João e Maria
6 Ficar com você
'Você tá considerando?' João se levantou com as duas mãos na cabeça. 'Ah não, antes eu tava de sacanagem mas aquele lutador te drogou, mãe, só pode!'
'João, por favor, para de besteira!' Ela olhou para o filho e respirou fundo. 'Lógico que eu não vou te deixar sozinho…'
'Ufa! Achei que você tinha pirado de vez, dona Dandara…'
'Filhote, vai tirar a sua temperatura antes que eu realmente pire, pode ser?'
'Ah, mas sabe o que é? É que eu estou meio morto, meu corpo tá doendo todo…' O dengo do menino sempre amolecia o coração da mãe.
'Ai, meu filho…' Ela falava com voz de como se fala com bebês e abraçava o menino dando beijos em sua cabeça. 'Tudo bem, deixa que eu cuido do meu filhote! O que você quer? Quer água? Tá com dor na garganta, onde mais?' Ela continuava questionando-o e enchendo-o de carinho. Ele fingia que não gostava.
'Ai, mãe, eu já to quente o suficiente sem esse agarramento todo.'
Ela riu de leve e se levantou a fim de pegar um termometro pro menino. 'Só preciso arranjar um jeito de avisar o Gael…' pensou. '…Aonde que eu coloquei esse telefone?! Droga...'
'João,' ela se virou da entrada do corredor 'Tem certeza que você não pegou meu celular? Se tiver é melhor você falar agora—'
'Oi? Como assim, mãe, por que é que eu ia querer seu celular? Pra ficar vendo as mensagens que o Gael e o meu pai te mandam?'
Dandara sorriu com o menino se referindo a René como pai, mas seus pensamentos ainda estavam em Gael. Se ao menos ela tivesse o telefone dele anotado em algum lugar… Agora com agenda digital eram poucos os números que ela sabia de cor, somente aqueles que ela conhecia desde antes de ter celular…
Foi então que uma ideia lhe ocorreu. Será? Dandara considerou e entrou para o quarto, pegando o telefone fixo e começando a discar.
Gael olhava o relógio de seu aparelho celular. Nove e vinte e cinco. O cd que havia colocado para tocar já estava no meio, e Gael estava sentado na beira da poltrona, cantarolando, tentando conter sua ansiedade. Ele havia calculado o tempo das faixas para tocar Valsinha quando ela estivesse preparando o jantar, mas a música acabara de terminar e nenhuma notícia da morena. Será que ela havia desistido?
'Paizinho!' Ele ouviu Bianca gritar antes de surgir, apressada, de dentro do quarto. 'Desculpa o atraso! Já to saindo, tá? Deixa eu só te dar um beijo!'
'Tudo bem,' ele deu de ombros enquanto Bianca se aproximava. 'to achando que ela não vai vir mesmo…'
'Quanto desanimo, homem! Ela tá só um pouquinho atrasada! Aposto que ela está se embelezando pra você!'
'Não sei pra quê vocês ficam horas se arrumando… Já são maravilhosas sem nenhum esforço…'
Bianca riu e deu um beijo na bochecha do pai.
'É só pra deixar vocês assim, nervosos! Mas relaxa, que ela já já chega aí. Beijo, pai, to indo!'
A menina já estava na porta quando Gael a chamou de volta.
'Bi…'
'Oi!'
'Volta o cd, por favor? Do início.'
**
'Você só pode estar brincando.' Exclamou João com enorme descontentamento.
'Claro que não, João, qual é o problema?'
'Mãe, eu já estou doente, não preciso de mais um castigo!' Dandara revirou os olhos, rindo, aliviada.
'Ih, filhote, nem adianta vir com esse pseudo mau humor que eu sei que você está adorando passar mais tempo com o seu pai…'
'Pode até ser, mas não hoje. Hoje eu quero a minha mãe.'
'Mas hoje a sua mãe tem compromisso.'
'Não acredito que você pediu pro René vir cuidar do seu filho enquanto você vai sair pra pegar outro! Eu sabia que tu era moderninha, mas nem tanto!'
'João… Você tá com sorte de estar doente, só te digo isso! Vou lá fazer alguma coisa pra você comer antes que eu perca a paciência!'
O relógio da cozinha marcava às horas… Ela já estava bastante atrasada. Até René chegar, estaria tarde. Será que Gael ainda estaria esperando por ela? Se ao menos ela encontrasse o telefone para avisá-lo… E agora ainda tinha a situação com René para se preocupar.
Quando fez a ligação ela não pensou no René que estava tentando reconquistá-la e sim no pai de seu filho, que tinha obrigação de ajudá-la com o menino… Com a água fervendo para fazer uma sopa, Dandara apoiou-se na parede e levou uma mão à testa… 'Ai meu Deus…' pensou, 'O que é que eu estou fazendo, hein…'
'Ela não vem.' Gael estava de pé podando seus bonsais. Já não havia mais o que cortar, mas ele seguia conversando com as pequenas árvores. 'Ela não vem, e nem pensou em ligar par avisar. Mas eu sou assim tão desimportante pra ela? Ou será que foi aquele mala do René Spinelli que apareceu com outros planos e ela não conseguiu negar?' Ai que raiva de pensar em Dandara com René enquanto ele a esperava com planos para um jantar… 'Como assim e se tiver acontecido alguma coisa?' Ele continuou a conversar consigo mesmo. 'Se tivesse acontecido ela teria avisado. Não? Vocês acham que eu tenho que ligar pra ela? Stallone, se você fala eu tenho que obedecer, mas ela queria ir com calma, se eu ficar ligando vai mostrar que eu estou é muito nervoso com tudo isso… É, tem razão, se eu não ligar e tiver acontecido alguma coisa…Droga, vou ligar.' E buscou em seu celular o contato de Dandara.
