Notas iniciais
Olá, leitoras e leitores! Podia inventar mil desculpas, mas a verdade é que estava sem criatividade para desenvolver o capítulo, mas ainda bem que consegui, por isso só hoje estou postando. Espero que não tenham me abandonado rsrs. Um excelente dia e leitura para todos.

Xavier, ela gravou bem o nome do mais novo desafeto, Julieta viu nos olhos dele, sua fúria e ódio por ter perdido a venda daquela fazenda, onde o senhor estava sendo humilhado. Não se abalou, já tinha lidado com homens daquele nível, sem escrúpulos.

— Precisamos ser cautelosas com aquele senhor – Susana alertou

— Eu não tenho medo dele

Um sorriso irônico com gosto de vitória permeou os lábios da rainha do café. Aí de quem se atrevesse a interromper seu caminho

— O que foi isso, Tião?

— Temos companhia dona Susana e dona Julieta

Na estrada, o carro foi parado por homens encapuzados.

— Mas o que é isso?

— Ele não brincou com as ameaças

— Xavier?

— Quem mais, Susana? Foi a mando dele

A aparição do motoqueiro vermelho espantou os capangas, assim puderam escapar dali.

— Susana, eu vou precisar que fique atenta aos próximos leilões, pois voltarei a São Paulo. Não é bom que eu me ausente por muito tempo, volto em breve, parto hoje mesmo

— Entendido, mas não vai nem descansar?

— Não preciso disso

*

Aurélio jantava com Jorge e Amélia, apesar de sentir uma leve angústia, como se alguém que ele gostasse muito estivesse passando por algo desagradável. Havia ligado e o Barão, apesar dos dramas afirmou que estava tudo em ordem.

— Quando será o casório?

— Em breve

— Essa moça gosta de me fazer esperar

— Jorge! O que Aurélio vai pensar de mim?

— Que você está me enrolando, meu bem

Os três se divertem, embora o pai de Ema continue preocupado com aquela sensação, amanhã voltaria ao Vale do Café, estava ansioso para reencontrar Julieta. Parecia que tinham se visto há meses, os beijos trocados entre eles volta e meia apareciam na sua mente. Foram momentos especiais, pensou ao olhar o céu.

— Você vai me contar o motivo desse sorriso. Não é simplesmente por olhar a lua

— Tem razão, eu descobri o amor, meu caro Jorge

— Meus parabéns

— Ainda não há o que comemorar

— Deixa eu adivinhar, arqui-inimiga da sua família

— O destino prega cada peça

— Nesse caso, o coração

— O que você pretende fazer?

Antes de responder deu um suspiro

— Preciso conquistar a confiança dela

*

Julieta já estava em São Paulo se reunindo a fim de fazer parcerias, embora a com o pai de Darcy fosse a mais rentável. Com as ferrovias prontas no Vale permitiria o escoamento do café.

Quando tudo acabou, aguardou Tião para trazer as flores vermelhas mais espinhosas, hoje era dia de visitar o túmulo do falecido. Acatando o pedido de sua patroa para levá-la ao cemitério. No caminho um nó se fazia na garganta de Julieta, um ódio imenso tomava cada fibra do seu ser, queria gritar para todos ouvirem quem realmente era aquele porco, o mais esdruxulo dos homens.

— Chegamos dona Julieta

— Obrigada, pode ir

— A senhora tem certeza?

— Tenho sim

Ele sabia que não devia insistir, sua patroa era muito discreta, então afastou-se para lhe dar privacidade.

Finalmente estava sozinha para expressar todo seu rancor, toda sua raiva asfixiada por anos, todas as humilhações

— Espero que sua alma esteja queimando no fogo do inferno – se apoiou no túmulo tentando refrear aquela maldita sensação de impotência – Como se sente sendo um fracassado? Você merecia estar vivo para ver uma mulher reinar nos negócios, aquela a quem você dizia que só tinha sido feita para servir-lhe. Se você soubesse o nojo que eu sentia a cada toque seu, até o dia que cuspi em sua cara e levei várias bofetadas. Chegou a um ponto que de tão dormente eu não sentia mais dor, dai por diante você me torturou cada vez mais. Ainda guardo certas marcas, seu miserável incompetente. Fracassado. Continue vagando sozinho, amargando seu insucesso, sabendo do meu triunfo sobre a sua mediocridade, ser inferior.

Ela desabafava, apesar de tudo não se sentia satisfeita. Era como se estivesse acorrentada a uma âncora, um peso que inundava sua alma e principalmente seu coração.

