Juntos Enquanto Pudermos
13 Em Busca De Um Remédio
Notas iniciais
–Calma, calma. –ouvi a voz de Daryl próxima de mim. Ergui meu rosto para cima e o vi. Seu rosto desfigurado pela tristeza. Estava com os olhos brilhantes e frios. Aconcheguei-me mais a ele e me desliguei do mundo.
Eu ouvi vozes exaltadas chegarem aos meus ouvidos. Estavam embaralhadas, mas reconheci a voz de Rick perguntando o que aconteceu. Beth veio com Judith em seus braços já com uma mamadeira na boca.
Eu acompanhei tudo em câmera lenta. Minha cabeça estava em outro lugar, entorpecida pelo cansaço repentino e destruidor. Alguns se aproximaram de mim, inclusive Carol. Daryl me envolveu e me conduziu para dentro do pavilhão.
–Venha. –disse ele. –Vamos sair daqui.
Eu me deixei levar. Não queria ouvir que se importavam, não queria ouvir como foi sua morte. Eu se queria me apegar aos momentos bons que passei ao lado dele desde o Brasil até os dias na prisão.
Percebi que Daryl estava me afastando dos outros, me isolando. Achei melhor assim. Tudo o que eu queria era ficar sozinha. Ele me conduziu até sua cela já que me recusei a entrar novamente na que eu dividia com Bryan. Fez-me sentar em sua cama e agachou-se em minha frente e nossos rostos ficaram da mesma altura.
Ele me encarou longamente em silencio. Eu desviei meu olhar para o outro lado, pois não queria que ele me fizesse perguntas.
Daryl parecia entender, pois não me fez nenhuma pergunta por um bom tempo. E assim ficamos.
–Você está bem? – ele indagou finamente. Sua voz estava baixa. Eu queria manda-lo embora, me deixar lá sozinha e jogar em sua cara todo o mal que me causou mais eu simplesmente não conseguia. Eu não queria que ele fosse.
Eu assenti chorosa.
–Olha, o seu namorado foi muito corajoso. Salvou o Glenn e a mim, nos deu cobertura mais já havia sido tarde. Quando votamos para pega-lo nós...
Ele não terminou, pois eu lhe tampei a boca com o indicador. Ele assentiu balançando a cabeça.
–Não quero mais falar disso. Pelo menos, por enquanto. Pelo menos vocês estão vivos. E além do mais ele não era meu namorado, mais sim um amigo de longa data. Um grande amigo.
Eu percebi que ele se mexera incomodado, contudo, não disse nada.
–Você esta exausta, por que não dorme um pouco? –ele disse. -Amanhã nós faremos um funeral pra ele e a gente... bem...
–Não precisa dizer nada. Eu realmente preciso dormir, mais não quero voltar pra lá nunca mais, nunca mais.
–Não precisa dormir lá, deite aqui na cama. –ele me forçou delicadamente a deitar na cama e me cobriu com um cobertor. Sentou-se do meu lado e pousou sua mão sobre minha face e seu rosto foi a ultima coisa que vi antes de adormecer.
Poucas horas depois me levantei assustada.
–Bryan!!! –gritei me sentando.
Meu peito arfava em movimentos rápidos. Meu rosto e meu corpo estavam molhados de suor. Meus cabelos bagunçados grudavam em minha face. Olhei para os lados assustada. Eu procurava por Bryan. Havia tido um sonho horrível em que ele tinha morrido e que tudo estava terminado. Girei minhas pernas na cama para me levantar.
Pelo canto do olho eu vi que uma pessoa, que até então, estava sentada se levantar.
–Ei, ei onde pensa que vai assim desse jeito? – a voz me disse. Eu levantei meu rosto e vi que era Daryl. Não usava mais a mesma blusa ensanguentada, mais os cortes em seu rosto eram os mesmos de meu sonho. Então a percepção dos fatos me acometeu e eu finalmente entendi que não fora um sonho e que Bryan estava morto.
–Bryan... – eu disse para ele. –Bryan, onde vocês o deixaram?
–Nós o deixamos dentro do armazém. Uma parede desabou sob a pressão dos zumbies e não fomos rápidos o suficiente para tirar ele dos escombros, então ele sacou a arma e mandou a gente correr enquanto ele dava cobertura. Então quando saímos, ouvimos seus últimos momentos de vida... –disse ele sentando-se ao meu lado.
Nós ficamos em silencio por um tempo, enquanto eu imaginava a cena. “A parede caindo em mil pedaços, Bryan tentando se libertar então... eles apareciam em dezenas e meu melhor amigo sacando sua 38, gritando ‘corram, eu dou cobertura! ’e depois seus gritos angustiantes”.
