Notas iniciais
Hey, guys! Sexta-feira (ou eu espero que seja, porque é capítulo programado) é dia de JPA. Quem quer saber como o nosso Guto anda? Espero que gostem!

Apesar de ter dito que não frequentava aquela praça com frequência, Sali foi me encontrar lá todos os dias daquela semana.

Ela escrevia na minha presença quando não tínhamos o que conversar e então eu lia qualquer livro. Ficar em silêncio com ela não era incômodo. Era gostoso até, principalmente quando colocávamos música no celular e escutávamos juntos. Eu não sabia o que se passava em sua cabeça. Mas era bom estar em sua companhia.

Ela me perguntava frequentemente sobre Laura e eu procurava dar respostas evasivas, falando que não a via. O que não era totalmente verdade. Eu a via algumas vezes durante a manhã e ela estava sempre na companhia de Edgar; Lipe me contou que eles haviam começado um relacionamento, o que me enraiveceu. Ela realmente quis ficar com ele depois de tudo o que eu disse?

Mas eu não contei isso a Sali.

Em vez disso, desviava-me das perguntas e fingia não me importar. Ela não costumava insistir no assunto, apesar de eu ver um sorriso enviesado no seu rosto. Sorriso que não combinava com ela. No fundo, eu sabia que ela não engolia a história de eu ter superado Laura, no entanto, o que eu poderia fazer? Falar para ela? Aquilo não mudaria nada.

Não era como se eu não confiasse em Sali. Eu confiava nela e em seus conselhos certeiros, mas de que adiantava perturbar o clima agradável com um assunto tão detestável? Portanto, permanecia em silêncio e tudo ficava bem.

Passar as tardes com Sali não era um negócio totalmente rentável, na verdade. Logo que eu saía da praça passava na escola para buscar Rafa e, em vez de dar a atenção que eu geralmente lhe dava durante a noite, enterrava-me em uma pilha de livros e estudava o que eu supostamente deveria ter estudado durante o dia.

Rafa percebeu e começou a se deitar mais cedo, me ignorando cuidadosamente, imitando a minha atitude. Com sorte, quando eu ia dormir estava demasiadamente cansado para me lembrar de pensar em Laura. Contudo, isso me afastava de Rafa, o que não me parecia um bom negócio.

— Você tá chato, Guto — Rafa reclamou quinta-feira durante a noite.

Eu estava sentado no chão e com o caderno de matemática aberto na mesinha de centro. Levantei os olhos para Rafa, que segurava no controle do videogame e me encarava decepcionado.

— Rafa?

— Você fazia as tarefas de tarde — ele resmungou. — E de noite me dava atenção. Lia comigo.

— Eu… me desculpa.

— Por que não faz mais as tarefas de tarde?

— Eu… tô saindo com uma menina. Uma amiga. A gente se vê durante a tarde.

— E daí você não tem tempo para mim durante a noite?

— Rafa…

— Eu vou dormir.

Ele correu para o quarto e bateu a porta. Suspirei, cheio de culpa. Os meus cadernos abertos me fitavam com diversas lições a ser concluídas, no entanto eu sentia que não era hora para eles. Eles me esperariam; Rafa não. Fui até seu quarto e entrei sem bater, deparando-me com um Rafa soluçando todo encolhido.

— Saia daqui — ele ordenou com a voz embargada, mas constrangido demais para me olhar.

— Não vou sair — sentenciei, sentando-me na beirada de sua cama. — Sabe, você não pode desejar atenção o tempo todo. Gente grande tem outras responsabilidades também.

— Eu sei — ele choramingou revoltado. — Pensa que eu não sei disso? A mãe trabalha tarde e noite todos os dias e só pode me dar atenção de manhã. Você só pode me dar atenção de noite. Mas eu sei que vocês tem tarefas pra fazer e não mando vocês me darem atenção o tempo todo. Eu sei disso, Guto. É só que… você era diferente comigo.

A culpa me corroeu. Tinha sido cruel; Rafa já sabia de tudo aquilo. Sabia das tarefas, da responsabilidade e da falta de tempo e só queria a dose de carinho que eu costumava lhe dar com frequência. Acariciei seu pé descalço. Ele não se retraiu.

— Desculpa, pirralho — murmurei. — Mesmo. Acho que não sei administrar a minha falta de tempo.

Ele fungou.

— Tudo bem. Você não tem que terminar as suas tarefas?

Sim.

— Na verdade, eu tenho outra tarefa agora — decidi rapidamente. — Não quer ir lá na sala ver qual é? Você tá incluído nela.

