Journey Into Trickery

15 You Put Your Arms Around Me And I'm Home


Notas iniciais
Oiê galerinha! Antes que venham cheias de pedras e lanças na mão, gente, eu peço realmente desculpas pela demora, mas estou cumprindo com o que disse: está MUITO difícil arranjar tempo para escrever. Pensem que eu tenho aula de manhã alguns dias da semana, de noite, TODOS eles, e, nesse meio tempo, estágio. É muito complicado escrever mesmo, é difícil arranjar inspiração e tempo, ainda mais que, no final de semana, é quando tenho tempo de ter alguma vida social, e aproveitar meu namoro. Espero que sejam compreensivas com a demora, mas veio um capítulo grandinho com novas emoções hoje!

Será um POV da Miranda, refletindo sobre o encontro do Brisingamen e outras coisitas mais... Adivinhem para onde a dupla se dirige, neste mesmo capítulo? Jotunheim! Tcharam! A terra natal de nosso querido deus da trapaça, Loki Laufeyson! Muitas e muitas tretas aguardam nossos protagonistas!

Portanto, muitos beijos e boa leitura!

I never thought that you would be the one to hold my heart
But you came around and you knocked me off the ground from the start

You put your arms around me
And I believe that it's easier for you to let me go
You put your arms around me
And i'm home

How many times will you let me change my mind and turn around?
I can't decide if I'll let you save my life or if I'll drown

I hope that you see right through my walls
I hope that you catch me 'cause I'm already falling
I'll never let our love get so close
You put your arms around me and i'm home

The world is coming down on me and I can't find a reason to be loved
I never wanna leave you but I can't make you bleed if I'm alone

You put your arms around me
And I believe that it's easier for you to let me go...

I hope that you see right through my walls
I hope that you catch me 'cause I'm already falling
I'll never let our love get so close...

You put your arms around me and i'm home

I've tried my best to never let you in, to see the truth.
And I've never opened up, I've never truly love 'til you

Put your arms around me
And i believe that it's easier for you to let me go

I hope that you see right through my walls
I hope that you catch me 'cause i'm already falling
I'll never let our love get so close

You put your arms around me and I'm home.


“- ...Você realmente o ama muito.”


Miranda seguia sozinha para oeste, guiando-se pela montanha que sabia conter o túnel que a permitiria sair de Vanaheim até Yggdrasil. Enquanto caminhava, silenciosa e furtivamente, temendo ser encontrada pelos súditos de Freya, lembrava-se da frase dita e repetida com tanta sabedoria pela aparentemente tola ninfa de Freya, Elaine. A garota a ajudara a escapar das garras da deusa da beleza por um longo caminho guiando-a por locais pouco freqüentados, todos pelas terras ermas de Vanaheim. Gastaram metade do dia para percorrê-los em totalidade, desde os mangues ao longo da costa que banhava o reino, até as mais densas florestas, com uma aura de magia tão forte que Miranda sentia-se capaz de tocar o fluxo mágico.

Ela seguira junto da jovial mulher por tais caminhos, um tanto aliviada por não estar na companhia de Loki, que aparentemente decidira-se seguir outro rumo. Não temia que ele a abandonasse, porém; não mais. Não depois de ter encontrado o Brisingamen, e do que Freya dissera que aquilo significava. Porém, apesar de tal descoberta, ainda sentia-se insegura. Tudo estava acontecendo rápido demais, sua vida mudara em um piscar de olhos, assim como todas as suas expectativas.

Desconhecia tudo o que via, aprendia, e... Sentia. Precisava de um tempo a sós, ao mesmo tempo em que não desejava nada mais ardentemente do que estar na companhia de seu deus da trapaça. A contradição de seus sentimentos e expectativas a corroia por dentro, e Miranda perguntava-se, aflita, quanto mais daquilo iria poder agüentar.

Quando finalmente se despediram, a jovem de cabelos castanhos e olhos cor de mel agradeceu a ninfa inocente por toda a sua ajuda e fidelidade ao juramento que fizera, guiando-a seguramente para longe dos olhos da deusa do amor, sem sequer fazer perguntas a respeito do que Miranda poderia ter feito para tirá-la do sério; afinal, não era um traço da deusa Freya, e muito menos dos vanires, saírem de sua postura pacífica e gentil. Elaine a puxara para um longo abraço, e dissera-lhe que nada poderia se equiparar ao que lhe conferira, e por isso sua gratidão seria eterna: conseguir o amor que tanto desejava.

Curiosamente, um pequeno pedaço de Miranda concordara com a afirmação da loira ninfa, e aquilo a perturbou severamente.

Ao enfim acenar-lhe um adeus, os olhos azuis e gentis de Elaine modificaram sua coloração, passando para o diferente brilho prateado que exibiam o poder de clarividência da inocente ninfa; tivera alguma adivinhação a respeito dela. Miranda engolira em seco, com medo do que ela poderia ter descoberto, mas a ninfa apenas sorriu-lhe, dizendo:

“- Adeus, ninfa Hale. Vai encontrar seu noivo em breve, não se preocupe. Você realmente o ama muito.”

Com isso, antes que Miranda pudesse responder-lhe, Elaine virou as costas, e, em um movimento suave, adentrou por entre as fronteiras da floresta e desapareceu, deixando Miranda a sós com seus pensamentos e um coração acelerado.

Passados alguns segundos, Miranda recobrou-se da ligeira surpresa e decidiu seguir viagem. Caminhando ao longo da encosta montanhosa na qual sabia conter a passagem para Yggdrasil, Miranda não conseguia parar de pensar, sua cabeça explodindo em um turbilhão de imagens e diferentes sensações provenientes.

Andando pela grama macia, banhada pelo sol que já subia alto, emoldurando com sua luz dourada uma linda tarde em Vanaheim, a jovem moça tinha seu olhar perdido para as campinas e colinas férteis mais além, mas não via nada além de Loki e a expressão atônita que fizera ao reconhecer o colar da deusa do amor caído em meio a areia de uma praia perdida no tempo...

