30 de novembro de 1974, base da H.Y.D.R.A

Abri os olhos com dificuldade. A visão embaçada focou em uma sala mal iluminada. Tentei mover os braços, mas uma crosta pesada de gelo cobria meu corpo dos pés ao pescoço. À minha direita, minha mãe estava ajoelhada no chão de concreto, trêmula, com as mãos atadas, recebendo choques elétricos. Ela chorava em silêncio; sabia que, se emitisse um único gemido, levaria um tiro na cabeça.

Respirei fundo. Aos poucos, a queimação nos meus vasos sanguíneos fez o gelo rachar e derreter, e a sensibilidade voltou em uma onda de dor.

Vultos se aproximaram. Senti mãos brutais desatando as tiras de contenção; meu cérebro não teve tempo suficiente para discernir se era alguém tentando me machucar ou me ajudar.

—Rápido! — disse a voz do meu irmão gêmeo, Steve.

Certo, não estou sozinha. Levantei-me da câmara, tonta. Procurei o painel de luz na parede e o acionei. Sob a iluminação piscante, vi meu outro irmão desativar a carga elétrica e segurar minha mãe antes que ela caísse.

— Bom dia, Bela Adormecida.

Olhei para o lado esquerdo e vi Raven encostada na parede. A garota de cabelo laranja e olhos castanhos me observava com um sorriso alegre; era incrível como ela conseguia se manter animada mesmo em momentos horríveis como aquele.

— O que está acontecendo? — perguntei a ela.

Raven respirou fundo e seu semblante ficou sério, o que não era do seu costume.

— Seu pai está vindo.

Arregalei os olhos. Estamos ferrados.

— Por favor, me diz que não apagaram a mente dele.

Raven fez uma careta, e isso respondeu à minha pergunta. Corri em direção à minha mãe.

— Ajude os outros! — ordenei para meu irmão mais velho. Vi que ele hesitou por meio segundo, mas correu para as portas das outras câmaras.

Antes que pudéssemos dar mais um passo, a porta de aço foi arrancada das dobradiças com uma pancada brutal, e o Soldado Invernal invadiu o recinto. Os olhos estavam vazios; o braço de metal, reluzindo.

Sem hesitar, Raven ergueu as mãos e projetou toda a sua força telecinética. A onda de choque atingiu o Soldado, arremessando-o com violência contra a parede oposta.

— Raven! Alison! Vocês precisam ir! Eu ficarei bem! — gritou minha mãe, me empurrando.

— Eu não vou te deixar! Eles vão te matar! — As lágrimas já queimavam meus olhos.

Ela segurou meu rosto com as mãos trêmulas e fez carinho na minha bochecha, da mesma forma que fazia quando eu era criança.

— Não se preocupe, minha menina. Todos nós vamos nos encontrar de novo. Eu prometo.

Pressionei meu rosto contra o dela em um abraço desesperado. Eu não queria deixá-la, não queria deixar meus irmãos.

— Você precisa ir — senti o aperto leve de Steve no meu ombro. Meu irmão gêmeo parecia tão desesperado quanto eu.

— Vamos, Ally, o Soldado vai acordar logo! — chamou Raven, já se preparando para correr.

Acenei com a cabeça para os meus irmãos e saímos em disparada pelos corredores escuros da H.Y.D.R.A. O caminho estava vazio; é claro que estava, pois quando soltavam o Soldado para nos segurar, todos corriam para fora a fim de esperar que ele fizesse o trabalho sujo.

Disparos ecoaram atrás de nós. Apertamos o ritmo, minhas pernas gritavam por socorro e senti uma dor latente atingir meu ombro esquerdo. Soltei um grunhido. Uma bala atravessou a carne.

— Alison! — Raven me chamou, e vi a raiva pegando fogo em seu olhar.

Travei no lugar pela dor e me virei, sentindo o coração bater freneticamente na garganta. O Soldado Invernal caminhava a passos calmos no nosso encalço, recarregando a pistola tática.

— Pai, por favor — sussurrei para ele.

Ele ergueu a arma e atirou. Fechei os olhos e esperei o próximo impacto.

Mas o mundo pareceu parar. Abri os olhos devagar: a bala havia parado a centímetros do meu rosto.

Raven segurava o projétil usando sua telecinese. Ela concentrou sua mente e forçou a munição de volta; a bala fez o caminho inverso e explodiu direto no tambor da arma dele. O impacto da explosão arremessou o Soldado através do painel de vidro da sala ao lado.

— Vamos! — Ela segurou minha mão e me puxou.

Corremos como nunca.

Alcançamos o pátio externo coberto de neve, ignorando os disparos dos guardas nas torres. Raven criou um campo de força que nos protegia das balas.

Escapamos para a floresta.

Cada passada pesada na neve afundava meus pés, mas o aperto firme da mão de Raven na minha era a única coisa que me mantinha presa à realidade. O calor do sangue escorrendo do meu ombro atingido contrastava com o frio congelante daquele lugar.

Eu conseguia ouvir os gritos distantes dos guardas e os alarmes de emergência da base da H.Y.D.R.A. ecoando entre os pinheiros cobertos de névoa, mas na minha cabeça só se repetia o toque trêmulo das mãos da minha mãe e o olhar totalmente desprovido de vida do meu pai. O Soldado Invernal não era o homem que nos amava; era apenas uma arma calibrada para nos destruir.

— Aguenta firme, Ally! — Raven arfou, sem diminuir o ritmo enquanto entrávamos cada vez mais fundo na floresta densa. Os olhos castanhos dela varriam o perímetro, atentos a qualquer movimento. — Nós já estamos longe o bastante da base. Steve e James vão garantir que Emily fique bem... eles têm que conseguir.

— Ele atirou em mim, Raven... — minha voz saiu falhada, sumindo no meio da nevasca. A queimação da raiva e o desespero disputavam espaço com o frio nos meus ossos de Adamantium. — Ele olhou nos meus olhos e puxou o gatilho.

Minha melhor amiga deu uma risada sem graça:

— Porque não era ele, e você sabe disso! — Ela parou de repente, virando-se para mim sob a copa de um grande pinheiro. Raven segurou firme meu rosto, exatamente como minha mãe fizera momentos atrás, forçando-me a olhar para ela. A determinação nos olhos dela era quase palpável. — Vamos tirar a sua mãe de lá, vamos ajudar seu pai e reunir toda a sua família. Mas, para isso, a gente precisa sobreviver.

Senti uma onda suave de energia psíquica e empática vinda dela, tentando desacelerar meu coração disparado. Respirei fundo, deixando a queimação do meu próprio fator de regeneração e da fusão do Adamantium nos meus ossos começarem a fechar lentamente o rasgo da bala no meu ombro.

A nevasca começava a encobrir nossos rastros de sangue na neve. Eu não sabia para onde exatamente estávamos indo, mas precisava confiar em Raven. Mesmo tendo só dois anos a mais que eu, ela tinha uma certa vantagem por conta dos seus poderes.

Enquanto andávamos sem rumo, comecei a arquitetar um plano para salvar minha família. Apesar de todo aquele caos, eu ainda tinha esperança.