Jovens do Novo Mundo
7 Primeiro encontro com o tutor
Notas iniciais
Anne respirou fundo e andou até a cozinha como quem tem uma missão a cumprir. E ela tinha: contar aos seus pais que havia participado das entrevistas e que havia passado para a segunda fase do processo seletivo para o Jovens do Novo Mundo. Não é que ela achava que eles não ficariam felizes, apenas que eles não a deixariam seguir com aquilo caso não fosse algo que ela realmente quisesse. Ela teria que parecer animada em participar, ou pelo menos parecer que aquilo era um meio para atingir um fim. Seus pais estavam sentados na mesa, ainda com cara de sono, Júlia ainda estava na cama, o que era bom, deixaria aquela conversa mais simples.
— Bom dia, família. – Anne falou enquanto se sentava com eles. – Dormiram bem?
— Eu e seu pai dormimos como pedras, ele nem quis levantar para levar café na cama para mim. – Sua mãe disse, lançado um olhar acusador para seu pai, ele apenas deu risada.
— Então, eu queria contar algo para vocês. – Sentindo o nervosismo dela, eles a olharam com preocupação, então Anne se adiantou antes que pudessem perguntar se algo estava errado. – Está tudo bem, é só que... Vocês lembram que segunda-feira houve aquelas entrevistas, né? Por ser meu último ano, a Diretora Lúcia achou que eu deveria participar, disse que seria algo legal para colocar no meu currículo escolar caso fosse tentar uma bolsa para aquela faculdade particular da qual falei para vocês.
—Isso é muito legal filha, eu sei que você nunca quis participar e que também tem algumas críticas à OGP, mas essa é realmente uma boa coisa para se ter no histórico. Porque não contou para a gente antes?
—Bom, eu queria esperar o período de 5 dias, que é quanto tempo eles demoram para enviar as cartas de convocação para a segunda fase do processo. Hoje é o quinto dia, então...
—Ah filha, sinto muito por não ter recebido sua carta...
— Na verdade, pai, eu recebi a minha hoje mais cedo.
Anne respondeu com certo receio, esperando a reação deles, mas seus pais não fizeram mais perguntas, pelo menos não sobre suas motivações. Eles a questionaram sobre como havia sido as entrevistas e como ela havia recebido a notícia da convocação para a segunda fase. Anne mostrou para eles as coisas que recebei e, obviamente, sua mãe ficou ligando para todos os parentes deles até a hora do almoço. Seus pais estavam muito orgulhosos e não pareciam nada desconfiados das intenções dela, o que era um panorama muito melhor do que ela imaginara.
O restante do sábado se passou com tranquilidade, Anne se sentia muita mais calma depois de conversar com seus pais. Mais tarde Malu ligou para ela e a convidou para ir em sua casa. As duas comeram besteiras e conversaram até tarde sobre a conversa com os pais de Anne, a próxima fase da seleção e, quando finalmente esgotaram esse assunto, continuaram fofocando sobre outras coisas até a madrugada. No domingo elas acordaram tarde, o relógio biológico de Anne resolveu deixá-la em paz dessa vez, e almoçaram com os pais de Malu. Elas ainda assistiram alguns filmes e, quando Anne finalmente resolveu voltar para casa, já estava no final da tarde.
O final de semana estava acabado e, apesar do estresse que havia passado na manhã de sábado, Anne estava bem, tinha a sensação de missão cumprida. Ela já estava quase indo se deitar quando seu pai lhe disse algo que finalmente cortou a onda dela:
— Anne, acorde um pouco mais cedo amanhã para a gente ligar na central da OGP e marcar aquele encontro com o seu tutor, ok?
Aquilo a jogou de volta à realidade: ela havia contado aos pais dela e tinha se saído bem, mas agora teria que encarar a segunda fase da seleção e levar aquilo a sério, porque se o pai dela não conseguisse um novo emprego até o mês seguinte talvez eles fossem precisar do dinheiro que ela receberia na terceira, e última, fase da seleção para o Jovens do Novo Mundo. Com isso na cabeça Anne demorou para dormir e quando finalmente o fez foi apenas para entrar em um sono agitado e pouco revigorante. Quando acordou para enfrentar aquela segunda-feira, Anne se sentia mais cansada do que quando fora dormir.
Depois do café da manhã, o pai de Anne pegou seu celular e o número da central da OGP da cidade e os entregou à garota. Ela tentou devolvê-los, mas ele insistiu que ela mesmo ligasse, pois, segundo ele, já era praticamente adulta e poderia muito bem fazer suas próprias ligações. Ela era de fato muito independente e madura, mas ainda fazia coisas bobas como pedir que sua mãe explicasse seus sintomas aos médicos enquanto ele ficava lá olhando com cara de perdida. Anne revirou os olhos, mas discou o número e colocou o celular na orelha.
