Juntos Enquanto Pudermos
17 Livre Das Amarras
Notas iniciais
Eu não sabia dizer se ele já havia dormido, achei impossível que dormisse tão rápido. Então ele se virou de lado, para o meu lado e eu retirei minha mão de seu rosto rapidamente. Daryl moveu-se um pouco e eu pude ouvir o barulho do atrito do cobertor quando ele pôs seu braço para fora. Sua mão subiu e pousou em meu rosto.
–Daryl? –eu perguntei, pois achei que ele só quisesse medir minha temperatura. Mais ele não respondeu. Estava dormindo.
A noite se estendeu por mais algumas horas e a cada hora o frio aumentava. Eu não conseguia dormir, o vento urrava lá fora como um monstro preste a atacar. Por mais que eu me movesse na cama eu não encontrava uma posição adequada.
Comecei a me sentir estranha, como se eu fosse apenas uma hospede naquele corpo. Minha consciência vagou entre o mundo real e vácuo. Eu estava delirando, flutuando em meus pensamentos. Palavras sem nexo saiam de minha boca antes que eu pudesse evita-las. Meu sangue borbulhava dentro de mim como um vulcão prestes a explodir. A chuva certamente piorara minha febre.
Um vulto se ergueu das sombras e percebi que era Daryl. Acho que meu estado de inercia devia tê-lo acordado.
–Não consegue dormir também? – ele me perguntou sussurrando. Estava tão próximo que pude sentir sua respiração quente em meu pescoço.
Tentei emergir de meu estado, e por um breve momento senti-me dona do corpo novamente e minha razão voltou à tona. Respondi:
–Sim. Está muito frio e o vento não me deixa dormir. Você não estava dormindo? –lhe perguntei, pois acreditei que ele de fato estava.
Daryl que, ao que parecia estava de joelhos sobre o colchão, sentou-se.
–Só cochilei. –ele respondeu. –Me deixa ver sua febre.
Eu tentei impedi-lo, virei-me para outro lado então eu senti sua mão fria entrar em contato com a minha pele ao tocar minha têmpora.
–Você ainda está quente. –ele falou em voz baixa. Agora preocupado. –O que tinha na cabeça para sair na chuva daquele jeito?
–Eu queria ver você. –as palavras saíram de minha boca em um suspiro. Eu voltava a delirar. Eu estava mais quente que nunca. –Queria ver muito você...
Daryl ficou em silencio diante de meu comentário e retirou sua mão de minha testa.
–Fala comigo, Daryl. Não me deixe sozinha de novo. Não me abandone como fez o Bryan... –eu continuava proferindo palavras sem sentido. Parecia uma dependente química após ter ingerido muitos compridos ao mesmo tempo.
–Não vou abandona-la. Estou aqui. –ele respondeu, então senti sua mão envolver a minha. –Eu só vou chamar o Hershel, ele precisa ver como você está e...
–NÃO... Não... Não... Por favor, não me deixe. Não me deixe. –eu disse puxando sua mão. Eu não tinha consciência de meus atos naquele momento mais uma coisa eu tinha certeza absoluta; eu o queria do meu lado.
E assim ficamos por alguns momentos; eu segurando sua mão e ele relutante, tentando sair para buscar ajuda.
–Daryl. –eu o chamei.
–Sim.
–Deita comigo. Está frio. –eu lhe supliquei. –Me deixa senti-lo pelo menos mais uma vez.
Eu fechei os olhos, não saberia dizer se fiz isso porque estava começando a ficar com sono ou se eu estava prestes a desmaiar. Não vi, mas pude sentir quando ele soltou minha mão delicadamente e se levantou.
Eu me arrastei para o canto e senti o colchão ao meu lado afundar no memento em que ele deitou ao meu lado e se cobriu. Eu passei meu braço por cima de sua barriga e deitei em seu peito. Ele sem dizer nenhuma palavra me abraçou e me cobriu até o pescoço.
–Daryl, — eu disse novamente.
–Hum.
–Você é muito importante pra mim. Eu acho que gosto de você... –eu o abracei mais forte e me encaixei em seu abraço.
–Eu também gosto de você. –ele sussurrou quase que imperceptível. Quando finalmente dormi, meu rosto ainda apresentava um sorriso.
* * * * * * *
Alguém estava me balançando. Eu resmunguei e virei para o outro lado. Balançaram-me de novo. Acordei nervosa e pronta para xingar o individuo que estava me perturbando. Abri os olhos.