Ela encontrara o Brisingamen. E agora? Como Loki reagiria a partir deste momento? Como ela mesma reagiria? Será que Freya contara a verdade a respeito do feitiço, ou aquilo era apenas uma espécie de armadilha para ludibriar as outras mulheres com quem o deus da trapaça poderia se envolver? E se houvesse alguma espécie de magia... Ruim, naquele objeto? Se Freya tivesse lhe lançado uma maldição? E se...

Miranda perdia-se em pensamentos, sem saber no que acreditar e no que esperar. Mas a imagem das íris verdes do deus, encarando aquele colar... Havia algo ali, ela podia sentir, com a magia que vivia dentro de si, e com o que lhe dizia seu coração.

Lembrou-se do que Loki havia lhe dito: “– E Freya lhe disse como eu nunca lhe jurei nada?”

A mulher de cabelos castanhos sentiu-se estremecer dos pés a cabeça. Aquilo sim, queria dizer alguma coisa. Mas era tão difícil admitir para si mesma, assustava-lhe tanto o que viria em seguida, e o quanto aquilo a deixava exposta, indefesa... Evidenciava o quanto estava, sem dúvidas, sem saídas, irremediavelmente... Apaixonada.

“- Enquanto estiverem juntos, haverá esperança.”

A voz de Boann veio-lhe, sussurrada do fundo da memória como uma canção de ninar, agindo como um doce bálsamo para seus ouvidos. Miranda respirou fundo, e fechou os olhos. Lembrou-se daquela querida e sábia mulher, com seus gestos gentis e palavras repletas de misticismo... Tudo o que ela dizia parecia ter um efeito acalentador, como se a embalasse delicadamente, a sensação de se estar em um barco descendo por águas calmas, movimentando-se docemente de um lado para o outro... A magia das águas.

Uau... Isso é mais forte do que um calmante. Miranda pensou, ainda de olhos fechados, e sentiu-se mais animada instantaneamente. Provavelmente era o efeito da magia de Boann, capaz de ser despertado apenas pela lembrança da entidade protetora das águas doces, mas ela sequer deu importância a isso. A jovem mulher, mantendo os olhos fechados, inspirou-se nos movimentos infantis e soltos de Elaine, e passou a dançar ela mesma por aquela terra de magia e encanto, de belezas naturais nunca d’antes vistas, enquanto mantinha-se caminhando para a frente.

Seguiu assim, rindo bobamente para si mesma, e a imagem de Loki voltou com força total para seu pensamento. Ampliou ainda mais seu sorriso, sabendo que ninguém mais a via além de si mesma, e intuitivamente pensando que tudo daria certo, enquanto estivessem juntos.

Ao girar pela grama, seus braços dançando floreios pelo ar, Miranda sentiu o gostoso sol reconfortante agraciando seu corpo, e lembrou-se de uma paisagem tão idílica quanto Vanaheim e suas terras de sonho. Pensou em um garoto solitário e encantador, que lhe dava travessamente uma rosa vermelha, e nos olhos mais verdes que já caminharam por todos os nove reinos.

Miranda sorriu uma última vez, cheia de uma satisfação e uma forte sensação de bem-estar, e finalmente abriu os olhos.

Loki a encarava com uma sobrancelha levemente levantada, os mesmos olhos verdes a olhando com uma expressão totalmente diversa a do esperto menino que uma vez conhecera em seus sonhos. Instantaneamente, Miranda sentiu seu coração parar de bater.

– Devo perguntar...? – Loki disse, sua voz soando fria, gélida e indiferente aos ouvidos de Miranda. No mesmo momento, a moça de olhos cor de mel sentiu-se como se houvessem derrubado um enorme balde de água fria em si.

– O... Onde estamos? – Foi tudo o que Miranda conseguiu dizer, sentindo-se idiotamente tímida. Sabia que suas bochechas deveriam ter assumido um tom rubro forte, tamanha a sensação de ardência que tinha, naquele momento, naquela região de seu rosto. O estado de graça em que estava anteriormente parecia ter se despedido ainda mais rápido do que Elaine sumindo em meio às fronteiras da floresta na qual deixara a jovem moça.

O deus da trapaça passou a mão direita pelo rosto, como se estivesse irritado e quisesse se controlar. Antes que ele a respondesse, a mulher já havia reconhecido. Estavam no mesmo lugar por onde entraram, no portal que os levaria para as raízes de Yggdrasil. Ela chegara lá sem nem mesmo procurar o caminho.

– Não bastando acompanhar uma tola ninfa de Freya, quando ela finalmente a deixa seguir caminho, você ainda o faz sem saber para onde ruma, em uma terra que lhe é estranha? Sabendo que está sendo perseguida, inclusive? – Sua voz ia pouco a pouco tornando-se mais e mais sibilante, e Miranda sentiu-se instantaneamente contrita. Não. Resista. Tente raciocinar.

Um brilho de esperteza perpassou os olhos cor de mel de Miranda antes que respondesse. – Quer dizer que estava nos seguindo este tempo todo? – Ela tentou desviar o assunto e dar um tom despojado a sua frase, mas sua voz saiu trêmula, colocando por terra o que planejava.

Loki a encarou por um milissegundo antes de responder na mesma postura fria de antes. – É claro. Já me dera bastantes problemas com a primeira tolice de ir a Folkvang sozinha. Por que acreditaria em uma serva de Freya que poderia estar lhe levando a uma emboscada? – O deus da trapaça soou despretensioso, mas Miranda sentiu-se intuitivamente desconfiada.

– Foi por isso... E apenas por isso, não é? – Ela se aproximou devagar, tentando insinuar-se para ele, munindo-se do máximo de coragem que conseguia. Caminhando sinuosamente como um felino, a moça semicerrou os olhos cor de mel e deu-lhe o sorriso lascivo que sabia apreciar, e Loki crispou os lábios levemente.

