João e Maria

5 Amor está bom pra mim


Fica comigo essa noite… As palavras de Gael ecoavam na cabeça de Dandara. Passar a noite com ele, era isso o que ele estava pedindo? Ela imaginara que ele gostaria de conversar sobre a indecisão dela... Sobre o beijo com René ou sobre a briga dos dois no dia anterior. Definitivamente, Dandara não estava preparada para aquele convite e não sabia o que responder.

'Gael, eu…' Ela tentou começar mas ele logo cortou-a.

'Dandara me escuta… Eu sei que eu sou bruto, que eu sou explosivo... Que eu errei com você… Muito.'

'Já te disse, Gael, não precisa carregar esse peso sozinho,' ela interrompeu 'Eu também te machuquei… E pelo visto continuo machucando, né?' Lembrando da conversa com Karina, passou a mão entre seus cabelos jogando-os pro lado como um tique nervoso. 'Eu estou confusa, sabe? Já não sei mais o que eu sinto ou--'

'Eu sei.' Ele falou de maneira firme. 'Eu sei o que você sente e eu posso te provar.'

Sua mão, que há pouco acariciava o rosto de Dandara, seguiu até a nuca dela, onde seus dedos seguraram firmemente os cabelos da morena e puxaram-na em direção a ele. Gael olhou-a nos olhos e antes que a beijasse foi surpreendido pelos lábios dela de encontro aos seus. Ela o beijava e ele retribuía com ardor.

Os lábios dela eram finos, macios e perfeitos para serem possuídos pelos dele. Ele aprofundou o beijo, suas línguas se encontrando, e desceu a mão à cintura dela, que estava a mostra devido a um recorte na lateral do vestido. Ao sentir a mão de Gael tocando sua pele, o quadril de Dandara foi de encontro ao dele como se possuísse vida própria. Ela teve de reunir todas as forças em si para cortar aquele beijo antes que virasse algo mais.

Ainda ofegante, apoiou sua teste na dele e por alguns instantes ambos esqueceram aonde estavam. Esqueceram que alunos da Ribalta e da Academia chegavam à fábrica e viam aquela cena. Desperta, Dandara olhou em volta, se certificando da ausência de René ou João. Apoiando uma mão no peito de Gael, ela deu dois passos para trás, mantendo uma distancia segura do corpo e do homem que tanto lhe atraíam.

'Meu amor—, quer dizer—' Gael abriu um sorriso sincero de felicidade ao ouvir o ato falho dela. Dandara também não se conteve e se corrigia sem conseguir esconder um sorriso de canto 'Gael, né?'

'Amor está bom pra mim.' Ele brincou e ela riu, abaixando a cabeça. Ele seguiu, de maneira gentil. 'Você não precisa me falar nada… Eu consigo te escutar de outras maneiras…'

Gael investia sobre ela, roçando a barba em seu pescoço. Ela sentia o calor adentrar seu corpo e respirava profundamente para se manter concentrada.

'Gael…' Ouvi-la chamar seu nome com a voz rouca, entregue, tirava Gael do sério. Ela precisou dar outro passo para trás abrindo uma distância maior entre eles. 'Como o mesmo homem consegue ser tão bruto e ao mesmo tempo tão sensível..?' Ela deu de ombros 'Eu não sei e por enquanto desisti de aprender… Foi bom você estar aqui agora pois eu estava justamente pensando em te convidar para jantar.'

'Ah é? Só pra jantar? Ou posso ficar depois da janta também?'

Dandara revirou os olhos repreendendo-o, mas não resistiu e sorriu também. Em seguida tornou a olhar em volta a fim de ver se alguém passava pela praça. Gael puxou-a pelo braço em direção ao interior da fábrica e levou-a até atrás da escada.

'O que é que aconteceu, o que você tá fazendo?' Ela indagava sem entender a movimentação. Ele encostou-a no corrimão da escada que ligava a academia de lutas à escola de artes.