Daryl puxou um lenço de seu bolso e secou minha face, enquanto com a outra mão, tirava meus cabelos do rosto. Quando a ponta calejada de seus dedos tocou minha têmpora ele a contraiu preocupado.
–Você está com febre. –disse ele com urgência. Desceu sua mão até chegar a meu pescoço e o tocou. –Isso é um mau sinal. –levantou-se apressadamente. –Aconteça o que acontecer não saia daqui, ouviu?
Eu concordei, passando minha própria mão na testa, também preocupada. Eu saiba que o primeiro sintoma da infecção zumbie era a febre, febre alta e insuportável. Eu, graças aos céus, não estava sentindo os sintomas que geralmente eu ouvia de alguém que havia sido infectado. Mais a preocupação de Daryl era evidente. E eu temi.
Minutos depois ele voltou acompanhado de Hershel que me examinou minuciosamente. Os dois trocaram olhares significativos como que confirmando algo muito ruim.
–O que está acontecendo? Eu vou ficar bem? –eu perguntei preocupada.
Hershel olhou para mim sério, mais sua expressão desvaneceu e ele sorriu em meio às rugas.
–Tenho uma boa noticia para você, Marry. Sua febre está em torno de trinta e oito a trinta e nove graus, não dá pra ser mais preciso por que não temos um termômetro. Mas, é uma febre passageira, talvez ocasionada pela perda do Bryan que ainda é muito recente.
Eu respirei aliviada. Pelo menos eu não ia me transformar em uma andante. Tomei uma decisão perante as informações de Hershel.
–Ótimo. –eu disse me pondo de pé. – Como não é nada grave eu vou sair.
–Aonde você vai? –me perguntaram os dois ao mesmo tempo.
–Eu vou atrás do Bryan. –eu disse como se fosse à coisa mais normal do mundo, e pra mim era sim.
–Mais o Bryan está...
–... Morto. Eu sei disso. –eu cortei o bom e velho Hershel. – Mais eu não vou deixa-lo se transformar em um demônio andante. Ele me confessou que não queria isso, que preferia morrer ao ter que se transformar em zumbie e eu... eu vou realizar o seu ultimo desejo querendo vocês ou não.
Eu caminhei decidida até a porta, Hershel me implorava para não ir, mais eu era imune aos seus pedidos.
–Sua febre é inofensiva desde que tratada no inicio. –ele me disse, então parei na entrada e me virei.
–O que quer dizer? Não acabou de dizer que estou com apenas trinta e nove graus? –eu disse, pois sabia que para virar um zumbie era necessário queimar a, no mínimo, quarenta e dois graus.
–Sim, eu disse. -respondeu Hershel e pondo de pé com dificuldades por causa da muleta. –Mais ambos sabemos que ela pode piorar. Olhe seu estado? Você está péssima e acabamos de perdeu um, não queremos ter que cavar outro túmulo.
Eu refleti sobre aquelas palavras. Ele tinha razão mais... e Bryan? Será que estava vagando como um deles?
– O que eu preciso fazer para que a febre abaixe? –eu perguntei.
–Eh, eu não tenho nenhum remédio aqui mais tem uma erva que é muito boa para diminuir a febre. Folha de Oliveira, porem não tenho delas aqui na horta, nem que um único ramo.
–Então não há muito que fazer por mim, não é? – eu disse irônica, pois o único argumento que me manteria presa ali, era infundado.
Daryl olhou para mim e depois para Hershel.
–Eu vou procurar essa planta. Eu a conheço e não vai ser difícil de acha-la aqui no meio da mata. –disse ele. E quando eu ia protestar ele acrescentou. –Olha, fica aqui e não faça nenhuma besteira. Deixe o Hershel cuidar de você e quando estiver melhor, eu vou com você aonde quiser ir, está bem?
Eu não acreditei em nenhuma palavra que me foi dita, mais eu faria um esforço. Eu concordei com a cabeça e Daryl assentiu satisfeito. Hershel então olhou para mim com seu olhar profissional.
–Já que foi tudo decidido, então minha cara Marry, deite-se na cama, por favor, e só saia daqui quando eu mandar.
Eu ainda relutei, não queria ficar deitada e inutilizada enquanto os outros estavam sendo uteis ao grupo. Olhei para Daryl e ele fez um gesto tipo “deita na cama logo.” E eu me arrastei para a cama e deitei.
–Se precisar de alguma coisa não levante, apenas grite e nós viremos. –disse Hershel se levantando. –Enquanto isso farei um chá para você tomar. – então saiu do quarto.
Daryl ainda ficou na porta me observando para ver se eu ia levantar e sair correndo atrás de Bryan.
–Você vai ficar bem. –disse ele como se fizesse uma promessa para mim, então se virou para sair.
–Daryl! –eu o chamei. Ele se virou para mim. –tenha cuidado.
Ele confirmou com a cabeça e saiu.
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