Journey Into Trickery

16 Snow - Parte Um


Notas iniciais
Oi gente! Venho neste domingo com um capítulo inspirado, um POV de nosso querido deus da trapaça, obrigado a confrontar algo que é uma de suas mais difíceis controvérsias internas: sua real identidade jotun. Veremos sua genialidade astuta tentando dobrar mais uma vez um perigoso governante dos Nove Reinos, e, ao final, surgirá uma nova personagem que todos conhecemos, mas que ainda não apareceu na história. Veremos também o quanto a presença de Miranda é importante para nosso jotun-asgardiano, e todos os clássicos dilemas Lokísticos que todos nós, fãs, conhecemos tão bem!

Mais uma vez explico que a demora foi devida a minha nova rotina: trabalho oito horas por dia e tenho 4 horas por dia de aula na faculdade, minha única chance de descanso é no final de semana. Esse capítulo foi escrito ao longo de alguns dias, com algumas brechas que consegui encontrar. Então, espero que confiem em mim e saibam que, mesmo que eu demore, não abandonarei a história! Journey Into Trickery será terminada, e inclusive terá uma terceira temporada!

Devo agradecer também as lindas leitoras CokeeH e Sonífera Wonderland, que me presentearam com o que eu mais amo ganhar no nyah: recomendações! Fiquei FELICÃSSIMA! =D MUITO OBRIGADA a todas as leitoras que continuam acompanhando a história, e saibam que eu tenho apreço e carinho por todas vocês que comentam e sentem falta dos meus escritos. Sei que podem ficar frustradas com a demora, mas espero que compreendam e acreditem quando eu digo que realmente não demoro por desleixo ou por falta de consideração. Me divirto muito compartilhando essa história com vocês, e irei terminá-la, mesmo que demore para concluí-la. Então é isso!

Muitos beijos e boa leitura!

Come to decide that the things that I tried
Were in my life just to get high on
When I sit alone come get a little known
But I need more than myself this time

Step from the road to the sea to the sky
And I do believe it, that we rely on
When I lay it on come get to play it on
All my life to sacrifice

Hey oh, listen what I say oh, I got your
Hey oh, now listen what I say oh

When will I know that I really can't go
To the well once more time to decide on
When it's killing me, when will I really see
All that I need to look inside?

Come to believe that I better not leave
Before I get my chance to ride
When it's killing me, what do I really need?
All that I need to look inside

Hey oh, listen what I say oh, come back and
Hey oh, look at what I say oh

The more I see the less I know
The more I like to let it go
Hey oh, whoa

Deep beneath the cover of another perfect wonder
Where it's so white as snow
Privately divided by a world so undecided
And there's nowhere to go

In between the cover of another perfect wonder
And it's so white as snow
Running through the field
Where all my tracks will be concealed
And there's nowhere to go, ho!

When to descend to amend for a friend
All the channels that have broken down
Now you bring it up, I'm gonna ring it up
Just to hear you sing it out

Step from the road to the sea to the sky
And I do believe what we rely on
When I lay it on, come get to play it on
All my life to sacrifice

Hey oh, listen what I say oh, I got your
Hey oh, listen what I say oh

The more I see the less I know
The more I'd like to let it go
Hey oh, whoa

Deep beneath the cover of another perfect wonder
Where it's so white as snow
Privately divided by a world so undecided
And there's nowhere to go

In between the cover of another perfect wonder
Where it's so white as snow
Running through the field
Where all my tracks will be concealed
And there's nowhere to go :)

I said hey hey yeah, oh yeah
Tell my love now
Hey hey yeah, oh yeah
Tell my love now

Deep beneath the cover of another perfect wonder
Where it's so white as snow
Privately divided by a world so undecided
And there's nowhere to go

Deep beneath the cover of another perfect wonder
Where it's so white as snow
Running through the field
Where all my tracks will be concealed
And there's nowhere to go

I said hey oh yeah, oh yeah
Tell my love now
Hey hey yeah, oh yeah



Red Hot Chili Peppers — Snow (Hey, Oh)

Não há nada mais deplorável do que isto.

Ele já havia sentido e experimentado todas as formas de ódio e amargura que sua vida divina lhe pudera proporcionar, mas nada comparável a magnitude da ojeriza que sentia naquele momento. Era mais do que ódio.

Loki sentia vontade de se autodestruir. Mais do que nunca.

Haviam caminhado por horas pelas camadas de gelo, montanhas e cumes congelados de Jotunheim, com a jovem mulher seguindo-o em silêncio, gesto que, secretamente, Loki agradeceu internamente, e também o perturbou. Poderia ter alguma ideia dos motivos que a levavam a comportar-se de maneira tão ensimesmada, mas o deus, naquele momento, não conseguia deixar de sentir-se imerso em si mesmo. Nem sequer para voltar os olhos para ela, e, talvez encontrar algum tipo de sensação que o desviasse de seus próprios pensamentos, nem que fosse a mera irritação. Miranda, provavelmente calada de propósito, para lhe dar algum tempo de reflexão, o deixava aliviado por não ter de aturar suas loucuras usuais, mas também o incomodava, ao pensar que ela poderia ter a presunção de julgar o que poderia ser melhor para o deus. Como o ato de ser obrigado a confrontar sua própria identidade jotun.

E todos os seus rancores.

Porém, apesar da pretensão irritante da midgardiana, Loki imaginava a dificuldade interna que sentiria ao voltar, depois de tantas descobertas, para aquele reino desprezível. Seria inevitável o repúdio. Os jotuns não eram apenas um povo bárbaro, ignorante e semi-irracional, como, de fato, eram a culpa para tudo o que ele sofrera, e para a destruição de todos os seus desejos e sonhos.