— Bom dia, aqui é da central da OGP, o que gostaria? – a voz da atendente era tão mecânica que quase parecia uma gravação, tinha um tom simpatia bem treinada,
— Bom dia, eu recebi uma carta de convocação para a segunda fase do processo seletivo para o Jovens do Novo Mundo, as instruções diziam que eu deveria ligar e marcar um encontro com um tutor.
— Seu nome completo, por favor?
— Anne Niara Santiago.
— Tudo bem senhorita Santiago, você estaria disponível às 15 horas de hoje? – Anne respondeu que sim e ela continuou. – Aqui em suas informações consta que você é menor de idade, então precisará do acompanhamento de um de seus responsáveis.
Anne se despediu da atendente e transmitiu as informações a seu pai. Ele pesquisou o endereço da central da OGP e viu que poderiam pegar um ônibus até o centro da cidade e de lá ir a pé, assim eles não teriam que ficar com o carro no lugar da mãe dela. Ela terminou de se arrumar e foi para a aula sabendo que não conseguiria prestar atenção em coisa alguma.
Como ela havia imaginado, o encontro com seu tutor havia chegado com uma rapidez anormal, do tipo que só se sente quando há algo que se gostaria de adiar eternamente. Anne piscou os olhos e suas aulas haviam terminado, piscou outra vez e estava almoçando com sua família, mais uma piscada e ela estava pronta para sair com seu pai. Anne saiu de casa de banho tomado, fez questão de arrumar os cachos e colocar uma roupa decente e arrumada, só para variar. Basicamente, as roupas da garota se resumiam às calças rasgadas e moletons desbotados que usava no colégio e as peças cheias de decotes, brilhos e transparências que ela usava para sair aos fins de semana. Isso a fez pensas que fazia bastante tempo que não ia a uma festa ou sequer uma saída com os amigos, talvez devesse arranjar algo na sexta feira seguinte, afinal depois de toda o estresse que havia passado ela bem que merecia.
Anne e seu pai pegaram um ônibus perto de sua casa e desceram no centro da cidade, de lá foi apenas uma curta caminhada até o endereço da central da OGP. Anne tinha uma lembrança vaga de passar em frente ao lugar, mas a imagem em sua mente estava desbotada pelo tempo. Não havia nada de memorável ali, parecia apenas mais como um espaço da prefeitura, com as paredes do mesmo amarelo desbotado que a cidade adorava usar, tinha apenas um andar e, em frente ao portão branco, o símbolo da OGP. Com certeza não era nada como as centrais de grandes cidades, na capital a organização ocupava um lindo arranha-céu, cheio de vidros e de toda a tecnologia que as pessoas do interior mal tinham acesso. Os dois entraram em uma pequena sala de recepção, ali havia apenas um jogo de sofás de couro, uma mesinha com revistas e jornais e um balcão, atrás do qual uma secretária se sentava falando ao telefone. Anne reconheceu a voz mecânica dela e o sorriso evidentemente forçado, assim como a garota tinha imaginado. Assim que ela terminou sua ligação se voltou a Anne e seu pai.
— Boa tarde, sou Anne Santiago, falei com você mais cedo pelo telefone. Esse é meu pai, Renato, viemos para o encontro com o tutor.
— Sim, muito prazer em conhece-los, o professor Wellington irá recebe-los em alguns instantes.
Anne reconheceu o professor Wellington assim que ele entrou na sala de recepção, ele estava usando calças jeans e uma camisa de botão branca com as mangas dobradas até os cotovelos. Ele se aproximou deles e os cumprimentou, se apresentando ao pai da garota e conduzindo-os por um corredor até uma pequena sala. Parecia um escritório simples, com estantes cheias de livros e uma mesa de madeira com uma cadeira de um lado e duas do outro. Wellington, o qual Anne deduziu ser o tal tutor, se sentou e os convidou a fazer o mesmo.
— É muito bom tê-los aqui hoje, fiquei feliz por você ter sido convocada, senhorita Santiago, – ele gesticulou na direção dela – você me pareceu uma garota muito inteligente e dedicada.
— Muito obrigada, estou feliz por estar aqui também. – Anne forçou uma expressão agradável, se ela fosse realmente fazer aquilo é melhor que ele gostasse dela.
