Juntos Enquanto Pudermos
16 Segredos
Notas iniciais
SEGREDOS
Agradeci e Maggie virou-se pra sair quando parou a porta com semblante pensativo.
–Acabei de me lembrar, Daryl disse que você vai dormir na cela dele a partir de hoje, falou algo sobre te vigiar, não entendi direito.
–Mais eu não quero dormir lá. –eu disse parar ela antes que saísse.
–Bom então terá que dizer pessoalmente pro Daryl, pois ele já levou suas coisas pra lá.
Maggie saiu do banheiro sem ao menos esperar uma resposta. Deixou-me ali plantada em meio a inúmeras duvidas que me afligiam. Não pude evitar sorrir intimamente, finalmente eu e Daryl nos entendemos no fim das contas. Após tantos conflitos havíamos chegado a um consenso.
Tomei o banho quente improvisado e me vesti após me secar. Saí do banheiro, descalça, pois havia molhado os meus sapatos. Caminhei em direção ao cubículo que eu dividira com Bryan, não tive coragem de entrar mais da porta pude observar que a minha mochila e as coisas que eu atulhara nas idas a cidade não estavam mais ali. Maggie tinha dito a verdade então? Virei-me para o corredor e segui para o aposento de Daryl que ficava a umas três celas depois da que eu me encontrava.
Quando entrei na cela, vi que Daryl estava debruçado sobre a cama de baixo. Reconheci meus cobertores sobre ela e reparei que ele ajustava o travesseiro próximo a cabeceira. Minha mochila estava ali do lado.
–Por que trouxe minhas coisas para cá? – eu perguntei pois ele ainda não havia me notado.
Daryl se levantou e olhou para mim, sorriu sem jeito.
–Achei melhor manter você próximo. –disse ele em voz baixa sem me encarar nos olhos.
Reparei que Daryl parecia um pouco embaraçado. Eu estava tão acostumada ver ele nervoso e exaltado que o simples fato de me dirigir à palavra sem me insultar, era no mínimo curioso e intrigante.
–Bem, já arrumei sua cama. – tornou a dizer depois de um silencio incomodo. Apontou para a cama em que eu acabara de vê-lo arrumar.
–Mas Daryl, esta é sua cama, da outra vez dormi na de cima. Ou será que faz tanto tempo assim que você não se lembra? –perguntei-lhe em tom divertido.
–Eh, eu me lembro sim. Mais a noite vai ser fria e chuvosa e a cama de cima fica de frente para a janela. Você morreria em uma semana no seu estado.
Eu sorri para ele. Era tão “fofo” vê-lo se preocupar comigo daquela forma. Acho que ninguém nunca cuidou tanto assim de mim por conta de uma febre como ele fazia agora.
–Eu não tinha pensado nisso. –eu disse tentando, sutilmente, elogia-lo.
–Eu não duvido. –ele respondeu. Estava demorando...
Respirei fundo, “simplesmente ignore, Marry.” Eu pensei comigo mesma ao ouvir o comentário. “se você realmente vai dividir a cela com o cara que você ama mais que não está nem aí, simplesmente ignore e se acostume com ironias como esta.”
–O que foi? – perguntou ele ao ver minha expressão.
–Nada. –menti. –Não posso mas ficar calada?
Ele fez uma cara tipo “você-faz-o-que-você-quiser- tô-nem-aí”.
–Claro. A vida é sua e você faz dela o que bem entender, mas, eu gosto de sua voz. –disse ele distraidamente enquanto tirava o colchão da cama de cima.
Eu o observei por um momento. Então eu entendi o que ele tinha dito.
–O que?- eu perguntei surpresa. –Minha voz? Como assim?
Ele jogou o colchão no chão e em seguida, algumas cobertas por cima. Depois olhou para mim.
–Eh, eu ouvi você cantando outro dia no chuveiro. –ele respondeu com a maior normalidade do mundo.
Eu que já estava surpresa, fiquei vermelha. Ai que vergonha eu senti naquela hora. Eu amava cantar e fazia isso em qualquer lugar que ninguém tivesse me vendo. Então, me peguei pensando; como Daryl pode me ouvir cantando e ainda mais no chuveiro?
–Ei! Você estava me espiando?! – eu perguntei me aproximando. –Com que direito você fez isso? Eu não te dei permissão de me ver... de me ver... –eu não conseguia dizer pelada.
Daryl me olhou sério.
–Eu não estava te espionando, se tivesse você jamais saberia. Eu só estava fazendo ronda naquela parte e o banheiro não tem portas então não tinha como não ouvir e além do mais, não é só porque você é linda significa que todo mundo vai te espiar.
Eu ia protestar. Mais ele passou por mim e seguiu em direção a porta. Eu ouvi bem? Ele me chamou de linda?
–Você me acha bonita? –eu perguntei timidamente. Eu estava rubra e minhas maçãs ferviam.
Ele parou na entrada e virou-se pra mim. Seus olhos claros e estreitos me olharam de cima a baixo e de baixo para cima até para em meu rosto novamente. Eu senti um calafrio na barriga ao sentir seu olhar sobre mim.