— Tá, eu vou — ele resmungou. — Só… me deixe sozinho um pouco.

Quase me levantei, contudo me detive no último segundo. Por que Rafa queria ficar sozinho? Percebi que ele não tinha levantado a cabeça durante nossa conversa. E naquele momento, mais do que nunca, enterrava o rosto no travesseiro. Só podia ser uma coisa: ele não queria que eu visse suas lágrimas. Ah.

— Meninos também choram, Rafa — afaguei seu pé mais uma vez. Ele se encolheu até não ter nenhum ponto de contato comigo. — Rafa? — nada. — Então… eu vou te esperar lá na sala, tudo bem?

Levantei-me ruidosamente e marchei até a porta, fechando-a atrás de mim. Passou-se alguns segundos antes de eu ouvir os ruídos da mola da cama e as fungadas de Rafa. Então abri a porta novamente em um solavanco.

E o que vi foi destruidor.

Rafa era apenas uma criança vestida em um pijama dos Carros, parada em pé vulnerável no meio do quarto e com os olhos vermelhos e inchados. Ele pareceu prestes a iniciar uma nova onda de choros quando percebeu o que eu tinha feito. Avancei até ele e o abracei pelos ombros, ouvindo seus soluços e sentindo os seus tremores contra mim. Ele devia estar tão constrangido… Deus, como eu era tolo e não entendia nada sobre crianças!

Afaguei seus ombros até ele parar de tremer. Então agachei-me em sua frente.

— Tô com vergonha — ele reclamou, colocando ambas as mãos diante do rosto.

— Shh. Não tem motivo para ter vergonha — murmurei, puxando seus braços para baixo. Ele evitou meu olhar. — Meninos choram. Principalmente aqueles que tem irmãos babacas como eu.

Um fantasma de sorriso surgiu na boca de Rafa.

— Me desculpa? Eu fui um idiota. Não devia ter te deixado de lado.

— Tá tudo bem.

— Não — interrompi-o. — Eu sei que não. Sei que te chateei. Mas quero consertar isso.

— Como? — ele suspirou.

— Primeiro, fazendo você lavar seu rosto — vi outra insinuação de sorriso surgir em seu rosto. — Chorar não é motivo de vergonha, mas ficar com o rosto inchado e vermelho depois do choro, é — então ele riu abertamente, fazendo o meu coração se aliviar. — Segundo, mas não menos importante… isso você só vai descobrir depois de lavar o rosto. Espero por você na sala.

Baguncei seus cabelos e segui até a sala, afastando os cadernos e pegando outro controle, colocando rapidamente o jogo Need For Speed. Teríamos um campeonato de corrida… e as tarefas que esperassem. Tinha certeza de que elas não fugiriam — e lamentei internamente por isso. Logo Rafa chegou e parecia bem mais animado, e seu rosto se iluminou quando ele viu o que o esperava.

— Pensa que ainda pode me vencer? — ele me perguntou, jogando-se no sofá e pegando um controle.

— Tenho certeza que sim — gabei-me e dei partida no jogo.

Rafa e eu demos boas risadas durante a corrida. Eu poderia ganhar dele facilmente, mas esperava pelo seu carro que seguia desajeitado e o deixava passar à minha frente, fingindo que não conseguiria ultrapassá-lo. Quando ele ganhou a corrida houve uma série de gritos e ele caiu sobre mim, quase me derrubando do sofá.

— Eu ganhei, Guto! Ganhei de você!

Ri ao ver sua animação.

— É, acho que perdi a posição de ganhador 100% do tempo.

Rafa riu e jogou seus braços ao redor do meu pescoço.

— Você é o melhor irmão do mundo — ele exclamou.

— Eu sei que sou — dei-lhe tapinhas nas costas e revirei meus olhos.

— Eu tô falando sério — ele subitamente parou de rir, apesar de permanecer com a expressão leve. — Nenhum irmão se importaria. Os irmãos dos meus amigos não fariam isso por eles.

Abracei seus ombros e me levantei, puxando-o através do corredor.

— Bom, se isso me torna o melhor irmão do mundo eu não sei, mas eu faria qualquer coisa por você — sorri e baguncei seus cabelos. Ele também sorriu. — E agora você vai dormir. Criança não tem que ficar acordada até tarde.

Ele deu de ombros e não protestou.

— Amanhã a gente pode ler?

— Sim, senhor.

— Boa noite, Guto.

— Boa noite, Rafa.

