9 de dezembro de 1980

O frio da Sibéria ainda parecia impregnado nos meus ossos, mas a sensação de queimar nazistas de divisão asiática com rajadas de energia mística era um ótimo aquecedor.

Alison e eu estávamos rastreando por anos as bases secretas para limpar esse ninho de ratos da H.Y.D.R.A. O plano era simples: entrar, quebrar tudo o que não fosse nos ajudar, procurar documentos sobre o Legado Barnes e sair a tempo de pegar alguma cafeteria aberta. Mas a Ally... bom, a Ally tem andado tão fechada e sombria ultimamente que parece um poema triste do Edgar Allan Poe.

— Matar todos eles não trará a sua humanidade de volta, criança... mas admite, é extremamente satisfatório — a voz ecoou no fundo da minha mente, grave, fria e arrastada.

Cala a boca, Hela, pensei de volta, revirando os olhos enquanto desviava de um tiro de rifle. Estou tentando trabalhar aqui. Você não tem nenhuma alma das trevas para torturar no Helheim, não?

— Eu prefiro assistir ao seu showzinho patético. Você usa metade da magia que eu te concedo e acha que é uma heroína.

E você é uma voz sem corpo que mora de aluguel na minha cabeça. Quem tá ganhando?

Antes que a deusa da morte pudesse retrucar, um estrondo alto reverberou pela sala de controle. Virei-me a tempo de ver um dos últimos agentes acionar um bastão de atordoamento de voltagem industrial diretamente nas costas da Alison. A descarga elétrica azulada faiscou contra os ossos de Adamantium dela. Ally soltou um rugido abafado e caiu pesadamente no chão de concreto, desmaiada.

— Ah, fala sério, cara! — esbravejei, apontando o dedo para o guarda. — Ela já tá deprimida o suficiente sem você fritar os neurônios dela!

O agente avançou na minha direção, mas eu nem me mexi. Apenas ergui a mão direita e deixei a energia verde-escura da necromancia fluir pelos meus dedos. Com um estalo no ar, projetei uma lâmina mística que cortou o ar e atravessou o peito do sujeito antes que ele desse o segundo passo. Ele caiu seco ao lado da Alison.

O silêncio finalmente tomou conta da base. Dezenas de corpos de agentes da H.Y.D.R.A. jaziam espalhados pelo salão.

Caminhei calmamente até a minha melhor amiga e dei uma cutucada leve na bochecha dela com a ponta da minha bota. Nada. Ela apenas ressonava baixinho enquanto o fator de cura fazia o trabalho duro.

— É... sobrou pra mim — murmurei.

Sentei-me no chão frio de pernas cruzadas, bem ao lado da cabeça da Ally, e encostei as costas contra um painel de controle meio destruído. Peguei um pirulito de morango do bolso da jaqueta, tirei o plástico e coloquei na boca.

— Você deveria cortar a garganta de todos para garantir que não acordem — Hela sussurrou novamente, a presença dela se projetando como uma sombra gélida ao redor do meu campo de visão. — Misericórdia é a fraqueza dos mortais.

Hela, meu amor, eles estão mortos. Tipo, mortos de verdade. Se eles acordarem agora, o problema é seu, já que o departamento de zumbis é da sua alçada.

— Impertinente — a deusa rosnou na minha mente, embora eu pudesse sentir uma ponta de diversão na aura dela. — O sangue desta garota cheira a aço e tragédia. Ela vai te arrastar para a ruína.

— Ela é minha família — respondi em voz alta desta vez, brincando com o palito do pirulito entre os dentes. — E cá entre nós, de tragédia e família complicada você entende bem, né? Digo, seus meio-irmãos Loki e Thor te odeiam... se a gente for comparar árvores genealógicas surtadas, a sua ganha de lavada.

— A essência divina que carrego...

— Blá, blá, blá. Deusa da Morte, Rainha do Helheim, blá blá blá — debochei, dando uma risadinha. — Olha só, se você quer me possuir de vez, vai ter que aprender a ter um pouco mais de senso de humor. A vida já é uma desgraça; se a gente não rir, viramos a Alison.

Olhei para a Ally no chão. As feições dela, mesmo dormindo, continuavam franzidas, como se estivesse tendo um pesadelo constante com a base da Sibéria e o Soldado Invernal. O sorriso brincalhão do meu rosto desapareceu por um segundo, dando lugar a uma preocupação genuína.

Eu vou procurar a família dela, Hela, pensei, desta vez com uma firmeza que fez até a deusa silenciar por um instante. Nem que eu tenha que ir até o seu reino dos mortos e barganhar com você.

— Aguardarei ansiosa por este dia, pequenina... — Hela murmurou, sua voz finalmente recuando para a penumbra da minha mente.

