Juntos pelo acaso
9 Recuperando
Notas iniciais
— O que você tem com aquela Sabrina, Guto? — Bia me perguntou na saída da escola na segunda-feira.
Estava chuvoso e Lipe, Bia e eu dividíamos apenas um guarda-chuva, o que devia ter sido uma ótima oportunidade para Bia, que estava pendurada nos braços de Lipe. Seu bom humor em um dia cinza era até mesmo contagiante.
— Por que a pergunta agora? — estranhei, afinal Sali estava ausente fazia quatro dias.
— Bem, porque ela está aqui — Bia deu de ombros.
Imediatamente comecei a procurar por uma figura pequena trajando um uniforme diferente e com uma trança embutida em seu cabelo. E não demorei a encontrar. Sali estava parada de braços cruzados no meio do caminho, como da última vez, sem guarda-chuva. Ela me encarava.
— Mas o que… — gaguejei e apressei meus amigos para chegarmos rápido até ela. — Sali?
— Sinto muito — ela sussurrou apressadamente. Parecia um pouco desesperada.
— O que… aconteceu? — franzi meu cenho.
— Eu quero conversar com você — e depois de uma pequena pausa, acrescentou: — A sós.
— Ahn…
— Olha, Lipe, o nosso ônibus chegou — comentou Bia rapidamente. Ela sorriu cúmplice para mim e para Sali. — Até amanhã.
Lipe suspirou.
— Tchau, cara — ele bateu em minha mão. — Até qualquer dia, Sabrina — pegou a mão dela e a beijou. Não desistiria tão fácil. O seu sorriso galanteador forçado em seu rosto me deixou com vontade de rir.
Então saiu correndo ao lado de Bia tentando evitar a chuva. Percebi que Sali tremia de frio e tentava rir ao mesmo tempo; seus dentes estavam se batendo, o que deixava a cena engraçada. Ela ainda não tinha descruzado seus braços.
— Não tem nenhum guarda-chuva?
— Ah, tenho, claro! — ela se abraçou mais forte e tentou controlar o tremor da boca para conseguir falar. — Só que eu gosto de me molhar e ficar com frio — a ironia de sua voz estava desfigurada. O clima entre nós — e também do dia — não estava correto.
Respirei fundo e estendi o cabo do guarda-chuva.
— Segure — disse. Ela hesitou. — Sério.
Quando Sali finalmente decidiu segurar o guarda-chuva, tirei o meu moletom e o ofereci a ela. Estava realmente frio, no entanto não me importei. Preferia passar frio a ver uma garota tremendo.
— Eu não posso… — ela parecia desconcertada.
— Deve — insisti.
Ela hesitou alguns segundos.
— Nunca fizeram isso pra mim — confessou em um fio de voz.
Sorri.
— Pra tudo se tem uma primeira vez.
Suas defesas pareceram mais fracas quando ela pegou o moletom e o vestiu. Ele era grande e desproporcional para ela, mas a deixou estranhamente mais bonita. Sali sorriu e deixou que as mangas cobrissem suas mãos. Tremeu por mais um tempo até finalmente se esquentar.
— Certo — ri. — E agora?
— Agora… eu disse para minha mãe que estava indo passar o dia na casa de uma amiga — ela encarou o chão e encolheu seus ombros. — Eu… n-não sei se s-sua mãe se importa…
Tinha uma mecha escapando de sua trança. Quis colocá-la no lugar.
— Confie em mim: ela vai te amar.
.
E realmente amou.
Logo que entramos em minha casa, Sali ficou extremamente tímida. Suas mãos começaram a tremer — de nervosismo — e ela simplesmente não conseguia olhar nos olhos de ninguém. E, além de tudo, estava corada.
— Mãe, essa é a Sabrina — pra mim, Sali — e ela vai almoçar com a gente hoje. Tudo bem?
Minha mãe me olhou maliciosamente. Fiz um gesto para indicar que não era nada daquilo e que por favor, por favor, ela não fizesse nenhum comentário que deixasse Sali ainda mais constrangida. Ela deu de ombros.
— Oi, Sabrina — então avançou para abraçá-la; era bem chegada em abraços. — Tudo bem?
— Tudo e você? — mas Sali parecia desesperada para sair de minha casa.
— Tudo ótimo — minha mãe sorria amplamente. — Rafa, por que não vem aqui conhecer a… amiga do seu irmão? — quis matá-la por sua breve hesitação e pela ênfase desnecessária na palavra “amiga”.
