Journey Into Trickery

18 Something Wicked This Way Comes


Notas iniciais
Oi gente! Venho com um capítulo ENOOOORME neste feriado! ^^ Não temos spoilers de Thor: O Mundo Sombrio, nele, afinal, a história da minha fic já estava pensada e não será concomitante com a apresentada no filme. Porém, digamos que eu vá aproveitar um pouco do plot dele, adaptando à minha história. Mas não se preocupem, que este capítulo não tem spoilers. Mais para frente, de fato, teremos, mas eu vou avisar. E quem não viu o filme, o que está esperando?! Vejam agora! Recomendo demais, pra mim ficou no nível de Avengers, e o considero o melhor filme de herói solo da Marvel. Sobre o capítulo: teremos algumas das consequências do plano de Loki finalmente acontecendo, assim como vocês entenderão melhor o que ele planeja. Não, ainda não vai dar pra sacar TUDO o que ele planejou, mas espero que vocês fiquem surpresos com a inteligência e sagacidade do deus da trapaça. =) Teremos alguns pequenos momentos sensuais e fofinhos, assim como um final de roer as unhas, ehehehehe! Então, muitos beijos e boa leitura! Aproveitem o feriado! Tentarei escrever mais amanhã. Temos umas pequenas explicações mitológicas no final do capítulo também, para as interessadas em conferir!

Eles estão chegando.

Freya tremia dos pés a cabeça, sentindo seu corpo inteiro tomado por um suor frio e o hediondo pressentimento de péssimos agouros. Sendo ela a deusa da adivinhação, dentre outros títulos, sabia o quanto aquilo era preocupante. Corria, assim, pelas salas secretas de Folkvang, buscando algum refúgio, algum lugar no qual ela não pudesse encontrá-la.

A outra deusa já havia invadido Vanaheim, surpreendendo a todos os seres que lá viviam, inclusive aos vanires. Não havia chance de defesa.

Tudo havia começado naquela mesma madrugada, quando o sol ainda despontava nos horizontes antes férteis da terra abençoada pelos deuses da natureza. Freya acordara, angustiada e desesperada, sabendo que estava tendo uma visão de um futuro próximo.

Sentiu seus olhos enevoarem-se no momento em que se abriram, e, em segundos, sua consciência fora levada pela imagem que predizia naquele instante: um exército enorme, formado por criaturas do mundo abissal, grotescas, com seus membros contorcidos, disformes, arreganhando seus dentes famintos por sangue em sorrisos de ódio, aproximava-se de Vanaheim, saindo por um portal dimensional criado pela magia de um ser poderosíssimo. Trolls do submundo, humanóides da escuridão e criaturas monstruosas, bestas, feras, e homens transformados, mortos enquanto vivos, arrastavam-se em uma velocidade surpreendente, devorando tudo ao seu redor com sua energia destrutiva. Queimavam as florestas, arrancavam a mera grama do solo pastoril do reino mais belo de Yggdrasil, e devoravam, destruindo, atirando, cortando tudo que havia pela frente.

Tivera tempo apenas para avisar seu povo que se preparasse, e, aos menos capazes de lutar, que fugissem e debandassem enquanto era tempo. Freya tentou usar de todos os encantamentos de defesa que conhecia para proteger seu Reino enquanto ainda conseguia unir forças, mas havia tal vontade cruel por trás dos invasores, que não fora capaz de resistir por muito tempo. Ela sabia que nada daquilo era coincidência, e não acontecia por acaso; os vanires eram o povo mais pacífico de todos os Nove Reinos, sempre despreparados no quesito bélico, mas não conseguia compreender o propósito que havia por trás de tamanha devastação.

Grossas lágrimas caíam de seu lindíssimo rosto, enquanto ela respirava fundo para tentar raciocinar e encontrar algum ponto para escapar. Passou as duas mãos por seus cabelos ruivos e cacheados, entoando uma reza de coragem, juntando suas forças novamente. Ela sabia quem estava por trás daquilo, apesar de não saber seus motivos, mas tinha um trunfo a ser usado. Tem de funcionar.

Ela podia ouvir o som dos guerreiros midgardianos que, após a morte, vinham morar em seu palácio, lutando contra as criaturas vis que tentavam destruí-los. Espadas se chocavam, lâminas gritando contra lâminas, e cantos de guerra eram ouvidos nos campos onde antes só havia músicas de paz. Mas eram mortos contra mortos, e, logicamente, aquilo não protegeria seu querido povo ainda vivo. Todas as minhas ninfas... Freya suspirou, chorando, tentando manter-se silenciosa em meio a sua extrema angústia.

Enquanto tentava esconder-se na sala de tesouros de Folkvang, por trás de um enorme armário mágico que lhe fora dado de presente por Frey, ela sentiu novamente a sensação de clarividência. Em segundos, a imagem de florestas sendo incendiadas, e milhas e milhas de campos antes prósperos, devastados, tornados inférteis, e inúmeros corpos de homens e mulheres vanires inertes, sem vida, estendidos no chão, frios e duros, desenhou-se na frente de seus olhos despertos. Seu palácio, um local onde antes só havia beleza, alegria e celebração, era agora um templo... Da morte. Suas paredes quebradas, portas arrombadas, e sangue pelo chão antes limpo de desgraça.

Olhava para todos os lados, vendo todos os objetos, candelabros, lustres, cômodas, jóias, coroas, cetros e inúmeros presentes que ganhara por todos os seus inúmeros anos de suposta imortalidade. A sala era simples, quase abandonada, com paredes brancas e um teto altíssimo, e um piso simples de madeira, com todos os pertences abarrotados entre as quatro paredes do cômodo. Poucos conheciam sua existência. Demoraria algum tempo até que a encontrasse, talvez, se tivesse sorte. Já estava aterrorizada.