'Pronto. Só queria roubar você por mais alguns minutos… Sem ter que dividir sua atenção com transeuntes...' Ele queria dizer René e ela entendeu, mas ainda não parecia segura. 'A Bianca e o Duca namoraram por meses aqui escondido e ninguém reparou.' Ele adicionou para tranquiliza-la.

'A diferença é que nós não somos dois adolescentes…'

'Não somos?' Ele interrompeu, charmoso. 'Quando estou com você até me esqueço disso…'

'…e também não estamos namorando.' Ela continuou, arqueando a sobrancelha. 'Vamos com calma, lutador… Para não quebrar a cara depois…'

'Certo, calma… Uma coisa de cada vez, né? Então por enquanto... Jantar. Você aceita jantar comigo essa noite?'

'Não.' Ele olhou-a confuso, mas ela logo revelou a brincadeira. 'Quem tem de aceitar é você… Fui eu que convidei.'

Ele sorriu aliviado.

'Tudo bem… Mas pode ir pensando no cardápio, porque eu não quero te levar no Perfeitão! Estava pensando em algum lugar com mais… Privacidade…'

O colo de Dandara arqueava a medida que sua respiração retornava ao normal e Gael perdia-se admirando-a, hipnotizado. Com um toque suave ela levantou o queixo dele, direcionando o olhar para si enquanto desencostava da escada e olhava a hora no relógio.

'Já está na hora da minha aula… Mais tarde... Pode ser na sua casa, então?' Ela se virou, passando por trás dele. 'É que o João combinou de fazer um trabalho com o Pedrinho, a minha casa estará cheia…'

'Claro,' ele girou o corpo ficando de frente para ela. 'lá em casa então. Vou pensar num cardápio—'

'Não precisa, mestre Gael. A ideia foi minha, eu quero cozinhar pra você. Você pensa na sobremesa, pode ser?'

'Ah, então ficou fácil… Porque eu sei exatamente o que eu quero de sobremesa…'

Com um sorriso triunfante, a segurou pela cintura e girou-a, encostando-a novamente contra o corrimão da escada, iniciando mais um beijo apaixonado. Os braços de Dandara passaram pelos ombros de Gael, sem resistir ao sentimento que preenchia-a. As mãos de Gael desciam as laterais do corpo dela e com um sorriso satisfeito ao ver o efeito que provocara nela, Gael rompeu a conexão dos dois e sussurrou ao ouvido de Dandara:

'Essa foi só a entrada…' Sorriu para ela que retribuía, levemente ofegante. 'Às nove?'

Ela assentiu.

'Às nove…'

'Mal posso esperar pelo prato principal.'

Lançando um olhar fugaz pelo corpo da morena, Gael saiu por debaixo da escada em direção à Academia.

**

'Pode parar, Bianca, não sei o que significa ainda... E não era para vocês terem visto nada,'

'Então arrumasse um lugar mais discreto, né, paizinho? Atrás da escada da Ribalta? Lógico que a gente ia ver vocês…'

'Você e o Duca ficavam aos beijos atrás daquela escada durante a minha aula e ninguém nunca percebeu.'

'Você não percebeu, né?'

'Quem disse? Eu já sabia de vocês há tempos! Estava falando da sua irmã...'

'É verdade... Mas de qualquer jeito, eu e o Duca conhecemos todos os ângulos daquela escada… E não foi muito a toa que a gente viu vocês juntos… É que a gente tava procurando um espaço para usar… Mas a área já tava ocupada.'

'Bianca! Sem detalhes, por favor!'

Ela riu, brincalhona e continuou a botar pilha no pai.

'Poxa, pai, eu achei que você gostasse do Duca…'

'Gosto! Gosto muito de vocês dois juntos mas não preciso ficar pensando no que ele fica fazendo com a minha filha debaixo da escada, né?'

'Ué, por quê? Você por acaso abusou da Dandara, foi?'

'Arrr, Bianca, me poupe, por favor!' Ela achava graça do nervosismo do pai. 'Eu acho ótimo que você esteja me ajudando a arrumar a casa, mas vamos mudar de assunto, pelo amor de Deus.'