Ele havia planejado, no passado, quando Thor fora enviado para Midgard e, julgava o deus da trapaça, jamais retornaria, que se vingaria de todos que o enganaram. Era ele o deus da mentira, e descobrira-se, na verdade, o mais iludido de todos.

Se este lugar não existisse... Estes seres... Nunca teria... Nunca seria... Loki tentava fugir de seus pensamentos, trincando os dentes, mordendo o próprio maxilar. Lembrava-se da morte de seu pai biológico, um dos primeiros que planejara a vingança. Afinal de contas, fora ele que o fizera o que era. Um falso aesir, um asgardiano disfarçado, um gigante de gelo que nem gigante, de fato, conseguia ser. Um monstro, um pária, uma besta. Um príncipe de gelo e neve. Da desolação congelada. Um fantoche de Asgard e de Odin.

Lixo, escória, se perto de Thor.

Seu lado racional, sempre tão facilmente a postos, não lhe respondia tão perfeitamente naquele lugar. Loki chutou uma rocha congelada que se encontrava a sua frente, em meio a infinitude nevada, e partiu-a em vários pedaços com o simples movimento, tamanha a explosão de raiva.

Desta vez, todos os seus sentimentos distorcidos e intensos não tinham relação alguma com a jovem moça que o acompanhava. Mas apenas consigo mesmo.

– Desculpe-me interromper seu futebol no gelo, David Beckham. – Miranda disse, sua voz saindo mais aguda do que de costume, provavelmente pela temperatura de vários graus abaixo de zero. – Mas eu diria que estamos perdidos. Espero estar enganada. – Loki voltou-se, fazendo um esforço quase além de suas forças divinas para não gritar com ela, respirando fundo para se segurar.

– Como de costume, você está. – Loki debochou ferinamente, de volta. – Perdoe-me por mais uma vez superestimar sua inteligência, mas estamos seguindo a trilha para o castelo real, se é que pode-se chamar de real... Utgardr. Onde reina um de meus irmãos biológicos, Thrymr. Um imbecil, como seria de se esperar. – Comentou, cheio de desprezo.

Miranda pareceu ignorar os insultos. Loki sentia que ela estava lhe dando uma espécie de licença para ofendê-la recentemente, como se predissesse que o faria. Ela realmente acha que me compreende. Ele pensou, por segundos, entre o enervado e, simultaneamente, surpreso. O deus já havia esperado medo, terror, submissão, raiva, desprezo, inveja, todo tipo de sentimento por parte dos humanos... Mas compreensão, especialmente no nível de Miranda, que, por vezes conseguia de fato predizer partes de suas ações... Era inimaginável para ele.

Passado algum tempo, andaram em silêncio, e ela finalmente respondeu.

– O que teremos de fazer exatamente com Thrymr, o Rei Gigante? Espero que não tenha relação com roubar uma galinha que coloca ovos de ouro. – Loki não compreendia o sentido daquilo, mas já a conhecia o suficiente para imaginar que significava algo infame e irônico.

– Isso será algo que eu farei. Você não deve falar nada, aliás, ficar inteiramente quieta seria o ideal daqui para frente. – Ele soou extremamente grosseiro, e soube, sentiu que ela se incomodou, apesar de ter ignorado a carga agressiva de sua fala. Engoliu em seco, tentando não se permitir incomodar-se com tê-la possivelmente agredido, e continuou a falar. – O que quero dizer com isso é que, talvez já saiba por ter lido neste seu compêndio de tolices humanas – Loki indicou com o rosto a mochila medieval atravessada que ela carregava, parecendo levar inocentes bagagens de viagem, na qual se encontrava o livro de mitologia nórdica que ele vez ou outra a testemunhava lendo – é que os jotuns são um tanto similares a Surtr. Mesmo os membros da realeza. – Loki insinuou, sentindo-se irritado por ter feito o comentário por se sentir culpado por tratá-la grosseiramente.

– Cabelos e roupas de metaleiro, certo sadismo e brutalidade e cantadas de pedreiro na cara dura? – Miranda perguntou, abraçando a si mesma enquanto caminhavam, subindo por uma última encosta rochosa, podendo ver os traços do castelo rudimentar de gelo adiante. O deus sentiu certa provocação em seu tom de voz. Contrariado, sentiu raiva, por compreender que ela mencionava algo que ele imaginara, que Surtr poderia tê-la desejado. Você é minha. Pensou o deus, instantaneamente movido por um sentimento intenso de possessividade.

– Digamos que o próprio Thrymr já atentou contra Odin, tentando roubar o Mjolnir, e quase sendo bem sucedido na troca que pretendia. Dizia que só devolveria o martelo caso fosse presenteado com Freya, a quem conhecemos muito bem. – Loki rebateu a provocação, e fez questão de olhar Miranda nos olhos com um sorriso explicitamente cínico em suas faces. Viu-a olhá-lo com raiva, imediatamente, e se divertiu com os ciúmes da jovem moça.

– Fale por você mesmo. Pensei que tivesse um gosto melhor para mulheres, e não ficasse por aí de saliências com uma ruiva falsa e metida à besta. Se bem que do jeito que as coisas andam, eu provavelmente vou descobrir que devem ter sido poucas as mulheres destes Nove Reinos que você deixou passar. Quando voltar a Midgard terei que refazer meus exames pra ver se não fui contaminada por uma AIDS élfica ou alguma merda do gênero. – Miranda disse despeitada, sem conseguir disfarçar os ciúmes, sua voz aguda evidenciando o que sentia, e Loki não pôde deixar de rir. Em seguida, ela abaixou-se e lhe atirou uma bola de neve na nuca, parecendo revoltada, o que, curiosamente, o fez rir mais. O deus da trapaça reparou surpreso que a expressão de Miranda ficou mais branda ao vê-lo rir e aparentar diversão.