O rosto de Daryl me fitava e o mais estranho era que sua face estava do meu lado. O que? Daryl deitado do meu lado? Como isso aconteceu?
Levantei-me de um salto, e dei graças a deus que a cama de cima era mais alta que o normal, ou caso contrário, teria arrebentado minha cabeça nela. Por falar em cabeça, a minha estava prestes a explodir com cama ou sem. Meus olhos arderam e eu estava toda ensopada.
Olhei para o lado, como uma bêbada que não se lembra do que fez na noite anterior e vi Daryl deitado ao meu lado. Sua expressão era ao mesmo tempo, indefinível e divertida.
–O que aconteceu? –eu perguntei temendo a resposta.
–Você passou a noite inteira delirando de febre. Disse umas coisas... –ele se levantou e começou a arrumar o colchão do chão e coloca-lo de volta na cama de cima.
Eu me levantei ainda com um pouco de tontura.
– O que eu disse? –perguntei enquanto arrumava minha cama.
Eu dei espaço para ele pousar o colchão na cama e depois voltei a arrumar a de baixo.
–Você realmente não se lembra?- ele perguntou.
Eu fiz que não com a cabeça. Ele bufou.
–Deixa. Só disse besteiras. –ele respondeu ríspido. Eu sabia que tinha algo a mais e ele por capricho não queria contar.
Será que eu havia dito coisas sobre o Governador? Meu sangue gelou. Não, não foi isso.
Eu me aproximei dele, pousei minha mão sobree seu rosto e o acariciei.
–Fala o que disse.
Ele afastou minha mão e fez uma careta de desagrado.
Então foi quando minhas lembranças vieram a tona, uma por uma, elas chegaram a minha mente. Senti-me envergonhada e minha vergonha era tão grande que levei minhas mãos a boca e recuei um passo.
Daryl deve ter percebido o meu conflito interior, pois ainda sem desviar os olhos perguntou:
–Era verdade tudo o que disse ontem?
Eu fiquei mais vermelha ainda se é que era possível. Eu não queria admitir. Eu disse que gostava dele? “Marry sua idiota por que fez isso?” Eu só ia contar a verdade quando ele se redimisse da noite no sitio.
Respirei fundo. Não havia como escapar. Eu estava entre a cruz e a espada. Se eu contasse a verdade, podia ser que a gente finalmente ficasse juntos, mais também significava que ele podia não reagir bem a uma declaração aberta e decidir se afastar de vez, por outro lado, se eu dissesse que era mentira, ai sim minhas chances com ele estariam por um fio mesmo. Eu tinha que pensar rápido. Decidi-me por falar a verdade.
Abri a boca.
–Como você passou a noite? –me perguntou Hershel entrando na cela com uma caneca contendo o mesmo chá horrível e sem açúcar. –deixe-me ver sua temperatura.
Eu fiquei ali imóvel com a boca ainda aberta com as letras s-i-m ainda presas enquanto observava o médico entrar na cela e me examinar. Daryl bufou decepcionado. E balançando a cabeça tipo “eu sabia que era mentira” saiu do quarto truculento.
–Eu sabia. –disse ele.
Eu queria ir atrás e gritar que sim, sim. Eu tinha dito a mais pura verdade, eu o amava. Mais eu fiquei sem ação enquanto Hershel me empurrava à caneca. Depois a Michonne, Maggie e Beth entraram na cela e começaram a puxar papo, indiferentes ao meu estado de espirito. Talvez elas achassem que eu queria conversar, que isso me faria bem...
Mais eu só queria o Daryl...
Tomei café ali mesmo em meio a elas. Então Glenn parou a porta dizendo que tudo estava pronto. O funeral de Bryan estava pronto.
Eu saí acompanhada delas, Rick, Carol, Carl e Daryl já estavam lá fora em torno de uma cruz feita rusticamente de madeira, onde se lia: Bryan.
Eu olhei para Daryl que me fitava, ao perceber que eu olhava para ele, desviou-os olhos como se eu não existisse.
Hershel se aproximou com uma bíblia em suas mãos. Recitou muitos salmos bonitos e falou sobre o paraíso e que este mundo era apenas um plano onde as pessoas eram testadas para ver se conseguiam, apesar de tudo, mantiver-se fieis aos seus ideias e seus corações. Eu concordei. Sabia que este era sem duvida, o perfil de Bryan.
