Juntos Enquanto Pudermos
5 Boa Noite, Daryl
Notas iniciais
Boa Noite, Daryl
–Fique longe dele. –ela me respondeu retrocedendo o corredor, desvairada. Eu fiquei ali, parada tentando assimilar o que ela havia dito. Ora, será que havia algo entre eles? Claro que não, caso contrário, porque os dois não dividiam a cela ou o tal poleiro?
Deixando Carol para segundo plano, voltei-me para o interior da cela. Era um cômodo pequeno, feito para apenas duas pessoas, havia apenas uma janela com grades na parede em frente; uma pia pequena de porcelana e uma mochila preta sobre uma pilha de pertences que acreditei serem de Daryl na parede direita; e na esquerda, estava disposto o beliche com dois colchões gastos coberto por lençóis cinza.
Aproximei-me do beliche. As duas camas estavam bagunçadas, o que dificultou saber qual seria a minha de qual era dele. Encostei-me à grade, a fim de esperar o “Senhor-Antissocial-Dixon” chegar de qualquer lugar que tenha ido. Não demorou muito e ouvi passos pelo corredor, os mesmo que ouvira lá fora quando Glenn veio a nosso encontro.
Olhei para a entrada da cela e vi sua silhueta iluminada pela luz velada. Daryl parou à porta ao me ver, talvez se perguntando o que eu fazia ali. Depois de me observar longamente, seus olhos estreitos desceram até minhas mãos que seguravam o cobertor.
–O que é isso? –ele perguntou.
–É que Carol, é... ela ... –gaguejei. Porque justo naquele momento?
Ele descontraiu e entrou na cela. –Tá, tá, tá. Já sei. –ele me cortou abanando com a mão para eu me calar como se eu fosse uma mosca particularmente grande que ele tentava espantar. –O papo de não dormir só, sei.
–Eh!- concordei enquanto ele me fitava desconfiado, como se eu fosse ataca-lo a qualquer momento. Ele sentou na cama de baixo, então supus que a minha era a de cima. Aproximei-me do beliche e, sob seu olhar sério, depositei o cobertor sobre a cama.
–Achei que não dormisse aqui. –comentei escorando-me no beliche e cruzando os braços.
–Por que diz isso? –perguntou indiferente, agora se levantando da cama e desviando os olhos para qualquer outro lugar.
–Carol me disse que você preferia um tal de poleiro.-eu disse rindo a ultima parte.
Daryl arrumou sua cama e depois começou a procurar algo na pilha de objetos que eu havia visto quando entrei, para finalmente me responder.
–Ah! Esquece isso, não dê muita atenção para o que Carol diz. – o modo como disse deixou claro para mim que ele queria encerrar aquele assunto. Observei seu rosto emoldurado em busca de sinais, mais não houve. Ele finalmente encontrou o que queria, pois puxou um pano do meio dos objetos e tirou seu colete de couro. Eu involuntariamente comecei a massagear meus pulsos que de repente começaram a doer.
–Estão doendo? –Daryl me perguntou. Então virei-me para ele e naquele momento, fui hipnotizada. Ele olhava para mim de uma maneira indefinível, não superior e debochada como antes. Mais havia algo em seu olhar que não estava lá antes. Não o vi como um trasgo arrogante e bruto. Mais sim como um ser humano igual a mim. Ele ainda estava parado sem blusa e descalço.
–Sim, um pouco. –eu sussurrei fazendo um esforço tremendo para sair de seu encanto. Não adiantou, pois ele jogou na cama a blusa que ia vestir e se aproximou de mim passo a passo. Eu ainda massageava meus pulsos quando ele tirou minhas mãos delicadamente e as substituiu pelas suas.
Como eram enormes comparadas aos meus pulsos, ásperas e calejadas. Senti-me tão, mais tão pequena naquele momento.
–Peço desculpas, não tinha a intenção de te machucar mais é que você...
–... eu o quê? –perguntei levantando o rosto para encarar seus olhos.
Daryl parecia estar tendo uma discussão interior, pois por um momento seus olhos saíram de foco.
–Nada. – ele respondeu depois de um tempo. Seus olhos voltaram ao foco e ele me encarou, olhando-me novamente com superioridade e soltou minhas mãos.
Eu me virei para o outro lado, a dor em meus pulsos havia melhorado um pouco com a massagem. Preparei-me para subir na cama. Então percebi que não tinha escada.
–Você não esta pensando que encontraria uma escada num beliche dentro de uma cela para prisioneiros da pior espécie, não é? –ouvi sua voz a traz de mim.
–Eh, você tem razão. –murmurei sem encara-lo. Senti um calor a traz de minhas costas e percebi que ele havia se aproximado.
–Vai, deixa que eu te ajudo. – disse Daryl como se fosse fazer o maior sacrifício de sua vida, se aproximando mais.
–NÃO! – eu disse me afastando, pois eu levaria a sério o “concelho” de Carol a qualquer custo. Mais confesso que temi que ele chegasse mais perto de mim, então acabei exagerando um pouco. –Não, não preciso, eu consigo sozinha. Obrigada. –eu disse tentando me retratar.
–Está bem, então. – ele respondeu se afastando com as mãos para cima em forma de rendição. –Vai lá então, manda ver.
Percebi que ele me observava, esperando minha vitória ou meu fracasso. Pousei a perna direita sobre o colchão de Daryl e me apoiei na cabeceira da cama.
–Hum-Hum. –eu pigarrei para que ele se virasse para outro lado, pois eu estava usando somente aquela camisa marrom. Ele suspirou como se fosse apenas um capricho meu e virou para o lado das grades. Dei um impulso e subi com facilidade, mesmo a cama sendo mais alta que o normal, já estava acostumada a dormir em locais altos. Ao deitar, senti meu corpo doer por inteiro e foi aí que realmente “caiu a ficha” como se diz em meu país. Fechei os olhos e ignorei os barulhos que Daryl fazia.
Então senti o beliche balançar um pouco, e percebi que Daryl havia deitado na cama de baixo. Perguntei-me o quanto do que Carol disse era verdadeiro e o quanto ela poderia ter inventado para mim. Não a culpei por ter ou não mentido e nem pelo jeito que falou comigo. O mundo estava acabando e as pessoas estavam desesperadamente tentando não ficar só. Maggie e Glenn eram um exemplo vivo disso. Eu também me sentia assim; solitária e sozinha no mundo. Sentia falta de um cafuné antes de dormir, de um abraço quente e acolhedor, de lábios macios sobre os meus e uma voz terna e apaixonada dizendo no meu ouvido que tudo ficaria bem. Mais no fundo eu sabia que não ficaria. Sabia que continuaria sozinha e criar ilusões não me manteria viva e nem resolveriam meus problemas. A luz da vela foi apagada por um sopro de Daryl.
–Boa noite, Daryl. –eu sussurrei.
–Boa noite, Marry. –ele me respondeu.
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