Jovens do Novo Mundo
6 A manhã do quinto dia
Notas iniciais
Quando o sábado finalmente chegou, Anne quase não acreditou que aquele era, finalmente Senhor, o quinto dia após as entrevistas e, por isso, o último dia para que sua carta de convocação para a segunda fase chegasse. Como se uma maldição pairasse sobre ela, a garota acordou às 6 horas da manhã, em pleno sábado. Ela até tentou voltar a dormir, que sonho seria aproveitar sua preciosa manhã de sábado dormindo como uma pedra, mas nem todos podem conseguir o que querem. Apesar de seu despertador se manter silencioso, seu relógio biológico dizia a ela que o sol havia se levantado e estava na hora dela levantar também.
Levantou e fez seu café em silêncio para não atrapalhar as pessoas sortudas que não acordavam cedo sem necessidade. Sua família não era lá muito fã de acordar cedo e eles provavelmente só iam se levantar lá pelas 10 horas, o que a deixava com 4 horas de sobra para pensar em sua carta e se estressar em paz. Ligou a televisão e passou pelos canais, o moço do jornal disse algo sobre as cartas do Jovens do Novo Mundo e Anne imediatamente mudou de canal para calar a boca dele, no canal de vida selvagem passava um documentário que ela já havia assistido pelo menos uma dezena de vezes e não havia nenhum filme bom, até porque ninguém normal assistia filmes na televisão às 6 da manhã de sábado. Aquilo a deixou frustrada e acabou desligando a televisão, ela tentou pensar em algo que pudesse fazê-la relaxar e só conseguiu pensar em vinho e aquilo a fez se sentir uma alcoólatra. Ela resolveu então sair para caminhar, talvez assim conseguisse matar o tempo e gastar um pouco daquela energia ansiosa que a estava rodeando.
Trocou de roupa, pegou seu celular e fones para escutar música e deixou um bilhete na geladeira avisando que havia saído para caminhar, mesmo sabendo que ninguém acordaria enquanto ela estivesse fora. Já havia alongado e estava saindo de casa quando abriu a porta viu o carteiro. Anne sentiu aquela sensação típica de um pico de adrenalina: ela se sentiu esquentar, seus músculos se contraíram e o sangue fluía rapidamente, levando mais oxigênio para sua cabeça, fazendo-a se sentir meio tonta. Seu corpo estava preparado para correr ou lutar, mas o carteiro não queria lutar com ela e seus problemas não eram do tipo que se resolviam caso você fugisse deles, tentou dizer isso ao seu cérebro, mas ele não parecia concordar com ela. Anne forçou-se a respirar e sorrir para o carteiro, ele lhe deu bom dia e pediu que assinasse em uma prancheta, ela segurou um pequeno pacote e ele se despediu. Ela continuou ali, com o sangue pulsando nos ouvidos, sem coragem para olhar o embrulho. Ela respirou o mais fundo que conseguiu sem vomitar e deu uma espiadinha na descrição do pacote, talvez fosse alguma outra coisa, os pais poderiam estar esperando algo... Mas nada que eles pudessem estar esperando traria o símbolo da OGP estampado nele.
Anne finalmente deu ouvido aos seus instintos e saiu correndo com o pacote ainda nas mãos. Correu até a praça que havia perto de casa, onde as pessoas costumavam dar voltas. Além de Anne, só havia duas pessoas ali um cara bombado correndo e uma senhora caminhando com a calma que só um aposentado poderia ter. Nenhum deles prestou atenção quando ela, ofegante e com as pernas trêmulas, sentou-se em um dos bancos da praça. Anne pensou que se ela estivesse em um dos livros românticos que lia de vez em quando, a natureza refletiria seu estado tempestuoso, daria algum sinal para ela, choveria, ventaria ou o céu pareceria estranho. Porém aquela era uma manhã perfeitamente agradável, não havia nuvens no céu e o sol já começava a brilhar com a promessa de um dia ensolarado. Ela esperou até que estivesse mais calma para poder abrir o pacote que tinha em mãos, ele estava endereçado a ela, seu nome completo estampado na frente perto do símbolo da OGP.
