e que também adorava desenhar e rabiscar coisas em seu "caderno especial". Ele me disse também que se inscreveu na escola mais próxima do bairro, que era a mesma que eu estudava, e que começaria no fim das férias, acompanhando o último ano do ensino médio na minha sala.
Queria poder dizer que gostei de Connor, e que ele era um cara legal, mas alguma coisa nele me incomodava. Alguma coisa nele me dizia que ele não seria o cara que eu acho que seria. Era intrigante todo esse jeitinho dele. Caminhava de um jeito humilde, cabeça não tão erguida e mãos no bolso da calça. Parecia descolado até quando sorria, e ao mesmo tempo não parecia. Seu olhar era curioso, como se alguma coisa o incomodasse por dentro... e em relação a isso, eu, curiosa como sempre fui, queria muito descobrir.
Quando cheguei à porta de casa, me despedi de Connor depois que trocamos celulares. Ele me lançou um olhar cativante, que pareceu durar séculos, e então andou calmamente até o outro lado da rua, abrindo a porta da casa e entrando logo em seguida.
Abri a porta do hall da sala e fui direto para a cozinha, onde Nat estava, com os cabelos bagunçados e uma cara amassada.
—Bom dia... -Ela bocejou, abrindo a geladeira e procurando o iogurte diet que ela tomava todos os dias.- Onde você foi?
Coloquei a sacola de donuts murchos em cima da mesa e sorri.
—Fui buscar o café. — falei, olhando de relance pela janela da cozinha.
Natalie se sentou na cadeira mais próxima e abriu a sacola de papel, puxando um donut suculento de dentro dela e o abocanhando, com fome.
—E por que esse sorriso?
Voltei imediatamente meu olhar para ela e tentei esconder meu sorriso que eu nem percebi que tinha no rosto.
—Que sorriso?
Nat levantou as sobrancelhas e deu uma risadinha.
—Tudo bem, eu não preciso saber disso, preciso? — Ela deu outra mordida em seu donut, logo puxando da sacola mais um.
—Não foi nada, pra falar a verdade. — puxei um donut da sacola e dei a primeira mordida, me sentando na cadeira de frente para Nat — Encontrei Connor no Gordon's. Só isso.
—Connor? O vizinho? — Ela franziu a testa, com um pouco de chocolate na bochecha.
—Sim, o vizinho. — Respondi, dando outra mordida no donut, que na verdade estava bem mais gostoso que parecia. — A gente conversou um pouco... Ele é legal...
—E bonito... — ela murmurou.
Revirei os olhos enquanto ela ria sozinha e me levantei da mesa, terminando meu donut em apenas uma mordida.
—Não se esqueça do iogurte, irmãzinha. — falei, subindo as escadas para o quarto.
><
—Não acredito nisso, Isabela! — Riley berrou pelo telefone, indignada.
—Pode acreditar: meu vizinho é um poeta. — Arrumei meu notebook no colo, sentindo minha barriga pesar depois das panquecas do almoço.
—Meu Deus, amiga, acabei de ter um enfarte de fofura com essa sua historinha- ela riu.
—Fofura? Ele é nerd em poesia, Riley.
—Dane-se! Ele é um fofo. E muito intelectual.
Dei uma risada.
—Aposto que é algum tipo de charme de pegador. — brinquei, enquanto ela dava uma risadinha baixa. De repente, ela soltou um suspiro assustado.
—VOCÊ ACABOU DE ME LEMBRAR DUMA COISA! — Ela pareceu ter um ataque pelo telefone.- Vou dar uma festinha aqui em casa hoje a noite.
—Festinha ou Festona? — Perguntei sorridente. Aprendi que as festas da Riley sempre são festonas. Ela era popular, e com isso vinha o pacote casa luxuosa e piscina enorme. Uma "festinha" não era nada perto do que ela podia dar.
—Ha-Ha.- debochou.- Você vai vir nem que eu tiver que ir aí te buscar ok? Só vem gente legal, prometo.
—Tudo bem, eu vou. — Falei, e Ry deixou escapar um gritinho animado. Coloquei meu notebook de lado e puxei o carregador da tomada do criado mudo direito, sentindo que a bateria do celular iria acabar.
—Ah, e chame seu vizinho intelectual pra vir, tá?
Levantei-me da cama em um pulo.
—Como é que é?
—Ah, qual é Bela, ele é um fofo, um gato e suuuper intelectual.
—Quer parar de usar a palavra “intelectual”?
—Não mude de assunto. – pude imaginar ela balançando a cabeça em confusão, do outro lado da linha- O mínimo que você pode fazer depois de bater a porta na cara dele é o chamar pra sair.
—Você quer dizer o chamar pra sua festa?
—Isso! É uma ideia ótima, não é?
Suspirei, colocando meu chinelo nos pés.
—Não, não é. — Falei, suspirando novamente em seguida, depois me lembrando do quão intrigante Connor ele e o quanto eu queria descobrir mais sobre ele. -Mas vou fazer isso porque concordo que fui uma chata e é o mínimo que posso fazer. Só por isso.
Ry soltou outro gritinho.
—Aiii, eu sabia que você o faria! — Ela riu. — Te vejo mais tarde.
—Tchau Ry.- Acompanhei sua risada, mesmo depois de ela ter desligado.
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