Journey Into Trickery

17 Snow - Parte Final


Notas iniciais
Oi gente! Primeiro, antes de qualquer coisa: GENTE! THOR: O MUNDO SOMBRIO É SIMPLESMENTE MARAVILHOSO! Vejam AGORA! Não vou falar nada para não dar spoilers, mas é simplesmente MUITO melhor do que Thor 1. O Thor fica finalmente inteligente, respeitando o personagem dos quadrinhos, e o Loki... Digamos que o Tom Hiddleston entra ainda mais no personagem, se é que é possível, e se torna o PRÓPRIO deus da trapaça. Com uma grande profundidade emocional. A relação Thor x Loki está simplesmente linda de se ver, é um espetáculo a parte.

Esse capítulo não tem de fato spoilers do segundo filme, mas faz algumas sugestões a ele. Não vou induzir a nada que vai acontecer, então não precisam ter medo de ler. Esse capítulo é CHEIO de feels, e um POV bem intimista do Loki, e todos os sentimentos conturbados dele são baseados em algumas hqs em que o Loki aparece, e, é claro, em alguns conflitos apresentados no segundo filme. Adaptados, obviamente, para a presença de Miranda, o par perfeito para nosso deus da trapaça (além da Sigyn, heheeheh)!

Devo também agradecer a LINDA leitora beah-chan pela sua magnífica recomendação que me deixou dando saltos de alegria! Muito obrigada mesmo, sua fofa! *-*

Assim... Boa leitura e beijos para todas!

– ...Farbauti? – Loki perguntou retoricamente, sua voz um fiapo de som, porém audível como um grito ecoando pelo salão do trono congelado de Jotunheim. A gigante, a criatura de gelo o abraçava, pequena, ainda menor do que ele, seu rosto escondido na altura de seu peito, seus cabelos brancos e vastos caindo pelo manto negro de luto que ainda usava. Sentia seu coração retumbar em seu peito, e tinha medo de compreender o que sentia naquele momento.

Seu olhar foi desviado, por uma fração de segundo, para o corpo de Miranda, que quedava semi inerte no chão, respirando com dificuldade, seu rosto contorcido em uma expressão de dor, misturada a um olhar curioso, fixo nos olhos agora rubros do filho adotivo de Frigga. Seus grandes olhos cor de mel pareciam aguardar algo, provavelmente uma reação por parte de Loki.

– Nos dêem passagem. – Farbauti primeiramente pediu, para os jotuns que ainda circundavam a ela, seu filho, e a suposta ninfa bastarda caída no chão congelado do salão. – Eu falei para nos darem passagem. – Em seguida a sua ordem sibilante, os jotuns foram, pouco a pouco, liberando espaço para que pudessem caminhar. Ao aproximar-se de Miranda, Loki tentou levantá-la, mas não usou de muita delicadeza, fazendo a midgardiana gemer de dor, para logo depois sentir-se culpado. Porém, ele sabia estar distraído demais para poder lhe dar alguma atenção naquele momento.

Perspicaz como costumava ser e lhe surpreender, Miranda adiantou-se e sussurrou somente para ele:

– Não se preocupe comigo. Estarei logo atrás. – Ela fechou os olhos de dor, parecendo fazer esforço para não reclamar da torção em seus dois braços.

Loki sentiu-se levemente irritado com a pretensão da midgardiana, talvez julgando compreender o que ele sentia, mas não havia tempo para discussões. Seguiu ao lado daquela que seria sua mãe biológica, esforçando-se para simplesmente concentrar-se em um passo de cada vez. Era muito, muito para suportar, mesmo que ele próprio fosse um deus, sempre tão confiante de si mesmo, mas, na verdade, inteiramente inseguro, descobrindo tal verdade pouco a pouco, como sempre negara para si mesmo.

Ao passarem ao lado do Thrymr, o rei sentara-se novamente em seu trono de gelo, e olhava somente para Loki, seus rubros olhos prometendo vingança e sangue. Loki sentiu suas veias pulsarem de ódio ao lembrar-se do que pretendia com Miranda segundos atrás, mas não era o suficiente para distraí-lo do enorme medo e da pesada angústia que carregava, ao andar lado a lado com aquela que lhe fizera ser o que era. Farbauti, ali, era a manifestação de todos os seus piores pesadelos, mas também o lembrava...

Aquela forma com que ela o havia olhado, seus olhos vermelhos quase fechados, encarando-o como se fosse um tesouro, o bem mais precioso que havia, transbordando carinho, afeição, junto a uma dor contida fundo em seu âmago, transparente e clara como todo o gelo de Jotunheim...

Era o mesmo olhar de Frigga ao vê-lo de volta, depois do limbo, depois do que fizera em Midgard... Seus olhos azuis claros na mesma expressão simultânea de carinho e decepção, tristeza e alegria, e de um afeto tão firme e forte, inflexível apesar de tudo, que ele nem sequer podia acreditar.

E toda a dor que continha apenas o deixava enojado, nauseado, porque o obrigava a enxergar o peso de tudo o que fizera, e a hipocrisia de seu pai, seu pai sempre a favor de Thor, que só via o primogênito, o filho de sangue, e o favorecia em todas as situações...

E era Frigga quem o acolhia quando estava na sombra de Thor, Frigga quem lhe dizia que poderia ser rei, que deveria ser rei, ainda que fosse adotado. Era ela quem lhe mostrava um raio de sol quando tudo estava escuro, e lhe prometia algum futuro, alguma esperança, e lhe fazia se sentir... Pertencer. Frigga que olhava por ele, que lhe ensinara tudo o que soubera, e que, de fato...

Não. Não pense nisso. Não se lembre de nada. São mentiras. Tudo e todos.

Entretanto, ele sabia. Naquele momento, estava indefeso. Mais do que sem seus poderes, mais do que enquanto tentava lutar contra os outros jotuns...

...Porque Farbauti era o reflexo de Frigga. E Frigga era...

– Chegamos, meu filho. – A idosa jotun disse, passando por enormes cortinas de crochê costuradas de forma a lembrar cristais de gelo. Loki havia caminhado por uma enorme escadaria circular, mas não se dera conta do que se passava do lado de fora de sua cabeça. Estava completamente absorto em pensamentos, no momento mais crítico comportamental desde que entrara em Jotunheim.

