Juntos Enquanto Pudermos
24 Novos Habitantes
Notas iniciais
Eu me levantei e peguei a minha mochila e Daryl pegou a sua. Ao sopé da porta dos fundos avistei a moto de Daryl estacionada a uns dois metros apenas.
Ele subiu na moto e eu o segui. Daryl estendeu sua mão para mim e eu a peguei.
–Então, vamos para casa? –disse ele. Eu assenti com um sorriso.
Então a moto arrancou em direção à estrada e nós seguimos rumo à prisão. As costas musculosas de Daryl me protegiam parcialmente do vento que vinha em nossa direção.
Viajamos em silencio, já bastava o som truculento da moto ecoando pelas estradas. Chegamos à prisão ao fim do dia. Eu desci da moto e aguardei que ele também descesse.
Daryl olhou para mim e disse sério.
–Muitas coisas mudaram desde que você partiu.
Eu olhei para ele preocupada. Eu havia partido há apenas cinco dias, o que ele queria dizer com “muita coisa mudou”.
–Daryl, o que aconteceu? -eu perguntei receosa.
–Bem, depois que você partiu, eu fui te procurar. Procurei em casas abandonadas, fabricas e praças. Numa destas buscas eu encontrei um grupo de sobreviventes com oito pessoas. Agora o pessoal todo mora aqui com a gente. Então, não se espante se ver algum deles pelos corredores.
–Provavelmente você os jogou no chão e arrancou suas armas, não é –perguntei sorrindo fazendo referencia ao dia em que nos conhecemos.
Daryl sorriu enquanto conduzia sua moto para um local coberto. Então muitas pessoas começaram a aparecer de dentro do pavilhão. Maggie foi a primeira. Ao me ver ela sorriu e gritou para os demais.
–Eles chegaram, venham!- depois ouvi outras vozes muito conhecidas minha.
–Ele encontrou a Marry?
–Cadê ela?
–Ela está bem?
Então eles começaram a se aproximar, senti muita saudade de todos eles mais eu não queria que falassem comigo naquele momento. Eu preferi me recolher para dentro de mim mesma. Não estava preparada para encara-los agora e ouvir os seus sermões.
Daryl parecia ler minha mente, pois ouvi ele dizer para os outros.
–Deixam-na em paz. Quando ela quiser falar com vocês ela mesma os procura. Agora vão cuidar de seus afazeres.
Achei-o muito ríspido com os outros, mais esse era seu jeito e eu não podia interferir. Daryl me conduziu pelos corredores e me vi dentro da cela onde eu dividia com ele. Peguei-me imaginando encontrar as coisas de Carol lá dentro sobre a cama que eu dormia, mas por sorte, estava vazio e os únicos objetos presentes eram os dele.
Daryl entrou logo atrás de mim e pousou minha mochila em uma das camas e sorriu para mim.
–Você quer comer? –ele me perguntou.
Eu balancei a cabeça dizendo que não. Então ficamos em silencio. Era estranho estar ali de novo, era como se eu estivesse entrando na prisão pela primeira vez.
–O que aconteceu depois que eu saí?- eu perguntei.
–Bem, depois de tudo aquilo... Michonne e Maggie foram as primeiras a perceber sua ausência, vieram atrás de mim perguntando onde você estava eu contei o que aconteceu e houve uma discussão. Então nós procuramos você por todo o prédio, foi aí que vi que suas roupas que estavam no varal haviam sumido então percebi a idiotice que eu havia feito. –Daryl havia feito uma pausa. Olhava para mim que continuava em silencio. –Eu sinto muito. –disse ele pegando minha mão. –Eu me arrependi no mesmo momento em que havia dito. É que... você e o Governador juntos... aquilo me corroeu por dentro. E quando vi aquela foto de vocês dois abraçados, realmente me fez perder o controle e dizer tudo aquilo.
Eu sorri para ele. Não queria mais pensar no passado. E também não queria vê-lo tão abatido como estava no momento.
–Você ficou com ciúmes de uma foto? –eu perguntei sorrindo para quebrar aquele clima tenso em que nos encontrávamos.
–Cala a boca. Eu não senti nada disso. Eu só não gostei de sua mentira.
–Hei, eu não menti não, eu só não falei dele pra você. – eu retruquei batendo em seu ombro de leve.
–Dá no mesmo, magrela. Se você não se importa eu vou comer e quero que vá junto comigo.
Ele se levantou da cama e me estendeu a mão. Eu olhei para ele sem entender.
–Por quê? Quer que eu dê comida na sua boca?
–Até que não seria má ideia, mais na verdade eu não quero que você fuja de novo.
Eu peguei sua mão e me levantei. Seguimos para a “cozinha” de mãos dadas, um fato raro mais verídico. Como Daryl havia dito havia muito mais gente do que o normal.
Quando entramos fez-se um silencio de preocupação no local;
–Você está bem? –perguntou Rick.
–Marry! Você voltou! –gritou Carl me abraçando seguido por Maggie e Beth.
Então um por um eles me cumprimentaram e me desejaram melhoras, reparei que estavam se contendo para não fazerem perguntas das quais eu não queria falar.
Então começou a apresentação dos que eu ainda não conhecia.
–Estes são os nossos novos companheiros de prisão, Marry. –disse-me Rick. –Estas são Alexia e Kary. –ele apontou para uma mulher negra e magra e outra branca de olhos azuis respectivamente.
Eu dei um passo a frente a apertei suas mãos com cumprimentos automáticos.