Ele fechou a porta do quarto. Ouvi ruídos de colcha sendo afastada da cama e o protesto das molas quando ele se deitou. Depois, o silêncio. Suspirei. Ainda tinha uma pilha de tarefas de matemática, física e sociologia para fazer. Arrastei-me penosamente para a sala e me joguei no chão, contemplando a pilha de livros e cadernos que me encaravam debochadamente.

— Eu sei o que dizem — falei para os objetos inanimados. — Vocês sabem que eu preferia dormir. Mas não, tenho que ficar acordado até acabar com vocês. Tem horas que eu simplesmente odeio essas tarefas estúpidas. Ou talvez eu simplesmente odeie perder horas de sono para resolver vocês.

Suspirei e peguei novamente o caderno de matemática. O pior de tudo era que aquela maldita matéria não entrava em minha cabeça. Logaritmos. Quem em sã consciência criara aquilo? Peguei a caneta e comecei a morder a tampa, um gesto automático de nervosismo. Aqueles números me encaravam sem significado algum. Eram apenas números.

Meu celular vibrou no meu bolso. Xinguei mentalmente por ele ter me desconcentrado e quase o joguei para o lado quando me detive no nome que piscava na tela. Sali. Sali?

— Alô?

— Guto?

— Sali?!

— É… eu achei que pudesse ser uma, ahn, boa ideia te ligar. Se não for…

— Não, tudo bem — interrompi-a. — Mas já são dez e meia. O seu limite não era dez horas?

— Achei que podia ultrapassar o meu limite um dia.

Sorri.

— Fico feliz que tenha feito isso. Então, sobre o que quer conversar?

— Não pensei muito sobre isso. Acho que só queria conversar sobre qualquer coisa — ouvi-a suspirando do outro lado da linha. — O que está fazendo?

— Tarefas.

— Qual matéria?

— Matemática.

— Conteúdo?

— Logaritmos.

— Você quer ajuda?

Um alívio preencheu meu peito.

— Você sabe essa matéria?

— Sei.

— Eu… sim, eu quero sua ajuda.

Tentei imaginá-la sorrindo, mas fui interrompido quando percebi que não sabia em que posição ela estava. Não poderia imaginar o sorriso sem o corpo, sem o rosto.

— Sali, posso te fazer uma pergunta antes de a gente começar?

— Claro.

— Em que posição você está?

— Que tipo de pergunta é…

— Só me responda.

Ela riu.

— Tá. Eu tô, hum, deitada na minha cama. Joelhos dobrados. Encarando o teto — ela riu novamente. — Por que essa pergunta?

— Bem, achei que seria justo saber se minha professora estava relaxada enquanto me ensinava. E… gosto de saber como a pessoa com quem eu estou conversando está.

Uma pequena pausa.

— Eu estou relaxada — outra pausa seguida de um riso fraco. — Qual a questão que você não sabe?

— Acho que não sei nenhuma.

Imaginei-a revirando seus olhos.

— Ótimo. Temos um bom trabalho pela frente, então?

— Sim.

— Pode começar a me perguntar suas dúvidas.

Não pensei que fosse possível aprender alguma matéria pelo telefone, mas o mito se quebrou naquele dia. A voz de Sali era música para meus ouvidos quando ela claramente me explicava aquilo que até então tinha sido uma incógnita gigante em minha cabeça. E, de repente, não era mais. As palavras de Sali surtiram efeito e eu entendi a matéria que nenhum professor tinha conseguido me ensinar. Aproveitei sua boa vontade e pedi ajuda para as tarefas de física e sociologia, as quais ela também animadamente expressou sua sabedoria.

— Obrigado, Sali — agradeci, descansando a cabeça no sofá e olhando o relógio. Passava da meia-noite. — Nunca teria conseguido entender a matéria sem você.

— Não foi nada — ouvi-a bocejar.

— Ah, roubei várias horas de seu sono, né?

— Eu não me importo.

— Sali…

— Eu realmente não me importo — ela bocejou novamente. — Mas agora acho que talvez realmente esteja mesmo na hora de ir dormir.

Ri.

— Durma bem, Sali. Obrigado mesmo pela ajuda.

— Você também. E eu já disse que não foi nada.

Esperei que ela desligasse. Escutei sua respiração por mais alguns segundos antes que houvesse o silêncio penetrante. Todo o cansaço do dia caiu sobre mim e me arrastei penosamente até minha cama, jogando-me nela e não conseguindo pensar em nada.

Só houve o vazio então.

Notas finais
E entããããão? O que acharam? Digam-me suas opiniões, vocês não sabem o quanto eu amo elas e o quanto elas me motivam dia após dia! Amo todos vocês ♥