– Isso me lembra que o final da história é realmente curioso. – Miranda parecia ouvir interessada, aproximando-se um pouco mais dele. Agora que passaram a caminhar confabulando, não mais em meio ao silêncio infindável de horas atrás, perpassado apenas pelo ruído do vento trazendo a nevasca ainda maior, ele percebera que se enganara. Mesmo que isso lhe trouxesse uma conturbação dentro de si, sentia-se menos desconfortável distraindo-se com a companhia dela.

– E qual seria o final? Você deu um jeito de enganar uma coitada fingindo que ia conseguir um bom partido para ela – Miranda tentava adivinhar, e Loki sorriu enviesado mais uma vez ao perceber que ela parecia preocupar-se que ele pudesse ter tido algum tipo de envolvimento amoroso por tal contexto – prometeu a ela um dia de princesa e a jogou pro gang-bang dos gigantes? A Freya curtiria esses lances, deu pra quatro anões pra se prostituir por um colar. – Ela disse deselegantemente e ainda despeitada, fazendo o deus soltar uma risada curta e rápida.

– Melhor do que isso. – Ele voltou seus olhos rubros para ela, que o encarou, desconfiada, mas sem conseguir desviar-lhe o olhar. – Bem melhor. – Loki começou a rir, divertido, lembrando-se.

– O que foi então? – Ela perguntou impaciente, enquanto o deus se divertia provocando-a.

– Thor teve de resolver a situação. Odin o mandou vir a Jotunheim ter com Thrymr. Porém... Vestido de Freya. Com roupas de noivado, de vestido branco e buquê. Ele se passaria pela deusa, e, quando o Rei Gigante se distraísse, conseguiria o Mjolnir de volta. – Loki caiu na gargalhada, lembrando-se do momento mais ridículo de Thor que testemunhara, e o quanto se divertira ao vê-lo rebaixado a tanto.

– E onde você estava nesse meio tempo? – Miranda perguntou astutamente, quase adivinhando os detalhes que o deus da trapaça escondera. – Espera... Se foi Odin que mandou seu irmão...

– Ele não é meu irmão. – Loki disse, grosseiramente, tentando atrapalhar o raciocínio dela.

– ...Se foi Odin quem o mandou, então provavelmente ele lhe delegou alguma tarefa também. Espera... Você também teve que ir vestido de mulher? – Miranda sorriu um sorriso largo de deboche e triunfo, e Loki soube que ela conseguira ler sua expressão. Por que ajo como um tolo quando estou perto dela? Loki se repreendeu mentalmente, inclusive arrependendo-se por contar-lhe tais detalhes. Não lhe agradava a ideia de ninguém testemunhá-lo ou imaginá-lo naquela situação vexatória, e, por alguma razão maior que também o irritava, muito menos que fosse Miranda a fazê-lo.

– Está enganada. Eu jamais me sujeitaria a isso. – Loki disse e tentou mudar de assunto. – Toquei nesta história específica apenas para orientá-la que os gigantes de gelo irão provavelmente cobiçá-la. As mulheres jotuns são hediondas, e eles também não a encararão com bons olhos pelo fato de ser uma estrangeira, e, pior, com aparência aesir. Irei apresentar-lhe como a bastarda de Balder, e como uma ninfa em vingança contra Loki, como já havíamos combinado em outros momentos. – Miranda continuava silenciosa, e o deus da trapaça sentiu-se desconfiado. – Está escutando? – Loki olhou para trás, onde Miranda o seguia de perto, e sentiu a irritação tomar-lhe por completo.

Ela pegara, silenciosamente, o livro de mitologia nórdica e pusera-se a ler, provavelmente procurando a história que ele havia contado. Esperava que os midgardianos jamais tivessem chegado a tomar conhecimento de tais fatos, mas pela expressão debochada em último grau no rosto da jovem mulher, ele pôde aferir rápido que suas esperanças foram inúteis.

– Isso é impagável! Só de imaginar vocês dois vestidos de mulher, Thor fingindo ser Freya e você, fingindo ser uma aia dele... – Miranda se pôs a gargalhar sonoramente, lágrimas de humor legítimas saindo do canto de seus olhos fechados em uma expressão divertida.

Ele reagiu antes de pensar. Loki puxou o livro das mãos de Miranda com violência, e atirou-o contra o chão aos seus pés, atravessando camadas de gelo e partindo-se, soltando folhas, contra a superfície rochosa recém descongelada pelo movimento. Miranda apenas acompanhou com os olhos, sua expressão modificada, tomada por algo que parecia não raiva, nem desprezo, mas sim... Empatia. Compaixão.

Aquilo o irritou ainda mais.

– Eu terei que te obrigar a agir de maneira apropriada? – Loki ameaçou, sibilante, sentindo algo causar uma torção no seu peito, mostrando internamente que se sentia culpado por tratá-la assim, e ficou ainda mais irritado.

– Você não me obrigou a nada. Estou aqui porque quis. – Miranda respondeu, calma, como se falasse com uma criança malcriada, com certo ar de superioridade, e Loki sentia vontade de gritar perante tamanha insolência. Preferia que ela sentisse medo, ódio, algo assim, mas não isso, não tratá-lo daquele jeito... Era difícil lidar com aquilo, íntimo demais, confuso demais.