– Pensei que já soubesse bem disso. – O deus da trapaça passou seus dedos longos pelo rosto de Miranda, e ela não pôde conter um estremecimento involuntário, junto de um calafrio que fez cada um de seus raros pelos eriçarem-se. – Temos um sério objetivo aqui. Uma falsa guerra a ser travada. E para tanto... – O deus caminhou alguns passos a frente e a enlaçou pela cintura. Miranda sentiu seu corpo encaixar, pouco a pouco, junto do dele. Sentiu suas coxas firmes, sua pélvis, sua barriga maravilhosamente delineada, mas seu olhar era hipnoticamente sempre arrastado para seu rosto, e para suas íris verdes mais belas do que tudo que havia nos Nove Reinos. Ele a tinha na mão, e Miranda, pouco a pouco, compreendia a profundidade do significado disso.

– ...Precisamos nos focar e não perder tempo com tolices. – Loki fingiu que iria beijá-la, roçando seus lábios nos dela, e soltando-a sem hesitar em seguida, afastando-se bruscamente. Miranda suspirou, conteve um suspiro, e sentiu-se respirar profundamente, seu peito subindo e descendo consideravelmente com o gesto.

– Como foi toda essa inútil estadia em Vanaheim. – O deus da trapaça assumiu outra vez a postura fria e distante, e Miranda sentiu uma forte pontada em seu coração, a contragosto. Ela olhou o deus se afastar, andando em direção ao túnel que os levaria a Yggdrasil, que se encontrava na encosta bem ao lado deles.

– Foi útil para eu saber que posso enganá-lo também. – Miranda disse, subitamente irritada, com firmeza. – Não sabia que o deus da trapaça poderia ser fraco o suficiente para ser ludibriado com uma “chave de coxa”, como um reles mortal. – Ela imitou a forma polida do deus da trapaça de falar. Por último, o golpe fatal.

– Foi tão fácil extrair sua energia. Você desmaiou como uma mocinha. Facilmente enganável, como todos os homens que tive em Midgard. – Miranda sorriu cruelmente, enquanto Loki se virava para ela, a expressão em seu rosto impassível.

A jovem moça apenas teve tempo de ver um brilho assassino perpassar os verdes olhos de Loki, enquanto ele moveu-se como uma sombra até ela, segurando seu rosto com as mãos de maneira quase violenta. Era a possessividade em pessoa.

– Eu entendo o que está fazendo. Não vai dar certo, pequena. – Miranda tentou evitar seu olhar, que era intenso demais, mas o deus da trapaça puxou seu rosto com força, obrigando-a a encará-lo. – Se quer encontrar uma maneira de se vingar de mim, tente uma menos previsível e estúpida. Acho que superestimei sua inteligência. – Loki dizia, mordaz, venenoso, mas Miranda já tinha a resposta na ponta da língua. Fechou seus olhos e abriu-os novamente, antes de responder-lhe:

– Para alguém tão indiferente, você parece bastante abalado com o que eu disse. – Ela piscou lentamente os olhos, ainda o encarando. – Ou será que vai me jurar algo para contradizer o que eu disse? – Miranda lançou o desafio com bravura, e Loki vacilou por um instante, como se tivesse sido esbofeteado na cara com a veracidade da insinuação da moça.

Ele soltou seu rosto, afastando-se alguns centímetros. Seus olhos estreitaram-se, como se subitamente avaliasse Miranda com mais respeito e temeridade.

– Talvez tenha aprendido mais do que eu imaginava. – Loki disse desdenhoso, dando levemente o braço a torcer. – Mas lembre-se... – Ele a puxou novamente, e falou em seus ouvidos, fazendo o baixo ventre de Miranda revirar-se de ansiedade, e a excitação percorrer como um impulso nervoso todos os seus poros.

– ...Você é minha. Minha. – Soltou-a da mesma maneira displicente e pôs-se a caminhar a largos passos para o local que seria a saída da dupla de Vanaheim.

– Já perdemos tempo demais com bobagens. – Loki disse de longe, sem voltar-se mais para ela. – Não esperarei mais nem um minuto por aqui.

Ele está brincando comigo. Sei que está. E por que... Por que eu gosto tanto disso? Miranda pensou, entre o confusa e o preocupada, mas com um sorriso largo que não queria deixar seu rosto. Sentiu-se estúpida, mas, estranhamente... Feliz.

Entretanto, resolveu esperar alguma reação. Seguindo um instinto, não sabia ela se mágico ou apenas... Feminino, deixou-se levar pela intuição. Manteve-se parada, estática, como se não fosse segui-lo. Fez a melhor expressão indiferente que pôde, aguardando o momento certo. Quando Loki quase havia saído de seu campo de visão, ela o viu, de longe, passar uma das mãos impaciente por seus cabelos negros, e, enfim... Sumir pelo túnel que o levaria para Yggdrasil.

Miranda engoliu em seco. Não era aquilo que esperava. Seu coração mais uma vez pôs-se a bater acelerado, a angústia tomando seu peito como se algo muito pesado a esmagasse naquela região de seu corpo, e todos os pensamentos que a afligiam em segundos desenhavam-se avassaladoramente em sua mente, atormentando-lhe os pensamentos.

Miranda abriu e fechou os olhos para tentar livrar-se deles. Não, não, não. Não agora. Não agora. Controle-se, controle-se...

Enquanto ainda estava de olhos fechados, ela sentiu sua mão ser puxada, e seu corpo elevado para uma altura não muito grande. Mãos firmes a levavam pelo colo, e, em segundos, ao abrir os olhos novamente, ela estava na entrada do túnel que a levaria para Yggdrasil, se seguisse reto.

– Da próxima vez não serei tão gentil. – Loki ameaçou-lhe friamente, mas Miranda não se importava. – Não temos tempo para esses seus joguinhos. – Ela ouvia suas palavras duras, mas elas tinham o efeito inverso dentro de si. O deus da trapaça poderia dizer o que quisesse, mas aqueles gestos, aquelas ações e, ainda por cima, a expressão que ele fizera ao ver Miranda descobrindo o Brisingamen...

