Julieta e Aurélio - Sintomas da Paixão
16 Capítulo 16 - Ruptura II
Notas iniciais

— Eu vou te contar e você deixará de me amar em dois segundos. Toda a sujeira e podridão do meu passado. Eu não aguento mais manter isso comigo, me faz mal
Sabia que ao contar Aurélio não acreditaria nela. Provavelmente ficaria a favor do marido. Mesmo estando “preparada” para isso, devido aos seus pais terem posto a culpa nela, sofreria muito por ele se mostrar podre como outros homens.
— Julieta, não precisa falar se não quiser, eu respeito seu tempo
— Só que eu preciso, você entende? – ele acenou afirmativamente – Eu era uma jovem cheia de sonhos, criada livremente, até que meus pais estavam endividados e precisavam que a filha se casasse com um homem de posses. Osório, 30 anos mais velho que eu, se mostrou disponível a casar-se, só que eu não queria. Noivamos e eu estava planejando minha fuga, ele descobriu e ficou zangado, a noite ele... – respirou fundo, reviver aquelas memórias eram uma tortura. Tremia ao projetar as palavras em sua mente – me forçou a deitar com ele. Ainda tive que passar por outra humilhação, minha família achou que eu era uma perdida, ninguém nunca acreditou na minha palavra. O jeito foi apressar o casamento, logo em seguida estava grávida e sabia que havia sido naquela noite, onde se talvez eu tivesse ficado em casa nunca acontecesse...
Enquanto cuspia as palavras através do desabafo, chorava, sentia raiva, ódio e um peso do seu coração era retirado. Não conseguia reparar nas expressões dele.
— Julieta, a culpa nunca é da vítima. Você era uma menina inocente que pensou em fugir, ele foi um crápula, um miserável – deu um murro na mesa, rachando o vidro. Quisera Aurélio que esse homem estivesse vivo para tortura-lo até a morte. Ficou vermelho de raiva e nojo – Eu sinto muito por tudo que passou... as minhas palavras infelizmente nunca vão apagar tudo o que você passou. Graças a deus, acabou.
Ele processava a partir de agora, o porquê de Julieta ser daquele jeito. Tão fechada, escondia seus sentimentos, o difícil jeito dela se expressar, sua tristeza. Fazia todo o sentido do mundo. A cada vez a amava mais ainda.
— Espera, você acredita em mim?
— Claro que sim, por que eu não haveria de acreditar?
— É a primeira e única pessoa que acredita em mim. Isso quer dizer...
— Que eu te amo mais ainda. Por cristo, Julieta! Esse homem foi um monstro e você passou por tudo isso sozinha, sem ninguém. Me faz ter vergonha de mim mesmo por não reagir contra meu pai. Eu te admiro tanto
— Me sinto aliviada em contar isso sem ser execrada. Você vê que não podemos ficar juntos...
— É isso que você quer? Porque de minha parte, eu não quero sair do seu lado
— Aurélio, não tem cabimento... nós dois. Eu nunca estarei inteira para você, tenho meus traumas, meus demônios...
— Eu sei, mas eu não tenho medo de enfrentar tudo isso ao seu lado. Olha o seu progresso, Julieta. Se chegou até aqui, poderá ir mais adiante. Não me coloque para fora da sua vida
— E se eu nunca conseguir estar pronta? – ele entendeu ao que ela se referia
— O que eu tenho de você já me faz feliz. Porque fico com seu beijo, com seu cheiro, com esse seu olhar doce que me faz ser um homem melhor e com mais sede de viver.
— Eu não sei o que dizer
— Não diga nada, apenas me deixe te abraçar
E ela assim consentiu, deitando a cabeça no peito dele, enquanto ele acarinhava seus cabelos e o beijava.
— Não desista de nós
— Eu não vou
Um peso havia saído de seu coração ao contar tudo aquilo para Aurélio. Se sentia cada vez mais ligada a ele, seu apoio era essencial e aquelas declarações simplesmente a derretiam. Ele era tão determinado e persuasivo que destruía qualquer certeza dela. Estava cansada demais para resistir aquele cuidado.