Loki respirou fundo, controlando suas emoções, fechando os olhos e passando os dedos entre suas pálpebras e o osso de seu nariz, mas sentia-se tão enraivecido como se fosse explodir. Seu corpo tremia ligeiramente, e, quando abriu os olhos mais uma vez, Miranda abaixara-se, estava de cócoras, recitando o feitiço de cura que ele a ensinara quando passaram alguns dias no reino dos elfos da luz.

– Isto é um livro. Não é um ser vivente. Não vai consertá-lo assim... – Loki disse, desdenhando, mas pagou a língua no segundo seguinte. O livro magicamente se reconstruiu, como se não tivesse arranhão algum, encaixando-se perfeitamente em pleno ar, e deitando-se levemente no solo depois. Em seguida, Miranda o tirou do chão, bateu-o levemente contra as vestes e guardou-o outra vez dentro da mochila.

Ela levantou os olhos, e encarou Loki com um olhar tão empático que ele quase sentiu lágrimas subirem aos olhos. Quentes, grossas, repletas de raiva... E de algo a mais.

– Você estava dizendo? – Miranda perguntou desta vez sem debochar. Loki se aproximou dela, irritado, sentindo vontade de esganá-la, para que parasse de olhá-lo daquele jeito, daquela maneira que parecia perscrutar por dentro do seu sangue frio e da sua pele azul, até as camadas mais profundas de seu corpo e mente nas quais ele escondia tudo que não queria que ninguém visse... E inclusive tudo o que escondia de si mesmo.

Chegou muito perto, respirando fundo, vendo seus cabelos castanhos esvoaçando pela rajada de vento da nevasca que os envolvia, e sua pele um pouco mais bronzeada, além do tom mais escuro de seus cabelos, contrastando com a imensidão branca daquele reino perdido e miserável. Como poderia machucá-la? Ele começava a perceber, sentindo ainda mais raiva de si mesmo, quase desolado...

Olhou para seus grandes e redondos olhos de cor de mel, perdendo o foco do que faria, pela milésima vez desde que a conhecera... E se lembrou dela encontrando o Brisingamen, e da profecia que há muito escutara, e que tanto lhe repercutira na memória desde esse último par de dias, quando fora obrigado a, de uma vez por todas, confrontar a verdade. Não só em Jotunheim, como a verdade dentro de si, exposta para ele mesmo de forma inegável.

Ele conhecia o significado profético daquilo. Sabia do feitiço de Freya... Mas não poderia acreditar quem uma jóia e um encantamento de uma deusa mais fraca do que ele resultaria em algum tipo de influência em seu destino divino. O Ragnarok era certo, e era a profecia mais antiga, a vidência ancestral surgida concomitantemente com o aparecimento dos mundos.

Mas não o feitiço de Brisingamen. Não poderia ser. Ele era o deus da trapaça, reconhecido por subverter a ordem estabelecida, por seus atos imprevisíveis e por ser, provavelmente, o deus inatingível, que surpreendia com seu brilhantismo e sagacidade quaisquer outros seres dos Nove Reinos.

Não poderia haver alguém capaz de... Estar ao seu lado.

Miranda continuara estática, parada no mesmo lugar, o encarando de volta, sem aparentar algum tipo de reação. Passaram-se alguns segundos, e, enquanto Loki ainda tentava decidir o que fazer, ela se adiantou. Usando de sua velocidade e movimentos ainda mais fluidos por conta do sopro de Hela, ela o beijou delicadamente, e o soltou em seguida, adiantando-se na direção de Utgardr, ainda abraçando a si mesma pelo frio que sentia.

– Estamos tão perto agora. Melhor resolver isso de uma vez por todas, não é? – Disse ela, virando o rosto na direção de Loki, cobrindo-o com o capuz do manto azul-claro. Seus olhos cor de mel brilhavam contrastando com a nevasca e a coloração alva infindável de Jotunheim, e expunham o mesmo olhar empático de compreensão que tanto mexia com o deus da trapaça.

Não agüentarei mais um segundo disso. Loki disse, esforçando-se para desviar os olhos da jovem mulher, e seguir o resto da pequena trilha que os levaria para a sede da dinastia reinante em Jotunheim. Apesar de não estar olhando para o rosto de Miranda, ele podia jurar que a sentiu sorrir.

Não falaram mais nada até finalmente chegar a Utgard.

****

Entre camadas e camadas de gelo pesado, permeado por rochas cristalinas e estalactites congeladas, cercava-se o terreno do castelo da dinastia Jotun. Antes de sua entrada, porém, não eram apenas as rochas pontiagudas de gelo que protegiam o castelo também congelado, que lembravam o desenho de presas como as de lobos da neve, ameaçando-lhes silenciosamente em sua brutalidade figurativa. Havia também uma enorme ponte de gelo interligando um abismo de incontáveis metros de altura, no qual até mesmo a visão mais privilegiada não conseguiria enxergar absolutamente nada além da infinitude alva, da mesma cor do céu sempre fechado por conta da nevasca intermitente.

Loki e Miranda atravessaram silenciosos a ponte congelada, e ele podia imaginar a expressão de temor no rosto da ousada midgardiana, que provavelmente temeria ser arrastada pelo vento soprando neve de todas as direções. Se caíssem dali, seria uma queda vertiginosa da qual nem mesmo Loki teria muitas pretensões de escapar ileso.

Não queria se distrair de forma alguma, não mais do que já naturalmente estava. Caminhar por Jotunheim já o obrigava a pensar em coisas das quais tentara fugir pela vida inteira, e o lembrava de tudo que havia de mais conflitante dentro de si: sua verdadeira identidade, o logro que sofrera nas mãos de sua falsa família, e, acima de tudo...

