Julieta e Aurélio - Sintomas da Paixão
17 Capítulo 17 - As ruínas
Notas iniciais
— Camilo?!
— Eu quero ter nossa conversa, sei que já fazem três meses da sua visita ao cortiço
— Não tem problema. Sente-se, meu filho
— Eu venho me preparando há muito tempo para essa conversa
— Se você acha que eu vou voltar a acatar tudo que você faz, da mesma forma que antes, não será assim
— Me escute. Eu sei que nossas diferenças não são de agora, você sempre se perguntou o porquê de eu rejeitar o nosso toque não é?
— Eu nunca entendi, mas respeitei sua vontade. Não foi para isso que vim aqui
— Só que precisamos tocar nesse ponto para aí podermos contornar nossos outros problemas
— O que você quer me dizer?
— Isso envolve seu pai
— Você nunca me falou dele
— Porque eu quis te proteger. Não sei se está preparado para ouvir tudo. Camilo, você é muito sensível
— Eu sou um homem feito. Diga logo de uma vez
Julieta foi reunindo coragem para contar ao filho, a forma monstruosa em como ele foi concebido. Camilo não acreditou, era chocante demais. A bem verdade era que a empresária já esperava essa possível reação.
Ao anoitecer Aurélio e Julieta jantavam na fazenda sem ninguém para os interromper.
— Como foi?
— Péssimo, o que eu temia, aconteceu. Ele não acreditou
— Mas ele te ofendeu?
— Não, ficou em estado de choque e saiu – o pai de Ema pôs sua mão em cima da dela
— Ele vai cair em si
— Bom, vamos mudar de assunto, já pensei nisso o dia todo. E Ema?
— Ela está ótima, muito bom ver minha filha independente, se sustentando. Ela nos fará uma visita, meu pai vai ficar muito feliz
— Foi ótimo você ter se resolvido com ela
— Graças a você
— Não fiz nada demais. Só te incentivei
— Eram as palavras que eu precisava ouvir. Por isso um brinde
— A que?
— A nós, a nossa felicidade
— Ao nosso amor
Eles brindam e se aproximam sorrindo um para o outro antes do beijinho rápido.
— A chegada da mãe de Rômulo tumultuou a cidade
— É verdade, não sei se foi pela falsa morte ou pela beleza dela – Julieta arqueou a sobrancelha esquerda
— Nem reparei – deu uma garfada na carne
— Sei... bem
— O que foi?
— Fale a verdade
— Tá bom, ela é bonita
— Sabia
— Você não me deixou terminar o raciocínio, oras. Eu falei que ela é bonita, mas uma beleza totalmente desinteressante – Julieta segurava o sorriso jocoso – bem diferente de você
— Presta bem atenção. Esse é irmão desse viu, senhor Cavalcante?
— Não sabia que era ciumenta
— Eeeu? Desconheço esse sentimento
— Pois eu morro de ciúmes de você
— Ah isso é porque você é antiquado, Aurélio. O que foi? Está me olhando, por quê? – falava em meio a risadas
— Não posso admira-la?
— Esse jantar está uma delícia... você não acha?
— Está sim, mas... deixe-me chegar mais perto – ele se aproximou de seu ouvido – Tenho vontade de...
Petúlia adentrou na sala, onde ocorria a refeição, interrompendo o momento.
*
Há um tempo, Aurélio havia achado um local em ruínas, nas suas cavalgadas pelo Vale do Café. Aos poucos tornou o ambiente menos rústico e mais aconchegante, principalmente por ter planos de levar sua amada até lá.
— Onde está Susana?
— Ela saiu sem dizer para onde ia – a empregada disfarçou o nervosismo
— Está bem, continuarei lendo os relatórios. Pode ir
— Com licença
As horas passaram, Aurélio finalmente podia sair do trabalho. Mal escondia o sorriso travesso, além do seu coração bater mais forte na expectativa de ver Julieta, embora se vissem com frequência, aquela sensação nunca o deixava.
— Senhor Aurélio por aqui?
— Olá Petúlia – beijou a mão da empregada – O que acha de tirar o resto do dia de folga?
— Eu preciso mesmo, iria me encontrar com um jov... quer dizer, dona Julieta não permitiria.
— Pode ir, eu já conversei com ela,
— Mas o senhor acabou de entrar
— Confie em mim, hum?