Rafa surgiu correndo da sala e abraçou a minha cintura. Ele não costumava ser uma criança tão tímida quando se tratava de adultos; achava-os fascinantes. Pensava, na verdade, que todos eram iguais a mim. Portanto, não ficou nem um pouco desconfortável com a presença de uma desconhecida e abraçou a cintura de Sali também, apesar de não conseguir se encaixar tão bem nela. Sali era consideravelmente mais baixa que eu.
— Oi — ele cumprimentou-a alegremente.
A presença descontraída de Rafa pareceu um estímulo para Sali. Ela abandonou um pouco de sua timidez e sorriu espontaneamente para meu irmão mais novo.
— Oi! — ela riu. — Como é o teu nome?
— Rafael. Só Rafa. E o teu?
— Sabrina.
Ele esperou pelo apelido por alguns segundos e, quando não o obteve, falou:
— E o seu apelido?
— Eu não tenho muitos. O Guto me chama de Sali…
— Só eu posso chamá-la assim — enfatizei.
— … e tem outras pessoas que me chamam de Sabri. Ou Sá.
— E qual você mais gosta?
Ela corou violentamente. Imaginei o que viria.
— O que eu mais gosto é Sali.
— No começo vivia me criticando — brinquei a fim de deixá-la mais confortável. — Falava que Sali não era legal.
— Acho que me acostumei — ela sorriu.
— Claro que sim! É o melhor apelido do mundo!
— É o meu melhor apelido.
— Então é o melhor apelido do seu mundo.
Ela desviou o olhar. Senti os olhos prescrutadores de minha mãe me observando. Respirei fundo e estava prestes a falar novamente quando minha mãe me interrompeu.
— Você está toda molhada, Sabrina! — ela exclamou e se aproximou, tocando nos cabelos úmidos de Sali. Ela não colocou a mecha solta da trança no lugar. — Venha, vou te dar roupas secas pra você não ficar gripada. Imagine, sua mãe me mata se eu não cuidar de você…
Ambas desapareceram para dentro de minha casa. Rafa me encarou com uma das sobrancelhas levantadas.
— O que foi?
— Ela é sua namorada?
— Só uma amiga.
— E você gosta dela?
— Só gosto dela como uma amiga.
— Não tem como um menino grande ser amigo de uma menina grande.
— Quem te disse isso?
— Um amigo meu.
Revirei os olhos e coloquei a minha mão sobre seu ombro.
— Sério, Rafa, pare de acreditar em tudo o que os teus amigos desentendidos te falam — e estava me virando para sair quando me detive em um passo. — E, só pra deixar bem claro, ela é apenas minha amiga.
— E, só pra deixar bem claro, eu não acredito nisso — ele retrucou.
.
Minha mãe deu roupas secas para Sali; e não gostei quando ela veio me entregar meu moletom timidamente para mim. Ela ficava mais bonita vestida nele do que com aquelas roupas que minha mãe tinha arranjado para ela. E a mecha de sua trança continuava solta.
Sali estava mais solta quando fomos almoçar. Ela já respondia às perguntas de minha mãe sem hesitar ou gaguejar e brincava com Rafa. O que quer que minha mãe tenha falado a ela, a deixou bem mais confortável em minha casa. Fiquei feliz em vê-la rir abertamente.
— Tem pipoca pra estourar e ingredientes pra fazer brigadeiro — minha mãe avisou segundos antes de sair de casa.
— Mãe, a gente vai se atrasar — insistiu Rafa.
— Calma, Rafa — ela dispensou seu comentário e teve que parar um segundo para se lembrar de sua próxima recomendação. — Se cuidem, tudo bem?
Provavelmente corei tanto quanto Sali com seu comentário de duplo sentido.
— Tá, tá — insisti e avancei para a porta, forçando-a contra minha mãe.
— Sério, Guto — ela sussurrou pelo vão restante. — Não quero nenhuma menina grávida. Você tem a vida toda pela frente…
— Mãe… — gemi.
— Sim?
— Não vai rolar, tá? — murmurei por entre os dentes cerrados. Rezei para não estar tão vermelho.
— Vou confiar em você.
— Pode confiar.
Ela respirou fundo.
— Certo então… Tchau, gente. Se divirtam… mas não tanto — e saiu apressadamente para não precisar ser repreendida mais uma vez. Soltei o ar, aliviado.
— Uau — Sali soltou uma risada trêmula. Parecia muito envergonhada.