O deus da trapaça sentiu-se impelido a olhá-la, como que por um feitiço. Miranda andava devagar, pé ante pé, como se temesse ser varrida pelo vento ao levantar as pernas, e ser levada abismo abaixo sem esperanças de sobrevivência. Seu rosto estava abaixado, junto ao peito, enquanto ela se abraçava em seu manto azul-claro, e tremia dos pés a cabeça. Seu queixo vacilava, tiritando de frio, enquanto seus cabelos castanhos tinham flocos brancos de neve espalhados aqui e ali. Seria uma bela visão, se seus lábios já não estivessem arroxeados pela gélida temperatura, e se...

Ela levantou os olhos, como se tivesse percebido o movimento furtivo do deus de encará-la de soslaio.

Seus redondos, grandes e encantadores olhos cor de mel, os olhos das feitiçarias humanas, do encanto da ninfa e da deusa de Midgard... Aquela que encontrara o Brisingamen e o acompanhara do fogo ao gelo, e que inúmeras vezes quase morrera ao seu lado. Que comprometia a segurança, a saúde, a sobrevivência e toda uma vida em um mundo no qual conhecia para apenas estar ao lado dele. Ela piscou e manteve o olhar nos olhos agora rubros do deus jotun da trapaça, e não parecia vacilar em sua decisão de acompanhá-lo. De maneira alguma.

Ela deve ser realmente muito estúpida. Distraindo-se por segundos de seus pensamentos de autopiedade e autodestruição simultâneos, Loki sentiu, apesar da temperatura ambiente congelante, algo quente acender-se em seu peito.

– O que é aquilo? — Miranda perguntou, sua voz saindo rouca e aguda pelo frio, seus olhos desviados do olhar de Loki apenas para fixar-se em algo que ele ainda não reparara. Devo estar ficando louco. Tamanha distração não é aceitável.

O deus da trapaça voltou seus olhos na direção dos da jovem moça alguns passos atrás de si, e finalmente entendeu.

A guarda real de Thrymr já os avistara, como Loki deduzira anteriormente. Os jotuns costumavam atacar de surpresa, cercando suas presas como animais famintos, para dar o bote quando não houvesse chance de defesa. Sabia que teriam atacado antes, se não tivessem reconhecido Loki como obviamente um jotun, apesar de não conhecerem sua identidade. Na última vez em que estivera com Loki, Sif e os Três Guerreiros, não tiveram uma congregação muito amigável. Mas aquilo era culpa da estupidez de Thor, Loki jamais agiria de forma tão impensada. Porém...

...Lembrou-se mais uma vez do gigante de gelo agarrando seu punho, momentos antes de ser morto por Loki, e sua pele supostamente aesir azulando-se até tornar-se do mesmo tom que o monstro que o tocava. Recordou-se, imediatamente, da maldita sensação angustiante e desesperadora, de quando finalmente fora obrigado a confrontar-se com a realidade, com o que realmente era.

Não passava de um monstro tão hediondo e grotesco quanto aqueles que agora os cercavam.

Uma dúzia de gigantes de gelo se alinhava, com suas lanças feitas de lâminas congeladas e enferrujadas, parecendo dentes de uma fera cruel e involuída. Loki reuniu o máximo de autocontrole que pôde, e finalmente se manifestou:

– Boa tarde, meus compatriotas. — Ele começou ironicamente, sabendo que os estúpidos gigantes de gelo não compreenderiam seu sarcasmo. — Desejo ter uma conferência com o Rei Thrymr.

– E quem seria você... Jotun desgarrado? — O gigante com um enorme pelo de lobo, negro, ao redor de seus ombros, lhe perguntou. Mal tinha cabelos e pelos corporais, e sua pele azulada era idêntica a coloração da de Loki, como da dos outros jotuns. Ele lhes apontava sua lança, também a maior e mais ameaçadora de todas, sendo seguido pelo gesto por todos os outros, mantendo sua retaguarda.

O deus da trapaça sentiu vontade de vomitar e de destruir cada um daqueles seres que se aproximavam lentamente, mas fechou os olhos e mais uma vez lutou contra seus próprios instintos assassinos de vingança, tão intensos que o faziam sentir-se como se beirasse à loucura.

Iria fazer menção de responder ao que lhe fora perguntado, mas o gigante pareceu finalmente reparar em Miranda.

– Ora, ora... O que temos aqui? — Ele abriu um enorme sorriso, mostrando seus dentes amarelados, com as gengivas negras aparecendo. Os outros lhe acompanharam no gesto, novamente, e puseram-se a rir de maneira ameaçadora e cobiçosa. Os olhos do gigante de gelo se puseram no rosto da jovem moça, para depois descer e demorar-se por um tempo exageradamente longo em seu corpo. Seu sorriso apenas aumentou, e seus olhos faiscaram de desejo.

– Esta é minha aliada. E não deve ser ferida. — O deus disse, controlando a irritação ainda mais crescente. Já sentia-se corroer-se por dentro quando reparava nos olhares cobiçosos de outras criaturas masculinas em direção a ela, sejam por fracos e desprezíveis midgardianos, por anões e outros seres mais poderosos, mas nada era pior do que jotuns a desejando. Desejando tocar em algo que era dele.

– Eu não desperdiçaria essas carnezinhas deliciosas com cortes da minha lança. Eu preferiria atingí-la de outras formas. A pobre pequenina parece morta de frio, quem sabe um pouco de ação não esquentaria seu sangue, heh? — O gigante insinuou grotescamente, olhando diretamente para os seios fartos da jovem mulher, lambendo em seguida os beiços enormes.