–Este é o Dean, filho de Kary. –ele apontou para um garotinho com cerca de sete anos que se escondeu atrás das pernas de sua mãe. –Pool, Raú, Andressa e Timoti.
Pool era alto e também negro de cabeça raspada e porte físico atlético, Raú parecia-se muito com aqueles roqueiros metaleiros que viviam metidos em bares de gangues, seu cabelo grisalho era comprido e ondulado assim como sua barba. Sua barriga era levemente arredondada e tinha um ar arrogante, Andressa era loira e muito atraente, seus olhos azuis realçavam sua beleza. E por fim, Timoti, um jovem de no máximo vinte e cinco anos, seus cabelos estavam cheios e sem corte, uma barba rala cobria-lhe o queixo delineado e seus olhos era fixos e profundos, mais preservavam um ar bem juvenil e alegre.
Cumprimentei todos da melhor maneira possível e na ordem a qual eram me apresentados. Quando chegou a vez de Timoti, fui surpreendida por um abraço.
–Opa! -eu disse sem graça e surpresa com a amistosidade do rapaz.
–Prazer em conhecê-la, devemos nossas vidas a você!!! –ele disse quase me erguendo do chão.
–Nossa, por quê? –eu disse entre suspiros, pois o abraço estava tirando o ar de meu diafragma.
–Se não fosse por Daryl estar te procurando, ele nunca teria nos achado e nos trazido para cá.
Então senti que braços fortes me separavam do afobado Timoti.
–Epa! Vamos separar aí, por favor?!- disse Daryl pegando Timoti pelos ombros e o afastando de mim, com cara de poucos amigos.
Eu olhei para ele tipo, “você está com ciúmes?”. Porem Daryl me ignorou como só ele sabe fazer e sentou-se em um banco ao meu lado.
– O que tem para comer? –ele perguntou. Então a comida foi posta sobre a mesa. Era um ensopado de carne com batatas e ervas.
–Hum... nossa que cheirinho bom. –eu disse quando Beth me serviu.
–É sim, né? –interveio novamente o Timoti. –É carne de cervo, foi o senhor Grimmes quem o capturou. Verdadeiro banquete.
E assim nós comemos. Reparei que Carol não estava lá, então virei-me para Maggie.
–Onde ela está? –perguntei.
–Depois que Daryl te expulsou, nós descobrimos que foi a Carol quem contou para ele sobre o Governador. Eu discuti feio com ela e saímos no tapa. Então quando o Daryl disse que ia atrás de você, ela falou que se ele fizesse isso que era para esquece-la. Daryl como você sabe, mandou-a se ferrar e foi atrás de você e desde então ela fica afastada, só agora que chegou o pessoal que ela ainda fala umas duas palavras com o Pool.
Eu assenti agradecendo a resposta de Maggie e passei a prestar atenção à conversa na mesa e nos novos habitantes. Andressa e Alexia pareciam pessoas de bem enquanto conversavam com Michonne e Hershel sobre remédios e ervas. Pool comia em silencio e Raú conversava com Rick, reparei que seu tom de voz era autoritário como de alguém acostumado a sempre mandar. Aquilo não me agradou e acredito que Rick também, pois ele comia segundando sua 38 em uma das mãos.
Timoti por outro lado, não parava quieto, enquanto o observava vi que ele puxava assunto com Beth, Carl e com Dean, tudo ao mesmo tempo. Eu sorri com sua hiperatividade e percebi o quanto todos nós havíamos ficado mais austeros e inflexíveis a brincadeiras.
–Hum-hum. –ouvi um pigarro ao meu lado e virei-me para quem havia feito isso. –Perdeu alguma coisa ali? –Daryl me perguntou rabugento.
–Eu nada. O que foi não posso mais olhar para nenhum canto? –eu rebati servindo-me de mais uma colherada.
Daryl balançou a cabeça e não respondeu.
–Ei Marry – Timoti me chamou após as crianças se retirarem para dormir por ordem de Rick. –Você realmente é incrível! –disse ele. Todos pararam seus assuntos e passaram a prestar atenção a conversa que prometia ser no mínimo divertida.
–Sou é? –eu disse. –Obrigada...
Daryl que acabara de levar o garfo a boca bateu com ele na mesa. Eu ignorei.
–É sim. -disse ele como se sua palavra fosse à suprema lei. –Poxa, Glenn me contou que você ficou cinco dias, cinco dias sozinha sobrevivendo no meio do nada!
–Eu já passei por coisa pior. –eu respondi sorrindo de seu entusiasmo. Então olhei para Daryl que ainda mantinha o garfo parado sobre a mesa. –Não vai comer?
Ele me fulminou com o olhar e eu não entendi o porquê. Eu ia pergunta-lo quando Timoti, o incansável falou de novo.
–Eu certamente não teria sobrevivido nem dois dias. –disse ele em mais uma tentativa de me elogiar.
–Por que não fazemos o teste? –Daryl perguntou para ele ao mesmo tempo que se levantava. Eu percebi um tom ameaçador em seu timbre que somente quem o conhecia teria pressentido sinal de perigo.
Daryl anda segurava o garfo com força como se fosse usar-lo como arma. Então virou-se para mim e disse de forma que somente eu pudesse ouvir.
–Isso mesmo, pode ficar ai de papo, já vi que eu tô sobrando.
Então jogou o garfo na mesa e saiu da cozinha entrando pela porta da qual havíamos usado. Eu me levantei também.
–O que eu fiz? –Timoti perguntou.
–Agora não, Timoti, depois a gente se fala. –eu respondi sem lhe dar muita atenção. Peguei o prato de Daryl e o garfo e sai em seu encalço.
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