–É claro que sim, e só um idiota diria o contrario. –então se virou novamente para sair. –Vou buscar sua sopa, já deve ter esfriado com esse papo todo. Quer mais alguma coisa?
Eu neguei, não ia abusar da sorte e nem dos cuidados que Daryl direcionava para mim.
Alguns minutos depois ele voltou com uma caneca de onde saia uma leve fumaça que rodopiava no ar gélido que entrava pela janela guarnecida apenas pelas grades entreabertas.
–Toma. –ele me empurrou o copo. –Beba logo pra não esfriar mais.
Eu obedeci imediatamente, enquanto via-o tirar a faca do cinto e pousa-la na cadeira que agora estava ocupada por um pires com uma vela acesa. O vento era tão forte que o fogo da vela dançava e tremulava. Depois ele sentou-se no colchão do chão. Ele também estava com frio, se não tinha dormido na cama de cima, pensei eu.
Daryl remexeu em sua mochila e eu me lembrei de que a pouco havia invadido o pouco de privacidade que ele possuía. Fiquei em silencio e desviei o olhar para a cortina esfarrapada que me pareceu muito atraente naquele momento.
Após um breve momento, ele me empurrou algo. Então virei e vi que era um papel retângular. Olhei para ele sem entender. Daryl fez um gesto “pega logo” e eu peguei.
Era a foto do homem com rosto militar que eu tinha visto.
–Esse era meu irmão. — disse ele. –Ele nunca foi muito presente mais quando tudo isso aconteceu, ele não saiu do meu lado.
Eu concordei.
–E o que aconteceu com ele? –perguntei já imaginado a resposta e me perguntando se eu a teria.
–A gente se separou por um tempo... –ele me contou como seu irmão tinha ido a Atlanta junto com um grupo que incluía Glenn para buscar suprimentos e que Merlin havia usado drogas neste dia e causou grandes problemas para o bando, onde Rick que até então não pertencia ao grupo o algemou e o deixou lá. E que milagrosamente conseguiu fugir e se juntar a outro grupo.
Era uma historia cabulosa e eu ouvia tudo em silencio. Até que chegou o ponto que estava aguardando.
–...Então ele foi morto pelo Governador. –finalizou.
Eu arregalei os olhos e derrubei a caneca no chão. Eu não podia estar ouvindo aquilo. Era uma coincidência e só.
–Você disse Governador? –eu perguntei temendo a resposta.
–Sim. -ele confirmou. –Comandava a cidade de Woodbury depois do rio.
Sim. Ele confirmara. Eu não imaginava que depois de todos aqueles meses essas palavras ainda me perturbariam. Se o que Daryl dizia era verdade, por que eu nunca tinha visto seu irmão Merlin Dixon lá? Daryl me fitava, tentando decifrar o que passava em minha mente. Eu não podia contar que pertencia a Woodbury. O Governador, pelo que Daryl disse, causou muito mal a eles ali na prisão e também foi responsável por matar a Andréa.
O que ele pensaria se soubesse que eu era íntima do Governador?Eu não sei como minha relação com Daryl ficaria, mais eu não podia arriscar. Ele não ia saber. Nunca.
–O que aconteceu com o... Governador? –eu perguntei pois a muito não tinha noticias dele.
–Sumiu depois que atacamos Woodbury. –disse ele sem perceber a minha preocupação.
–Mais como assim vocês atacaram? Não mataram ninguém inocente não é mesmo? –eu perguntei, pois sabia que mesmo a cidade sendo controlada pela corja, ainda restavam pessoas de bem e eu não desejava nenhum mal a elas.
–Eles estão bem, deixaram o Tess como chefe. –então ele se aprumou e me olhou desconfiado. –Por que o interesse?
Eu suei frio. O que não devia acontecer naquele momento, pois estava muito frio e mesmo com todas as cobertas do mundo não seria possível transpirar daquele jeito.
–Não é nada. Mais acho que vocês fizeram certo. –eu disse desviando o rumo da historia.
Daryl ainda me encarou longamente, seus olhos estreitos e sua testa franzida mostravam que ele ainda estava desconfiado. Depois de um tempo ele confirmou com a cabeça.
–Vamos dormir, amanhã teremos o funeral do Bryan. –ele disse. Eu assenti e me deitei na cama. Ele se cobriu com as cobertas e apagou a luz da vela. Mesmo no escuro, percebi que ele deitou com a cabeça para o mesmo lado que a minha. Apesar de minha cabeça estar trinta centímetros acima da sua, eu estiquei meu braço e passei por seus cabeços lisos, depois, lentamente, desci pela sua bochecha e depois para sua barba. Daryl ficou em silencio e nãos e moveu.
Eu não sabia dizer se ele já havia dormido, achei impossível que dormisse tão rápido. Então ele se virou de lado, para o meu lado e eu retirei minha mão de seu rosto rapidamente. Daryl moveu-se um pouco e eu pude ouvir o barulho do atrito do cobertor quando ele pôs seu braço para fora. Sua mão subiu e pousou em meu rosto.
E depois ficou imóvel.
–Daryl? –eu perguntei, pois achei que ele só quisesse medir minha temperatura. Mais ele não respondeu. Estava dormindo.
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