Julieta e Aurélio - Sintomas da Paixão
24 Capítulo 24 - Adeus
Notas iniciais
Aurélio fora atrás de Susana para tirar satisfações pelas armações, mas não a encontrava em local nenhum. Os dias passavam e seu desespero aumentava, já que se distanciava cada vez de Julieta. Ela proibiu sua entrada na fazenda. Não sentia fome, não cuidava da aparência, só pensava em fazer as pazes com a amada para poderem serem felizes.
— Pai?
— Ema, minha querida
— O que lhe aconteceu? Venha, vamos para São Paulo.
— Não posso. Julieta ela precisa de mim
— Eu já soube o que houve e posso assegurar-lhe que ela já o esqueceu. O senhor não está em posição de me retrucar
— Ema! Eu sou seu pai
— Por isso mesmo. Quero cuidar do senhor. Vamos
Ele tentou, mas Ema era teimosa como o avô e de fato o filho do Barão precisava de carinho, estava aos trapos, desse jeito como poderia se ajudar ou ajudar Julieta? Talvez outros ares o fizessem traçar um plano. Essa outra estadia não poderia fazer mais mal do que agora.
Antes de entrar na carruagem avistou Julieta com uma aparência triste como a dele. Os dois não contaram o tempo que ficaram se olhando. Para Julieta e Aurélio só eles estavam ali, não existia ninguém mais. Ela viu que provavelmente ele iria embora, pensou que seu coração fosse pular de alegria, no entanto, seu peito apertava com a possibilidade de não o ver mais nunca.
Parecia que depois de se sentir amada, ainda que falsamente, não poderia viver mais uma vida de solidão. Como se meses apagasse num piscar de olhos todos os anos, se afundava no trabalho e de nada adiantava, quando a concentração resolvia aparecer era por uns míseros minutos. Não aguentava mais pensar em Aurélio, doía demais se sentir traída, enganada e continuar gostando dele.
— Vamos pai?
Deu um vento forte, capaz de derrubar o chapéu de Julieta e fazendo-o parar justamente em frente a Aurélio. Ele prontamente o pegou, tinha a ilusão de estar com ela em seus braços como nas tantas vezes que se abraçaram ou mesmo quando ela dormia em seu peito e ele cheirava seu cabelo, aquele era seu relaxamento. Eles iriam se aproximar, mas Xavier se meteu no meio, tomando o chapéu de Aurélio, devolvendo a Rainha do Café.
— Está partindo Vale, Aurélio?
— Julieta eu... quero falar com você
— Não ouviu minha pergunta?
O amigo de Jorge continuou a ignorar
— Nós temos mais nada a falar um com o outro.
Ele tentou segurar o braço dela, na tentativa de ter quem sabe, um último contato, mas Xavier afastou o braço da mãe de Camilo para desespero e infelicidade de ambos
— Uma pena você não ficar para nosso casamento semana que vem
— Você vai ver que está agindo errado, Julieta.
Ela estava ou queria ficar muda. Por que ele insistia naquela mentira sem fundamento. Na certa iria embora para encontrar-se com Josephine. Doía ter essa dolorosa última lembrança de Aurélio já que algo em seu ser dizia que ele não voltaria e suas vidas tomariam caminhos opostos.
— Não costumo errar quando as pessoas tentam me fazer de idiota.
— Vamos, querida. Precisamos de um vestido a sua altura. Você poderia ser nosso padrinho, Aurélio
— É, então eu já deixo o meu presente para você
O homem virou de costas e em um impulso combinado com velocidade deu um gancho de direita no rosto de Xavier que foi à nocaute. Julieta tentou disfarçar a risadinha. Com um último olhar ele subiu para ir embora.
*
Jorge observou o amigo entretido numa leitura, logo Ema se juntou a ele
— Você acha que ele está superando bem?
— Minha querida, ele está conformado
— As vezes me sinto tão egoísta por estar feliz, enquanto meu pai sofre
— Eu também, mas ele não ia nos querer tristes. Como poderíamos ajuda-lo se estivéssemos do mesmo jeito que ele
— Tem razão. Vamos deixa-lo em paz
O filho do Barão finalizava o livro que continha a seguinte mensagem
“Pode escorrer pelos olhos, apertar o coração, trazer um sorriso aos lábios, vir com o cheiro ou mesmo trazer um gosto amargo, simplesmente, saudade. Engana-se quem pensa que a distância cessa a saudade daquilo que foi ou do que poderia ter sido.”
Fechou os olhos lembrando-se de alguma das inúmeras tardes em que Julieta fazia carinho nos seus cabelos, enquanto ele deitava-se no colo dela. Se perdia nos detalhes do rosto dela que parecia tão relaxado em uma conversa qualquer.
Hoje era o casamento dela, ouviu quando Elisabeta ligou avisando Ema, sua filha nem imagina que ele saiba
— Você vai ficar aí com essa cara de peixe morto?
— O que eu posso fazer, papai?
— Olha, aquela cascável não é a nora que eu pedi, mas vocês se amam de verdade, então, tome atitude alguma vez na sua vida, Aurélio. Por mais que você quebre a cara, meu filho, ao menos você terá feito algo além de ficar com esse traseiro no sofá.
— Ora papai. Eu e Julieta estamos separados para sempre. Ela não acredita em uma palavra minha.
— Se eu tivesse a segunda chance de abdicar de tudo para ficar com a mãe da sua irmã, eu teria, hoje eu só lamento o quanto eu deixei que o dinheiro, a posição social comandassem minha vida e olha o que eu ganhei hoje. Não seja um fracassado como eu, meu filho
O Barão saiu deixando Aurélio refletindo sobre suas palavras
*
Julieta parecia mais que ia para um enterro do quer ser a noiva do casamento. Claro, ela não amava o marido, ele era um ser abominável. Sequestrou Jane Benedito em troca desse casório fajuto. Tudo que ela mais queria era correr para os braços de... Não podia, havia o visto em roupas íntimas, abraçado a Josephine na cama. Preferia pegar o primeiro navio rumo a Europa
— Está linda, Julieta
— Me poupe de suas ironias e sarcasmo, Susana. Não estou com humor
Sua assistente sorria cinicamente, tudo na vingança contra Julieta corria dentro dos conformes. Havia sido uma jogada de mestre, até Petúlia reconheceu.
— Deixe-me sozinha. Nos vemos na igreja
— Não vá fugir, hein?
— Essa possibilidade não existe
Olhava seu reflexo com pesar. Todo aquele brilho havia sido apagado de uma forma brusca.
— Com licença, dona Julieta. A senhora pediu para não ser interrompida, mas é que chegou essa carta, tendo o nome ‘urgente’
(...)
Ao entrar se dá conta da presença do Juíz e de Xavier, a espera dela, das pessoas ao redor sem entenderem nada, da ausência de Camilo que estava em busca da sua esposa, Julieta sabia que seu destino seria horrendo, mas salvaria a nora e o neto. Isso era o único alívio diante de todo aquele caos. Nem Darcy com todo seu cavalheirismo inglês disfarçava a insatisfação. Xavier exibia um sorriso triunfante, o que causava náuseas em sua barriga. Esperava que tudo fosse rápido para seu sofrimento ser menos doloroso.
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