Juntos Enquanto Pudermos
29 Era Só O Que Nos Faltava
Notas iniciais
Seguimos por muitos quilômetros antes que parássemos por conta de um bloqueio na pista: uma carreta havia tombado e seus produtos estavam espalhados pelo chão.
O carro que ia a frente parou, impossibilitado de prosseguir pela estrada, fazendo com que os que os que vinham mais atrás parassem também.
–O que houve? –eu perguntei ao sentir a moto desacelerar, tentando enxergar por sobre o ombro de Daryl.
–Vamos lá ver. –ele respondeu indiferente. Desviando da Kombi, Daryl manobrou para a esquerda e seguiu para encontro do primeiro carro da fila.
Paramos ao lado do carro prateado que era dirigido por Rick. Ao nos ver ele abriu a porta. Através do vidro, eu pude visualizar os outros ocupantes do carro. Michonne estava no banco do passageiro ao lado de Rick, Carl ao lado de Timoti que estava ao lado de Beth e Judith em seu colo no fundo.
–Não dá para visualizar o que tem do outro lado da carreta. –disse Rick para nós.
–Quer que eu vá dar uma olhada?- Daryl perguntou prestativo.
Rick assentiu com um movimento brusco de cabeça.
Daryl tirou o pé de apoio do chão e acelerou a moto. A estrada estava bloqueada, mas o acostamento estava livre. Então subimos na guia e demos a volta no caminhão.
A estrada do outro lado estava acessível, havia apenas uns dois andantes que não nos faria mal algum.
–Acha que da para passar? -Eu perguntei para Daryl.
–Sim. Vamos voltar. Alertar os outros. –ele fez o retorno.
–Vamos! –gritou para os outros. –A estrada tá limpa, é só dar a volta.
Então eu Daryl fomos á frente na moto para guiar os outros que iam mais atrás da gente. Subimos a guia novamente e demos a volta no caminhão. Depois, percorremos cerca de mais dez milhas em meio aos carros, batidos e abandonados, quando chegou à noite.
Rick ligou o farol frontal, parou o carro no meio da rua e saiu. Os outros o imitaram. Daryl que estava mais a frente manobrou a moto e nos juntamos ao grupo que já estava reunida em torno de Rick.
–Acho melhor acompanharmos aqui por hoje. –disse Rick, pensativo.
–Mas Rick, não podemos acampar aqui! Estaremos desprotegidos. –Maggie falou, e pelo seu tom de voz percebi que ainda estava abalada com o ocorrido.
–Não temos outra opção, Maggie. –Rick respondeu novamente. –As crianças dormem no carro e nos revezamos na vigia.
Rick olhou para todos nós em busca de resposta. Ficamos em silencio por um período, e então, aos poucos começamos a concordar com sua decisão. Afinal, Rick era o líder do grupo e sabia o que era o melhor para nós.
–Vamos fazer uma fogueira então. –disse Pool, descruzando os braços e se afastando do grupo. –Timoti vamos buscar lenha. –ele gritou por cima do ombro e Timoti se sobressaltou e o seguiu.
–Não vão muito longe! –Carol disse para Pool com um sorriso nos lábios finos. -Se verem algo grite.
–O.K. –Timoti respondeu. Em poucos momentos suas silhuetas haviam desaparecido nas sombras da noite.
Eu desci da moto.
–Carl. –eu o chamei. O garoto se aproximou com uma arma na mão. –Me ajude a pegar algumas coisas nas mochilas.
Carl assentiu. Nós caminhamos até os outros carros e abrimos os capôs. Eu coloquei minha automática no cós da calça. E levantei o capô do carro vermelho e comecei a abrir as mochilas sem me importar de quem era. Eu peguei algumas frutas e duas cobertas e entreguei a Carl.
–Toma, leve as cobertas para Judith e Dean. –eu lhe disse sorrindo. Carl continuou em silencio. –O que foi, por que está tão deprimido?
–Não é nada. –ele respondeu cabisbaixo.
Eu me virei para ele e levantei seu rosto maduro de mais para sua idade.
–Carl, eu sei que... –eu comecei tentando consola-lo.
–Não Marry. Não precisa dizer nada. –ele falou sério, ao ver minha expressão de espanto sorriu para mim quebrando o clima tenso. –Eu vou lá levar as coisas.
Eu fiquei ali parada sem saber o que dizer... Carl, apesar de ser obrigado a amadurecer antes da hora, ainda era uma criança e eu sabia quão era difícil para ele assimilar tudo aquilo. Perdeu a mãe na qual morreu por sua própria mão e agora se via fugindo novamente.
