Journey to Glory - Interativa
4 Capítulo III
Notas iniciais
Myung Soo limpou o suor da testa com a parte de trás da mão. O dia não estava quente – apesar de ensolarado – mas o jovem trabalhava com tanto vigor que para ele pareciam estar em pleno verão em um país tropical. Ainda assim não perdia o foco naquilo que fazia, era tempo de colheita, e deveria conseguir recolher o máximo de legumes que conseguisse, o que não era muito em tempos como este. Recolhia-os habilmente, depositando-os no grande cesto de vime que repousava sobre a terra ao seu lado, até ouvir alguém gritar algo que lhe tirou a concentração.
– Hosten voltou! – gritou uma mulher.
Myung se virou para a estrada de terra e avistou o homem a apenas alguns metros dele. Ele estava claramente abatido, andava cambaleante e com o olhar baixo, além de estar com olhar vidrado no solo, sem ao menos prestar atenção aonde ia. O jovem correu até ele e apoiou o braço deste sobre seu ombro. Logo várias pessoas apareciam à sua volta, todas com olhares preocupados e perguntas que bombardeavam o homem destruído.
– Acalmem-se, ele acabou de retornar, está cansado da viajem – disse Myung – Devemos deixa-lo repousar antes.
O homem então respirou fundo e esticou-se o máximo que podia no momento, tentando recompor-se.
– Está tudo bem Kim, eu não devo demorar mais a transmitir a resposta do rei, por mais que me doa, acho que todos devem saber de uma vez – disse o homem pesaroso, com a voz um tanto rouca.
O jovem soltou devagar o braço do homem, afastando-se um pouco para que os outros pudessem ver o homem. Kim Myung Soo, era seu nome completo, mesmo assim todos no vilarejo o chamavam por Kim – seu sobrenome – mais por não saberem que no Leste o sobrenome é anteposto ao nome do que por qualquer formalidade. De fato, Joseon, seu lugar de origem, tinha uma cultura muito diferente da de Durham, ou do resto dos reinos de Connacht.
O grupo estava tão ansioso e tenso para ouvir a mensagem que nem sequer cochichavam entre si como era de costume. Todos tinham os olhos vidrados no pobre camponês que a transmitiria.
– O rei... – começou hesitante – negou qualquer tipo de ajuda.
A informação foi seguida por um coro de Oh’s e vários comentários indignados.
– Ele disse que nada poderia fazer sobre a colheita, nossas casas ou sobre os saqueadores.
Hosten calou-se e as vozes ao seu redor cresceram. Escutavam-se vários “isso é um absurdo!” ou “o rei nos abandonou!”, e até alguns comentários mais perigosos como: “Que derrubem o rei e sua família tirana!”
Em meio à confusão Myung ouviu risos doces e alegres, se aproximando do grupo, e voltou-se para trás, procurando de onde vinham, avistando duas crianças correndo. Abriu caminho entre os camponeses para que elas fossem ao encontro de seu pai, Hosten. O homem as pegou no colo com um pequeno sorriso, deu um beijo na testa da menina mais velha e depois do menino, em seguida abraçando-os e deixando algumas lágrimas rolarem por seu rosto. Myung sentiu por ele, o homem havia perdido a esposa pouco depois do nascimento de seu filho caçula, e por isso recebia ajuda dos outros moradores do vilarejo para cuidar das crianças enquanto estava ocupado no campo. Agora vivia em uma casa semidestruída, com a colheita escassa que a terra lhes dava e com duas crianças com menos de sete anos para cuidar.
A verdade era que a situação de muitos ali também era semelhante, uma vida tão cheia de sofrimento, mas com pessoas que ainda assim aguentavam, firmes, mesmo nos piores momentos. Myung queria fazer algo por eles, mas vivia apenas da venda de legumes na cidade próxima, e agora que a colheita ia mal não teria nem o suficiente para se alimentar adequadamente.
O grupo, depois de um longo tempo em debate, dispersou-se voltando às tarefas usuais, com as quais se ocuparam até o anoitecer, quando se retiraram para o que sobrara de suas casas, cansados e desesperançosos demais para quaisquer visitas a tabernas, tão comuns entre eles. O jovem de Joseon, porém, não se conformava com a resposta do rei. Sentado sobre o amontoado de feno que usava como cama (desde que a sua fora destruída), se perguntava como alguém poderia ser tão cruel, como poderia deixar de lado a vida de pessoas inocentes enquanto esbanjava riqueza e luxo em seu castelo. Foi então que uma ideia lhe ocorreu. Talvez algum nobre ou até algum comerciante pudesse ajuda-los, uma pequena quantia já seria o bastante, mas ninguém faria algo assim por caridade. Havia aprendido isso, os homens sempre esperam algo em troca.
Myung pegou a espada apoiada na parede rachada e a colocou sobre o colo, observando eu reflexo na lâmina prateada, lembrando de sua mãe, de como não pudera salva-la, e logo depois de Se Ha. A jovem a quem tanto amava, a quem dedicaria a sua vida, e que fora também morta na guerra. Passou a mão sobre a lâmina da espada, percebendo que a mesma se encontrava mais afiada do que se imaginaria para uma espada sem uso há um bom tempo. Uma outra ideia lhe ocorreu, e essa deveria funcionar.
Ofereceria seus serviços ao nobre que ajudar a reconstruir o vilarejo, o que normalmente não seria muito, mas no contexto atual, em que muitos precisam proteger suas terras de saqueadores, guerreiros poderia ser uma grande vantagem para se ter, principalmente um guerreiro do Leste. Não queria voltar a se envolver em batalhas tão cedo, mas pelo bem daquelas pessoas deveria fazê-lo. De qualquer modo, essa seria sua última opção, primeiro tentaria que qualquer forma conseguir alguma contribuição financeira mesmo que tivesse que se tornar servo em algum lugar. O importante era salvar o pequeno vilarejo que o acolheu em seu exílio.