Aquilo a fazia sentir-se em êxtase, em paz, como se nada pudesse ameaçá-la, e mesmo as controvérsias óbvias que permeavam aquela espécie estranha de relação que tinham com Loki não a assustavam, naquele momento. Estava num estado de graça muito mais profundo e envolvente do que a magia acalentadora de Boann poderia sequer sonhar prover.

De olhos outra vez fechados, sentiu as mãos de Loki a ampararem firmemente, e, por um segundo, pensou que aquilo poderia durar para sempre. Antes de descer de seu colo, escondeu seu rosto em seu peito, para, na verdade, não permitir que visse seu sorriso da mais genuína alegria.

Estou fodida. Eu realmente o amo muito.



***



Em silêncio, Miranda seguiu viagem junto a Loki, fazendo o mesmo percurso conhecido até Yggdrasil. Ao chegarem à terra árida, na qual cresciam apenas arbustos inférteis e a monumental Árvore dos Mundos, que se alimentava pelas raízes das terras mais profundas que haviam, a tarde já caía alta, e o anoitecer viria em breve, proporcionando uma noite estrelada, de lua cheia. Noite de magia, Miranda pensou intuitivamente, sem saber de onde tirara o pensamento. Cada vez mais a midgardiana sentia que estava em contato com seu lado mágico recém-aflorado pelo sopro de Hela, e ainda não sabia a dimensão que isso poderia atingir no final das contas.

– Teremos um grande desafio pela frente, agora. – Loki disse como uma espécie de tutor, parecendo medir as palavras. – O lugar para onde iremos será nossa última parada antes de Asgard, e é imprescindível que tudo corra precisamente como planejei. – O deus da trapaça enumerava sílaba por sílaba, como se calculasse os riscos por trás do que dizia.

– Deixe-me adivinhar... Fora Asgard, o único lugar notório que falta é... – Miranda foi contando nos dedos os locais que haviam visitado, tentando dar um ar cômico à situação, sentindo uma aura preocupada nas palavras proferidas por Loki. – A terra do sorvete! Gelatto! E não é a Itália, infelizmente. – Ela colocou as mãos na cintura, suspirando como se estivesse insatisfeita, tentando agir tolamente para descontrair Loki ou ao menos irritá-lo. Conseguiu a segunda opção.

– Não me fale nesse maldito alimento outra vez. – O deus crispou os lábios, dizendo em repúdio, parecendo lembrar-se de quando sua língua e parte de seu rosto azularam-se por tentar tomar a comida no zoológico de New York. – Mas isso não é importante. Sim, vamos a Jotunheim. Mas antes disso, lhe passarei as instruções: você terá de conjurar uma roupa de inverno o máximo agasalhada possível para você, e, para mim, um manto similar aos usados pelos gigantes de gelo, desenhados neste seu livro tolo midgardiano de mitológica nórdica... – A moça de olhos cor de mel fingia escutar, como sabia que agradaria a Loki, enquanto seu pensamento era levado por assuntos mais importantes.

Miranda o encarou por alguns instantes, concordando aqui e ali para fingir que o ouvia, e seguindo-o pelas raízes de Yggdrasil, até encontrarem a extrema esquerda e um ramo compridíssimo que parecia não ter fim. Loki desceu agilmente por uma rampa naturalmente erguida próxima a essa raiz, e levantou-o com destreza para que Miranda e ele pudessem passar. Fez um gesto sarcástico para que ela fosse primeiro, mas a jovem moça de cabelos castanhos sequer sentiu-se abalada. Jotunheim... Isso vai ser muito difícil para ele. Miranda lembrou-se de quando Loki se revelara jotun, para ela, naquela situação emocionante em New York, e a dificuldade que tivera para tanto. Loki parecia odiar-se, às vezes, enquanto em outros momentos conseguia ser egocêntrico e cheio de si. Tanta coisa aconteceu depois, e não chegamos sequer a conversar sobre. Ainda bem, ele provavelmente preferiria morrer a ter de tocar nesse assunto... A moça pensou sabiamente, considerando as possibilidades.

Talvez a verdade seja essa... Miranda arregalou os olhos, julgando talvez estar chegando perto das respostas. Talvez ele realmente se odeie. Loki não se aceita. Não aceita suas origens. Não aceita que é, na verdade, um jotun, e não um asgardiano.

Ela olhou para o lado, encarando o deus que caminhava altivamente. Seu porte majestoso, sua postura refinada e nobre, seu olhar indiferente, como se nada temesse, como se todos fossem inferiores à sua presença... Naquela máscara, naquela armadura emocional, no fundo de sua alma escondia-se o garoto assustado e solitário que escrevia, sonhadoramente, na neve. Sem entender porque gostava tanto do clima gélido, sem compreender porque não sentia frio, e temendo as vezes em que via a própria pele se azular... O menino usado como uma estratégia política, que era amado, mas que não conseguia amar a si mesmo, por julgar que ninguém jamais o aceitaria, e que apenas o aceitaram como a farsa que tentava impor para tudo e todos.

Meu lindo gigante de gelo.

– Sabe... – Miranda disse, escolhendo bem as palavras. – Eu até estou sentindo falta de vê-lo na sua forma... Original. – Ela disse, sorrindo lascivamente, mas sentindo seu rosto ruborescer, estragando a expressão devassa que tentava mostrar. Loki a olhou, devagar, perigosamente, como se julgasse que ela falava aquilo por deboche. Ela desviou seus olhos rapidamente, sentindo dificuldade de encará-lo, como se aquilo a envergonhasse. Sentiu-se como uma adolescente estúpida.

– O que quer dizer com isso? – Loki sibilou como uma serpente periculosa.

– Que você fica um gato de azul. Descobri que tenho fetiche com o seu “monumento de gelo”. Sei de coisas que me dão vontade de fazer com você “jotun-style” que derreteriam em brasas esse seu sangue gelado. – Miranda disse despojadamente, seu rosto assumindo a cor similar a um pimentão vermelho ao dizê-lo, e sentiu-se ainda mais idiota.

Loki soltou um riso contido, escapando ar pelo nariz. – Você sempre consegue se superar, não é? – Ele disse, entre o debochado e o verdadeiramente surpreso. Estranhamente, Miranda sentiu que aquilo era uma espécie bizarra de elogio.