– Onde? – O deus da trapaça disse, ainda confuso, sem sequer reconhecer a si mesmo. Aquele estado mental distante, perdido em pensamentos, nada daquilo era típico dele, não era natural, não poderia ser aceito. Controle-se. Agora. Não perca o foco.

– Onde mais? No seu quarto. O mantive igual ao que sempre foi, desde que... – Farbauti olhou para o rosto de Loki com doçura, mas durante as últimas palavras proferidas, encarou os nós dos dedos idosos, como se lhe faltassem palavras para complementar a frase.

O deus da trapaça engoliu em seco e nada respondeu. Seguiu a jotun, esforçando-se para novamente não perder-se dentro de si mesmo, enquanto ela parecia chamar a atenção de uma criada, ainda mais idosa e encurvada do que era, sentada no chão daquele quarto redondo e vazio. Loki olhou ao redor e reparou nas paredes circulares, como se fosse um quarto elevado em uma torre comprida, porém pequena. Não havia nada ali, além de um pequeno objeto e uma janela ampla, e firmes paredes de gelo, alvas, circundando tudo ao seu redor.

– Meesha. Por favor, cuide desta criança. – Apontou com o rosto Miranda, mostrando-lhe para a criada, e a midgardiana aproximou-se, seguindo alguns passos atrás dos dois, seus olhos cor de mel fitando Loki timidamente, tão diferente do comportamento extravagante de sempre. – Foi ferida. Preciso que a ajude a se curar. Se incomoda...? – Farbauti deixou a pergunta no ar para Miranda, que respondeu rápido.

– Hale. Meu nome é Hale. – Ela sorriu enquanto mentia para a mãe biológica de Loki. – De forma alguma. Fico muito agradecida pela ajuda. – A falsa aesir fez uma reverência polida para Farbauti, que a olhou incrédula. Loki sabia que jotuns jamais esperariam um bom tratamento vindo de asgardianos.

O deus a encarou enquanto Miranda seguia a criada para fora do que seria o antigo quarto de Loki, em outra vida que não a que levara. Antes de sair pela mesma cortina fingindo uma união de inúmeros cristais de gelo, porém, ela voltou-se para Loki, seus olhos redondos e cor de mel em uma expressão de compreensão que beirava o insuportável. Aquilo doeu fundo em seu peito, mas ele não queria compreender por qual motivo.

– Está tudo bem. – Miranda disse, e aquilo, a contragosto, lhe trouxe uma sensação de conforto que quase pôde acalmá-lo. Ele compreendera não apenas as palavras mas o tom acalentador de sua voz; havia múltiplos sentidos escondidos naquela frase, e tudo estava se tornando íntimo, pessoal demais para agüentar. Ele crispou os lábios, e desviou o olhar. Quando encarou as cortinas novamente, já estava sozinho com Farbauti, e sentiu uma pontada no coração.

– Você costumava dormir aqui. – A gigante de gelo caminhara, enquanto ele havia se distraído, na direção de onde havia um berço feito de gelo, perante uma enorme janela aberta, na qual se via a imensidão branca de Jotunheim despontando ao infinito.

Em meios as grades congeladas, um colchão azul claro e um pequeno travesseiro, este último menor do que a palma da sua mão, dispunham-se para confortar quem antes já fora um pequeno bebê jotun.

Loki sentiu seu estômago movimentar-se furiosamente. A bile lhe subiu descontroladamente, e ele teve de colocar as palmas da mão na frente de seus lábios para não regurgitar. Respirava fundo, e a última coisa que desejava no momento era pensar a respeito. Tinha de se manter no papel. Era estritamente necessário para sobreviver, para que Miranda sobrevivesse e seus planos se concretizassem.

Mas, sabia ele, era questão de tempo para sentir-se sugado para dentro de si, e em instantes não haveria mais volta.

Farbauti pareceu ter reparado em sua reação intensa, e deu-lhe um sorriso triste. Loki reparou que lhe faltavam vários dentes, e em como seu nariz era reto, de feições simétricas, parecido com o seu. Sentiu, outra vez, a mesma vontade de vomitar, e fechou os olhos, ainda mantendo uma das mãos fechada em punho na frente da boca.

– Eu sei... Você esteve fora tanto tempo. Tanto tempo. Deve achar que sou uma mãe horrível... – Ela fez menção de discretamente tocar em um de seus braços, mas ele não conseguiu manter a atuação.

Instintivamente, o deus da trapaça recuou para longe.

– Me desculpe. Eu... Não sei o que fazer. – Farbauti disse, encarando o céu eternamente nublado de Jotunheim, sorrindo o mesmo sorriso triste e enviesado de antes. Ela encarou Loki novamente, e mais uma vez ele pôde ver Frigga por trás de Farbauti. Instantaneamente, desviou o olhar, como se a imagem pudesse feri-lo ferrenhamente.

– Você sabe quem me tirou... Daqui? – Loki perguntou, estudando a mãe biológica, sentindo inúmeras reações ao mesmo tempo, todas controversas entre si, e cada uma delas ainda mais assustadora do que a prisão perpétua em Asgard.

– Achei que iria me contar. Se quiser. – Farbauti disse, carinhosamente, ainda olhando o filho com doçura. Era impossível sustentar aquele olhar que tanto lhe trazia memórias antigas, e, ao mesmo tempo, impossível não encará-lo.

– É importante? – Loki perguntou, mais para si mesmo do que para ela. A imagem de Odin refletiu-se dentro de si, e esta, diferentemente da de Frigga, lhe trazia não apenas repulsa e asco, como uma fúria já enraizada dentro de si. Fechou as duas mãos em punho, e lentamente se aproximou alguns passos da mãe biológica, também olhando para o mesmo céu nublado de Jotunheim.

– O importante é que está aqui. De novo. Finalmente. – Farbauti sentou-se ao lado do berço, como se estivesse muito cansada. Estranhamente, Loki, ao encará-la, sentiu-se como se ela tivesse envelhecido anos em minutos.

– Você... Esperava-me? – Loki perguntou, sem compreender, subitamente sentindo-se muito pesado, como se seus pés não pudessem agüentar o próprio peso.

– Desde que te levaram de mim. – Farbauti disse, os olhos de Frigga brilhando pelos seus olhos jotuns, agora marejados. Loki sacudiu a cabeça discretamente, tentando evitar a similaridade perturbadora, mas o nó que havia na sua garganta apenas parecia se fechar cada vez mais.

A idosa fez um gesto para que Loki se sentasse ao seu lado, e, dessa vez, ele controlou-se e fez o que lhe foi pedido, com dificuldade.