Eu, com auxilio de uma lanterna, encontrei minha mochila de dentro dela tirei uma coberta cinzenta e um lençol. Fechei o capô e me arrastei de volta a Kombi onde o pessoal já levantava acampamento. Enquanto caminhava, eu observei Carl entregar um dos cobertores a Beth que agradeceu com um sorriso e depois cobriu Judith, e o outro a Kari que o enrolou em Dean.
Alexia e Andressa também tinham saído, agora voltavam com alguns objetos retangulares que usaram como banco em torno do local onde seria a fogueira.
Um farfalhar no acostamento da direita desviou minha atenção. Eu soltei a coberta e saquei a arma da cintura e apontei na direção do ruído, com a outra mão levantei a lanterna.
Um andante se destacou na luz que o cegou momentaneamente e me aproveitando disso, guardei a arma e puxei a faca. Deixei que se aproximasse enquanto olhava ao redor atrás de mais deles. Não havia mais nenhum.
Quando a criatura estava próxima o suficiente eu furei-lhe o crânio. Seu baque ao cair no chão não foi ouvido pelos outros. Guardei minha faca e apontei a lanterna para a escuridão. Quando me certifiquei que não havia mais sinal de perigo, apanhei aos panos e continuei a caminhar. Mais atenta agora.
–Rick. –eu o chamei. Quando se aproximou completei. –Acabei de matar um andante perto da Picape.
Ele me olhou serio e depois em algum ponto próximo do carro vermelho.
–Eu começo a vigia. –ele disse por fim.
–Não. Não. –eu rebati. –deixa que eu faça. Você dirigiu a noite inteira e está cansado.
–Você também. Está trabalhando desde antes do pôr-do-sol..
Eu sorri despreocupada.
–Rick, depois do que aconteceu acho que não vou conseguir mais dormir, pelo menos por hoje.
–Tudo bem. Mas me acorde se sentir muito cansada. –ele rebateu prestativo e eu assenti. Então Rick foi para junto de seus filhos.
Ao longe eu avistei Daryl saindo de dentro do carro prateado. Ao me ver, ele se aproximou.
–Você está bem? –eu lhe perguntei estendendo a coberta para que ele pegasse. –Toma.
–Obrigado. –respondeu. -Um pouco cansado e com sono. Já devia ter dormido há horas. -ele respondeu.
–Venha. –eu o convidei. –Vamos ver se a gente consegue dormir um pouco.
Eu peguei sua mão e juntos voltamos para junto do ultimo carro. Pool e Timoti já haviam retornado e a fogueira já estava queimando. Tivemos que deixar o fogo baixo para não atrair atenção.
Estendi o lençol sobre o asfalto quente. Daryl sentou primeiro e depois estendeu a mão para que eu sentasse também. Nós comemos em silencio e depois discutimos para qual caminho devimos ir. Decidimos por Fort Bening. Era o único lugar que ainda não havíamos tentado.
Após quarenta minutos, apagamos a fogueira e eu informei Daryl que ia ficar de vigia.
–Por que não deixa outro no lugar. Você está cansada. –ele rebateu nervoso.
–Sim estou, mais não quero dormir.
E assim foi. Subi em cima da Kombi e me sentei. Rick me dera um rifle com visão noturna que estava apoiada em minhas pernas.
Com a luz da lanterna comecei a ler um livro que por sorte, estava dentro da mochila. Peguei-me pensando na prisão e tudo que ficou para trás torcendo para que não precisássemos dos objetos remanescentes.
A noite foi tranquila, eu precisei matar apenas mais dois andantes. Nos levantamos no dia seguinte e comemos alguma coisa e voltamos para os carros. Seguimos estrada novamente. Após quatro horas de viajem chegamos ao Fort Bening e foi ai que nossas esperanças acabaram.
O local estava tomado. A base que até então era o centro de refugiados estava abandonada e destruída, dezenas de corpos jaziam no chão. Sacos de areias estavam em volta para contenção, o que não adiantou. As portas estavam com os vidros estilhaçados e com furos provocados por armas de fogo. Nós paramos no pátio e eu desci da moto. Caminhei com cautela entre os corpos.
Percebi os mortos se mesclavam em civis e soldados do exercito. Senti um enjoo muito forte ao sentir o cheiro de putrefação que exalava dos mortos e elevei minha mão a boca para cobrir minhas vias respiratória. Daryl se aproximou com a besta na mão.
–Você está bem? –me perguntou.
–Sim, sim. Não se preocupe comigo. É só o cheiro, nada mais. –eu disse sufocando. Mais eu não estava bem, minha barriga doeu e eu me afastei de Daryl vomitando em seguida.
–Decididamente você não está bem. –ele falou se aproximando e me erguendo. Olhando para trás gritou. –Hershel! A Marry não está bem, vem logo.