– Sempre que precisar. – Miranda soltou, e arregalou os olhos para ele em seguida. Loki a encarou outra vez devagar, sua expressão indecifrável. – Quero dizer... – Ela levantou as mãos, como se pedisse calma, e em seguida juntou-as, tentando elaborar um raciocínio. — Precisamos de foco, não é mesmo? Se vamos para Jotunheim, você precisará estar na sua forma jotun, para enganar sei lá quem conheceremos lá, não sei o presidente da Häagen-Dazs ou o Rei Smurf, mas em teoria ele seria você, não é mesmo? O Gollum talvez, ele também é azul, mas ele parece com aqueles bichos tensos de Svartalfheim. – Miranda se embananava com seu pensamento confuso, soltando mil e uma palavras inadequadas, gesticulando com as mãos tolamente.

– Preocupe-se apenas em conjurar as nossas vestimentas, por enquanto. – Loki disse, interrompendo-a secamente, suas sobrancelhas franzidas em uma expressão que a deixou completamente constrangida. Por que ultimamente ele parece ter atrapalhado minha qualidade de raciocínio lógico?!

Miranda respirou fundo, e buscou o livro na mochila que trazia, a qual havia transformado a partir da antiga da S.H.I.E.L.D, fazendo-a parecer com as que os hobbits usavam nos filmes de O Senhor dos Anéis. Ainda um tanto aparvalhada, procurou sem jeito o livro de mitologia nórdica, sem encarar Loki. Achou uma gravura de um príncipe jotun, não dando muita atenção aos dizeres ao lado do desenho, e gravou a imagem mentalmente, pensando com firmeza no que havia visto. Em seguida, levantou-se, ainda de olhos fechados, tocando nas mangas de Loki com as duas mãos, quase enlaçando-o, e fez o que lhe foi pedido.

O deus, ainda com sua pele asgardiana e olhos verdes, aparentava uma realeza... Diferente. Usava um manto escuro e pesado que cobria seus ombros, com uma gola mais farta e clara, imitando o pelo de algum animal similar a uma ovelha, cujas bordas eram delineadas por fios dourados como ouro. Ao longo dos ombros, safiras incrustavam-se pelo manto, com mangas largas que deixavam apenas suas mãos de fora. Seu peito estava desnudado, coberto com um colar com uma esmeralda verde quase tão bela quanto seus olhos, e seus fios de cabelo negros cobriam-se com penas e outros adereços que, naquelas vestes, pareciam majestosos. Sua testa portava uma coroa dourada que lembrava um ramo de árvore seco, atingido pelo inverno, retorcido, com uma pedra preciosa azul escura em seu centro. As pernas cobriam-se não apenas com o manto, como por uma calça de lã escura, tão negra quando seus cabelos, e seus pés usavam grossas botas pretas que o permitiram caminhar bem pelo terreno gélido sem escorregar. Entretanto, Miranda pensou que talvez o natural dele fosse se expor ao frio, e não proteger-se.

Assim, com tal visão bem à sua frente, a jovem moça olhou-o dos pés a cabeça, embasbacada.

– Você está... Está... Está... – Ela piscou os olhos, sem acreditar. Loki, impaciente, ignorou-a, deixando-a parada no mesmo lugar, e pegou, dentro da mochila que carregavam, um espelho que Miranda trouxera.

Olhou-se devagar, como se estudasse a si mesmo. Miranda piscou mais algumas vezes, e tentou entender sua reação. Loki parecia agradado pelo ar principesco que Miranda havia lhe conferido com tais vestimentas, mas sua expressão mudou em segundos, e ele jogou o espelho de volta a mochila com certo desprezo. Miranda sentiu uma pontada em seu coração, reparando em como ele parecia repudiar a si mesmo.

– Você está parecendo um elfo de Lothlórien, só que sem parecer uma bichona também. – Miranda elogiou, sabendo que, apesar dos seus esforços, Loki não entenderia a referência. Ele simplesmente a ignorou e pôs-se a carregar a mochila, parecendo irritado. Não com as suas palavras, mas com o último ponto antes de Asgard em sua jornada, e toda a controvérsia que aquilo lhe despertava.

– Estou falando sério. – Miranda tentou mais uma vez. – Nunca te vi tão majestoso. Parece o próprio Pai de Todos. – Ela o bajulou, para que melhorasse seu humor.

– Não exagere. – Loki disse, e Miranda viu a sombra de um sorriso em seu rosto, podendo enfim respirar aliviada. – Pareço de fato um príncipe? – Loki falou mais para si mesmo do que para ela, e pareceu arrepender-se do que disse em seguida. Miranda abriu a boca para responder, mas Loki a impediu com um gesto com a palma da mão espalmada, grossamente.

– Esqueça. Conjure algumas vestes de inverno para você, estamos quase lá. Em poucos minutos estaremos em Jotunheim. – O deus da trapaça desviou os olhos, voltando o rosto para outra direção, onde Miranda não conseguiria ver o que havia em suas orbes verdes. Ela franziu o cenho, e suspirou discretamente.

Em pouco tempo, estava pronta. Usava um manto grosso de lã azul clara, com uma gola similar a de Loki, imitando pelo de ovelha, e um vestido grosso e comprido por baixo, aberto nas pernas, nas quais usava uma calça de lã escura, junto a botas grossas e femininas. Tentou ficar o mais sensual possível dentro de uma roupa de inverno, e aquilo pareceu agradar o deus da trapaça.

– Você realmente gosta de azul. – Ele permitiu-se a piada, e Miranda sorriu, pulando em suas costas e mordendo-lhe de leve o ombro, para tentar descontrair a situação. Loki a afastou, reticente, e seguiram caminho.

Se ele pudesse se ver como eu o enxergo agora... Impavidamente, a moça tentou segurar uma das mãos livres de Loki que, ao invés de evitá-la, apertou-a levemente antes de soltá-la.



***


Miranda nunca havia sentido tanto frio na vida.