– Seu pai... Laufey, ele não tinha amor por ninguém. Era mesquinho, egoísta, e casou-se comigo meramente pela beleza que eu tinha quando jovem. Fazia-me filho atrás de filho para aumentar o poderio de Jotunheim, nessa época em que nosso povo digladiava-se com os aesires – Loki mais uma vez sentiu seu estômago embrulhar – mas eu cuidei de todos vocês com amor. Os escondia dos castigos severos de seu pai e de sua brutalidade, e teria feito o mesmo com você quando ele jurara que o sacrificaria por ser... Pequeno demais. – Farbauti disse com amargura, enquanto olhava o filho com um ar de tristeza profunda. – Meu luto jamais foi por ele, mas sim por cada um de meus filhos.

– E por que você não o matou? – Loki perguntou, sinceramente, ainda envolto em meio ao turbilhão de sentimentos.

– Porque, apesar de todo o sofrimento... Ele me deu vocês. E os fornecia proteção. A cada um dos meus meninos, todos, exceto um... Mortos na última guerra com Odin. O juramento que Laufey obrigou Thrymr a fazer era a certeza de que você ainda estava vivo. – Ela disse espertamente, e surpreendeu Loki, que, ao ouvir tal frase, deduziu rapidamente seu significado.

– Se todos os meus outros irmãos foram mortos durante a guerra, não havia sucessão para Laufey. E, depois de sua morte, outro ramo próximo seria responsável pela nova linhagem real, já que não haveria herdeiros diretos. Se Thrymr quisesse matá-la, ele poderia, já que era apenas a consorte do rei, e o sangue vinha de Laufey. Mas se não a matou, ou se não a tomou como esposa... – Loki concluiu brilhantemente. – Era porque o juramento o impedia. Ele sabia haver, tinha a certeza por meio do feitiço que ainda pulsava em suas veias de que a linhagem real de Laufey não havia se extinguido. Enquanto eu estiver vivo, ele não poderia lhe tocar... Nem a mim. – Ele a encarou, estupefato. — E é a partir daí, presumo, que a lenda do "Príncipe Perdido" foi criada, e chegou aos ouvidos de inúmeros Reinos além de Jotunheim.

– Você é muito esperto. É precisamente isso. – Farbauti disse, e tocou com uma das mãos o rosto de Loki, que esforçou-se para não recuar. – Não se parece em nada com seu pai. – Ela disse, entre a alegria e a tristeza.

– Talvez mais do que imagina... – Loki disse ironicamente, mais uma vez odiando-se a si mesmo, e lembrou-se da expressão de Laufey ao encará-lo quando o explodiu em inúmeros pedaços, após traí-lo fingindo entregar-lhe Odin. Talvez devesse ter deixado o jotun fazer o trabalho sujo, livrando-lhe para sempre do hipócrita e falso pai, para matar o jotun depois que se encarregasse da tarefa aliviante.

– Eu estou certa de que não é como ele. Vejo isso em seus olhos. – Ela ainda o tocava, e Loki, pouco a pouco, ia cedendo ao seu toque. – E na maneira com que olha para aquela menina. – Farbauti disse, ousada, e Loki a encarou sério, quase irritado.

– Ela é apenas minha companheira na vingança contra Asgard. Preciso dela, é uma ferramenta importante para meus planos. – Loki adiantou-se, como se lhe devesse satisfações, e depois irritou-se consigo mesmo, sentindo por último uma pontada de culpa, não pela mentira, mas pela forma como se referiu a Miranda, e enervou-se ainda mais.

– É claro que precisa dela. – Farbauti disse, mas não havia deboche em sua voz. – Não importa, meu menino. Nada disso é importante. Bastou um olhar para meu coração ficar em paz. – Ela o encarou discreta, seus olhos rubros transbordando sabedoria.

– O que quer dizer? – Loki perguntou, atrevido, arrependendo-se em seguida, pois sabia que ouviria algo perturbador.

– Quero dizer que não me importo mais com a tirania de Odin, ou com a crueldade de Laufey, ou com a mesquinharia e covardia de Thrymr. Eu pude vê-lo mais uma vez, e era apenas por isso que eu ainda vivia. – Ela se levantou subitamente e o beijou na testa, antes que Loki pudesse evitá-la. Estranhamente, o toque não lhe causou repulsa, e aquilo o deixou ainda mais irritado consigo mesmo, por saber que não o permitia apenas pela necessidade de cumprir o papel que se dispusera a fazer.

– Eu não intercederei em suas escolhas. Se quiser ter este Reino de volta, conseguirá. Se quiser vingar-se de Odin, a escolha será sua. Eu estarei com você para sempre, como sempre estive, ainda que distante. – Farbauti disse, e ele começou a entender que era uma despedida.

– Por que está falando dessa forma? – Loki perguntou, uma pequena parte de si começando a se preocupar.

– Eu também fiz um juramento. Um juramento de magia antiga, que não pode ser desfeito. – A idosa disse, cada vez mais encurvada, e o deus da trapaça percebia que ela parecia mais velha a cada instante que se passava. Subitamente compreendeu.

– Não... Por que... Por que fez isso? – Loki ainda perguntava, as sobrancelhas franzidas, enquanto a encarava sentado, e Farbauti estava parada a sua frente, seus rostos na mesma altura, ainda que distantes.

– Laufey tinha uma aparência jovem mesmo com milhares de anos, mas eu envelheci muito mais rápido, pois era membra da plebe, e não tinha o sangue privilegiado da realeza. — Farbauti tomou uma das mãos de Loki nas suas, olhando-o com calor dos olhos da Rainha dos Nove Reinos. – Aprendi este único encantamento, durante toda a minha vida, para que ela pudesse de fato fazer sentido. Eu teria uma longevidade tão alta quanto os filhos da linhagem real de Jotunheim, mas morreria assim que meu desejo fosse cumprido, o desejo que me motivou a fazer a troca da espera pela sua realização. Viver uma vida de espera, para conseguir o que eu queria, e morrer depois. Essa foi a troca.

– Por que desejaria isso? – Loki insistia, sem entender, sentindo o nó da garganta pesando e forçando cada vez mais. Não podia se comportar daquela forma, mas era mais forte do que ele.