Dentro da caixa havia 3 coisas. A primeira ela uma carta, a segunda era outra folha que, de um lado, tinha um calendário e, do outro, algo que parecia um cronograma. A terceira coisa era uma pulseira laranja de plástico e tinha o símbolo da OGP nela, Anne já a havia visto antes, em várias outras cores, no pulso de outras pessoas haviam passado nas entrevistas. Por um momento ela imaginou como eles sabiam que aquela era sua cor preferida, mas não se prendeu a esse pensamento. Deixou a pulseira e o cronograma para análise posterior e se concentrou na carta.
“Anne Niara Santiago, é com muito prazer que a Organização Global pela Paz o(a) convida para participar da próxima fase das seletivas para o programa Jovens do Novo Mundo. A você e aos outros aprovados de sua cidade será designado um(a) tutor(a) que lhes acompanhará durante o restante do processo. Ele(a) será responsável por lhes ajudar em sua preparação para a prova e lhes passará qualquer orientação posterior. Você deve entrar em contato com a central da OGP de sua cidade para agendar a primeira seu primeiro encontro com o(a) tutor(a). Caso você ainda não apresente 18 anos completos, um de seus responsáveis deverá lhe acompanhar. Se tiver quais dúvidas sobre o agendamento, você pode acessar o site da OGP e seguir as instruções lá descritas.
Que você tenha um futuro brilhante e pacífico!”
Anne leu a carta pelo menos mais duas vezes e seu olhar sempre se demorava na última frase. O OGP muito falava sobre um futuro brilhante e pacífico, mas algo dentro dela sempre lhe dizia que aquele não era exatamente o futuro que ela gostaria. Aquilo a fazia se perguntar o quão longe aquela instituição iria para garantir essa “paz”. Ela então se voltou para os outros itens. No cronograma estavam descritos os dias de cada fase do processo seletivo e de seus respectivos resultados e no calendário haviam espaços para que ela fizesse anotações. Quanto à pulseira, ela até pensou em colocar, não era feia e tinha sua cor preferida, mas ela sentiria que todos olhariam para ela caso usasse. Talvez fosse uma boa ideia de como contar sobre aquilo para os seus pais afinal, ela poderia não dizer nada e aparecer em casa usando a pulseira. Só que isso não mudaria o fato de precisaria explicar para eles porque concordou em participar das entrevistas depois de ter fugido delas nos últimos anos e porque queria levar aquilo a diante. Se soubessem que ela estava fazendo aquilo só pelo dinheiro com certeza não deixariam que ela continuasse na seleção.
Quando olhou em volta o cara bombado já não estava mais correndo, apenas aquela senhora, em sua caminhada de paciência infinita, ainda estava ali dando voltas na praça. Anne ficou ali sentada até as 7 horas e depois voltou para casa num ritmo tão lento quanto o de sua companheira da praça e, por mais devagar que andasse, ainda teria muito tempo para ficar agitada em casa antes que os pais acordassem. Pensou em ligar para Malu e contar para ela que havia passado para a próxima fase, no entanto se sentiria mal se acordasse a amiga em pleno sábado. Pensou em ligar para sua prima Camila, que morava em outra cidade e costumava acordar cedo, mas sabia que se o fizesse sua tia ficaria sabendo, daí sua vó ficaria sabendo, daí sua vó ligaria para sua mãe e então sua mãe iria até ela perguntando porque a Vovó havia ficado sabendo daquilo antes dela. Anne pensou que outras pessoas matutinas ela poderia incomodar e quase ligou para Thomas, seu ex-quase-namorado, com quem ela não falava desde que haviam parado de sair. Jesus, ela estava mesmo desesperada.
Quando chegou em casa foi direito para seu quarto e ligou o computador, se não havia ninguém com quem ela poderia conversar naquele momento e também não havia como não pensar no Jovens do Novo Mundo, então ela usaria aquele tempo para se informar o máximo possível, afinal, saber é poder. Pesquisou tudo o que podia sobre as provas antigas, fez uma planilha com os assuntos que mais caíam e os organizou de modo que ela soubesse o que precisava estudar mais. Usou todas os seus post-its e canetas coloridas para montar um plano de estudos e fez anotações no calendário. Pesquisou o número da secretaria da OGP de sua cidade e o deixou anotado para que ligasse lá mais tarde. Procurou informações sobre a nota de corte da segunda fase e quanto ela teria que acertar, em média, para passar para a terceira fase. Também tratou de buscar informações sobre a bonificação que receberia, na primeira fase não seria muita coisa, mais muito mais do que ela conseguiria dando aulas particulares para outros alunos da escola e aquilo com certeza traria certo alívio ao seus pais. Caso fosse, de fato, participar do programa, o valor que receberia seria superior ao salário de sua mãe, sem contar que eles não gastariam mais com ela, uma vez que ela moraria em uma base da OGP e teria seus custos pagos pela organização.