– Estamos nas terras para lá da Muralha, nas Terras do Sempre Inverno! – Miranda disse alto, se protegendo de uma nevasca com os braços. Tiritava de frio, apesar da roupa e do capuz que a deveriam proteger da intempérie. – E eu achando que essa roupa daria conta... “Não sabe nada, Miranda Foster”! – A jovem moça gritava em meio a tempestade de neve, enquanto seguia com dificuldade Loki, que não parecia sentir frio nenhum.

O deus já havia transformado-se por completo em sua aparência jotun, e Miranda mal podia acreditar que algum ser poderia andar com vestimentas tão desprotegidas em uma situação de um frio tão extremo. Mas, apesar de seu corpo aparentar conforto com a situação, Loki mantinha a expressão de seu rosto desagradada, como se estivesse fazendo um esforço mental tremendo para estar onde estavam.

– Eu acho que já caminhamos tempo o bastante por hoje! – Miranda gritou. – Vou congelar de frio se não encontrarmos abrigo, de preferência com alguma caça e vinho para me esquentar! – Ela tentava alcançar Loki, mas, a cada vez que se aproximavam, ele andava mais rápido, afastando-se sem dificuldades. Miranda sentia que aquela era uma situação difícil para ele, e que não queria que ela enxergasse sua fragilidade e dificuldade naquele momento.

– Olha só, Príncipe Raspadinha! – Miranda berrou, agora irritada. – Ou nós paramos agora ou eu vou tocar nessa merda de safira que guardei nos meus bolsos e chamar seu irmão pra nos ajudar! Não estou aguentando mais! – Ela ameaçou severamente, e Loki parou, olhando mais em frente. Tudo era branco, inclusive as inúmeras montanhas congeladas que desenhavam-se aqui e ali. Entretanto, por conta da neve que caía incansável, Miranda mal conseguia enxergar um palmo adiante do nariz.

– Há um conjunto de cavernas aqui perto. – Loki disse, e Miranda soube no preciso momento que ele conhecia bem Jotunheim. – Podemos encontrar refúgio lá. Não lhe prometo a caça, muito menos o vinho. – O deus da mentira disse, indiferente. Há algo de estranho mesmo com ele. Sequer percebeu o sarcasmo.

Preocupada, Miranda continuou, virando a esquerda, sendo levada por Loki para o abrigo que dizia conhecer. Passados alguns minutos, Miranda tomou um susto, pois seu pé direito havia afundado na neve, em uma superfície tão gelada que queimava.

– Que porra é essa?! – Ela gritou, mas já havia entendido. Loki a ajudou a rapidamente tirar seu pé da neve que descongelara-se rapidamente. Ele a puxou para si, e correu sem dificuldades pelo gelo fino, alcançando uma camada de neve mais grossa antes que o que percorrera derrete-se e desse origem a um rio antes congelado.

Miranda mal teve tempo de agradecer-lhe e ele a interrompeu, afastando-se em seguida.

– Aí tem o alimento que precisa. Pesque. Esperarei mais adiante. – Loki, de costas para ela, afastou-se ainda mais. Argh. Ele está mais intratável do que de costume.

Bufando de raiva, e ainda congelando de frio, Miranda fez o que foi pedido. Com um punhal e os sentidos aguçados que o sopro de Hela lhe conferiram, ela rapidamente conseguiu pescar um grande peixe e carregou-o para alimentar-se.

Passada meia hora de caminhada, Miranda viu o contorno de rochas cinzas desenharem-se aqui e ali pela superfície branca. Haviam chegado às cavernas, e Miranda agradeceu internamente, pois jurava que seu pé em pouco tempo iria gangrenar por tamanho frio.

Loki foi o primeiro a entrar e, dizendo-lhe que o ambiente estava vazio e seguro, Miranda o seguiu lepidamente. Enquanto sentavam-se, Miranda transformou alguns objetos de maquiagem que havia dentro da mochila em madeira, e pôs-se a rapidamente queimar uma fogueira. Tirou as botas e deixou seus pés esquentarem-se na frente do fogo, um sorriso de satisfação e prazer desenhando-se por seu rosto, enquanto fechava os olhos, agradecida.

Em seguida, pôs-se a limpar o peixe e colocá-lo na brasa. Respeitou o silêncio que Loki havia adotado desde que decidiram seguir para Jotunheim. Não posso forçá-lo. Conhecendo a personalidade que tem, isso só pioraria tudo. Passou um tempo virando o peixe, salgando-o e dando olhadelas furtivas para Loki, que parecia olhar sonhadoramente a tempestade nas terras selvagens de Jotunheim, fora da caverna que lhes servia de abrigo.

– Já ficou pronto. Quer? – Miranda perguntou, oferecendo-lhe um pouco. Loki olhou para ela como se sua voz falasse a milhas e milhas de distância, e estendeu a mão para pegar o espeto que Miranda quebrara em dois. Comeu rapidamente, terminando a refeição.

Vou ficar maluca se continuar só ouvindo a minha própria voz.

– Escuta. – Ela tentou dizer, precavidamente. – Eu imagino o que você esteja sentindo.

– Você não faz a menor ideia. – Loki disse rispidamente.

Ela resolveu ignorar. – Eu também não conheci minha mãe. De verdade, quero dizer. Você viu quem são meus pais. Sabem como eles... São, comigo. – Miranda recordou-se sentindo a angústia horrível que sempre sentia ao lembrar-se de seus pais adotivos e como a tratavam. – Eu posso imaginar o que são problemas familiares. – A moça lembrou-se do detalhe sórdido de que Loki matara seu próprio pai biológico e engoliu em seco. Acho que essa é a questão mais delicada que ele tem.

– Não seja imbecil. – O deus disse ainda mais ríspido. Miranda arregalou os olhos, ofendida e magoada. Loki a olhou por um átimo de segundo, e depois passou as mãos pelo rosto. – Esqueça. Não faz a menor ideia do que estou pensando, e isso não importa. Preocupe-se em se manter aquecida. – O deus virou de costas para ela, encarando a saída da caverna.