– Porque era meu único motivo para viver. Para estender essa vida. Não poderia morrer sem saber como estava o meu menino. E agora eu sei. Forte, impetuoso... Amado. – Farbauti enlaçou seu rosto com as mãos, e deu-lhe um sorriso que era a imagem de sua infância com Frigga. Loki sentiu as lágrimas subirem-lhe ao rosto, mas ele não poderia fraquejar. Nunca.

– Não sei quem o criou, mas tenho uma gratidão eterna por quem o fez. Nunca estive tão alegre em vida como estou agora. – Farbauti ainda o tocava, e ele levou sua mão esquerda as costas da mão direita dela, e a tocou discretamente.

–...Você está enganada. Não sou... – Loki não conseguia expressar-se direito, tudo paraiva sobre uma névoa de lembranças e sentimentos e reações distorcidas que duelavam entre si.

– Jamais estive tão certa como agora. – Farbauti insistiu. — Meu filho. Meu menino sobrevivente. Meu filho que se provou ser... O mais forte, o maior de todos. – A mãe biológica de Loki o abraçou com o pouco de força que lhe restava, e ele correspondeu levemente ao abraço, segundos depois.

– Vocês têm de ir. Logo. Ela tem de se curar antes que retornem mais uma vez a Jotunheim, se pretenderem fazê-lo. Por enquanto, não podem desafiar Thrymr e seus súditos. – Farbauti o tocou nos ombros, encarando-o séria. – Faça exatamente como estou lhe dizendo. – A maneira como ela disse aquelas palavras novamente o fez ver Frigga através da jotun. – Meesha já deve ter ajudado Hale, ou outro nome que ela tenha. – Loki surpreendeu-se com a perspicácia da jotun.

– Como... Como sabe? – O deus da trapaça disse, sem acreditar.

– Ora... Porque eu sou sua mãe. – Ela lhe sorriu docemente, e ele não pôde sustentar seu olhar e os múltiplos sentidos que escondia. Mas, internamente, algo contrariou a afirmativa de Farbauti, algo que Loki não tinha coragem de encarar. Minha mãe...

– Como posso evitar que nos persigam? – Loki perguntou ansioso, tentando mais uma vez fugir de suas próprias reações.

– Vão seguindo ao norte. Você já esteve aqui antes. Eu sei. Eu sinto. – A idosa disse, suas mãos tremendo, e Loki sentiu que ele mesmo estremeceu rapidamente. – Terão de lutar com algumas criaturas, mas nenhum dos jotuns irá lhes seguir. Ela tem a força do fogo, o os monstros que poderão encontrar temem o fogo mais do que tudo. E os jotuns temem estas criaturas bestiais. Usem dessa magia e triunfarão. As bestas que poderão encontrar são irracionais, e não oferecerão desafio algum para sua inteligência e a força da menina que o acompanha. Escondam-se nas cavernas, repousem, protejam-se junto às chamas, odiadas neste Reino. – Farbauti aconselhava rapidamente, instigando Loki a se levantar.

O deus moveu-se até a porta fechada pelas cortinas que ultrapassara ao adentrar os aposentos, e, antes de atravessá-las, olhou uma vez para trás.

– Não se preocupe comigo. Está tudo bem. – Farbauti disse, da mesma forma acalentadora que Miranda, e ele sentiu a mesma mistura de sensações contraditórias duelando dentro de si.

– Muito obrigado. Por tudo. – Loki agradeceu, sabendo que o fazia sinceramente. – Eu... Adeus. – Ele disse, simples e direto, tão diferente de sua pompa e suas máscaras habituais. Logo ele, o deus da trapaça, sempre articulado, estava indefeso, alvoroçado e acabrunhado... Na frente daquela jotun, daquela gigante de gelo, uma criatura inferior, desdentada, idosa e fraca, tão inferior como ele próprio sabia ser... E, ao mesmo tempo tão similar, tão igual, tão parecida em essência e amor com...

– Adeus, meu filho. – Farbauti disse, suspirando levemente, e não respirou mais.

Loki instintivamente foi até ela novamente, e segurou um de seus pulsos. Não havia mais batimentos cardíacos. Seu rosto estava ainda mais idoso, mas parecia iluminado. Parecia calmo, relaxado... Pacífico. Como se tivesse finalmente realizado o que mais queria.

Sem entender o que fazia, ele abaixou-se, e beijou uma de suas mãos já sem vida, controlando-se para não cair em prantos. A sensação de enjôo passara, seu ódio passara, e ele não se lembrava de mais nada.

Nada além de Frigga.

***

Havia encontrado Miranda em aposentos próximos aos seus, fazendo caretas de dor e gemendo a cada apertão que a criada lhe dava, colocando ungüentos que se espalhavam por sua pele e pareciam adentrar seus poros, atingindo seus ossos e músculos. Era um tipo de cura arcaica que Loki uma vez estudara, um tanto desmerecida pelos curandeiros asgardianos por ser levemente tribal, mas de funcionamento quase infalível, na maioria das vezes.

Estranhamente, o deus sentia como se apenas uma pequena parte de si estivesse ali, desmerecendo a si mesmo por estar sem os seus poderes e não ser capaz de uma mísera magia de cura, e outra, na verdade, se encontrava muito longe, alguns Reinos distantes, onde antes havia um lugar no qual se sentira em casa... Um lugar que chamara de lar.

– Eu sei o que Farbauti pretendia. – Meesha olhou cúmplice para Loki, assim que o viu adentrar a câmara em que apenas ela e Miranda se encontravam. – Já aconteceu, não foi? – A criada perguntou, preocupada.

Miranda olhou de Loki para Meesha, sem compreender, enquanto ele anuía silenciosamente. Os olhos encovados da idosa brilharam, e ela disse, com ansiedade:

– Então têm de ir agora. Assim que um dos que seguem Thyrmr virem o que aconteceu, irão lhe acusar. Fujam, corram como o vento que traz a neve do inverno! – Ela empurrou Miranda de onde a midgardiana estava sentada, uma espécie de maca rudimentar, jogando na direção de Loki o ungüento, o qual ele apanhou no ar sem dificuldades, apenas levantando o braço.

– O que está acontecendo?! – Miranda perguntou, encarando-o com afinco, seus grandes olhos cor de mel fixos em suas íris rubras, como se a expressão de Loki a preocupasse mais do que as palavras aparentemente desconexas de Meesha.

– Terei de explicar depois. Simplesmente me siga. – Loki disse com urgência, e Miranda apenas manteve o mesmo olhar, respeitando sua decisão.