Uma ruptura com aquele passado começou quando ela o conheceu, mas hoje havia dado o passo mais importante para aquela libertação. Naquela noite ele ficou velando seu sono, pela manhã ela acordou diferente. Lembrou dos momentos em que Aurélio ficou ao seu lado, agora sem reservas tinha certeza de que ele não seria um Bittencourt da vida. Virou para o seu lado direito e o viu naquela desconfortável poltrona.
Aurélio Cavalcante é o homem da minha vida— Pensar aquilo era tão fácil
O despertou com um beijo na bochecha. Suas manhãs sempre tão sombrias pareciam ganhar um novo sentido ao ver aquele sorriso e os olhos da cor do céu. Podia ser um sonho, mas se fosse não queria acordar.
— Bom dia! Se sente melhor?
— Por incrível que pareça sim.
Eles ficaram se olhando por um tempo
— Bom, eu vou para o outro cômodo
— Aurélio?!
— Sim
— Obrigada, por tudo – ele sorriu feliz
Aurélio foi até a rua mais próxima e comprou um belo buquê de rosas vermelhas. Ela ainda estava no banho quando ele deixou-as em sua cama.
Julieta se olhava no espelho não se reconhecendo de luto. Por que estava de preto? Pelo ex marido não era, por ela sim, mas podia renascer, sentir-se viva novamente. Foi até um baú, onde guardava vestidos de outras cores, em suas viagens sempre que gostava de um modelo encomendava secretamente para pelo menos se imaginar nele. Virou para a cama e viu as rosas junto do cartão
A cada dia eu sou um homem melhor por você. Obrigado
Com todo meu amor, Aurélio.
Não conseguia não tirar o sorriso do rosto. Respirou fundo na tentativa de se recompor. Sua transformação deu-se início
*
— Matilde, Julieta está demorando, não seria o caso de ir lá em cima?
— Ela pediu para não ser incomodada, senhor Aurélio.
Isso era estranho. Resolveu respeitar a vontade dela. Começou a ler um livro e findou adormecendo, a noite mais observava a amada do que dormia. Algum tempo se passou e Julieta surgiu descendo a escada exuberante. Foi chegando mais perto do sofá, onde ele permanecia relaxado.
Era uma visão bonita, ficou com pena de acorda-lo, mas o destino quis mesmo assim e foi abrindo os olhos lentamente. Quando aos poucos sua consciência tomou forma, ele a observava com encanto. Até se engasgou na hora de falar, uma luz iluminava seu rosto, o vestido... o cabelo solto tão lindo quanto ele imaginou
— Você conseguiu ficar ainda mais linda
A intensidade daquele olhar e das palavras faziam suas pernas ficarem bambas. Para sua surpresa, Aurélio a puxou, fazendo-a cair em seu colo
Preciso desesperadamente de um beijo dessa mulher — não se importava com a falta de modos, só alisou aquele rosto delicado e tomou os lábios dela sem medo de ser feliz. Julieta agradecia mentalmente por ele segura-la ou se não cairia, o beijo cheio de paixão a deixou completamente desnorteada, quase choramingou por ele ter interrompido bruscamente
— Julieta, me desculpe. Eu não sei o que deu em mim – ela começou a rir compulsivamente enquanto se ajeitava no sofá – Falo isso e você rir
— Antes, preciso dizer que as rosas são lindas
— Não mais que a dona delas
— Continuando meu raciocínio – era impossível ficar séria diante daqueles flertes – E eu iria dizer que não precisava se desculpar, porque eu estava gostando
Aurélio no momento ficou chocada, mas gostou de saber daquilo e então se aproximou
— Essa mudança lhe fez muito bem – ela mexeu nos cabelos dele
— Eu acho que devíamos almoçar, já passa da hora – a sala parecia ter uns 40 graus célsius. – Vamos?
— Sim – se ele ficou frustrado disfarçou bem, pois Julieta não percebeu.
Ao terminarem a refeição, ela resolveu tocar piano, coincidentemente tocou uma que o fez lembrar de Ema, a jovem adorava tocar para o pai e o avô. Os dois ficaram assim por toda aquela tarde, sem dúvida inesquecível.
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