Dandara estava debruçada no mezanino da sala dos professores espiando a academia de lutas. Era o segundo dia que ela procurava o professor de Muay Thai e não encontrava-o. Estava começando a ter certeza de que ele a evitava. Ela, por sua vez, não aguentava mais aquela distância… Estava com saudades, queria ao menos vê-lo de longe… Mas ele não estava dando aula, Duca o estava substituindo... Dandara acompanhava os movimentos de Duca, que parecia seguir até o banheiro, quando ouviu chamarem seu nome.

'Dandara?' René terminava de subir as escadas da escola de artes. Ele estava ofegante. O sorriso de Dandara logo se desfez e sua testa franziu, curiosa.

'René?! Tudo bem com você? Nossa! O que foi que aconteceu? Tá ofegante… Tá suado!' Ela se aproximara e levou a mão de leve ao rosto dele. 'Tava malhando?' E sorriu descrente.

'Não é nada...' Ele sacudiu a cabeça querendo desconversar e manter aquele sorriso no rosto dela o máximo que ele conseguisse. 'Só to muito fora de forma... Subir essa escada já está virando um exercício e tanto!' Ele deu um sorriso amarelo e Dandara arqueou a sobrancelha sem acreditar muito.

'Só isso, René?' Ela deu uma risada de leve, e acusou em tom de brincadeira 'Mas então você está precisando fazer um exercício… Por que não entra para um esporte, se alimenta melhor… Tem Muay Thai aqui embaixo!' Ela indicou com a cabeça, dando um riso que estendia por todo o corpo dele.

'Também não é pra tanto, né, Dandara?' Ele riu da ideia 'Devem ser sinais da idade, mesmo… Já não sou aquele mesmo galã de antes, né? To envelhecendo…' Dandara revira os olhos imediatamente e lhe dá um tapa de leve no braço.

'Você, René? Tá ficando velho? E o que é que isso faz de mim, hein?'

'Uma mulher na melhor idade!' Ele se aproxima cheio de charme e ela sorri escondendo a cabeça no ombro.

'Sabe, Dandara, eu tava pensando… Você tem razão, eu estou mesmo precisando me alimentar melhor... Você me acompanha numa refeição saudável no Perfeitão?' Dandara ponderou olhando novamente em direção à academia. 'Vamos... É só um almoço.' Ele insistiu e ela arqueou a sobrancelha pra ele, considerando.

'Olha, René, eu não quero que você confunda as coisas... Já basta eu, que ainda sou um poço de confusão…'

um almoço, Dandara.' Ele a olhava com um sorriso de bom moço e após uma breve pausa ela assentiu, ainda que um pouco sem graça.

'Ok. Vamos sim, deixa só eu pegar minha bolsa...' e lançou novamente o olhar em direção à academia, mas não foi até chegar ao fim da escada que avistou o que procurava. A porta do vestiário masculino se abriu num estrondo e os dois se viraram em tempo de ver Gael saindo, irritado, com Duca ao seu encalço. Ao avistar René com Dandara, Gael murmurou pra si 'Ai, meus sais! Hoje não é meu dia…'

'Calma, Mestre, não vai perder a razão…' Duca aconselhou antes de se retirar em direção à academia. Gael assentiu e levantou a mão dando um tímido tchau à Dandara e seguindo Duca. Ela estava prestes a retribuir quando reparou em sua mão direita, coberta por um papel sujo de sangue. Sem hesitar, Dandara apertou o passo e se aproximou do lutador.

'Gael!' Exclamou surpresa segurando a mão dele e removendo as folhas de papel sujas de sangue. 'Sua mão! Mas o que é que foi isso?'

Gael lançou um olhar a René e de volta à Dandara. Ela o seguiu com os olhos sem muito entender.

'Não foi nada…' Ele desconversou. 'Mesmo,' Gael garantiu ao ver a sobrancelha arqueada dela. 'Foi um excesso de socos... Isso acontece... Mas se for pra ganhar uma enfermeira como você…' seguiu, charmoso. 'Aí a história muda… Eu posso dizer até que estou precisando de pontos.' Ela desviou o olhar escondendo a cabeça no ombro e disfarçando um sorriso encabulado.

Durante alguns segundos os olhares dos dois se cruzaram e Dandara sentiu uma eletricidade descer por seu corpo inteiro. Uma força magnética a puxava para perto dele e ela deu curtos passos em direção a ele sem reparar. A mão machucada de Gael permanecia levantada, esperando o amparo das mãos de Dandara. Por um breve instante, Gael desviou o olhar para René e sorriu triunfante. Dandara reparou mais uma vez e balançou a cabeça, assumindo sua confusão.

