Juntos pelo acaso
8 Recordando
Notas iniciais
Tinha centenas de pessoas naquele lugar. E a única que eu via era Sali.
Sali?
— Ei, cara, quem é aquela gata com uniforme de outro colégio olhando pra… gente?! — exclamou Lipe.
— Gata? — Beatriz, outra amiga nossa, bufou. Ela tinha uma queda pelo Lipe desde que me conheço por gente e se aproximou de mim no nono ano para tentar ficar com ele. Seus esforços não deram muito certo, mas ela se tornou uma boa amiga e completou o trio. — Ela não é gata. Olhem aquele cabelo bombril e todo desarrumado naquela trança ridícula…
Avancei até Sali sem me importar com a discussão de meus amigos. Algumas pessoas olhavam-na com o canto dos olhos por ela ser de outro colégio e ela parecia querer se encolher ao cruzar seus braços junto ao corpo. Seus olhos se firmaram aos meus e eu sabia que era uma forma de apoio. Ela logo deixaria de estar sozinha entre várias pessoas.
— Sali?
— Guto — ela suspirou e descruzou os braços, relaxando. — Pensei que ficaria aqui sendo observada o resto da vida.
— Ninguém veio falar com você?
— Vieram — ela deu de ombros. — Alguns idiotas. Perguntaram se eu estava perdida, porque eu estava com o uniforme errado — seus olhos se reviraram.
— Idiotas — concordei rindo. — Vem, vamos sair da aglomeração — tomei a dianteira e a guiei para longe de todas aqueles adolescentes curiosos. Ela se encostou em um muro depois que nos afastamos o suficiente. — Então, o que faz aqui?
— Isso não foi muito educado.
Dispensei seu comentário com um aceno de mão e estava prestes a perguntar de novo quando Lipe chegou fazendo um estardalhaço, seguido de uma Bia ofegante.
— Você conhece ela? — ele me perguntou, sem perceber que Sali estava em minha frente. Quando a reparou, abriu um sorriso galanteador: — Se me permite a pergunta, como conhece esse meu amigo lesado e não me conhece? — então pegou na mão dela e a levou até sua boca, depositando um beijo. Bia fingiu estar com ânsia.
Sali simplesmente riu e recolheu a mão para junto do corpo novamente. Parecia constrangida a julgar pelas faces coradas, mas lidava bem com a situação.
— Bem, você não deve manter amigos lesados. Então, se ele é seu amigo… logo não é tão lesado. Ou é toleradamente lesado para você.
— Eu ainda tô aqui, sabia? — reclamei.
— É, eu também — Bia resmungou. Ela estava com os braços cruzados. Tive certeza de que não tinha gostado da encenação de Lipe, apesar de sempre jurar para mim que sua paixão havia acabado.
— Ele é toleradamente lesado para mim — Lipe continuou como se a conversa não tivesse sido interrompida. — Mas e pra você?
— É, pra mim também — ela desviou seu olhar para mim e sorriu. — Não vai me apresentar a seus amigos, Guto?
— Tá — revirei meus olhos. — Esse é o Lipe. Ele é normalmente assim; não me pergunte como aguento ele. É um mistério. E essa é a Bia, nossa amiga. Ela é mais amigável na maior parte do tempo, acredite — tomei fôlego. — Lipe, Bia, essa é a Sabrina. Eu a chamo de Sali, só que é uma piada interna, então não experimentem chamá-la assim.
— E como vamos chamá-la? Sabri? Ina? Sa? Sasa?
— Ele só está se exibindo porque te achou bonita — murmurei para Sali.
— Eu o quê?! — exclamou Lipe, fingindo irritação.
Sali riu.
— Sabe, vendo vocês como um trio, me parece como nos livros de Harry Potter.
— E eu sou o Harry? — os olhos do Lipe se iluminaram. — Então você é a Gina, certo?
— Cale essa boca, Felipe — resmungou Bia. Ela não parecia brincar. — Temos que ir pra casa. O ônibus chegou.
— Ah, certo — ele sorriu mais uma vez para Sali e beijou sua mão novamente. — Foi um prazer conhecê-la, Gina — então piscou um de seus olhos e saiu correndo atrás de Bia, que já caminhava furiosamente.
— Na verdade, Lipe, você é o Rony — gritou Sali quando ambos já estavam longe. Pensei ter visto Bia se virar rapidamente e insinuar um sorriso; pequeno, contudo que me deu a certeza de que ela simpatizara com Sali. — Então, qual o lance deles, Guto?
Os olhos de Sali me analisavam atentamente.
— Bia é apaixonada pelo Lipe. Ele parece não ver. Ou talvez simplesmente não queira ver.