Seguiram correndo por passagens secretas indicadas por Meesha, para não serem encontrados em fuga pelos jotuns de Thrymr, seguindo por caminhos tortuosos e íngremes até uma parte falha no térreo, em uma parede de gelo levemente quebrada nos fundos do castelo de Jotunheim. Loki liberou toda a sua raiva ao chutar os pedaços restantes da passagem, e foi responsável por uma pequena avalanche de estalactites centímetros atrás dos dois, o que Miranda contemplou quase que sonhadoramente.

Miranda mantinha-se em um silêncio quase cerimonial, e aquilo o irritava ainda mais.

Quando já estavam a uma distância segura, Loki ouviu gritos e zurrarias vindos do palácio rudimentar de Utgardr, que abandonaram. Em meio aos ruídos estridentes e graves que se seguiram, Loki olhou para Miranda, de esguelha, que passara a caminhar rapidamente, ao invés de correr, e, subitamente, parou estaticamente em meio a neve, motivada pelo que escutara.

Muito ao longe, podia-se ouvir:

“- Matricida!”

“- Traidor!”

“- Maldito seja o assassino do próprio sangue!”

Loki fechou os olhos e respirou fundo. Eram apenas jotuns praguejando, mas aquelas palavras hediondas e desprezíveis, de alguma forma, conseguiram encontrar espaço para atingi-lo, por mais que desejasse negar para si mesmo.

Ao abrir os olhos de novo, Miranda estava bem a sua frente, havia se movido em silêncio. Contemplou-a tentando puxar sua mão direita com uma de suas mãos, como se quisesse lhe passar algum tipo de mensagem silenciosa, por meio de gestos um tanto... Íntimos. Era um movimento tão delicado, que ele se sentiu inerte por alguns momentos.

Olhos vermelhos mergulharam em olhos cor de mel, e a expressão de Miranda, tão transbordante de afeto, era demais para suportar. Não depois de tudo o que aguentara naquele dia.

– O que está acontecendo? – Ela perguntou, murmurando, quase suplicando.

Lembrou-se de Farbauti morrendo, e na imagem de quem aquilo lhe lembrava de imediato. Sentiu como se seu espírito tivesse se contorcido de dor, e reagiu instantaneamente.

Vamos. – Loki disse rispidamente, quase atropelando Miranda, empurrando-a para o lado. No mesmo momento, a midgardiana tropeçou e caiu ao chão, desequilibrando-se e sujando-se de neve, e, no segundo seguinte, ele se sentiu inteiramente arrependido. Os olhos dela o encaravam sem compreender, mas ainda mantinham a mesma maldita expressão de afeto.

Odiando-se a si mesmo, Loki voltou-se na direção da midgardiana, caminhando para mais perto, e estendeu a mão para ela, num pedido silencioso de desculpas, seguindo a linguagem corporal que ela tentara adotar momentos atrás de derrubá-la. Limpando-se da neve que tocara seu manto, Miranda levantou-se, mas não tocou a mão dele, que a recolheu, entre o constrangido e o irritado.

– Está tudo bem. – Miranda disse da mesma maneira doce de horas atrás, quando o deixara a sós com Farbauti, deixando implícita na frase inúmeras interpretações as quais Loki sabia poder aferir.

Mas ele sabia que, por mais que fosse sincero da parte dela... Não estava nada bem.

***

Ele se esforçara por horas para conseguir aquilo. Era mais fácil quando Thor não estava por perto, e tinha mais tempo para estudar em paz.

Quando o irmão estava junto de si, Loki se divertia muito. Sempre o levava para sair pelos jardins do Palácio Real, passear pela cidade, conhecer o povo simples e divertir-se com outros deuses. Os jovens Hogun, Volstagg, Frandall e Sif eram também boas companhias, mas apenas acolhiam ao chamado de Thor. Por mais que Loki quase sempre estivesse junto a eles, era seu irmão mais velho quem conseguia unir a todos. O líder nato. Alguém a quem eles ouviam.

Por mais que fugisse de seus estudos e de suas responsabilidades, Thor conseguia a atenção de todos. E a atenção especial... De Odin.

Loki era apenas uma criança, e já havia lido metade dos compêndios da principal biblioteca de Asgard. Sabia muito sobre magia antiga e magia nova, sobre a geografia dos Nove Reinos e grandes marcos da história de Asgard. Sempre gostara de livros, diferentemente de Thor, que não tinha paciência para a leitura, julgando-a perda de tempo.

Os livros ajudavam o filho mais novo de Odin quando tinha dificuldades para dormir, ou quando queria fugir da realidade a sua volta. Traziam-lhe mais conhecimento, e eram sua companhia quando todos os olhares se fixavam em Thor, e apenas nele..

Seu irmão mais velho os desprezava, mas o menino sabia que era porque, na verdade, muitas vezes não os compreendia. Já com Loki, era diferente.

Ele amava os livros. E os livros também pareciam amá-lo. Jamais o rejeitavam, e estavam sempre lá, solícitos, para quando quisesse perder-se em meio as suas páginas. Bastava estender a mão, e sua visão e inteligência cuidariam do resto.

Naquele dia, lembrava-se do primeiro livro que vira. Contava poucos anos de idade, quando confessara a sua mãe, quando Odin não estava por perto, que estava com dificuldades para dormir a noite. Seu corpo ficava cansado, mas sua mente trabalhava incansavelmente, como se quisesse ainda se manter ocupada. Tinha medo de estar fazendo algo errado, já que Thor sempre dormia com facilidade, ocupando seu dia com tarefas exaustivas e corporais, cedendo ao cansaço físico no momento em que seu corpo encontrasse os lençóis macios de sua cama.

Ao confessar a sua mãe, pediu-lhe que não contasse ao pai, com medo de que fosse repreendido. Frigga explicou-lhe que não era nada que devesse se envergonhar, e que ocorria com ela, também. O menino Loki sorriu, enquanto a mãe por fim lhe disse:

– Hoje à noite, aparecerei nos seus aposentos. Vou lhe trazer uma surpresa.

Mais tarde, a criança mal se segurara, ansiosa em suas expectativas, quando sua mãe abriu silenciosamente a porta de seu quarto, carregando um objeto quadrado, que parecia levemente pesado.

– O que é isso? – Loki perguntou, curioso como sempre.

– Isto é um livro, querido. É um objeto que conta histórias, ensina, nos permite ampliar nossos conhecimentos. – Frigga explicou, sentando-se ao seu lado na cama, cobrindo-o com carinho em seus lençóis verdes, a cor que ele tanto gostava.