'Bom, Gael, já que está tudo bem eu…' As palavras tinham dificuldade em se formar. Ali, encarando o lutador, ela já não tinha mais certeza sobre seu encontro com René. Ele permanecia a uma distância, esperando-a. 'Eu tenho que ir, Gael… Já estava mesmo indo almoçar, e…'

'Quer ir almoçar comigo?'

Ela sorriu e em seu olhar Gael reconheceu um pouco de pena. Como quando ela negou seu primeiro convite para jantarem juntos… Mas mais uma vez o que ela sentia era culpa de não poder aceitar o convite.

'Poxa... Eu eu não vou poder, Gael… Combinei de almoçar com o René hoje—'

'Ah, claro! Que ótimo! Não perde tempo, hein, René Spinelli?' Exclamou Gael em direção a René, sem se conter.

'Mas você pode ir com a gente, eu acho. Tudo bem, não é, René?' E virou-se chamando o galã para se aproximar.

Gael cruzou os braços, contendo-se.

'Oi Dandara,' René estendeu uma mão para amparar a cintura dela, mas Dandara deu um passo a frente, evitando o contato. 'O que houve?' René perguntou, frustrado.

'Tudo bem o Gael almoçar com a gente, né?'

René lançou um olhar apavorado em direção a Gael que já estava no meio da frase.

'Sabe o que é, Dandara? Fica pra próxima, eu ainda tenho que passar um treino novo pros meninos, tem um campeonato aí na frente…'

'Ah, que pena,' sua decepção era sincera, mas ao mesmo tempo o alívio de não ter de encarar os dois homens responsáveis pela sua confusão num mesmo almoço a preenchia. 'Uma próxima vez, então?'

Silêncio.

'Bem,' ela segurou novamente a mão de Gael. 'dá uma olhada nesse machucado, tá?' E sem perceber, começou a acariciar a mão do lutador.

'Com um pedido desses… Dá pra resistir?'

Ela sorriu, boba.

'E vê se toma mais cuidado, tá?' Ela era gentil e preocupada.

'Pode deixar, Dandara. Eu não terei mais problemas se algumas pessoas aprenderem o seu devido lugar.' E brevemente encarou René, logo voltando sua atenção para Dandara, mas a cantora reparou o ato falho.

'Como assim?' E olhou de um ao outro 'Você tem alguma coisa a ver com o machucado do Gael, René?'

'Claro que não, Dandara! Eu só estava indo ao banheiro, não tenho nada a ver com o comportamento bruto desse aí.' Dessa vez quem não se conteve foi René que ainda encarava a mão de Dandara fazendo carinho sobre o machucado de Gael. 'Vamos, Dandara.' E segurou-a pela cintura.

'Peraí! Que história é essa?' Questionou a professora de canto se desvencilhando dos braços do ator.

'Não é nada, Dandara, pode ir almoçar. A gente se fala outra hora...' Gael retirou sua mão de entre as dela e virou-se para voltar à Academia, mas Dandara não havia desistido.

'Como assim não é nada? Vocês dois cheios de mistério… Um aparece ofegante, o outro machucado…' Gael virou o rosto para encarar a morena e ela pareceu finalmente entender... 'Eu não to acreditando…' E olha de um ao outro, ambos com a cabeça baixa, culpados. Ao mesmo tempo, eles tentaram se justificar.

'Olha, Dandara, eu não briguei com ninguém, eu me segurei tudo o que eu podia, mas esse aí ficou provocando—'

'Esse troglodita que não consegue esquecer o passado, fica me ameaçando e—'

'Era por isso que você estava ofegante?' Dandara se virou pra René incrédula. 'E mentiu pra mim? Jogando charme pra desconversar? Quantas vezes eu vi esse filme e não percebi, meu Deus!' e tornou-se pra Gael 'E você, Gael…' A decepção nos olhos dela machucavam Gael fisicamente 'Você não muda, né? Continua resolvendo tudo na violência... Eu te dei a chance de conversar e você não quis e agora—'

'Vamos conversar' ele interrompeu.

'Não, agora não. Você já mostrou que continua o mesmo… Só você não, os dois! Você, Gael, ainda quer resolver tudo na pancadaria e você…' E encarou René 'Você continua mentindo e me enganando como você sempre fez… Argh, a paixão deixa a gente burra, meu Deus!' E jogando o cabelo pro lado ela saiu, deixando os dois ali, se encarando.