Hershel e Michonne correram para mim e me deitaram no chão. Eu tentei impedi-los mais não consegui. Lagrimas saiam de meus olhos e eu sentia muita tontura.
Hershel mediu minha temperatura, sentiu meu pulso e minha respiração.
Seu olhar estava serio e ele não disse nenhuma palavra enquanto me examinava. Michonne estava do meu lado com semblante carregado.
–O que ela tem Hershel? –Daryl perguntou pela terceira vez elevando o tom de voz.
–Eu não sei dizer... Mais acho que... –ele respondeu, mas parou abruptamente o que ia dizer pois algo lhe ocorreu a mente.
Então ele surpreendentemente levantou minha blusa.
–Hei! Por que ta fazendo isso? –Daryl perguntou, mas sua voz era mais de preocupação que raiva. Hershel não respondeu.
Eu virei minha cabeça para o lado e vi os outros de pé mais afastados nos observando atentamente.
Hershel passou suas mãos por minha barriga sentindo uma leve, quase imperceptível protuberância.
–Marry. –ele perguntou para mim.
–O que? –eu perguntei de volta sem ar. Minha voz estava quase sumindo.
–Quando foi sua ultima mestruação? –ele perguntou profissionalmente após uma pausa.
–O quê?! –disse Daryl, sério se aproximando de nós. Seu olhar ia de mim para Hershel.
.-O que quer dizer com isso Hershel? –eu perguntei temendo a responda.
–Por favor, responda. –disse ele.
Eu fechei meus olhos e tentei lembrar. Eu estava tão ocupada que não parara para pensar nisso.
–Uns dois meses eu acho. –eu respondi sentindo o peso de minha própria resposta.
Hershel se levantou. Sua expressão estava indefinível. Sério, preocupado e ao mesmo tempo aliviado.
Michonne com a ajuda de Daryl me ergueram do chão.
–Eu acho que você está gravida, Marry. –disse ele e sua voz estava carregada de infelicidade.
Eu respirei fundo ao ouvir a informação.
Gravida?
Mais não era possível. Não podia ser. Devia ter outra explicação.
“Gravida?”
Eu tinha percebido que engordara um pouco quando na verdade devia estar mais magra. Sentia tonturas e enjoos, mas, contudo aquilo que éramos obrigados a comer era obvio que nos faria passar mal. E minha mestruação: era absolutamente normal, pensei comigo. Eu estava desnutrida e fraca e isso contribuía em muito para a desregularização dela.
–Hershel tem que ter outra explicação... –eu disse segurando minha barriga instintivamente. Eu não queria acreditar, mas ao olhar para sua expressão eu sabia que ele não estava mentindo.
–Eu sinto muito... –disse ele.
Meu olhar desviou para Daryl que tinha a mesma expressão que eu, talvez pior. Eu não sabia dizer se ele ficou feliz ou trise com a informação. Ele estava calado.
Meus olhos lacrimejaram tentando esquecer, tentando não acreditar. Michonne me abraçou e eu chorei em seus braços. Eu queria muito uma criança, mas não desse jeito.
Estava tudo errado. Tudo.
Rick se aproximou de nós.
–O que ela tem? –perguntou a Hershel, pois eu não estava em condições de responder.
–O Hershel achar que a Marry está gravida. –disse Daryl finalmente. Sua voz estava quebrada, destroçada.
Rick também respirou fundo com a notícia. Balançou a cabeça e caminhou pensando no que fazer diante da nova informação e obstáculo. Então se aproximou de mim e me abraçou também.
–Nós vamos dar um jeito, eu prometo. –disse ele enquanto me abraçava.
Eu apenas balançava a cabeça. Minha garganta estava ressequida e eu me senti como se tivesse envelhecido trinta anos em um único momento.
–Precisamos achar um lugar seguro logo! –continuou Rick desta vez sorriu para me reconfortar, mas tudo que conseguiu foi crispar os lábios. Ele me soltou e voltou para o carro. –Vamos sair daqui.
Hershel e Michonne voltaram para seus respectivos lugares nos carros. Daryl se aproximou de mim. Ele ia me dizer algo mais eu o interrompi.
–Não Daryl. Não precisa dizer nada. Eu sei que você deve estar mais confuso que eu. Vamos embora daqui e quando pudermos falaremos disso.
Ele concordou em silencio e depois me abraçou. Um abraço apertado e forte, e eu quase desmoronei em lagrimas de novo.
–Eu vou dar um jeito. Eu vou dar um jeito... –dizia ele sem parar.
Nós voltamos para a moto e no momento em que íamos subir, ouvimos um som de passos.
Nós viramos.
Dezenas de zumbies estavam saindo de dentro da CCD de Fort Bening. Não dava tempo e fugir.
“Era só o que nos faltava.” Pensei comigo.
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