Julieta e Aurélio - Sintomas da Paixão
8 Capítulo 8 - Uma carta
Notas iniciais
Aurélio ficou do lado de fora de sua casa admirando o céu. Havia muitas batalhas a serem vencidas, mas conquistou uma vitória ao estabelecer uma “parceria” com a temida Rainha do Café. Precisava tomar as rédeas dos negócios, cansou do seu pai jogar na cara o quanto ele era um acomodado, um inútil.
Estava fazendo aquilo por ele próprio, provando a si mesmo que podia ser algo na vida. Já tinha lido alguns relatórios, livros de economia, sentia uma dificuldade e Julieta era a pessoa perfeita para sanar suas dúvidas, além da proximidade junto dela e duvidava que uma mulher forte amaria um homem acomodado, ela o inspirava de todas as formas. Queria desvendar todos os mistérios relacionados a ela
— O senhor está perdido mesmo
— Camilo?! Desculpe, estava distraído
— Não há problema.
— Como se sente?
— Confesso que estar sem trabalhar me faz um bem
— Se me permite um conselho
— Claro
— Eu já fui jovem como você e creio que temos em comum o fato da família ser afortunada, se eu pudesse voltar no tempo teria trabalhado diariamente, com afinco e quem sabe hoje não estaríamos nessa situação
O noivo de Jane percebeu sua tristeza, ficar sem trabalhar por um tempo podia ser bom, mas aquela situação não podia ser eterna.
— Sinto muito, doutor Aurélio. Pode deixar que este jovem aqui encontrará um trabalho digno. Até porque preciso cuidar do meu futuro com minha amada Jane
O pai de Ema sorriu entusiasmado. Pelo menos alguém ali era feliz no amor
— É a decisão mais sensata. Camilo, perdoe-me a indiscrição, sua mãe é tão jovem, mas dura, por quê?
— Eu nunca compreendi ela. Desde que me entendo por gente ela é daquela forma, com o passar dos anos foi piorando. Minha mãe me criou, me deu educação, mas...
— Se você não estiver confortável, vamos mudar o assunto
— Não, é bom desabafar. Ela nunca me deu amor, sempre ocupada e a uma certa distância. Para o senhor ter noção eu nem lembro a última vez em que recebi um beijo de mãe, se é que recebi
Aurélio depositou uma mão no ombro do rapaz.
— E seu pai?
— Eu mal lembro dele, morreu quando eu ainda ia fazer 3 anos.
— Meus pêsames
— Tudo bem. Eu realmente não posso dizer que sinto falta. As vezes me pego pensando se ele fosse vivo, as coisas seriam diferentes?
— Sua mãe, digo dona Julieta, nunca pensou em se casar mais uma vez?
Um surto de riso deu no jovem
— Desculpe, senhor Aurélio. Se teve algum pretendente, minha mãe tratou de espantar. Ela deixa claro que a solidão é a melhor companhia
Aurélio tinha o mesmo pensamento, quer dizer até conhecer a Rainha do Café e sentir seu coração aquecer só de estar no mesmo ambiente que ela
— Tão jovem? – Camilo o olhou com espanto – É, digo, ela não aparenta ser muito velha e solidão não faz bem a ninguém
— Dona Julieta é assim. Bom, agora tenho que ir falar com dona Ofélia
— Boa sorte
— Irei precisar. Até
Enquanto acenava, pensava nas suas descobertas sobre a empresária.
Foi até um galpão na fazenda afim de relembrar um pedaço da sua juventude. Tantos sonhos que ficaram perdidos no tempo, havia um do qual, o Barão de Ouro Verde no auge de sua soberba e arrogância foi capaz de proibir. Aurélio se deixou ser dominado pelo medo, mas agora, precisava aliviar essas emoções que invadiram mente e coração. Por isso tomara uma importante decisão.
*
— Acordo? Com o Aurélio Cavalcante?
— Está surda, Susana?
— Surpresa... Julieta, você nunca precisou desse tipo de ajuda
— Esse Xavier já me sondou e eu não gostei nem um pouco dele. É bom ter uma presença masculina por perto, ainda que seja o filho do barão. E minhas decisões não são questionáveis
— Claro... minha amiga. Tudo pelo domínio do Vale do Café
As duas brindam com a xícaras de café. A mãe de Camilo não pode deixar de lembrar das palavras de Aurélio antes de ir embora, ele havia a insultado, será que seu beijo era mesmo ruim? Por que mesmo ela se importava com o que ele achava ou deixava de achar? Devia estar feliz em ele prometer nunca mais beija-la, em não abraça-la daquela forma insolente e atrevida. Um tremor de leve passou pelo seu corpo com a lembrança daqueles braços em volta dela.
O que aquele homem estava fazendo? Seu corpo nunca teve vontade própria e agora era isso... fora os sonhos, vez ou outra Aurélio estava neles, até mesmo quando se envolvia no trabalho, a lembrança insistente do beijo permanecia lá.
*
Estimada Julieta Sampaio,
Perdoe-me chama-la assim, eu achei o segundo nome mais condizente com você, além de ser mais bonito. Recebi o documento de seus advogados, tudo conforme combinamos no nosso acordo verbal. Agradeço a discrição, pois papai não sabe de nada, este é nosso segredo. Já estão assinados, levá-los-ei pessoalmente a você, infelizmente precisarei me ausentar por alguns dias, adiando nosso encontro, peço desculpas caso a fiz esperar, não foi minha intenção, já que tudo que mais quero é desfrutar da sua companhia para as nossas “aulas”. Posso imaginar perfeitamente que por um fio não rasgou a carta sem ler, se é que não fez isso. Está em seu escritório tomando um café sem açúcar, gosta dele amargo e forte, assim como você e o sabor dos seus lábios contra os meus. Você agora encontra-se confusa, exatamente como eu me sinto desde que a conheci, antes enxergava as coisas com clareza, mas agora nada faz mais sentido. Tenha uma manhã maravilhosa, até breve.
Carinhosamente,
Aurélio Cavalcante.
Estava sem palavras diante daquela carta, ele não podia ter adivinhado tudo aquilo. Precisava ler novamente, muito embora suas palavras a envolvesse como um feitiço. Aurélio estava jogando com ela? Uma hora dizia uma coisa sobre o beijo, depois outra.
Por um instante quis cancelar aquele maldito documento, arrumar as malas e voltar para São Paulo, pois esse excesso de liberdade estava nublando seus pensamentos e suas ações, seria a decisão mais sensata a se tomar.
— Vamos Julieta, estamos atrasadas para o leilão daquela pequena fazenda
— Eu já vou
Duvidava que só os negócios a prendessem no Vale do Café. Guardou a carta, apesar de jurar que quando voltasse a rasgaria.
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