– Eu posso até não entender... Posso ser só uma mortal. Posso ser tudo isso o que você diz. – Miranda deixou o espeto vazio de lado, terminando de comer o peixe, engolindo-o de um bocado só. – O que eu quero dizer, é que... Bem, somos parceiros, não é? Entrei junto com você, nessa, embora não tenha me convidado. – Ela abraçou os próprios joelhos, subitamente tímida, encarando o fogo e lembrando-se de como tudo aquilo acontecera, mais uma vez.

– O que eu realmente quero dizer... – Miranda levantou os olhos para Loki, vendo seu rosto movimentar-se centímetros, como se estivesse mesmo ouvindo. – É que você não está sozinho. – A moça disse, reunindo coragem.

– Não? – Loki disse, com desprezo. – Por acaso você é jotun também e escondeu isso esse tempo todo? – Debochou ferinamente. — Teve alguma pretensão ao trono de Asgard durante toda a sua vida? Ou talvez tenha sido ludibriada a desejar ser o que não era, como um perfeito idiota, por aqueles que apenas a manipulavam e escolhiam seu destino por você? – A voz de Loki reunia uma ira crescente, e Miranda, por um átimo de segundo, julgou que ele talvez fosse chorar.

– Bem, eu... – Ela tentou responder rápido, preocupada.

– Então estou sozinho. E assim quero estar. Faça silêncio. – O deus voltou-se para ela, furioso, e Miranda sentiu como se ele estivesse arremessado cem adagas contra seu coração, e cada uma delas tivesse atingido o alvo, uma após a outra.

Magoada em último grau, Miranda foi até o extremo da caverna, e fez outra fogueira para si. Cobriu-se com o manto, escondendo seu rosto, segurando o choro. Deitou-se e tentou se entregar ao sono, lembrando-se da expressão de Hela quando falava de Loki, e de Freya contando sua história com ele. Todas pareciam ter alguma espécie de vínculo ainda pungente com o deus da trapaça, embora ele sequer considerasse a mera possibilidade disso existir por sua conta. Debaixo do manto, ela deixou algumas lágrimas caírem.

Ah, Loki. Você é apenas solitário porque deseja. Miranda comprimiu um soluço de tristeza.


E, se você está sozinho, eu estou ainda mais...

Triste e angustiada, ela adormeceu.


***


Miranda acordou no meio da noite, sentindo-se não mais acomodada na pedra dura, mas em uma superfície macia e reconfortante.

Abriu os olhos rapidamente, e viu que estava deitada nos braços de Loki, agora em sua forma asgardiana, enquanto sua cabeça repousava em seu peito desnudado, seus corpos entrelaçados. Oi?

– O que... – Miranda começou a falar, sua voz embargada pelo sono, mas ele a apertou com força contra si, calando os esforços da moça. Ela sentiu o mesmo agradável calor espalhar-se pelo seu peito, despertado por nada mais, nada menos do que... Ele.

– Passei algum tempo pensando e formulando o que iríamos fazer. Agora já tenho certeza. – Miranda tentou desvencilhar-se para conversarem, mas Loki a segurou e pediu silêncio, dessa vez com gentileza. – Você estava tremendo de frio há alguns minutos, e tentei jogar mais madeira para que o fogo ficasse maior, mas não foi o suficiente. Pensei que, talvez, isso... Pudesse esquentá-la. – Ele disse, mencionando o abraço e a troca de calor entre os corpos.

– É uma faca de dois gumes. – Miranda sussurro, seu largo sorriso desenhando-se em seu rosto. Ela viu, satisfeita, Loki responder-lhe com um meio sorriso.

– Então suponho que você não deverá me tocar quando estivermos na presença dos outros jotuns. – Loki disse, e Miranda assimilou o fato de ele implicitamente ter se referido como um jotun.

– Suponho que sim. – A moça disse lascivamente, realmente desperta, enquanto ele a puxava para si. Miranda subiu em seu corpo, enlaçando-o com as pernas, beijando-o com afã, ambos queimando como a fogueira em brasas que havia dentro da caverna, explodindo de desejo recém-despertado. Se as palavras não funcionam... Vou mostrar com ações que ele não está sozinho.

Miranda ajudou-o a retirar o manto que usava para colocarem como um apoio mais delicado para os corpos, e Loki retirou sem dificuldade as vestimentas dela. A jovem moça baixou quase violentamente as calças dele o suficiente para liberar seu membro viril, e encaixou-se prontamente, realizando a dança sinuosa do prazer que os levava avassaladoramente. Loki apoiou-se com as costas contra a parede da caverna, guiando deliciado os movimentos de Miranda, e, em pouco tempo, chegaram ao ápice do prazer.


***

Algum tempo depois, Miranda recuperava-se, respirando fundo, deitada com o rosto apoiado no peito de Loki, o manto azul claro cobrindo aos dois.

“- Enquanto estiverem juntos, há esperança.” Ela lembrou-se, e sorriu, mais uma vez esperançosa. Se ele soubesse...

– Para onde vamos, agora? – Miranda disse animadamente, tentando desvencilhar-se de seus pensamentos emotivos, vendo que Loki parecia mais a vontade.

– Encontrarmo-nos com o regente Thrymr, que governa este reino. – O deus da trapaça sorriu com malícia, travesso.

– E o que vamos... Fazer... Com ele? — Miranda perguntou, preocupada. Loki acariciou seus cabelos devagar, e olhou em seus olhos cor de mel, agora preocupados. Suas orbes verdes brilharam com inteligência.

– Não se preocupe, pequena. Não é o sangue gelado dos jotuns que eu quero. Nem o de ninguém, no momento, na verdade. — Loki fingiu displicência. — Mas eles serão importantes nesta nossa... Atuação. — Ele sorriu maliciosamente delicioso, e Miranda sentiu um arrepio correr por toda a sua espinha dorsal.

– Importantes de que forma? — Ela perguntou, já imaginando que papel poderiam desempenhar.