– Deixe-nos ganhar um pouco depois, chefe. — Um dos gigantes disse, rindo, aproximando-se do líder.

– Não nos incomodaremos em ficar com as sobras. Depois poderíamos palitar os dentes com os ossos deste menorzinho. — Olharam para Loki com desprezo, e riram debochados.

O deus da trapaça sentia tanto ódio que era quase impossível não atirar-se a garganta daqueles seres miseráveis. Aquilo estava sendo ainda mais difícil do que imaginava.

– Esperem... O Rei mandaria cortar nossas cabeças ou nos deixaria nas masmorras para apodrecer se não descobríssemos quem são. É para isso que estamos aqui, antes de mais nada. — O líder gigante lembrou aos outros, que pareceram levemente frustrados em sua cobiça de luxúria e sangue.

– Então arranque as pernas deste menor, chefe, quem sabe ele fale mais rápido assim. — Um dos gigantes sugeriu, enquanto os outros riram novamente. A ira de Loki era tamanha que não aguardou mais nada, e respondeu antes que os risos cessassem.

Loki respondeu ao maior dos gigantes, que lhe havia feito a pergunta primeiramente. — Sou Laufar. Eu sou... — O deus da trapaça esperou alguns segundos para dar maior impacto a frase que proferiria, sua voz baixa, porém clara e sibilante, como uma serpente de gelo:

– ...Sou o Príncipe Perdido. — O deus da trapaça segurou-se para não sorrir, sabendo o efeito que tal frase teria.

Imediatamente, todos os doze gigantes se entreolharam, espantados. Alguns sequer pareceram compreender, enquanto outros pareciam em dúvida sobre como proceder a respeito. Por fim, os jotuns encararam seu líder, que coçou a cabeça, e finalmente deu a ordem:

– Abaixem as armas. O estranho deve ser levado a presença do Rei. Agora! — O gigante vociferou, agressivo, e todos os onze restantes lhe obedeceram instantaneamente. Formaram uma escolta, cercando Loki e Miranda por todos os lados, para evitar que fugissem, e os levaram para dentro de Utgard. Pareciam desapontados e irritados, mas não tinham coragem de desobedecer ao que lhes fora ordenado.

Até finalmente chegarem a presença de Thrymr, entrando pela ponte levadiça também congelada, e passando pelos portões de estalactites finas e afiadas como lâminas, Loki sentia dificuldade até mesmo de respirar o ar pútrido de Jotunheim. Tudo aquilo lhe inspirava asco, repúdio, e horror. Sentia-se tão angustiado e desagradado, que chegava ao ponto de desejar fugir de dentro de si mesmo. Nunca imaginara que teria seu autocontrole testado a tal ponto, que temeria de fato fracassar.

O salão do Trono erguia-se logo após o primeiro corredor, atravessado ao se seguir reto após a ponte levadiça de proteção do castelo. Ali, sentado em uma cadeira grosseira de gelo e rochas congeladas, com uma espécie de toga feita com pelos de alguma grosseira fera de pelos brancos, estava o Rei Thrymr, que sucedera Laufey no comando de Jotunheim.

Era o maior gigante de gelo do qual se tinha notícia. Com quase três metros de altura, largo, musculoso, com um queixo firme e forte como uma bigorna, suas feições poderiam ser a representação da violência em uma criatura. Seus olhos rubros e estreitos mostravam um grau de inteligência superior a da maioria estúpida dos jotuns, e seu sorriso cruel transmitia uma perigosa malícia. Mesmo que não tivesse vínculo de sangue algum com a linhagem real, Thrymr teria de ser o regente a ser escolhido, por ser fatalmente o mais forte de todos os jotuns.

E, em Jotunheim, o culto a força era uma questão de vida ou morte. Não havia gigantes de gelo fracos. Simplesmente, viravam alimento para os mais fortes.

Loki encarou Miranda por um milissegundo, para avaliar suas reações. Apesar de parecer um tanto incomodada com os olhares agressivamente lascivos dos gigantes — o que fazia o sangue de Loki ferver a tal ponto que temia perder a aparência jotun, por julgar que poderia aquecer-se internamente com tamanha raiva — ela mantinha-se silenciosa, parecendo avaliar a situação.

– Quem ousa adentrar as minhas terras? — A voz retumbante do Rei Thrymr ressoou pelo castelo toscamente construído, e Loki viu, de soslaio, Miranda estremecer dos pés a cabeça. A própria voz de Thrymr era de gelar os ossos, e poderia ter uma presença assustadora, se Loki não soubesse perfeitamente como dobrá-lo a seu favor.

E se, na verdade, jamais se sentisse ameaçado pelo frio ou pelo gelo. Sabia estar no comando da situação, e até do ambiente, por mais que aquilo lhe doesse por dentro.

– As nossas terras. — Loki disse, repudiando-se a si mesmo em seguida. — Regente. — O deus da trapaça tentou impôr o máximo de virilidade em sua voz, e de desafio, sabendo que era a melhor maneira de receber o respeito do Rei.

Thrymr soltou uma risada lenta e gutural, e Loki percebeu Miranda, ao seu lado, estremecendo dos pés a cabeça.

– Parece que assusto seu pequeno brinquedo, pretenso Príncipe. — O Rei dos gigantes debochou, encarando Miranda. — Não se preocupe. Eu não mordo. — Thrymr sorriu cruel. — Só depois de estar satisfeito. — Gargalhou sonoramente, enquanto seus súditos presentes apertavam o cerco contra os visitantes e se juntavam as suas risadas.