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A bela e ruiva mulher estava deitada sobre um banco acolchoado, seu corpo coberto apenas por um grande pano ornamentado em arabescos dourados. Os belos olhos cinzentos encaravam o homem em tom de provocação, mas este apenas continuava a pincelar a tela a sua frente, como se nem percebesse o olhar sedutor da mulher. Já se cansara dela há alguns dias, mas não podia negar que sua beleza era realmente digna de um de seus quadros.
Deu as últimas pinceladas, finalizando o trabalho e se levantou, virando-se para o pequeno pote com água, onde lavava os pincéis. A mulher levantou-se também, deixando o pano cair sobre o sofá e abraçando o homem pelas costas.
– Que bela pintura você fez Leo, como sempre. Agora podemos brincar? – disse em tom provocante.
– Agora não, tenho um baile para ir.
– Você, recusando uma mulher? Deve ser realmente um bom baile – disse um tanto ressentida.
Leonardo continuou a guardar os pincéis, ignorando a mulher. Normalmente não faria isso, mas a situação era diferente, afinal não aguentava ficar com a mesma mulher por tanto tempo – três dias já era tempo demais para ele. Além disso haveriam várias outras para “cortejar” no baile, embora o que fizesse, de fato, estivesse bem além de apenas cortejar. Era um espanto ter sido convidado para um evento destes, de tal importância e ainda em outro país, principalmente tendo vindo de uma família quase falida e cercada de escândalos, mas afinal, o que contatos não podiam fazer não é mesmo? Fizera a filha de um nobre influente cair de amores por ele e agora estava lá, em Durham, como um convidado para a festa real.
– Leo, me leva ao baile com você – gemeu a mulher que ainda o abraçava pelas costas, remexendo os negros e cacheados do rapaz com as mãos.
Leonardo virou-se, beijando os lábios da mulher e lhe lançando um olhar provocante logo em seguida.
– Desculpe Roselina, mas não posso levar convidados.
Ele passou direto pela mulher, que ficou parada, um tanto chocada por ter sido rejeitada. Leo pegou a bolsa com os pincéis e se retirou com o dinheiro que a outra pagou pelo retrato.
Andou alguns quarteirões até chegar a casa em que se hospedava há quatro dias. Resolvera ir para Durham alguns dias antes do baile, para conhecer melhor a cidade, quem sabe criar alguns contatos, a possibilidade de tirar sua família da ruína seria maior se tivesse ainda mais aliados. A casa não era nem um pouco digna de um nobre, mas era o bastante para um praticamente falido, tinha paredes de coloração envelhecida e um tanto suja, os móveis não eram muito bons e o cômodo era um tanto pequeno em comparação ao que estava acostumado. Leo não demorou para vestir-se e logo saiu novamente, em uma carruagem que consumira boa parte de seu dinheiro, mas era quase imprescindível para provar sua nobreza.
Observou tranquilo as ruas, atraindo olhares de algumas mulheres, e lançando lhes eventuais piscadelas. Estava um tanto satisfeito com sua viagem, primeiro conhecera outro país e agora ia a um evento de tamanha importância, embora houvesse também uma certa tensão no objetivo real do baile. Sabia, assim como todos, sobre a possibilidade de uma guerra entre seu reino – Arensen – e Morfhind, por alguns conflitos de interesse e desentendimentos que vem se arrastando a anos. Não era como se realmente se importasse com isso, mas era fato que se eclodisse uma guerra e Arensen não conseguisse o auxílio de Durham, o país teria grandes problemas.
Após algum tempo chegou ao castelo e foi guiado ao grande salão onde a festa começava. A cena estava consideravelmente mais calma do que viria a se tornar mais tarde, os homens — pelo menos a maioria deles — ainda estavam sóbrios, os músicos tocavam canções de tom não muito agitado e as mulheres... Ah, as mulheres. Todas eram tão belas, bem arrumadas, elegantes – algumas um pouco mais promíscuas – mas tão quietas.
Não tardou a sentar-se próximo a algumas belas damas desacompanhadas e pediu uma bebida. Primeiro ficou a observar o salão, ainda sem demonstrar interesse nas jovens. Ele era imenso, com paredes enfeitadas e diversos castiçais dourados presos a elas. No centro da parede oposta a entrada estavam sentadas, em suas cadeiras, aquelas que julgou serem a rainha e a princesa de Durham, ambas muito belas, mas distantes da realidade em que poderia alcançar agora. Afinal, era um verdadeiro mulherengo, mas tinha noção de até aonde poderia ir sem acabar morto.
Passou os olhos pelo salão e avistou os monarcas de ambos os reinos conversando alegremente antes de se retirar para uma sala reservada, onde provavelmente tratariam do futuro da eminente guerra. Continuou a procurar algo que o interessasse, que lhe fosse útil, mas nada mais se mostrou bom o suficiente.
Aproveitou a música alegre que começava a tocar e chamou uma das moças para dançar, e, como sempre, o pedido foi aceito. A mais bela dentre as jovens e inocentes damas levantou-se e se dirigiu para a área livre de mesas do salão, guiada por Leo. Começaram a dançar animadamente, e a moça alegre sorria e se divertia, enquanto Leo, ainda que parecendo fazer o mesmo, passava os olhares pelo local a cada minuto, só não sabendo exatamente se procurava uma oportunidade de criar contatos políticos ou apenas apreciava a beleza das tantas outras mulheres ali presentes.
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