— Quem resiste a esses olhos? Já estou indo
Caminhou até o escritório, de longe podia ver a ruguinha no rosto de Julieta, denunciando a sua imersão nos negócios. Deu duas batidas na coluna, ao perceber ela sorriu discretamente, retirando o óculos
— Você por aqui tão cedo
— Vim rapta-la
Sua mão segura a dela. Se aproxima capturando os lábios, a surpresa do movimento fez as pernas da empresária fraquejarem.
— Posso saber onde será meu cativeiro?
Ainda estavam próximos, o rosto dele procurava sentir a macieza daqueles cabelos. Julieta fechava os olhos, esquecendo o mundo a sua volta e Aurélio quase abandonara a ideia inicial para ficar aqui, porém sua determinação, não permitiu.
— É surpresa, mas me ajude a montar nossa cesta.
Os negócios podiam esperar.
— Me ajuda
— Calma. Se apoia em mim e mantenha os olhos fechados
Ele a guiou até ficar em frente às ruínas
— Pode abrir
Seguiu para dentro, observando algumas coisas trazidas por ele ao local
— Um cantinho nosso. Eu adorei, Aurélio.
— Eu adoro ter você comigo
A abraçou por trás, por sua vez ela inclinou o pescoço para o lado permitindo que ele beijasse. Aquele cavanhaque espetava a pele exposta, mas aquilo agradava-lhe muito
— Não seja abusado – falou de forma brincalhona
— Tudo bem, me comportarei não sei por quanto tempo – ele lhe deu aquele olhar provocador
Não era de hoje que sentia desejo de se entregar a ele, depois que contou do seu passado e Aurélio compreendeu, estava muito mais ligada a ele, as afinidades também eram inegáveis, não eram estranhos, se conheciam muito bem. O homem sabia encantar, não parava nunca de corteja-la, sentia-se a mulher mais especial e amada do mundo, tanto que se culpava por achar que não dava segurança a respeito da relação entre os dois.
— Deixe-me arrumar
— Está bem, minha querida
Tudo havia ficado pronto, conversavam enquanto comiam os quitutes.
— O que será que era aqui? – ele perguntou no momento que Julieta entregava-lhe uma uva em sua boca
— Pelas fundações parece ter sido um casarão
— A ação do tempo... – se distraiu ao olhar Julieta se deliciar com um morango melado no chocolate
— Continue
— Estava falando o que, mesmo? Acabou fazendo isso, deteriorou a casa
— Esse morango está maravilhoso
— Quem diria que a temida rainha do café se desmancha por um morango com chocolate
— Você não vai comer nenhum. E não adianta fazer beicinho
— Só um, por favor? – ela sorri
Os dois se perdem em pensamentos quando observam um ao outro
— Está sujo no canto da boca
Ela iria passar o dedo para limpar, mas preferiu fazer melhor. Beijou o local, passando a língua, Aurélio não conseguia mais refrear seus impulsos diante daquilo. Puxou a nuca dela para um beijo ardente, os dois arfavam. Seus dedos traçavam o contorno dos lábios dela de maneira provocativa. Por sua vez, ela alisa os cabelos dele, descendo pelo rosto. Ambos encostam as testas uma na outra. Julieta encosta o nariz na bochecha direita dele, fazendo um rastro de beijos
— Obrigada por não ter desistido de mim, meu amor
As mãos da rainha foram até o rosto do homem de sua vida, enquanto Aurélio fechava as dele na cintura de Julieta. O carinho foi ficando mais quente, a volúpia mais evidente a cada minuto. Ela o empurrou rumo ao chão, só que ele escutou um barulho
— Eu acho bom a gente voltar. Ouvi um barulho, não quero pôr você em risco
Ela mal conseguiu disfarçar a decepção
— Tem razão. Vamos
No caminho um temporal se formava. A qualquer instante cairia, Aurélio esperava que isso acontecesse, afim de apagar a brasa do seu corpo em ter Julieta tão próxima, se ela queria enlouquecê-lo com aqueles beijos, conseguiu. Buscava na sua alma algum resquício de controle. Resistir ao que estavam fazendo fora uma das decisões mais difíceis que já tomou. Pensou positivamente: tudo tem a hora certa para ocorrer.
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