— Eu sei, eu sei — concordei, apertando meus olhos com as pontas dos dedos. — Ela é meio neurótica com isso. Mas é bem mais inofensiva o resto do tempo.
— O que ela achou de eu ter vindo aqui? Que sou uma oferecida por chegar para o almoço plena segunda-feira de surpresa?
— Ela não te achou uma oferecida — tive que rir. Olhei para Sali e ela realmente parecia desconfortável. — Sério. Ela deve ter, no mínimo, dado pulos de alegria por eu ter “aberto” meu coração novamente. O caso é que eu não fiz isso. Mas ela acha que você é minha namorada.
— Deve ser complicado ser mãe, não é? Vendo por esse lado. Tipo, por mais que ela te dê ordens você pode não obedecer ela. E se eu realmente fosse tua namorada? Imagino o quanto deve ser preocupante deixar você sozinho com uma menina em uma tarde chuvosa de segunda-feira.
Sentei em uma cadeira e ofereci para Sali se sentar também.
— Deve ser ruim essa parte mesmo — concordei e respirei fundo. — Mas você não é minha namorada. Então não tem com o que se preocupar.
Ela encarou suas mãos pousadas nas pernas e ficou em silêncio. Perguntei-me o que havia dito para chateá-la, até que percebi que ainda tinham coisas a serem esclarecidas e que era eu quem deveria estar chateado.
— O que aconteceu nesse tempo, Sali? — murmurei.
Ela fechou seus olhos e respirou fundo.
— É a minha mãe. Ela nunca aceitaria que eu viesse à casa de um amigo. Na cabeça dela não existe essa história de um menino e uma menina serem amigos. Bem, pelo menos não entre adolescentes — ela deu de ombros. — Ela acha que é um desperdício de tempo namorar na juventude. “Tem que aproveitar estudando”, é o que ela diz. E, caramba, você é só meu amigo! Mas ela não acreditaria — seu cenho se franziu. — E eu odeio mentir pra ela. E odeio que tudo isso seja tão difícil. Foi por isso que sumi.
— Mas por que sumiu por tanto tempo?
— Eu estava, hum, analisando. Pensando.
— Em quê?
Ela me olhou nos olhos.
— Se você valia a pena. Se não valesse, eu simplesmente desapareceria de sua vida sem deixar rastro e você seguiria adiante. Nenhum dano.
Ela sorriu gentilmente.
— Eu valho a pena?
— Bem, se não valesse eu não teria tomado chuva pra te ver.
Era minha vez de sorrir.
— A minha mãe não é como a sua. Mas acho que posso sobreviver a essa situação apesar dela.
Meu sorriso se ampliou. Ela tinha escolhido ficar e enfrentar aquilo comigo.
— E quais são os seus planos pra hoje?
— O que você acha? Nós vamos estudar.
Ela parecia bem mais confortável. Levantou-se e foi pegar a sua mochila com os materiais. Quis que ela vestisse meu moletom novamente.
— Por que está me olhando assim? — tinha se virado para mim novamente. O sorriso em seus lábios era amplo. Ela corou violentamente ao constatar que eu a analisava; na verdade, eu simplesmente tentava imaginá-la vestida com o meu moletom.
— Nada não — sussurrei e estiquei a minha mão para colocar a mecha solta de sua trança no lugar. Ela ficou me olhando enquanto eu a tocava deliberadamente. Nós não costumávamos nos tocar. — É… estava me incomodando.
Recolhi meu braço rapidamente. Ela desviou o olhar.
— Ahn, certo — ela se atrapalhou ao pegar o caderno dentro da mochila. — Geografia. Tarefa.
— É, tarefa.
Tentei pegar a minha mochila rapidamente e ela escorregou de meus dedos, caindo novamente no chão e derrubando alguns cadernos.
— Merda — xinguei e me ajoelhei para recolhê-los.
— Guto?
— Sim?
— Tudo bem por aí?
— Claro. Tudo ótimo.
Ela não parava de me olhar.
— Tá. Então vamos estudar — ela disse enquanto eu colocava meus cadernos sobre a mesa. — Geografia.
— Geografia — demorei mais que o necessário para encontrar o caderno certo.
— Tem certeza de que está tudo bem?
E quando me virei para lhe dar uma resposta irônica, deparei-me com Sali sorrindo gentilmente e me desarmei. Sim, estava tudo bem. Ela tinha voltado. Ela ainda não tinha desaparecido.
— Tenho, Sali. Está tudo mais que bem.
E eu sabia que era verdade.
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