— Eles combinam — ela sorriu para mim. Depois de uma pausa, mudou de assunto. — E respondendo à sua primeira pergunta: fui liberada mais cedo e quando passei aqui na frente pensei que não me faria mal nenhum te esperar. E foi o que fiz. Gostei de conhecer seus amigos, a propósito.
— Acho que eles gostaram de te conhecer também.
— Acho que sim mesmo — ela passou os olhos pela multidão que se dispersava. — Qual delas é a Laura?
A casualidade da sua fala me fez hesitar por um instante. Mas, quando falei, minha voz nem mesmo tremeu.
— Cabelo roxo.
Ela continuou correndo os olhos apressadamente, até se deter em um lugar. Não olhei por cima do ombro. Já sabia qual era a cena.
— Ah — ela arquejou.
— Pois é — dei de ombros.
— Por que não me contou? — era impressão minha ou Sali estava ofendida? Seu cenho franzido me dizia que sim.
— Achei que não fazia sentido — o que em parte era verdade; eu não via sentido em contar porque não queria contar. — Era algo inevitável. Eu já sabia que isso ia acontecer desde o começo.
— Mas esse conhecimento não amorteceu o baque — ela completou. — É bom desabafar às vezes, sabia?
— Eu… me faz pensar demais sobre o assunto.
— Te faz parar de pensar no assunto — ela replicou e pareceu que queria dizer mais alguma coisa, no entanto respirou fundo. Quando falou novamente, sua voz estava mais controlada. — Certo, isso não me interessa. Se quiser me contar algum dia, estarei aqui. Tudo bem? E se não quiser contar… o que posso fazer? Nada, eu sei. Então você simplesmente não me conta.
— Sinto muito — e eu sentia mesmo. Mas não conseguia obrigar a minha boca a contar tudo aquilo que me sufocava.
— Tudo bem — ela deu de ombros. — Só me responda: quem é ele?
— O… Edgar.
— Não… — ela arregalou seus olhos e balançou a cabeça negativamente. — Aquela vaca… — e só então pareceu perceber o que tinha dito. Seus olhos diminutos se arregalaram mais ainda. — Certo, certo. Esqueça o que eu disse. Você tem que perdoar ela. Esqueça o que…
— Ei — cutuquei suas costelas, interrompendo-a. Eu estava rindo. — Embora possa parecer, não é errado — não totalmente, pelo menos — xingar alguém quando essa pessoa errou. E faz quem está com raiva dessa pessoa se sentir muitíssimo melhor.
Ela pareceu relaxar.
— Certo. Você não se importa?
— Nem um pouco.
— Ela é uma vaca.
— Eu sei.
— Mas você tem que perdoar ela do mesmo jeito.
— Eu sei.
— Isso… Guto, isso só tranca o seu coração. Esse ódio. Você realmente tem que perdoar ela.
— Eu realmente sei disso. Você já me disse, Sali.
— Talvez você pudesse se esquecer com facilidade.
— Do que você diz? Não mesmo.
Ela sorriu.
— Certo.
— Certo.
O meu sorriso espelhava o dela.
.
— Sabe, depois daquela noite que ficamos até meia-noite resolvendo exercícios de logaritmo, percebi que os nossos encontros estão bagunçando completamente os meus horários de estudo.
— É, os meus também.
— Os nossos, então.
Caminhávamos para minha casa. Segundo Sali, era caminho para a sua e ela não se importava de me acompanhar um pouco. Andávamos preguiçosamente.
— Acho que deveríamos fazer as tarefas durante os nossos encontros — ela sugeriu.
— Fazer tarefas em cima de uma árvore?
— Bem, eu escrevo lá o tempo todo — ela deu de ombros.
— Mas é só um caderno e uma caneta. Tarefas escolares exigem livros, estojo, régua…
— Tá bom, tá bom! — ela exclamou. — Você ganhou. O que sugere?
— Sugiro… sugiro que a gente estude em casa. Alguns dias você vai na minha casa, outros eu vou na sua.
Ela me olhou demoradamente.
— O que foi?
— Não sei se é uma boa ideia — ela murmurou, desviando o olhar. — Ir na minha casa, quero dizer.
— Por quê… Ah — franzi o cenho. — Sua mãe não sabe, não é mesmo?
Ela balançou a cabeça uma vez, timidamente.
— Talvez ela surtasse se soubesse — ela deu de ombros e me olhou com o rabo do olho. — Não seria legal.
— Mas na minha casa não tem problema — contestei. — Minha mãe já sabe sobre você. E eu fico sozinho durante a tarde. Você pode dizer que vai na casa de uma amiga.
— É, pode ser.
Mas ela parecia consideravelmente triste quando disse que tinha que virar na próxima esquina. Não pude deixar de pensar que ela estivesse fugindo.
— Hoje de tarde, na praça? — perguntei, minha voz colorida de esperança.