– Não é apenas uma pretensão. — Loki disse friamente, impondo a voz ajudado pela raiva que sentia no momento. — Eu sou o herdeiro de Laufey.

– E poderia provar... Como? — O gigante sorriu, cruel, demorando a desviar os olhos de Miranda para o pequeno gigante de gelo. — Seu único feito, fracote, foi ter sobrevivido em segredo por tantos anos. Deseja, por acaso, tentar me destronar? — O Rei sorriu, cruel, divertido com a mera ideia de alguém tão pequeno como Loki lhe desafiar.

– Você me conhece, Senhor dos gigantes. — Loki disse, perigoso. — Você me viu nascer.

– Vi, de fato. E vi como era pequeno. E vi Odin matar seus irmãos mais velhos, na Última Guerra, invadindo o castelo real com a frota de Asgard, enquanto você chorava, uma fraca cria fadada a morte. Todos tínhamos certeza que o Pai de Todos havia lhe destruído em um piscar de olhos, mas você havia sumido. Jamais encontramos vestígios de seu corpo, nem havia nenhum animal próximo a Urtgard naquela noite, de modo que criou-se esta ridícula lenda do Príncipe Perdido. — Os gigantes não mais debochavam, e pareciam atentos. O próprio Rei Thrymr pareceu um pouco mais contido.

– “Não cabe a você negar o Retorno do Rei, Regente.” — Miranda debochou, munindo-se de coragem, e Loki olhou-a furioso, censurando-a pela ousadia. Thrymr riu, sacudindo-se no Trono.

– Então a pequena bonequinha fala... Penso em usos melhores para esses lábios. — Ele disse grosseiramente, mas os gigantes ainda encaravam Loki, calculando o risco que ele poderia apresentar.

– Eu sei que não pretende morrer, Thrymr. Sei o que meu pai lhe obrigou a fazer. Sei as consequências que lhe adviriam se me tocasse. Ou se qualquer um de seu povo me matasse. — Loki disse, desdenhoso, ameaçando o Rei. Os súditos de Thrymr pareceram realmente assustados, recuando um pouco.

– Apesar do juramento a Laufey, pequeno Laufeyson, ainda posso manter-lhe preso pelo resto dos seus dias pelo desacato. Pela ousadia. E também posso me divertir com esta belezinha que me oferece de bandeja...

– Você jurou ao verdadeiro Rei de Jotunheim que jamais tocaria em alguém da família real. E que se alguém atentasse contra a minha vida, por suas ordens, as consequências seriam as mesmas. Seja responsável indireta ou diretamente por tirar minha vida, e estará morto, Regente. — Loki aproximou-se mais do Trono, fazendo uma reverência debochada, seus olhos rubros fixos nos também vermelhos olhos perigosos do Rei de Jotunheim.

– O que deseja, maldito? — Thrymr perguntou, irritado, apertando os braços do Trono de Gelo. — Como pretende governar este Reino se passou toda sua existência no exílio? Por que surge dos confins das neves para nos atormentar? — Ele abaixou-se na direção de Loki, como se travasse uma batalha mental com o deus.

– Eu não desejo seu Trono. — Loki riu, debochado. — Nem tampouco modificar as estruturas de Jotunheim. Sei como está fazendo um bom trabalho... — O deus da trapaça sorriu, disfarçando o deboche.

– Desejo uma aliança. Seu apoio. — Loki finalmente chegou ao ponto que queria.

Os jotuns presentes pareceram segurar a respiração. As notícias da guerra contra Asgard e os rumores da insurreição haviam, como previra Loki, espalhado-se para as terras nas quais os aesires não eram bem-vindos. Como previra, sua escolha de ir a Jotunheim, por último, fora a mais acertada.

– Por mais que o ódio contra Odin e seus familiares seja comum a todos nós. — Thrymr disse, cauteloso. — Não haveria razão para nos arriscarmos dessa maneira. Não teríamos um exército tão grande para resistir a eles.

– Eu não quero que vocês participem da guerra. — Loki disse, surpreendendo a todos, inclusive Miranda, que o encarou sem compreender.

– Do que está falando... Laufar? — Thrymr perguntou, ainda mais cauteloso.

– Eu pretendo enganar Odin. Preciso ter o seu juramento, Thrymr, de que não se envolverá na batalha. Que continuará em Jotunheim, ainda que Hela, Surtr e outros fortes aliados nos acompanhem na guerra.

– E por que precisaria disso? — O Rei parecia cada vez mais desconfiado.

– A única maneira de conseguir adentrar Asgard, e ter alguma chance de surpreendê-los... Será com a ajuda de minha aliada, Hale, uma filha bastarda de Balder. — Apontou com a cabeça para Miranda. — E também com a falsa ideia de travar um acordo de paz com o Pai de Todos.

– E o que fará com o exército que já conseguiu? — Thrymr perguntou, ressabiado.

– Os levaremos por caminhos nos quais a visão de Heimdall sequer consegue atingir. — Miranda respondeu, antecipando Loki. — Caminhos pelas raízes de Yggdrasil. — Os jotuns começaram a murmurar, parecendo finalmente compreender a estratégia.

– Não é uma ideia estúpida, Laufar. — Thrymr admitiu. — Mas qual é o seu maldito propósito em travar uma guerra contra Odin, e surpreender os aesires para garantir sua derrota?

– Eu sou a vingança de Laufey. — Loki disse, assumindo seu papel. — A vingança contra aquele que tanto enganou seu povo, que ludibriou minha aliada, e é conhecido como... O deus da trapaça. Além de subjugar Odin, matarei Loki, que enganou a todos nós e destruiu nosso legítimo Rei. Não desejo o Trono, nem a herança de nosso Reino. Desejo vingança.