A raiva que eu sentira por Hershel nos ter interrompido a pouco já sumira e sorri para ele quando me chamou para dizer algumas palavras.
Eu disse o melhor que pude. Falei sobre alguns momentos que vivemos e que para mim eram inesquecíveis. –Bryan costumava dizer que éramos “nós contra o mundo” sempre me defendia de tudo e todos. Mais agora sou apenas eu contra o mundo.
–Ora, isso não é verdade. –disse Rick sorrindo para mim. Eu em meio à lagrimas consegui embolsar um sorriso. Maggie me abraçou.
–Rick tem razão, todos nós estamos aqui.
Eu me virei para a cruz.
–Bryan, você sempre esteve do meu lado quando precisei e sei que Deus o recompensou lhe reservando um cantinho aí no céu pra você. E eu prometo que cumprirei o que prometi a você. Eu juro.
Então comecei a chorar. Finalmente começava a me desvincular do passado. A mochila de Bryan com seus pertences foi queimada. Eu então percebi que do meu passado nada restara, era somente eu ali no meio de um grupo que também se desfaziam de suas amarras do passado. Só tínhamos certeza do presente. O futuro? Era incerto.
* * * * * * * *
Quando tudo estava novamente calmo e meus pensamentos de volta ao lugar, eu decidi que era hora d por um fim a tudo aquilo. Eu ia naquele dia mesmo acabar com o sofrimento do corpo de Bryan. É verdade que eu não estava preparada para vê-lo na forma de demônio, mais quanto mais eu me demorasse mais seu estado de decomposição aumentaria.
Procurei por Daryl, ao fim do funeral. Encontrei-o no portão. Estava pensativo assim como os outros. Estava com uma jaqueta de frio e um ponche por cima, sua besta ia às costas. O chão ainda estava enlameado pela chuva do dia anterior e o frio sem duvida, não dava trégua.
–Está pronto? –lhe perguntei.
Ele respondeu sem me olhar.
–-Não tem algo a mais pra dizer não? –disse ele se referindo a nossa conversa não terminada.
–Sim. –eu respondi.
Daryl esperando mais do que uma simples palavra se virou para mim.
–O que é? Ta de gozação com a minha cara?
–Sim. -respondi de novo, e quando vi sua reação me apressei em explicar. –A resposta é sim. Tudo que eu disse é a mais pura verdade, embora eu tenha parecido uma louca ontem à noite. Mais eu realmente me importo com você sim e eu...
Daryl se aproximava de mim enquanto eu falava.
–Sim? –ele perguntou me incentivando a responder.
–Eu acho que te amo. –pronto, que toquem os sinos!!! Eu contei a verdade. Um grande peso saiu de minhas costas mais dera lugar a outro.
Daryl não disse nada, não se moveu e muito menos pareceu feliz com o que eu disse. Aquilo me deixou preocupada, não queria me magoar então esperei pelo pior. Contudo, algo muito diferente do que eu esperava aconteceu.
Daryl me agarrou por baixo dos braços e me abraçou fortemente e possesivamente. Nossos lábios se encontraram e em um frenesi, nos beijamos enlouquecidamente. Passei meus braços por seu rosto e cabelos enquanto ele tocava em todas as partes de meu corpo ao seu alcance.
Após longos minutos e entre mil suspiros e batimentos cardíacos, finalmente separamos nossos lábios mais não o abraço.
–Eu te quero muito. Fica comigo? –ele me perguntou com seu rosto quase colado ao meu.
–Sim, sim, sim. –eu respondi sorrindo e nos beijamos de novo. Por sobre o ombro de Daryl eu visualizei Maggie ao longe fazendo mil gestos comemorando o nosso momento. Eu não pude deixar de rir. Daryl olhou para mim.
–O que é? –ele olhou por cima de seu ombro e viu Maggie fazer um ultimo gesto; desenhar um coração no ar. Quando ela o viu pôs as mãos pra trás e se fez de dissimulada.
Daryl se virou para olhá-la de frente e me fez virar junto já que ainda estávamos abraçados. Ele gritou para que ele ouvisse. –Cai fora Maggie!
Maggie ainda respondeu gritando algo que eu não entendi e saiu correndo alegre.
–Vai se ferrar! Vai atrás do coreano e me deixa! –ele devolveu rindo.
–O que ela disse?- eu perguntei curiosa.
Daryl voltou sua atenção pra mim.
–Nada com que se preocupar. –e me beijou de novo.
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