Algum tempo depois, Anne já estava se sentindo bem informada e muito produtiva. Nada como um plano de estudo colorido e organizado para fazer um jovem estudante se sentir como um vencedor. Talvez ela devesse fazer outro, talvez em verde e azul. Ou quem sabe fazer uma ficha sobre os “jovens brilhantes” sobre os quais ela havia pesquisado na internet no outro dia. Poderia fazer o do Senhor Costas de vermelho, como a camiseta que ele estava usando no dia de sua entrevista. O de Tiffany seria, obviamente, azul tiffany e do outro garoto vencedor do último ano poderia ser laranja, pelo simples fato de que ela queria usar sua canetinha laranja. Contudo, um barulho na cozinha interrompeu seus planos e seu pico de produtividade, alguém havia acordado. Provavelmente seu pai, às vezes ele fazia café da manhã e levava para sua mãe na cama. Muito romântico.
Anne ficou indecisa entre descer lá e contar tudo para ele logo, mas talvez fosse melhor esperar quando todos já houvessem levantado, assim poderia contar para seus pais juntos e só teria que mentir uma vez quando explicasse porque havia participado das entrevistas para começo de conversa. Aliás esse era um assunto que ela precisava um pouco mais de tempo para resolver, o que diria a eles? Pensar naquilo a deixou nervosa de novo e toda a positividade que as canetinhas tinham proporcionado a ela escorreu pelo ralo. Só que já havia passado um bom tempo, se seu pai havia acordado talvez Malu também tivesse. Anne pegou o celular e mandou uma mensagem de texto para a mais alta.
“Tá acordada?”
“Infelizmente meu plano de hibernar até segunda feira não deu certo, meus pais me acordaram para tomar café em família kkkkk”
“Meu plano também deu errado, meu relógio biológico me acordou 6 horas da manhã”
“Meu relógio biológico acha que eu estou morta”
“Miga, tenho algo para contar para você”
“Ai, droga. Você não voltou a falar com Thomas, né??”
“Não é isso, mas estava tão desesperada para conversar que quase liguei para ele”
“Ai socorro, fala logo o que é, estou ficando preocupada”
“Eu passei para a segunda fase. Para o Jovens do Novo Mundo”
“Não brinca”
“Não estou brincando”
“Quer dizer, eu sei que não deveria estar surpresa, você é super inteligente, dedicada e tals. Mas fala aí, nós estamos comemorando ou nos lamentando? Juro que não estou conseguindo captar sua vibe”
“Eu não faço a menor ideia, estou feliz por poder ajudar meus pais financeiramente, só que participar não é exatamente o que eu chamaria de uma ideia animadora”
“O que você disse para os seus pais?”
“...”
“Você não contou para eles ainda, né?”
“É exatamente para isso que eu preciso da sua ajuda, não faço a menor ideia do que dizer. Odeio mentir para eles”
“Diga apenas que essa seria sua última oportunidade e que você resolveu tentar só por tentar e daí acabou dando certo. Fala para eles que vai ver até onde dá, porque seria uma boa coisa para por num currículo, talvez isso te garanta uma bolsa naquela universidade privada que você me falou sobre”
“É, acho que vou dizer isso mesmo, obrigada Maluca”
“Não tem problema, tenho engenhosidade para repartir entre nós duas. Vou comer com meus pais, depois me conta direito sobre como foi com os seus pais e como as coisas vão funcionar a partir de agora”
“Tudo bem, a gente se fala depois”
Anne largou o celular e respirou fundo, se preparando para ir falar com seus pais. A partir daquele momento não haveria mais volta e ela tinha a estranha sensação de que sua vida estava prestes a dar uma guinada radical, não sabia se para melhor ou para pior. Ela não era das pessoas mais otimistas, mas se permitiu ter esperanças dessa vez, porque se não tivesse, provavelmente ia acabar surtando antes mesmo de realizar aquela prova.
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