— Bom, vamos começar logo. Esse encontro serve apenas para esclarecer como as coisas vão funcionar a partir de agora, e organizar nossa rotina de estudos para que esteja bem preparada até a prova da segunda fase. Ao longo desse mês teremos aulas todos os dias, exceto aos domingos, de segunda a sexta durante a tarde e aos sábados de manhã, – Anne quase protestou contra isso, mas forçou sua boca a permanecer fechada, apenas continuou a balançar a cabeça. Essas aulas serão em grupo, então você estará acompanhada dos outros dois jovens da cidade que foram aprovados na entrevista, um deles é sua colega e o outro é um garoto de outra escola, também do mesmo período que vocês. Ele tem o próximo horário, então talvez eu possa apresenta-los ainda hoje. É de praxe que os jovens convocados da cidade participem de uma entrevista para o jornal da cidade, vou tentar marcar um horário para vocês o mais rápido possível.
— Você acha que essa entrevista é mesmo necessária? – o pai de Anne perguntou, certamente sentindo a tensão no semblante da filha.
— A entrevista não é obrigatória, mas convém que todos participem. Apesar da segunda fase consistir apenas na prova escrita, as habilidades de comunicação e a maneira como os selecionados se portam frente à imprensa são requisitos importantes para a fase final de seleção para o Jovens do Novo Mundo. Não participar agora poderia causar um prejuízo à Anne, além disso, caso ela seja efetivada no projeto, terá que enfrentar diversas situações como essa, então é melhor já ir se acostumando.
Anne e seu pai se entreolharam, ambos escolheriam pular a entrevista se pudessem escolher, mas Wellington tinha razão e Anne não poderia simplesmente dizer a ele que não pretendia chegar assim tão longe na seleção, então apenas acenou e deixou que o homem continuasse sua lista de recados. Ele especificou os horários de aula e Anne quase suspirou de desânimo frente à extensa carga horária, ele também garantiu que ela não precisaria se preocupar em como chegar e ir embora, pois um carro da organização a pegaria e a levaria de volta para casa nos dias de aula. Eles já haviam tirado todas as suas dúvidas quando Wellington tirou um formulário de dentro da gaveta e os entregou.
— Aqui tem uma lista de documentos que Anne deve trazer amanhã, em sua primeira aula, e também alguns espaços para preencher informações sobre a senhorita Santiago e também sobre a conta bancária na qual o benefício será depositado, – percebendo a expressão perdida de Renato em relação ao “benefício”, o professor explicou:
— Os participantes recebem a quantia de um salário mínimo durante o mês em que se preparam para a segunda fase, esse benefício serve para garantir que os jovens que trabalham não sejam prejudicados economicamente devido as aulas.
Anne olhou de relance para seu pai e a expressão dele gritava “um salário mínimo??”. Logo a cara embasbacada dele mudou para uma expressão de desconfiança, ele olhou de relance para a filha e ela temeu que ele soubesse que ela só havia aceitado participar pelo dinheiro, mas não havia como eles discutirem isso naquele instante. Os dois se levantaram, seu pai com o formulário na mão, e seguiram o professor Wellington de volta para sala de recepção. Lá ele se aproximou da Androide, era assim que Anne se referiria à recepcionista com voz de robô em sua cabeça, a qual acenou para o que quer que ele a havia dito e pontou para o outro lado da sala, em direção a um dos sofás. Anne se virou para acompanhar e viu duas pessoas no sofá, um garoto ruivo, com o rosto cheio de sardas e corpo magro e uma mulher loira e alta. Ela tinha aquela aparência das mulheres no final de seus 30 anos, talvez até 40, que se cuidam bastante de sua aparência para parecerem mais jovens. Wellington se aproximou deles e gesticulou para que Anne e seu pai o fizessem também.
— Senhorita Santiago, esse aqui é Carlos Arca. Ele foi o outro jovem que fora selecionada e acompanhará você e a senhorita Oliveiras nas aulas.
Anne estendeu a mão para cumprimentá-lo, mas ao invés de aperta-la ele deu um tapa e um soquinho, como se eles fossem “brothers”. A mãe dele revirou os olhos para a ação do filho e ele apenas sorriu, seu pai também cumprimentou ambos e ela foi bem mais elegante que o filho. Carlos parecia um garoto aberto e brincalhão e Anne pensou que provavelmente não seria um problema conviver com ele. Todos se despediram e Anne e seu pai estavam finalmente liberados para ir para casa. A garota não conseguiu evitar em pensar sobre como deveria aproveitar essa noite de sono, pois o próximo mês lhe trazia a promessa de horas de estudo intermináveis e muito cansaço. Ela sabia que precisaria de muita cafeína para sobreviver a isso, ela se sentia exausta só de pensar.
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