Journey to Glory - Interativa
3 Capítulo II
Notas iniciais
O humilde homem adentrou o enorme salão, e contemplou o local maravilhado. O teto tão alto que quase não se podia ver, as paredes enormes e brancas, cobertas por detalhes em ouro, o tapete vermelho de veludo em que andava, e os esplendidos tronos à sua frente, enfeitados de arabescos dourados. Tudo o deslumbrava. Caminhou hesitante, com passos inseguros e olhar assustado até a posição indicada pelo guarda e se curvou diante do homem sentado ao trono. Esperou que lhe fosse permitido falar, e esses poucos segundos que o rei demorara para lhe conceder a palavra, pareceram-lhe anos.
– Vossa Majestade, meu vilarejo vem passando por dificuldades, falta o que comer, as terras estão inférteis, e além disso não temos onde morar desde que os saqueadores queimaram nossas casas – o homem disse olhando para o chão ainda em posição de reverência.
George, o rei, ficou a observar o homem com um olhar pensativo. Não parecia nada satisfeito com a situação, e isso o camponês percebeu rapidamente, o que só o deixou mais nervoso. Após alguns longos minutos o monarca chegou à sua resposta.
– Não posso fazer nada sobre isso – foram suas breves palavras que fizeram o homem entrar em choque, e ter de ser carregado para fora do salão. Antes de ser arrastado pode-se ver lágrimas em meio ao desespero de seus olhos.
Sentada ao lado do rei e não menos pasma que o camponês estava Catherine, a filha caçula da família real de Durham. Assim que o homem foi retirado do salão os portões foram fechados e as visitas encerradas. George, Catherine e Jacob, o filho mais velho, deixaram o salão, e foi quando a jovem decidiu manifestar-se.
– Pai, como pode dizer isso? Poderia tê-lo ajudado, mesmo que...
– Não podemos sair distribuindo dinheiro para todos que dizem estar passando por dificuldades – interrompeu o homem – este reino está entrando em crise e não podemos desperdiçar recursos com questões de menor importância.
Catherine estava ainda chocada, mas sabia que era verdade, que o reino estava entrando em crise. O número de saqueadores só crescia, e apesar de estarem na primavera as colheitas não estavam vingando o quanto deveriam. Além disso as relações com os outros reinos também não andavam muito bem. Um dos poucos aliados que tinham, Aresen, estava ameaçando entrar em guerra contra Morfhind, um reino com um poderoso exército e com quem mantinham negócios, e pedia ajuda de seus aliados. Ainda assim, com todo o luxo em que viviam daria para reconstruir milhares de vilas, mas seu pai nunca trocaria sua riqueza e conforto pela segurança de meros vilarejos, e isso incomodava Catherine de uma maneira acima do normal.
– O senhor deveria cuidar de seu povo, e não apenas de seu luxo – retrucou, mas sem alterar a voz, na verdade era muito raro ela fazê-lo.
– Basta, não se intrometa em assuntos do reino – o homem alterou seu tom de voz, encarando-a irritado — e a partir de agora não vai mais estar presente em discussões econômicas ou diplomáticas, nem em quaisquer assuntos referentes à regência destas terras.
– Mas, pai eu nã...
– Mulheres não devem se envolver em questões políticas, muito menos uma que não consegue entender simples questões hierárquicas.
Catherine não disse nada, apenas parou de andar, vendo o irmão e o pai se afastarem, ambos indiferentes ao que acabara de acontecer. De fato, não poderia culpa-los, esse era o modo como as coisas funcionavam no mundo, uns eram privilegiados enquanto outros sofriam não importando o quanto se esforçassem, mas não se satisfazia com a situação, e nem nunca o faria. Mesmo assim, não sabia se algum dia poderia fazer algo a respeito.
Continuou a caminhar pelos corredores tomando um caminho diferente de seu pai e seus irmãos, não queria encará-los agora, detestava essa indiferença de ambos. Andava calmamente sobre o piso de pedras claras, e já estava tão distraída que nem percebeu quando chegou ao pátio. O grande espaço com grama verde vívido e recém-cortada, que reluzia naquele dia ensolarado, foi onde avistou sua mãe dando algumas breves ordens à uma das serventes-chefe. O vestido vinho de veludo se destacava em meio ao cenário, e os cabelos negros e ondulados da mulher estavam cobertos por um véu bege, combinando com os detalhes da roupa. A rainha se virou, percebendo a presença da filha e caminhou até ela.
– Catherine, eu a estava procurando! Por onde esteve?
A jovem apenas sorriu, mostrando ainda um olhar triste.
– Oh, eu disse para não ir mais escutar as reivindicações do povo – disse ela lendo a expressão da filha – deixe que os homens façam isso, o importante para você agora é aprontar-se para o baile, deve causar uma boa impressão.
– Baile? – perguntou a jovem, confusa.
– Não diga que não se lembra! É uma festa para reaproximar Durham do reino Aresen, seu pai planeja fazer o rei Benethor desistir da guerra.
Catherine se lembrou, este era o tão importante baile de reaproximação dos reinos. Ela gostava de se envolver em questões políticas e referentes ao governo de seu reino, embora isso nunca lhe fosse realmente permitido, porém, bailes de reaproximação eram uma questão completamente distinta. Diferente da mãe, ela não gostava de bailes, não conseguia gostar, se sentia sempre insegura quanto à sua aparência, ao que fazer, além de detestar o claro abuso de riquezas, poder e influência que testemunhava em tais eventos. Porém seu dever como princesa — mesmo sendo apenas a caçula da família real – sempre a obrigava a comparecer nas festas reais.
Isabel, a rainha, percebeu a insatisfação da filha, mas mesmo assim permaneceu quieta quanto ao assunto, afinal aquela era uma ocasião muito importante para todos os membros da família real Windsor, era o momento de causar impressão para a família real Buckholz, de Aresen, e evitar que o reino afunde em uma crise ainda pior. Afinal, embora Durham fosse aliado de Aresen anos, se uma guerra realmente viesse a ocorrer, uma aliança com Morfhind seria muito melhor para o reino.
– Vamos, venha se arrumar logo, em breve os convidados devem chegar – disse ela afagando levemente os negros e lisos cabelos na filha, que cobriam suas costas, repicando-se ao longo de todo seu comprimento.
A jovem assentiu desanimada e seguiu a mãe até o quarto de banhos, onde — assim que conseguiu tirar a complicada roupa com a ajuda das serventes — entrou na banheira quente, e tentou relaxar até a festa, embora não achasse ser possível naquele momento de tão tenso cenário político pelo qual Durham passava. Mesmo assim, a educação que tivera não a permitiria falhar em uma simples questão de decoro e boa educação. Apesar de tudo manteria a compostura, pensava consigo mesma.
Fale com o autor