'Tudo bem, paizinho, não tá mais aqui quem falou.' Com um risinho escondido, Bianca terminou de estender a toalha de mesa e foi à cozinha buscar os pratos. 'E olha, não precisa ficar nervoso, tá? Vai dar tudo certo! O que vocês vão comer?'

'Não sei, a Dandara é que ficou de ver isso... Ela deve trazer pronto ou sei lá… E a sua irmã? Cadê que não saiu do quarto até agora?'

'Ela disse que ia dormir cedo pra treinar amanhã… Falando nisso… Será que eu posso ir visitar meu namorado lutador daqui a pouco, paizinho?'

'Visitar seu namorado? A essa hora?'

'É… Visitar meu namorado e aproveitar e deixar a casa livre pra você e pra Dandara… O que você acha?'

Gael considerou suas opções.

'Pode ir, vai sim, mas ó! Celular na mão porque quando eu ligar, você vai voltar, hein? Sem história de não ouvi, tava no quarto, não quero saber!'

'Que ligar, pai, você vai estar mais ocupado com outras coisas.' E piscou pra ele enquanto se direcionava para abraçá-lo. 'Vou só me arrumar e ir! Por aqui tá tudo pronto, só falta uma música ambiente!'

Bianca entrou para seu quarto e Gael olhou em volta. A casa estava organizada, a mesa do jantar posta, os morangos que comprara para a sobremesa estavam na geladeira. Será que ele deveria colocar velas? Ou seria piegas demais?

'Bianca!' Gael seguiu, gritando pela menina 'Bianca, peraí!'

Enquanto isso, na casa de Dandara, a morena se debruçava no espelho do banheiro colocando o par de brincos. Mexendo de leve no cabelo ela encarou o próprio reflexo. Normalmente Dandara não demorava para se aprontar, vestia algo leve e usava acessórios diversos que combinavam entre si. Não tinha paciência para ficar separando roupa… Mas essa noite decidira caprichar. Ela estava nervosa para aquele encontro. Uma mistura de ansiedade e temor embolava seu estômago.

Chegando na sala e conferindo se estava com tudo na bolsa, Dandara se despediu de João.

'Boa noite, filhote, já estou indo… Só falta achar meu celular...' E reparando no filho sozinho no sofá, adicionou. 'Ué, João, cadê o Pedrinho?'

'Ele não vem.' Resmungou João de ponta cabeça.

'Como assim ele não vem? Por quê?'

'Porque eu não to me sentindo muito bem.' Ele sentou direito. 'Acho que a ideia de você voltar com aquele lutador me deixou enjoado.'

'Para, João! Eu não estou voltando com o Gael... Ainda. Nós só vamos jantar juntos.'

'Sei, jantar… Se é só um jantar, eu posso ir com você, né?'

'Não! A gente tem que conversar um pouco… Ficar um tempo sozinho… Deixa o Édipo de lado e liga pro Pedrinho, quer que eu ligue?' Ela procurou seu celular na bolsa e não encontrou. 'Onde eu deixei esse telefone?' E entrou novamente a fim de procurar no quarto.

João deu uma espiada para ver se a mãe não estava voltando e ajeitou o celular entre as almofadas do sofá.

'João… Cadê o meu celular? Devolve agora.' Ela voltou do quarto acusando-o

'Eu? Mas por que eu ia tá com o seu celular? Você não me proibiu de mexer nessas coisas?'

'Como se você me obedecesse, né, moleque?' E seguiu até ele no sofá para revirar os bolsos de João, mas se surpreendeu ao tocar no menino.

'João! Você tá ardendo em febre!'

'Eu disse que não estava me sentindo bem…' Preocupada, ela se sentou ao lado dele e passava a mão na testa do menino. 'E agora, mamãe? Você vai mesmo jantar com o mestre lutador e deixar seu único filho doente e sozinho e abandonado?'

Dandara respirou fundo, fazendo a si mesma aquela exata pergunta.