Os jotuns, boquiabertos, encaravam Loki, assombrados. “Laufar” cumprira seu papel melhor do que o próprio deus imaginaria ser possível, e era difícil não sorrir com mais um pequeno triunfo dentro de seu logro mais ousado.

– Devo admitir... Que me surpreendeu. — Thrymr levantou-se, e foi até Loki, apertar sua mão. — É mesmo filho de seu pai. — Loki controlou a sensação nauseante que lhe subiu pelo sangue naquele momento, e apertou as mãos do Rei.

Em seguida, mostrou-lhe os documentos reais que comprovavam a aliança entre Muspelheim e Nidavellir, os quais o rei jotun olhou interessado.

– Pois bem. Tem o seu juramento. — Thrymr apertou uma de suas mãos. — Eu, o Rei dos jotuns, Senhor governante de Jotunheim, juro-lhe manter-me alheio a guerra que irá travar-se em breve em Asgard, mantendo as aparências de que precisa. — O deus da trapaça soltou as mãos do Rei dos gigantes, satisfeito.

Loki virou as costas, triunfante, e foi em direção a Miranda. Porém, sentiu seu sangue aquecer-se em segundos.

Alguns jotuns a agarravam, imobilizando-a e mantendo sua boca fechada por uma pele enrolada em seus lábios, como uma mordaça. Thrymr distraíra Loki e o enganara, enquanto seus serventes faziam o trabalho de conter Miranda. Ela tentava se desvencilhar, mas era claramente mais fraca do que eles. Loki avançou em direção aos gigantes que a continham, e pôs-se a lutar com um deles, tendo dificuldade em atingí-lo por conta de ter sua força diminuída em inúmeros graus pela falta de seus poderes.

– Porém, meu caro Laufar. — Thrymr disse. — Sabe que cultuamos a força aqui em Jotunheim. Seus planos são inteligentes, e pode ter ludibriado outros reis dos nove reinos... Mas eu não jurei nada a respeito do brinde que nos trouxe de presente. Pode conseguir achar os caminhos de Yggdrasil sozinho, sendo tão inteligente como se provou. Já disse que não deseja nada que tenha relação com Jotunheim, e não o queremos aqui. Mas esta pequena presa é apetitosa demais para se jogar fora. Não temos carne feminina que não seja azul e fria aqui em Jotunheim, e, posso não ter conseguido Freya, mas terei esta bela filha de Balder. — Thrymr gargalhou, indo em direção a Miranda. Loki não se controlou e se atirou na sua direção, suas mãos em riste para atingí-lo em algum ponto fraco. Sem dificuldades, o gigante o socou com seus punhos enormes no rosto, isolando Loki a distância, que bateu com as costas contra as paredes de gelo de Urtgard.

Ao se levantar novamente, Loki viu, entre o surpreso e o furioso, Miranda proferir um feitiço para conjurar bolas de fogo, e pôs-se a lançá-las na direção dos gigantes, que correram assustados. Ela conseguiu se soltar por um curto período de tempo, mas Thrymr, furioso, aproximou-se dela e conseguiu imobilizá-la, mesmo tendo sua pele gelada queimada em alguns graus pesados, após alguns golpes da parte dela.

– Tinha de ser uma bruxa. Uma bruxa aesir. — Thrymr a segurou, e lambeu seu rosto, aumentando a níveis abissais a fúria de Loki. — Somente magia explica esse súbito reaparecimento do filho de Laufey. E não precisamos de magia aqui. — Ele torceu os braços de Miranda, para evitar que ela conseguisse pegá-lo desprevenido, e ela gritou agudo, de dor, trazendo mais risadas debochadas pelo salão.

Loki, desesperado, preparava-se para avançar mais uma vez. Estava tão cheio de si, certo de que poderia enganar seres tão estúpidos, que terminou por subestimá-los. Jamais deveria ter permitido que Miranda o acompanhasse, por mais que soubesse, no fundo, que não teria suportado tal façanha se ela não estivesse ao seu lado.

Foi então que todo o movimento no salão parou, mais uma vez, quando uma voz idosa feminina gritou, com o pouco de força que seus inúmeros anos ainda lhe deixaram:

– PAREM! PAREM AGORA! — Sua voz era imperiosa e firme, apesar dos anos de idade.

Loki, Thrymr, Miranda e todos os jotuns olharam na direção de quem falava. Imediatamente, Thrymr soltou Miranda ao chão, que caiu de joelhos, seus olhos chorosos de dor por ter os dois braços torcidos, mas ainda encarando, boquiaberta, a figura que surgira dentro da situação.

Não é possível. Ela deveria estar morta. Como sobreviveu, depois de tantos anos?

A velha jotun correu para Loki, diminuta, uma gigante de gelo agora com a altura de Miranda, quase sem dentes, com a pele azulada embranquecida pelo tempo, e cabelos brancos que alcançavam a cintura. Seu manto negro, de luto ainda após tantos anos, esvoaçou enquanto ela tentava alcançar-lhe, como se correr fosse o maior esforço que poderia fazer em vida, e alcançá-lo, sua maior alegria.

Ela jogou seus braços ao redor da cintura do deus, e escondeu seu rosto idoso no seu peito.

– Meu filho. Meu menino... — Farbauti abraçava o filho, que fora tirado de si quando ainda era apenas um bebê.

Notas finais
Espero que tenham gostado! :D Aguardo reviews, lindinhas!