— Não, Guto — ela sussurrou. Seus olhos não se desprenderam dos meus enquanto ela avançava de costas. — Hoje não.
.
Aquilo aconteceu na quarta-feira. Tentei ligar para ela durante a noite, mas Sali não me atendeu. As tarefas que tinha feito durante a tarde deixaram a minha noite tranquila e pude ler com Rafa. No entanto, quando me deitei, os pensamentos que me invadiram foram insuportáveis. Laura. Edgar. Sali.
Nunca lamentei tanto não ter lições para fazer.
Tentei, portanto, ligar para Sali. Perguntar se estava tudo bem. Jogar conversa fora. Esquecer. Fazer minha “terapia”. Nem mesmo me importaria se ela mencionasse Laura.
Ela não me atendeu.
Nem naquela noite, nem no dia seguinte.
Estava cheio de pensamentos impróprios. Minha mente foi novamente invadida de imagens de Laura beijando Edgar e daquele momento horrível em que tinha descoberto a verdade…
***
— E então, você realmente não sabe o que aconteceu, cara? — era Edgar.
Sua altura se equiparava à minha, apesar de a musculatura passar longe de poder ser comparada. Ele devia passar dias inteiros na academia. Era loiro dos olhos azuis e conseguia “ficar” com qualquer garota que quisesse. Nunca tinha dirigido a palavra a mim até então e estranhei sua interferência.
— Como? — meu cenho estava franzido.
Ele respirou fundo impacientemente.
— É muito simples: você quer saber que porra aconteceu que todo mundo tá te olhando desse jeito? — ele não era muito gentil com a escolha das palavras.
Não respondi.
— Sabe a tua namoradinha? Bem, talvez ex agora. A Laura. Ela é até gostosinha… Enfim, eu “peguei” ela, sabia? Na festa de ontem. Até que não foi tããããão ruim assim…
Quis colocar as mãos sobre meus ouvidos e gritar a plenos pulmões para não precisar ouvir aquelas palavras. Poderia ser blefe; o que não seria tão incomum de Edgar, apesar de eu saber que ele não se daria ao trabalho de blefar com um garoto invisível e que não lhe tinha feito nada. Naquele momento, porém, quis acreditar com todas as minhas forças que fosse uma mentira deslavada.
As expressões de todos os rostos da escola me diziam que não.
Houve duas fases: aturdimento e raiva. Por alguns segundos ou minutos — quem sabe horas — a única coisa que pude fazer foi tentar acalmar a minha respiração e entender tudo aquilo — ou tentar encontrar alguma lacuna, algum motivo, alguma falha, alguma mentira. Mas eu já sabia que tudo era verdade. Percebi, a muito custo, que aquilo não era totalmente uma surpresa quando se tratava de Laura e de sua independência; eu que era um iludido, afinal. Foi a pior parte.
E então minhas mãos se fecharam em punhos.
Laura tinha me traído. Edgar viera esfregar isso em minha cara; obviamente, com todos os alunos servindo de plateia. Aquilo era nojento, detestável, repugnante. Por alguns segundos, quis correr para minha casa e transbordar minha raiva, gritar até não ter mais voz. Não podia fazer isso.
E não abaixaria minha cabeça. Provavelmente foi o momento de maior coragem que já senti na vida, mas sabia que não podia lhe dar o prazer de me ver encarar o chão tremendo de medo. Eu não estava com medo ou vergonha — não naquela hora, pelo menos. A adrenalina corria solta por minhas veias.
Portanto, o encarei e rezei para que minha expressão de fúria fosse o suficiente para afastá-lo. Ele sustentou o meu olhar por um longo tempo, até o sinal da primeira aula tocar e ele trocar olhares com seus amigos. Não recuei.
— Não vou perder a aula por causa de um corno que quer dar uma de macho — ele comentou e me lançou uma última olhadela antes de se retirar.
Os outros alunos também se dispersaram pouco a pouco. E então só havia sobrado Lipe e Bia do meu lado.
— Se você quiser bater nele, pode contar comigo — comentou Lipe, colocando a mão sobre o meu ombro.
— E eu dou cobertura para que não haja mais ninguém além de vocês e ele — completou Bia, encostando a cabeça em meu braço.
Fechei meus olhos e relaxei em minha posição, passando um dos braços pelo ombro de Bia e dando palmadinhas nas costas de Lipe.
— Obrigado, gente — minha voz estava meio embargada. — Nunca vou encontrar amigos como vocês no mundo todo.
— Certamente não — comentou uma quarta voz. Virei-me e vi a pedagoga andando em nossa direção com uma cara não tão amigável. — Mas essa não é hora de demonstração de afeto. Vocês não tinham que estar em suas respectivas salas de aula, não?
— Os professores nos liberaram — Bia apressou-se em dizer.