Ajustei minha posição no chão, apoiei os cotovelos nos joelhos e fiquei esperando.

— Vamos lá, bebê Adamantium... acorda logo que a minha bunda tá congelando nesse chão — murmurei para a Ally, dando um suspiro e voltando a saborear meu pirulito.

Um gemido abafado finalmente quebrou o silêncio da sala destruída. A mão da Ally tremeu levemente no chão de concreto antes de os olhos dela se abrirem, cobertos por uma névoa de dor e confusão.

— Finalmente! — falei, tirando o pirulito da boca e apontando o palito para ela. — Eu já estava quase desenhando um bigode na sua cara com restos de pólvora para passar o tempo.

Ela piscou algumas vezes, tentando ajustar a visão sob as luzes piscantes do teto, e apoiou o cotovelo no chão para tentar levantar. Um sibilo de dor escapou pelos dentes dela quando a eletricidade residual estalou nos seus músculos.

— O que... o que aconteceu? — a voz dela saiu rouca, grave, parecendo que tinha engolido fumaça.

— Ah, você resolveu testar se os seus ossos de Adamantium também conduziam energia elétrica e, adivinha só? Conduzem! — dei uma risadinha, me inclinando para a frente. — Um dos idiotas te deu um confere com um bastão de choque industrial pelas costas. Você apagou igual a um passarinho caindo do ninho.

Alison sentou-se devagar, levando a mão ao pescoço e massageando a nuca. O olhar dela varreu o salão, passando pelos corpos espalhados e pelas marcas de queimadura de necromancia nas paredes. O semblante fechado e tenso de sempre voltou ao rosto dela em questão de segundos. Nenhuma surpresa por aqui.

— Você matou todos eles? — perguntou, a voz fria como o inverno de onde fugimos.

— Ué, óbvio. Você queria que eu pedisse para eles esperarem você acordar para a gente tomar um chá? — me levantei, sacudindo a poeira da minha calça e estendendo a mão para ela. — O departamento de limpeza deu conta do recado. De nada, inclusive.

— Ela nem mesmo agradeceu — Hela sussurrou no fundo da minha mente, a voz cheia de veneno e desdém. — Sempre tão... cheia de remorso.

Fica na sua, gótica das trevas, respondi em pensamento para a deusa, sem perder o sorriso no rosto.

Alison olhou para a minha mão estendida por um segundo inteiro antes de pegá-la. Puxei-a para cima com força. Ela cambaleou um pouco, mas firmou os pés no chão, olhando de relance para o corpo do guarda que a tinha atingido — o que ainda tinha uma lâmina verde mística fincada no peito antes de evaporar.

— Não precisava ter matado o último. Poderíamos ter interrogado ele sobre a localização das outras bases — Ally murmurou, ajustando a roupa e limpando uma mancha de fuligem da jaqueta.

— Ah, fala sério, Ally! O cara te fritou! Ele não sabia de nada importante além da receita de macarrão instantâneo da base — brinquei, dando um tapinha leve no ombro dela. — Além disso, se a gente quisesse papo, eu arranjava um tabuleiro Ouija para conversar com o fantasma dele.

Alison soltou um suspiro pesado, o tipo de suspiro de quem carrega o peso do mundo inteiro nas costas desde os dezesseis anos. Ela caminhou até o painel central, puxou um disquete do bolso e o plugou na entrada do sistema para baixar os dados da H.Y.D.R.A.

— Precisamos sair daqui antes que os reforços cheguem — disse ela, sem olhar para mim, o brilho azul da tela refletindo em seus olhos.

Fiquei observando as costas dela por um momento. O jeito rígido de andar, a postura defensiva que nunca relaxava... Dava vontade de sacudi-la até voltar a sorrir como na época em que a gente era criança e não tínhamos metade dessas responsabilidades nas costas.

— Sabe, Alison... — caminhei até ficar ao lado dela, cruzando os braços. — Um dia desses você devia tentar um troço novo. Chama "sorrir". Dizem que não mata e ainda ativa uns músculos legais no rosto.

Ela nem piscou, mantendo os olhos nos arquivos sendo transferidos.

— Eu vou sorrir quando a minha mãe estiver a salvo e a H.Y.D.R.A. virar poeira.

— Uma causa nobre... ou uma ilusão idiota — Hela debochou na minha cabeça.

Revirei os olhos para a voz interna e dei um abraço de lado na Alison, prensando a cabeça dela contra o meu ombro só para irritar.

— Então é bom a gente correr, porque eu tenho um encontro marcado com uma pizza de calabresa e não pretendo me atrasar por causa de nazistas genéricos!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.