Na casa de Dandara, entre as almofadas do sofá o celular voltou a tremer e João deixou escapar uma exclamação de susto.
'O que houve, meu filho?' Dandara vinha preocupada da cozinha com um prato fundo na mão. 'Tá tudo bem? Teve um arrepio?'
'Arrepio? É! Foi isso mesmo, um calafrio!' João desconversou, fazendo questão de forçar uma tosse para que a mãe não escutasse o barulho do vibrar do celular. Preocupada, Dandara servia uma água para ajudar com a tosse do menino quando a campainha tocou.
'Eu ainda não acredito que você ligou mesmo pra ele...' Constatou João. 'Nem eu', pensou Dandara enquanto abria a porta.
'Foi daqui que ligaram pedindo ajuda?'
'Não, foi engano.'
'João!' Dandara repreendeu o filho, e, voltando-se a René, adicionou 'Que bom que você veio, René. O João está febril e delirando ainda mais do que o normal!' Ela brincou e arrancou uma risada de René. João permanecia se revirando no sofá abafando o som do telefone.
'O que é que você tem, filho, tá cocando?'
'É, tá coçando, tá doendo, tá arrepiando… Ta tudo.'
René olhou para Dandara e ela revirou os olhos. Ele sorriu de leve e foi até ela.
'Fiquei muito feliz que você tenha me ligado para ajudar com o João…'
'Ah, que isso, René, você é pai, né? E agora que está mais perto… Acho que serve pra isso, né?'
Ele a olhou de cima a baixo reparando na produção.
'Pra te ajudar também... Você... Você disse que tinha um compromisso... Eu posso saber o que é?'
Dandara lancou um olhar na direção de João que observava os dois atentamente.
'Claro, pode sim, só… Vem aqui na cozinha que eu terminei de serviu uma sopa pro João, mas já está fria, tenho que aquecer de novo e—' Ele segurou seu pulso ao chegarem na porta.
'Você vai encontrar o Gael, não é?' Ele perguntava, mas já sabia a resposta. Dandara encarou o chão antes de respondê-lo.
'Vou.'
'Eu imaginei… Na verdade eu vi vocês entrando juntos na Ribalta, mais cedo…'
'René, eu sempre te falei que estava muito confusa… Eu gosto da ideia de ter a família que a gente nunca teve… Mas ao mesmo tempo eu ainda sinto alguma coisa pelo Gael… Eu acho que eu estou querendo descobrir o que é isso, antes de entrar de cabeça no que quer que seja.'
René assentiu.
'Eu acho ótimo.' Ela o olhou, confusa. 'Sabe, Dandara, da pra ver que vocês se gostam ainda... E não vou dizer que eu gosto disso, não é isso, mas é melhor que você tente descobrir o que é isso ao invés de ficar se enganando e me enganando...'
'Você mudou mesmo, né, René?'
'Eu ainda acho que a gente tem futuro, Dandara… Mas eu já errei com você e não posso te pedir uma segunda chance sem deixar que você também tenha a sua… Mesmo que não seja comigo.'
Ela sorriu pra ele e ele retribuiu, sincero.
'Muito obrigada, René… Significa muito… Seguimos então como amigos… E pais.'
'E pais… Vai, me fala logo para não te atrasar, o que é que o João tem e o que eu tenho que fazer?'
Pouco passava da meia noite quando Dandara finalmente chegara à porta de Gael. Todo o cuidado que ela havia tido para se arrumar já havia se perdido. Ela soltou o cabelo, que havia ficado preso num coque enquanto cozinhava e ajeitou sua blusa, que a essa altura já estava um pouco amarrotada.
Torcendo para que ele não estivesse dormindo, tocou a campainha. Nada aconteceu. Tentou mais uma e outra vez. Nada. Sem saber o que fazer, Dandara se encostou na parede, derrotada. Pensava no que fazer em seguida quando ouviu barulho de chave na porta e um resmungo baixo de Gael.
'Bianca, pelo amor de Deus, você precisa aprender a parar de esquecer as chaves,' abrindo a porta esfregando os olhos de sono, Gael continuava o sermão 'você me acordou e quase acordou sua irmã—'
'Boa noite, Gael.' Ela sorriu, sua voz despertando-o de vez.
'Dandara? Será que eu estou sonhando?'
Ela sorria, sincera, e ele esticou uma mão convidando-a para entrar.
'Me desculpe ter atrasado, não ter te avisado… É que eu perdi o celular, não tinha o seu número... O João está febril…'
'O João?'
'É, eu descobri estava quase saindo aí tive que arrumar tudo pra ele, e…'
Ela não conseguia se expressar direito. Estava ansiosa para aquele encontro desde a manhã na fábrica. Ficara imaginando como seria uma reaproximação planejada do lutador… Eles já haviam se beijado outras vezes desde o término, mas nada premeditado. Dessa vez ela estava entrando o apartamento dele e já passava da meia noite. Ela sabia o que queria e a expectativa a estremecia.
'Dandara,' Gael passou uma mão pelos cabelos dela, compreensivo. 'se você quiser voltar e ficar com o João,—'
'Não, Gael,' ela o interrompeu 'hoje eu quero ficar com você.'
Ele abriu um sorriso enorme e puxou-a para si pela cintura.
'Me desculpe também, eu não aguentei de fome e acabei jantando…' Ele riu de leve e ela abriu um sorriso maior ainda.
'Não tem problema.' Ela o desculpou passando os braços pelo pescoço dele. 'Eu estava mais interessada na sobremesa mesmo…' E o enlaçou num beijo cheio de saudades.
Fale com o autor