— Isso, os professores nos liberaram — Lipe repetiu e assentiu animadamente para Bia, como se quisesse dizer: “boa desculpa”. O que, para a nossa infelicidade, nos entregou.
— Já pra sala! — a mulher ordenou, batendo palmas para nos apressar. Não nos mexemos. — Não ouviram? Vocês tem aula agora!
Respirei fundo e tentei controlar a minha voz.
— Bia, Lipe, vão para suas aulas.
— Guto… — Lipe parecia realmente estar agoniado ao se imaginar me deixando sozinho.
— Não vamos te deixar sozinho — sentenciou Bia.
— Mas…
— Pedagoga, ele não está se sentindo bem — Bia virou-se rapidamente para a mulher que nos encarava de forma cética. Isso não pareceu abalá-la. — E nós temos que acompanhá-lo até sua casa para garantir que ele chegue em segurança.
— Ele está com uma boa aparência…
— Não mesmo — protestou Lipe. Sua expressão me dizia que eu devia parecer um moribundo. Ele engoliu em seco. — Não vamos deixá-lo sozinho.
— Por que não? Ele certamente não precisa de dois guarda-costas.
— Não precisa mesmo — concordou Bia. — Mas nós somos seus amigos e gostaríamos de acompanhá-lo por causa disso. Porque não deixamos um ao outro na mão.
A mulher pareceu indecisa. Ela nos avaliou antes de assentir minimamente e fazer um gesto para indicar que devíamos segui-la. Não parecia muito contente, entretanto. Disse à secretária para que anotasse que estávamos sendo liberados de todas as aulas daquele dia.
— Se vocês quiserem voltar… — ela se referiu a Lipe e Bia. — Podem voltar, tudo bem? Seria até bom. Mas podem cuidar de seu amigo em paz. Melhoras, Gustavo.
— Obrigado.
Lipe e Bia queriam que fôssemos para minha casa, no entanto eu não queria justificar a minha chegada repentina logo no início da manhã para minha mãe e também não estava com pique para brincar com Rafa. Pedi para que fôssemos para qualquer outro lugar bem longe em que ninguém me conhecesse ou que eu não precisasse me justificar.
Seguimos para um parquinho no bairro onde Lipe e Bia moravam — eles moravam a apenas algumas quadras de distância, o que contribuiu para Bia se apaixonar por Lipe. O lugar estava abandonado e a grama estava bem alta, o que não era um problema. Era uma manhã cinzenta e apagada, uma forma de me deixar mais deprimido que o necessário. Joguei minha mala no grama e me estendi no chão, usando a mochila como um travesseiro. Bia e Lipe se sentaram nas balanças enferrujadas.
— Isso tudo é uma merda — comentei depois de um tempo em silêncio. Tinha fechado os meus olhos por conta da claridade.
— Eu sinto muito, Guto — Bia murmurou e senti um chute fraco nas minhas pernas. — Você não merecia passar por isso.
— O que vai fazer com relação a isso, cara? — perguntou Lipe. A voz dele estava mais séria do que eu me lembrava.
— Não sei — minha voz estava rouca. — Vou na casa de Laura hoje, na hora do almoço.
— Fazer o quê?! — Bia se alarmou.
— Confirmar.
— Guto, isso é…
— Necessário — completei. — E se foi uma mentira deslavada?
— Você sabe que não foi.
— Mesmo assim… acho que preciso saber se ela vai negar toda a história ou tentar se defender. Quem sabe ela caia no choro em minha frente.
— Isso nunca vai acontecer — Lipe falou; e eu sabia que era verdade. — Você está cheio de esperanças. Por isso está agindo tão tranquilamente. É como se nada tivesse acontecido, não é?
— É como um pesadelo — murmurei.
— Infelizmente, você não vai acordar.
.
Eu realmente fui na casa da Laura. E comecei a gritar descontroladamente e perguntei se tudo aquilo era verdade. Laura não recuou; ela nunca recuava. E também não falou nada. Simplesmente encarou o chão e assentiu, escutando toda a minha fúria calada.
Foi insuportável.
Saí daquela casa com o objetivo de nunca mais voltar. E só então o peso da traição caiu sobre mim. Só então que percebi que era uma terrível questão de confiança abalada e do pensamento “eu não sou o suficiente”. A amava e, mesmo assim, não era suficientemente bom para ela. Ou, melhor dizendo, não era toleradamente lesado para Laura.
***
Mas era toleradamente lesado para Sali.
Para mim, era o suficiente.
Tentei entrar em contato com Sali na sexta-feira também e não consegui nenhuma resposta. Talvez ela tivesse ido embora para sempre. Talvez ela nunca mais fosse voltar. O que ela diria em uma situação dessas? Siga em frente.
E foi o que eu comecei a fazer.
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