Jovens do Novo Mundo
5 Ansiedade é uma droga
Notas iniciais
Quando Anne saiu do quarto sua família já estava na mesa esperando por ela para jantar, ela serviu-se e se sentou com eles. Eles comeram em relativo silêncio, apenas ouvindo as notícias da edição do jornal das 21 horas, mais algumas coisas sobre as entrevistas para o Jovens do Novo Mundo, eleições na África do Sul, novos apagões no Canadá (muitos outros países também sofriam com insuficiência energética), o Japão receberia novos empréstimos da OGP, etc. Aquilo não era estranho para sua família, o silêncio, mas naquele dia havia uma tensão no ar e Anne sabia exatamente porquê. Depois que acabaram de comer a garota estava se levantando para lavar a louça quando a mãe a interrompeu:
—Filha, por que não deixa a louça para depois? Vamos nos sentar na sala e conversar um pouco, tudo bem?
Anne acompanhou os pais até a sala, eles se sentaram no sofá e ela puxou Júlia para que as duas sentassem no tapete em frente a eles, ela parecia um pouco confusa, aquilo não era habitual, porém acabou não dizendo nada, talvez só quisesse que aquilo acabasse para que pudesse jogar em seu tablet antes da hora de dormir.
—O que precisamos conversar com vocês agora é algo bem sério. – Dessa vez quem havia falado era seu pai. – Semana passada recebi a notícia de que havia sido demitido, eu e sua mãe resolvemos esperar o fim de semana para contar para vocês para que pudéssemos aproveitar um pouco o feriado. Eu já estou procurando outro trabalho e temos algum dinheiro guardado, mas mesmo com isso e o salário de sua mãe ainda vamos ter alguma dificuldade para pagar as contas. As coisas vão ficar um pouco apertadas aqui em casa e por isso precisamos da compreensão de vocês.
Seu pai parecia bem abatido e depois de explicar para Júlia que “ser demitido” significava que ele não tinha mais um emprego e frisar para Anne, antes mesmo que ela pudesse dizer algo, que “não, ela não tentaria arranjar um trabalho de meio expediente” sua mãe foi colocar Júlia para dormir. Anne também já estava indo deitar quando resolveu voltar e abraçar seu pai.
—Está tudo bem, querida. Nós vamos ficar bem. – Mas ele disse isso mais para si mesmo do que para ela, como se ele estivesse tentando se convencer de aquilo era, de fato, verdade.
Depois disso Anne foi dormir, ou melhor, foi deitar, porque o sono só veio após algum tempo. Durante suas roladas na cama, ela pensou sobre seu pai e como ele parecia se sentir culpado pelo que havia acontecido, reviveu algumas vezes sua entrevista, imaginando quais eram as falhas que ela havia cometido que a eliminariam antes que chegasse à segunda fase. Ela também pensou em cada um daqueles “jovens de ouro” que viu na internet, ela memorizou suas faces, seus nomes suas idades. Imaginou como seria sua própria ficha caso chegasse longe o bastante para ser efetivada no projeto, esse pensamento a fez estremecer. Ela, então, se ocupou de tentar não pensar em tudo aquilo, imaginou-se como uma baleia, era o que sempre fazia quando estava ansiosa, e que cada respiração que tomava a levava mais fundo no mar, até que chegasse às profundezas da inconsciência.
Na terça feira a escola ainda estava agitada com as fofocas sobre as entrevistas, Anne ficou sabendo que mais 3 alunos de sua escola haviam sido entrevistados. No entanto, fora as conversas que haviam no corredor e o fato de que seu pai não havia saído do trabalho, seu dia havia corrido normalmente e, mesmo assim, ela se sentia inquieta. Era como se ela tivesse tomada café demais e ficado com aquela inquietação estranha que às vezes era acompanhada de azia. Quando chegou em casa, ocupou-se dos afazeres doméstico, ajudou Júlia com suas tarefas da escola, fez suas próprias tarefas e, Jesus, ainda nem era hora do jantar. Era como se ela precisasse de algo para fazer a cada segundo para que não pensasse sobre o resultado das entrevistas e, mesmo assim, era como se o Jovens do Novo Mundo estivesse sempre à espreita nas sombras de sua mente esperando um só momento de ócio para pular em seus pensamentos. Ansiedade é mesmo uma droga. Resolveu então fazer algo que sempre a acalmava, sentou-se com seu computador e escreveu uma resenha de um livro que havia lido para seu blog, não era comum que escrevesse no meio da semana, mas aquilo a deu algo para fazer até o jantar. Depois que havia comida fez outra coisa que não lhe era habitual, tomou um de seus “comprimidos do soninho”. Ela não precisava mais tomá-los toda noite para dormir, mas ela não tinha energia para rolar na cama e nem esperar pela famosa “hora do lobo”. Fechou os olhos e já era quarta feira.
Quarta foi um pouco melhor, ela saiu para tomar sorvete com Malu e seu pai entregou alguns currículos. Quinta feira era dia de sonho na padaria perto de casa e ela usou um pouco das próprias economias, que não eram lá muita coisa, e levou Júlia para comer. Sexta sempre era melhor, sua família não saiu para comer como era de costume, mas todos se sentaram na sala para assistir um filme depois do jantar. Aquele já era o quarto dia depois das entrevistas e ela não havia recebido nenhuma carta. Ela estava tentando não pensar sobre aquilo, mas era impossível não ficar sabendo que algumas muitas pessoas já haviam recebido sua carta de aprovação para a segunda fase do processo seletivo, inclusive Sara, que havia feito questão de que todos soubessem. Talvez ela não gostasse tanto assim de ser discreta. Talvez Anne não tivesse sido aprovada afinal e ela não teria que pensar nunca mais sobre aquilo. Talvez pudesse arranjar alguma outra forma de ajudar os pais, quem sabe aulas particulares? Anne tentou erradicar aqueles pensamentos, após a sessão cinema em família ligou para Malu e as duas conversaram sobre coisas aleatórias, algumas fofocas do pessoal da escola, um episódio novo da série que acompanhavam juntas... Elas ficaram no telefone por mais de uma hora e Anne ficou extremamente grata pela distração e pelo fato da amiga deliberadamente não tocar no assunto do projeto, mesmo percebendo que Anne era uma bola de ansiedade e nervosismo.
Assim que se despediram, Anne tomou um de seus comprimidos e foi deitar. Logo seria o quinto dia após as entrevistas e ela poderia finalmente se livrar daquela ansiedade, mas ela sabia que, independente do resultado, ela teria muito com o que se estressar depois. Seu último pensamento foi que provavelmente teria que passar em sua médica para pegar uma nova receita, se continuasse assim seu pequeno estoque de comprimidos acabaria antes do planejado.
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