Loki pegou o livro que ela deixara do lado de seu travesseiro, e mexeu em suas folhas.

– Ele é mágico? Nunca imaginaria. – O menino disse inocentemente, e Frigga riu com afeto.

– Sim, meu amor. Ele é mágico. De certa forma. – Frigga ainda ria, e Loki franziu as sobrancelhas sem entender as risadas.

Ela acariciou seus cabelos negros, e ele sentiu-se confortado e calmo. – Deixe que vou fazer a mágica, está bem? – Frigga lhe sorriu docemente, enquanto pegava o livro com uma das mãos, e juntava o filho próximo ao seu corpo com a outra. O menino ainda olhava desconfiado para o livro que ela abria, encarando a escrita como se não compreendesse o que era. Ainda estava longe de se alfabetizar, e via as palavras e frases como desenhos em um papel.

– Qual história você quer saber? Como nasceu seu pai? – Frigga perguntou carinhosa.

– Este livro sabe e vai nos contar? – Loki perguntou. – Por meio destes desenhos? – O menino parecia positivamente impressionado.

– Sim, querido. E um dia todos os livros vão contar para você. Vai aprender a ler, em breve. – Frigga beijou a testa do filho, que olhou extasiado para as páginas do livro.

– Era uma vez... – Ela começou, e o Loki alguns anos mais velhos retornou de suas memórias.

Assim que aprendera a ler, Loki devorara todo o tipo de livro que aparecera na sua frente. Era rápido na leitura e na escrita, e especialmente no aprendizado. Thor não era tão ágil intelectualmente, mas compensava com sua força incomparável e seu carisma insuperável. Sem entender muito bem por que, o menino por vezes se sentia sempre na sombra do irmão mais velho. Principalmente ao tratar-se de seu pai.

Era por isso que, naquele dia, pusera-se a estudar por horas a fio a magia de alquimia, da transformação de um material em outro, a qual veio a dominar no futuro. Finalmente começara a ter algum resultado, e, quando esteve praticamente certo de seu sucesso, deixou a biblioteca e foi para um dos enormes salões de jantar no qual se daria o banquete daquela noite.

Odin mandara preparar uma festa em homenagem a Thor, que, por ser mais velho, finalmente saíra em sua primeira caçada. Loki era ainda muito novo, e não tinha força física o suficiente, e todos ficaram assombrados ao descobrir que o primogênio do Pai de Todos havia caçado, sem ajuda, um lobo o qual diziam ser parente de Hati, uma besta fera perigosíssima noturna. De alguma forma, Thor duelara com o lobo no corpo a corpo, e, quando a fera conseguiu a vantagem, um raio se desprendeu dos céus e fulminou-o no mesmo momento.

Ao chegar mais cedo para as festividades, o menino apenas aguardou a chegada do pai, da mãe e de inúmeros companheiros da corte. Por último, veio Thor, acompanhado de Tyr, o deus aesir do combate, e Sif, no momento com a idade do primogênito do Pai de Todos, aprendendo também as artes da guerra.

No momento em que seu irmão mais velho adentrou o enorme salão de banquete, Odin gritou, da cabeceira da comprida mesa:

“- Saúdam, Thor! Meu filho! O futuro deus do trovão!” – O sorriso resplandecente de Odin revelava o quanto estava orgulhoso, e Loki não pôde deixar de sentir inveja. O pai jamais o tratara desta forma.

Mas Loki estava preparado. Sabia que seu pai se orgulharia dele também. E também teria sua parcela de atenção naquela noite.

Enquanto todos saudavam Thor e lhe congratulavam, Loki lembrou-se da fórmula que havia aprendido, e realizou o feitiço mentalmente. O lobo que havia sido depositado acima da mesa, ainda com pele, a um movimento em leque da mão de Loki, transformou-se em um enorme assado, em uma questão de segundos.

– O que foi isso? – Bradou Volstagg, na hora que finalmente olhara de novo a mesa.

– Quem fez isso? – Thor gritou, irritado, sentindo-se provocado, fechando os punhos, como se fosse partir para a agressão física com quem ousou desafiá-lo.

Depois de alguns momentos de gritarias, Odin pediu silêncio, e foi prontamente atendido. Todos se sentaram, quietos, e o Pai de Todos perguntou:

– Quem foi o responsável por isso? – Sua voz era plácida e retumbante.

Loki deu uma risadinha, e alguns olharam para ele. Encarou sua mãe, que, estranhamente, parecia preocupada.

– Fui eu. – Loki sorriu, divertido, esperando ser congratulado.

Após alguns minutos de silêncio, o qual Loki não compreendera, ele olhou ao seu lado e viu Sif revirar os olhos, impaciente, e Thor olhá-lo ainda com alguma raiva, porém não com o mesmo instinto agressivo de antes. Enquanto ainda avaliava sem entender as reações negativas dos presentes, Odin ordenou:

– Loki, envergonhou a mim com este truque tolo. Retorne a caça de seu irmão a forma natural, e não faça mais nada durante o jantar, caso não queira ser expulso para seu quarto. – Odin olhou em seus verdes olhos exigindo que o menino fizesse o que lhe foi mandado, e Loki, com dificuldades, conseguiu transformar o lobo de volta ao seu estado natural, não sem antes errar algumas vezes, deixando o lobo metade carniça metade pele, e outros enganos do gênero. Ouviu alguns rindo em volta, mas não por diversão... E sim por deboche.

Vermelho de vergonha, raivoso e enciumado, o menino passou o resto do jantar silencioso, apenas ouvindo os inúmeros elogios a Thor.

Naquela noite, quando fora deitar-se, sua mãe veio visitá-lo em seu quarto.

– Veio ralhar comigo também? – O menino perguntou, malcriado.

– Não, mas deveria, depois de usar esse tom de voz comigo. – Frigga disse, ameaçadora. Loki pareceu contrito, e, segundos depois, a expressão da mãe estava novamente limpa e afetuosa como era de costume.

– Não precisa ter ciúmes de seu irmão, Loki. – Frigga falou firme. – Seu pai e eu também te amamos. – Ela insistiu, aproximando-se do menino que sentava-se a beira da cama.

– Mas só ele recebe elogios... Passei a manhã e a tarde inteira estudando. – Loki disse, sabendo que ela entenderia que estava se referindo a magia que aprendera. Frigga parecia compreendê-lo melhor do que qualquer um na família.