Observando toda àquela cena incrédulo estava Aurélio. De longe havia cruzado com Julieta, por sua vez decidiu segui-la. Temia ter sido invasivo demais, agiu precipitadamente, na verdade desde que Julieta entrou na sua vida tem sido assim. Se orgulhava de ser um homem centrado, pensava até mais do que devia antes de tomar uma decisão e agora seguia um impulso sem calcular as consequências.

Isso era um momento pessoal, apesar de sentir o sofrimento da amada, pensou em dar meia volta para ir embora, mas não conseguia deixa-la abandonada, percebia sua angústia de longe, agora tinha mais certeza do que nunca, a mãe de Camilo escondia um ódio por alguém. Agora não era o momento disso, tinha que ajuda-la.

Julieta estava imersa no seu rancor, nem cogitou a possibilidade de estar sendo observada. Quem se atreveria? Ninguém lhe afrontaria a esse ponto. Pôs as rosas nos vasos enquanto cortava para deixar só os espinhos

— Pronto! Seus espinhos estão renovados, senhor Bittencourt

Por mais cuidado que tivesse havia sempre um risco de se ferir gravemente ao manusear rosas tão espinhosas, foi o que aconteceu. Ficou olhando o sangue escorrer, parecia suas lágrimas represadas por tanto tempo.

Aurélio ficou atônito, correu para socorrê-la sem nem hesitar por um segundo.

— Julieta! Você está bem?

— Eu... Eu. Como o senhor se atreve? Aí

— Vou te ajudar, quer você queira ou não

Sem tempo de reação para questionar entrou na charrete e Aurélio tinha um lenço, onde enrolou no local do ferimento para estancar o sangue ao fazer uma pressão, Julieta deu um pequeno sobressalto, ele continuou ali, fixo em cuidar dela, isso não passou despercebido pela rainha do café. Ficou admirando sua figura

— Como se sente? – seus olhos azuis mexiam tanto com ela, procurou no fundo da alma sua frieza, mas não havia um resquício dela. Com aquele olhar envolvente, amoroso, um olhar apaixonado estava no caminho da perdição

— Está melhorando

— Venha, nós chegamos

Ela sentou no sofá da casa de Jorge enquanto Aurélio trazia uma caixinha com gases, antisséptico.

Se sentou ao seu lado, ela estendeu-lhe o pulso direito, o pai de Ema retirou a luva delicadamente, o movimento não tinha nada demais, mas deixou um rastro de calor devido ao contato. Apenas sua mãe tinha cuidado dela com tanto afeto, agora isso veio de quem ela nunca esperaria, um homem.

O pai de Ema sabia que estava sendo observado. Não se importava, queria ajudar Julieta, sentia uma vontade de não deixar nada de ruim acontecer a ela. Quando sua vista alcançou a dela vislumbrou um pequeno sorriso que logo ela fez questão de esconder

— Pronto. Está sentindo alguma dor?

— Estou bem, aliás nem precisava disso tudo

— Podia ao menos agradecer, não arranca pedaço não e fique a senhora sabendo que eu teria feito isso por qualquer um

— O senhor invade minha privacidade e acha que devo agradecê-lo? – precisava brigar era a única maneira de mantê-lo longe. Ele tinha que odia-la

— A senhora não sabe o que é sentir preocupação com quem se ama. Foi isso que fiz, mas a autossuficiente não aceita ser ajudada. Quando é que você vai entender que eu só quero seu bem estar?

Se aproximou dela sustentando o olhar. Aquela mulher tinha o poder de hipnotiza-lo, como se mesmo sem falar ela o atraísse para si, tal qual um canto da sereia. Não resistiu em acariciar seu rosto, fechou os olhos, totalmente aberta a receber o carinho genuíno.

Ela cobriu sua mão na dele, Aurélio quase chorou de emoção, era um momento de confiança entre os dois, sem palavras, sem reservas, sem o mundo lá fora. Sentiu seu aperto. Logo Julieta se afastou bruscamente, o deixando desnorteado, mais uma vez ela fugia. Ao chegar na porta de costas, deixando o filho de Afrânio cabisbaixo

— Obrigada, Aurélio

Dessa vez foi embora deixando uma parte de si com ele e levando uma também. De novo Julieta tinha a capacidade de fazer o coração de Aurélio, mesmo sem saber, encher-se de esperança.

Notas finais
Continua...