Notas iniciais
Espero que gostem, foi só para dar início a história

– Sir Joseph? – ouviu o homem chamar do outro lado da porta – Seu pai o aguarda no jardim.

Suspirou em descontentamento ao receber a mensagem.

– Diga a ele que já vou – ouviu os passos do homem se afastando para dar o recado.

Joseph passou a mão entre os cabelos escuros e levemente cacheados, deixando o pergaminho de lado e levantando-se da cadeira de carvalho. Colocou o anel no dedo médio esquerdo, onde via-se uma enorme queimadura, que ia do anelar, manchando a pele do jovem por quase todo o braço. Vestiu a capa cinza escura, ornamentada com alguns desenhos discretos na borda inferior, e saiu do cômodo. Já sabia o que lhe aguardava, e por isso sua animação não era das melhores. Há alguns meses seu pai teve a ideia de casá-lo, pensava que para o filho de um comerciante – rico, porém sem títulos — o melhor a fazer era casá-lo com uma moça nobre, e desde então não parava de apresentá-lo a mais e mais aristocratas, todos acompanhados de suas filhas.

De fato, não faltavam pretendentes para Joseph. Sua família era rica, e tinha uma bela propriedade, além de serem bem vistos pela própria família real e por alguns nobres de grande influência. Além disso, ele próprio chamava a atenção de muitas jovens, com seus cabelos castanho-escuros e levemente ondulados, a pele clara contrastando com o cabelo, e os belíssimos olhos verdes, quase tão claros quanto o interior de um limão.

Joseph chegou ao amplo jardim, e logo avistou seu pai observando algumas roseiras da varanda externa. Parou ao seu lado sem dizer nada, um tanto surpreso pelo fato de o homem mais velho estar sozinho — sem pretendentes ou aristocratas. Hansel logo notou a presença do filho, mas ainda assim permaneceram ambos em silêncio por alguns minutos até que o mais velho resolveu falar.

– Joseph, sabe que andei procurando uma esposa para você, mas isso não vai acontecer se você não cooperar — ele lançou um olhar em expectativa para o filho, enquanto enrolava os dedos na barba branca.

O jovem suspirou, haviam grandes chances de esta ser uma longa conversa, mas hoje parecia ser um dia de sorte.

– Pai, sei que o status é importante para o senhor, mas não creio que seja a hora de me casar — encarou o homem significativamente — ainda não possuo nada, não tenho títulos nem emprego, não tenho conquistas, sou apenas um filho de um homem abastado.

– Então o que vai fazer? Simplesmente esperar por um título para casar? — Hansel desviou o olhar parecendo insatisfeito — Este casamento é exatamente para você possuir algo, um nome digno. Quanto ao emprego, você continuará meus negócios, e tudo então vai passar a ser seu.

– O senhor não entende... não quero ser apenas um nobre rico! Não quero sentar-me em uma cadeira e passar os meus dias ali comendo e bebendo, sendo servido por todos sem ao menos uma conquista de verdade em minha vida! — Joseph disse exaltado, este era um assunto que sempre o deixava mais agitado, uma vida comum não bastava a ele, queria ser mais, e sonhava alto, embora ainda não soubesse exatamente com o que.

Para sua surpresa seu pai apenas riu. A risada rouca não mostrava nenhum desprezo ou deboche, na verdade parecia até um tanto feliz, orgulhosa. Joseph o encarava confuso, não sabia exatamente o significado daquilo, mas lhe parecia que algo bom finalmente surgia na mente de seu pai.

– Meu filho, andei falando com Koling, e ele me abriu os olhos. Talvez 23 anos seja um pouco novo para casar-se, ainda tem muito o que fazer, deve provar seu valor, viajar por terras distantes, traçar seu próprio caminho, como você disse.

O jovem não acreditava no que ouvia, parece que somente Koling podia abrir os olhos do velho homem. Ficou encarando o pai por alguns instantes, estupefato.

– Então, por onde vai começar a "realizar suas conquistas"? — perguntou Hansel com os olhos brilhando e um pequeno sorriso no rosto.

Joseph não pode evitar de sorrir também.

– Oeste, pelas terras de Morfhind- disse decidido.

– Muito bem, então partirá daqui a uma semana — o homem respondeu voltando a observar as roseiras — tenho um amigo por essa região, e se quiser ele pode lhe oferecer estadia.

– Muito obrigado pai, deixe que eu mesmo falo com ele. Devo começar a conseguir meus próprios contatos também.

O homem mais velho fez um gesto para o filho se retirar e continuou a observar a bela paisagem do jardim, um tanto mais alegre do que antes.

Joseph andava animado pelos corredores da imensa casa, quase corria. Foi direto à biblioteca, passando pelas enormes portas de madeira envernizada, já sabendo que lá encontraria Marin, em seu habitat natural. E realmente a menina estava sentada em uma grande cadeira acolchoada, com um livro de capa vinho em mãos. Não era comum ver uma garota lendo, bibliotecas costumavam ser mais acessíveis a homens, e mesmo assim, a maioria não as visitava com frequência, mas a jovem, talvez também por falta de opção, passava tardes inteiras entre os livros, o que fez o pai construir aquele cômodo especialmente para ela.

Joseph entrou vibrante na biblioteca, o que logo chamou a atenção da irmã, a qual se levantou surpresa.

– Joseph? O que aconteceu para estar tão contente? — perguntou sorrindo enquanto o irmão se aproximava.

Ele a segurou pela cintura levantando-a e girando no ar enquanto dizia alegremente:

– Eu para o Oeste! Papai desistiu de casar-me, vou poder finalmente alcançar cargos grandes, ser conhecido por todos!

– Oeste? Para onde?

– Morfhind.

A menina o encarou surpresa, sorrindo de leve quando foi posta no chão novamente. O sorriso, porém, não vibrava tanto quanto o de Joseph, e nem chegava a ter orgulho como o de seu pai, era mais como um sorriso triste, e o irmão logo percebeu isso.

– Marin, não fique triste, não é como se eu não fosse voltar — disse ele abraçando-a — Você sabe que tenho que fazer isso, por mim mesmo, preciso ser alguém nesse mundo.

– Só meu irmão não basta?

Joseph sorriu, acariciando os longos cabelos da irmã.

– Não se preocupe, eu voltarei em breve. Tenho certeza de que nem sentirá minha falta — implicou.

Marin devolver o olhar debochado e se permitiu sorrir de verdade, mesmo que um sorriso tímido, apenas por ver o irmão tão contente.

– Prometa que vai voltar logo!

– Volto antes da próxima primavera para te visitar.

– Mas ainda falta muito!

– Muito bem, então se tiver uma oportunidade venho no outono. Combinado? — ele esticou a mão esquerda à sua frente, com a palma voltada para baixo, num gesto que sempre faziam desde crianças para prometer algo.

– Combinado — ela esticou a mão também, mas com o palmo para cima, encostando-a na dele e deslizando-a de volta para si, assim como ele, por fim fechando-a próxima ao peito.

Ambos sorriram.

– Vou indo agora, tenho algumas coisas para arrumar até o dia da viagem — ele disse se afastando.

A menina sentou-se novamente na cadeira. Os cabelos longos e ondulados, castanho claros, cobrindo as costas, e os olhos verdes um pouco mais escuros que os de seu irmão destacados pelo vestido azul escuro com detalhes em dourado. Voltou a ler, com o coração um pouco mais pesado.