– Hoje foi um dia importante para seu irmão. Foi a primeira caçada dele. Mas isso não significa que eu não tenha reparado nos seus feitos. Só que não deveria tê-los usados para suprimir a atenção do seu irmão ou estragar a diversão dele. Isso é errado. – Frigga insistiu, enquanto o menino baixava os olhos, cabisbaixo.

– Se você prometer ser bonzinho e não pregar mais peças, eu vou te ensinar uma magia que ninguém sabe. – Frigga sorriu travessa, e Loki instantaneamente sorriu também.

– Qual? – Já estava curioso.

– Tem de prometer. Vai me obedecer sempre? – Frigga perguntou, enquanto se aproximava do filho e fazia um movimento para tocar suas mãos. Seus olhos azuis como os de Thor brilhavam alegres e divertidos, e Loki sentiu-se animado pelo amor da mãe e pelo momento que compartilhavam, só os dois, juntos. Um momento especial. Como a primeira caçada de Thor.

– Prometo. Vou obedecer. – Loki disse, cruzando um dos dedos rapidamente atrás de si, e abraçando a mãe para desviar sua atenção. No momento que abraçou sua mãe, ela sumiu em pleno ar, e ele abraçou a si mesmo.

– O quê? – Loki olhou para sua frente e para os lados, assustado, não vendo mais a mãe em seu quarto. – O que foi isso? – Começou a ficar assustado.

– Não, eu prometo, de verdade, vou obedecer. – Loki olhava para os lados, falando com honestidade, temeroso, com medo de ter feito a mãe sumir sem saber. – Eu prometo, não estou mentindo desta vez! – Loki quase gritou.

Continuou olhando para os lados, e não havia ninguém lá.

– Mamãe? Mamãe! – Loki gritava, assustado, olhando embaixo da cama, atrás de seus baús e armários, mas ela não estava lá. Não estava mais em lugar nenhum. – Mamãe... – O menino não resistiu e começou a chorar, desesperado.

Em segundos, sentiu braços o apertarem para si, e seu nariz aspirou o reconfortante perfume doce de sua mãe, um aroma de maçãs e frutas vermelhas. Ele a abraçou com força em retorno, soluçando em seu pescoço.

Em seguida, sua mão o levantou com facilidade e o colocou sentado em sua cama, cobrindo-o depois, e por fim beijando suas duas bochechas com carinho.

– É muito feio mentir, Loki. – Frigga disse, séria, porém amorosa. – Por isso te dei esse pequeno susto. Aprenda com sua mãe. – Ela acariciava seus cabelos, e Loki concordou, silencioso, com a cabeça.

– Mas ainda assim vou te ensinar. Isso é chamado magia de ilusão. Poucos deuses são capazes de realizá-la, pois requer muita dedicação e uma certa dose de... Esperteza. – Frigga sorriu travessa e piscou para o filho mais novo. – E eu estou certa de que você vai conseguir com facilidade.

– Mesmo, mãe? – Loki perguntou, empolgado, apertando sua mão com carinho.

– Tenho certeza. Mas começaremos apenas amanhã. Agora é hora de dormir. Boa noite, meu amor. Durma bem. – Frigga afastou-se da cama, mas Loki puxou um pouco de pano da cintura de sua camisola, silenciosamente tentando reunir coragem para lhe dizer mais uma frase.

– Desculpe-me. — Ele a encarou preocupado.

- Está tudo bem. Mamãe ama muito você. — Frigga abaixou-se, colocando a pequena mão de Loki de volta em cima dos cobertores, deixando-o finalmente calmo em plenitude. Em seguida, beijou a testa de seu filho, que se sentiu instantaneamente relaxado e feliz.

- Eu também te amo, mamãe. — Loki sentiu seus olhos pesados pela mais doce sonolência, e adormeceu em paz.

***

Com os olhos marejados, o Loki adulto do presente acordou, deitado acomodado em uma caverna muito ao norte de Jotunheim.

O vento gritava forte do lado de fora, trazendo algumas camadas de neve para a entrada da caverna perdida nos confins daquele Reino, e, alguns metros longe de si, Miranda dormia, encolhida em seu manto azul-claro, em frente a uma fogueira que insistia bravamente em queimar apesar da forte corrente de ar. Loki sentiu-se aliviado por ela não poder ter visto nada do que se passara em sua mente enquanto dormia, e por ainda estar adormecida.

Levantou-se, ignorando o nó na gargante que sentia, secando os olhos com raiva, e foi se sentar próximo a entrada da caverna. A contragosto do que desejava, seu instinto jotun ficava a vontade próximo aquela temperatura gelada, mas, estranhamente, durante o sono, sua pele voltara ao tom aesir, branca pálida, sem que ele soubesse explicar exatamente a razão disso.

Ou temesse, de fato, compreender.

Era tão fácil odiar Odin. Ou odiar Thor. Era fácil tripudiá-los, desejar se vingar deles, ou fazê-los sofrer... Especialmente o primeiro. Mas com Frigga... Por que era tão mais difícil? Por que era difícil odiá-la, ou ignorar sua existência? Por que vinha lhe perseguir em pesadelos, agora?

Lembrou-se do que vira naquela tarde, da imagem de Farbauti, falecendo, e em todos os sorrisos e olhares carinhosos que ela lhe dera. Por mais que ela fosse uma jotun, Loki reconhecia, em cada uma daquelas expressões, todo o afeto que alguém lhe dera por milhares de anos. Não fora por conta de Farbauti que se sentira tão mal, a mulher jotun que nunca conhecera... Foi porque vira nela a imagem de Frigga, que o criara e fingira tão bem amá-lo.

E em como ela se desapontara ao ver no que ele se tornara, em como ela parecia sofrer com cada uma de suas atitudes que ela reprovava, mas agia diferentemente de Odin. Ela sempre estava próxima, sempre o procurava, e ele sabia que, por mais que a decepcionasse...

Ele sentiu, mais do que viu, Miranda se aproximando. Queria e não queria que ela estivesse ali, e esse era, sem dúvidas, o sentimento mais controverso de todos. Não a olhou sequer de esguelha, mas sabia que ela viera se sentar, enrolada em seu manto, ao seu lado, tiritando de frio. Conseguia praticamente ouvi-la estremecendo por conta da temperatura baixíssima.