– Da maneira previsível: aliados contra Asgard. Seus inimigos praticamente naturais. — Loki debochou.

– Você... Realmente acredita nisso? — Miranda perguntou, com cuidado. Sabia, pelo livro de mitologia nórdica e pelo que podia extrair da fala de Loki e Thor, que os jotuns eram adversários políticos de Asgard, mas não acreditava pessoalmente em alguma espécie de conflito precisamente necessário. Talvez a paz entre os dois povos fosse possível, resolvidas as desavenças. Mas isso nunca é fácil, quer seja em Midgard, ou em qualquer um dos Nove Reinos de Yggdrasil, pelo que posso infelizmente perceber...

– É claro que não. — Loki disse, secamente. — Mas o povo de Jotunheim pode talvez acreditar que sim, uma vez que seus governantes achariam mais fácil incitar-lhes a ira gratuita contra Asgard, que sempre os subjugou, para mantê-los preparados para a guerra sempre que preciso. Porém, Odin não fez nada muito diferente... — Miranda percebia o quanto aquele assunto era uma ferida ainda não cicatrizada para ele, e tomava cuidado com suas perguntas. Estou por um fio aqui. Não posso me permitir estragar tudo, ou ele não me dirá mais nada. Tenho de ter cuidado.

– O que quer dizer? — Ela tentou ser delicada.

– Meu querido falso pai, Odin, o Pai de Todos, permitia que fôssemos educados pelos grandes anciãos de Asgard. Volta e meia passava algumas lições conosco, as que considerava mais importantes. — Seus olhos brilharam, e Miranda viu dor, além da expressão de repúdio que Loki fazia. — Ele sabia que eu era um jotun, um jotun criado para ser um asgardiano, e eu fui educado como todo menino nobre de Asgard. Aprendi que os jotuns eram monstros, frios, desprezíveis, involuídos, agressivos, criaturas horrendas de lendas e histórias de terror para assustar crianças à noite. — Sua voz ia mais e mais ficando irritada, mas não crescia em volume, apenas tornava-se mais devagar, sibilante, gélida. Miranda estremeceu, com medo de ter passado algum limite.

– Talvez isso seja apenas a maneira... Bem, mais fácil de lidar com as coisas. Colocar um herói e um vilão na história, entende? E como você foi criado como um asgardiano...

Loki a interrompeu bruscamente. — ...Então criem o idiota jotun como um asgardiano, deixem-no acreditar que tem algum direito, para depois enchê-lo de mentiras e falsas promessas que seriam quebradas depois, quando ele descobrisse, sozinho, o que de fato era. — Ele se levantou e afastou-se de Miranda, que cobriu-se com o manto, olhando-o deitada, medindo as palavras que diria a seguir.

O deus pôs-se a se vestir, de costas para ela. — Não se importe com isso. — Ele tentou mais uma vez desviar o assunto. — Odin verá a verdade em breve, e terá de lidar com ela. — O deus da mentira disse, controvertidamente.

– Nós vamos forjar uma guerra, mentir nossos nomes e propósitos para... Fazer Odin ver a verdade? — Miranda não entendia.

– Precisamente. — Loki virou-se para ela e deu-lhe um meio sorriso, abotoando as calças e vestindo o manto, pronto para sair. Apagou as fogueiras, enquanto Miranda punha-se a se arrumar também, compreendendo o que ele queria fazer.

– Loki... — Miranda disse seu nome, e ele virou-se instantaneamente para ela. Quase nunca o chamava pelo nome, e a reação dele a surpreendeu. Fora adorável demais para ser verdade. Inevitavelmente, ela teve de comprimir um sorriso.

– Não tem de provar nada para ninguém. Não além do que possa te libertar da sua condenação. Estou disposta a te ajudar a se ver livre disso, mas...

– Você confia em mim? — Loki perguntou, diretamente, estendendo-lhe a mão, e Miranda sentiu seu coração acelerar-se. Seus olhos encararam suas orbes verdes, e, por um instante, a jovem moça de olhos cor de mel julgou que o tempo havia parado.

– Confio. — Miranda sorriu, estendendo-lhe a sua mão, e Loki a beijou. Quando se soltaram, Miranda sentia-se inebriada por todo o sentimento que tinha por ele.

Loki já adiantava-se para sair da caverna, e Miranda despediu-se internamente daquele abrigo, olhando para suas paredes, e para a lenha que havia sido consumida pelo fogo. Aquele refúgio, que a permitira vivenciar tantas coisas, a maioria boas, e outras que partiam seu coração. Precisava ajudá-lo com aquilo, com a dor de não se aceitar e o rancor de seu pai, e tudo o que, de certa forma, o tirara da realidade, quase o enlouquecera.

– Você não precisa provar nada... Não mais... Para mim. — Miranda disse, sua voz delicada, um fio de som, sentindo que aquilo não deixava de ser uma declaração de amor.

O deus voltou-se para ela, com a expressão idêntica do menino que a presenteava com uma rosa vermelha em um dos seus sonhos: tinha um sorriso esperto desenhando-se no canto de seus lábios, e seus olhos verdes brilhavam com algo que parecia ser...

– Vamos. — Ele disse, insistindo, e estendendo outra vez uma de suas mãos para ela.

Miranda deu-lhe uma das mãos, e Loki a apertou com delicadeza.Eu te amo muito, jotun, asgardiano, homem ou deus. Ela queria dizer, mas não conseguia. Eu te amo.

Ele a encarou, como se esperasse o que ela tinha a dizer. O coração de Miranda batia aceleradamente, compassado, e ela abriu os lábios para dizer o que engolira por tanto tempo.

– Vamos. — Miranda beijou uma de suas faces, e soltou suas mãos, seguindo-o para a nevada Jotunheim.

Enquanto estivermos juntos, haverá esperança. Ainda não é a hora de dizer nada. Miranda olhou-o de soslaio, e, mais uma vez, permnitiu-se deleitar-se com a visão de seus olhos verdes que a encantaram com a mais doce das magias.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Muito Miloki para todas se divertirem e se emocionarem, hihihihihihiihih!