– Vá para dentro. Pode adoecer, assim. – Loki ordenou, ríspido e sério.

– Está bom aqui. – Miranda respondeu, mentindo.

– É claro, se você quiser ter uma morte por hipotermia. – Loki debochou, mas sua voz saiu sem nenhum traço de humor.

Por algum tempo, ela não lhe respondeu, até, enfim, quebrar o silêncio, só interrompido pelo uivo distante e triste do vento, que parecia refletir o estado de espírito de Loki.

– Eu ouvi o que eles gritaram... Mas eu sei que você não fez nada. – Miranda começou, devagar, como se pisasse em um terreno perigoso.

– Como pode ter certeza? – Loki tentou assustá-la, cínico.

– Simplesmente sabendo. – Miranda insistiu. – E por que... Eu ouvi algumas partes do que sonhou agora. Eu sei que... No fundo, você se importa. Com eles. – A midgardiana disse, ousadamente, e Loki sentiu vontade de empurrá-la como fizera há algumas horas.

– Está blefando. – Ele disse, ainda seco e grosso.

– Não. Eu ouvi você chamar por ela... Pela sua mãe. Em sonho. Frigga, não é? – Miranda perguntou, acertadamente.

Loki olhou para ela com fúria no olhar. Sentia-se subitamente tomado por uma ira terrível. Ela não deveria se meter nisso. Não era digna de saber de nada disso. Não era da conta dela. Miranda recuou, engolindo em seco, como se estivesse com medo dele, encolhendo-se contra a parede, mas mantendo seus olhos firmes nos dele.

Instantaneamente, ele lembrou-se de como sua mãe o olhara na última vez em que conversaram na cela em que Odin lhe sentenciara a passar o resto de seus dias.

– Não... Não é da sua conta. – Ele por fim disse, sua voz que deveria soar ameaçadora, na verdade triste e resignada.

– Eu sei. Nada disso é, se você julga que não. Mas eu quero tentar... Ajudar. – Miranda insistiu, delicada.

– Não pode. Não pode entrar na cabeça de Odin e fazê-lo mudar de ideia. Não pode desfazer tudo o que já construímos até agora. E não pode fazer ela... – Loki soluçou, contra a própria vontade, e sentiu-se miserável, patético, ridículo. Miranda ainda o encarava, curiosamente parecendo compreende-lo daquela forma que ele não conseguia aceitar, e ele nunca se esforçara tanto para não chorar.

Olhou em direção ao céu nublado de Jotunheim, e decidiu colocar tudo aquilo para fora, enfim, para que não o enlouquecesse, tamanha a intensidade daquilo que o assombrava.

– Ela foi a única que se manifestou contra. A única. Odin concordou com a sentença dos Grandes Anciãos, e proferiu ele mesmo o castigo. Prisão perpétua, sem chances de reparação. O grande hipócrita. Como se não tivesse exterminado raças, dominado outros povos para que ele mesmo os subjugasse. – Loki uniu as mãos, sentindo a raiva por Odin crescer mais uma vez.

– Thor, um idiota, um fantoche de Odin, tão preocupado com sua Midgard... – Loki voltou-se para Miranda, e disse, entre o sincero e o debochado – ...Sem ofensas, só demonstrou alguma boa vontade quando viu que seria um castigo irremediável, e provavelmente teria levado a todos para o buraco se não fosse minha interferência e o seu conveniente ganho de poder. É um traidor e está tão fadado a sofrer nas mãos de Odin quanto eu. Quando perceber isso novamente, obedecerá tudo o que Odin disser como o cachorrinho servil que é.

– Ela tentou evitar? – Miranda perguntou, parecendo emocionada e interessada. Pare. Pare agora. Loki queria gritar, mais para si mesmo do que para ela.

– Sim. Mas meu falso pai, sendo mais sensato, não acreditou em uma possível redenção. Na última vez em que a vi, disse-lhe que ele não era meu pai... E que ela não era minha mãe. Ela desapareceu, no truque que ela mesma me ensinou, e não faço ideia do que lhe ocorreu até agora. – Loki não choraria. Não importasse o que visse ou o que sentisse, não choraria.

– Sua mãe ama muito você. Assim como seu irmão. – Miranda disse categoricamente. – E o seu pai está errado a respeito de você.

– ELE NÃO É MEU PAI! – Loki gritou-lhe de volta, sentindo veias saltando em seu pescoço, a raiva lhe tomando por completo. Miranda estremeceu dos pés a cabeça, mas seu olhar ainda o encarava.

Ela, silenciosamente, encostou suas costas na parede da caverna, fechando os olhos, como se aguardasse algo. Loki passou minutos, talvez horas, encarando o céu fechado, tão fechado quanto suas esperanças inexistentes de que, algum dia, pudesse de fato remediar tudo isso que sofrera junto a sua falsa família.

Quando finalmente sentiu-se cansado, lembrando-se pela milésima vez de Frigga e a última ofensa que lhe dissera, ignorou o ódio que sentia de si mesmo e aproximou-se de Miranda.

Por seu próprio desejo, deitou em seu colo, pensando que, talvez, quem sabe, uma única pessoa a quem havia destratado e feito mal, que há alguns meses o acompanhava, aquela que agora confiava em suas mãos a própria vida, e Loki sabia, estava a um fio de também ser destruída, feita em pedaços... Como o corpo de seu pai biológico, como a esperança de que Odin um dia o amasse tanto quanto amava Thor, ou que seu irmão o admirasse como a um igual, ou que sua mãe jamais o abandonasse... Sempre a sombra, escondida, aquele que destruía a fortuna de todos, mas acabava, no final, sempre destruindo mais e mais a si mesmo...

Talvez, com ela, tudo pudesse ser diferente. Tinha de ser.

Sentiu as mãos de Miranda abraçando seu ombro e acariciando seus cabelos, e, ainda de olhos fechados, lhe disse:

– Ficarei assim apenas alguns instantes... – Falou em tom de ordem, mas era quase uma súplica.

– Fique assim todo o tempo que quiser. – Miranda disse, docemente, acariciando-o de maneira que o deixava tão acalentado e confortável, como não se sentia anos e anos atrás...

– Está tudo bem, Loki. – A midgardiana falou, e ele acreditou, adormecendo em paz como no passado fora capaz de fazer.

Notas finais
Espero reviews, queridonas! Desta vez demorei menos, recebi uma bomba de inspiração ao ver Thor: O Mundo Sombrio, ehehehehe!