Freya não teve sequer tempo de prantear seus mortos, ou sentir a dor que a consumia em uma intensidade exorbitante. Segundos depois, ela estava lá. Ela, como deusa, sabia. Sentia sua presença, sua magia tão forte que parecia inundar com seu peso o ambiente em que as duas, agora, estavam, junto com um arrepio agourento que lhe subia por toda a espinha, deixando cada centímetro de seu corpo e espírito amedrontado... Ainda que fosse uma deusa, e poderosa.

Mas sabia não ser páreo para ela, e sabia que sua vida imortal estava apenas por um fio. Não havia como escapar da indesejável.

Não havia como fugir de Hela, a deusa da morte.

– Saia daí, onde quer que esteja... – Freya podia imaginar o sorriso descarnado de Hela, em metade de seu rosto, enquanto a outra metade assumia a falsa imagem bela que sempre buscava adotar. Sua voz lúgubre e grave se fez ouvir claramente por toda a sala de tesouros de Folkvang, e, enquanto lutava contra seu incontrolável temor, a deusa do amor abraçava a si mesmo, comprimindo-se ainda mais no espaço que encontrara para se esconder. Sentir-se-ia patética, se não estivesse completamente levada pelo medo. Era difícil não gritar.

O silêncio que se seguiu a frase foi ainda mais assustador. Parecia que ela desejava torturá-la, tratando-a como uma pequena presa a ser cercada lentamente, assombrada, antes que finalmente levasse sua vida e sua alma, junto para seus domínios de horror.

Freya ouviu os passos surdos de seus saltos batendo no chão de madeira. Parecia o barulho de ossos se chocando com a superfície amadeirada, e ela não conseguiu comprimir um gemido de repulsa. Em seguida, sentiu, mais do que ouviu, um movimento brusco, como se aquela que a perseguia tivesse escutado algo que denunciasse sua posição.

Momentos depois ouviu uma única batida semelhante, porém mais pesada. O armário que a escondia desmaterializou-se em inúmeros fragmentos que, ao caírem no chão, tornaram-se pó... Como se houvesse se decomposto.

– Te encontrei. – Sua algoz sorriu, mas não havia alegria alguma naquele gesto. Finalmente os olhos de Freya a viram, depois de tantos séculos sem sequer um vislumbre de sua existência. Não era natural que ela estivesse ali, em Vanaheim, onde tudo era belo, próspero, benevolente e... Cheio de vida.

– Odin saberá. Em breve ele saberá, se é que já não sabe. – Freya tremia, arregalando seus olhos verde-acinzentados, encostando-se contra um dos quatro pontos perpendiculares que unia as paredes da sala em um ângulo reto. Continuava arrastando-se para trás, mesmo sabendo que não havia mais lugar algum onde pudesse se esconder ou encontrar uma possível saída, mas não podia controlar-se. A presença assustadora dela, a sua frente, ameaçando-lhe com toda a sua força, fazia-lhe sentir-se tão frágil quanto uma ninfa recém nascida.

– E o que acha que estou fazendo aqui? – Hela sorriu um sorriso de escárnio, enquanto aproximava-se, desfilando com suas curvas sinuosas, belíssimas e ao mesmo tempo terríveis, suas saias negras arrastando-se pelo chão, lembrando, por uma possível ilusão de ótica, tentáculos escuros e perigosos. Levava, em sua mão direita, um cetro branco, mas de uma alvura conspurcada, envelhecido pelo tempo. Freya sabia que era feito de ossos humanos, enquanto olhava para seu topo, estudando a pedra negra que, por vezes, brilhava esbranquiçada quando Hela usava sua magia.

– Não tenho ideia. – Freya admitiu, ainda a encarando com o resto de bravura que tinha, cada vez mais encostada à superfície dura atrás de si. – Mas a heresia que cometeu hoje será vingada. – Tentou ameaçá-la.

Hela soltou uma risada aguda e sibilante, e Freya fechou os olhos, levada por um arrepio hediondo. Aquele som, junto aquele sorriso cruel, no qual não havia nada que lembrasse alegria, ou felicidade, era algo terrível demais para suportar. Sentia-se atacada, como se, de alguma maneira, estar na presença de Hela, após tudo o que fizera, pudesse lhe consumir, machucar, pouco a pouco. Feridas abrindo-se dentro de sua alma, na essência de sua imortalidade, ameaçando sufocá-la em temor e asco.

– Sempre foi tão tola... Provavelmente não deve ter ideia do que será promovido em Asgard, muito em breve. – Hela debochou, cruel e terrível.

– Não... Mas eu sei algo sobre Loki que você ainda não sabe. – Freya jogou sua única chance, com o resto de coragem que ainda tinha.

Ela pôde ver algo acender-se e apagar-se, em um átimo de segundo, nos olhos de Hela.

– E será que previu isso? – Hela bateu o cetro firme junto ao chão de madeira, mantendo sua mão esquerda estendida para frente. Freya protegeu-se com os braços, achando que era chegado seu fim, e teve tempo apenas de ver uma espécie de manto escuro esconder a imagem da deusa da morte por segundos. Quando abriu os olhos novamente, seu queixo caiu em espanto e terror. Não é possível.

– NÃO! Não... Você não pode ter feito isso, não pode! – Freya gritou, levando as mãos ao rosto, seus dedos apertando-se na carne de suas bochechas, quase se arranhando em meio à horrenda surpresa.

Hela, ainda sorrindo atroz, jogou aos seus pés a cabeça decepada de Frey, seu irmão, o deus da agricultura... E da paz. Seus olhos azuis celestes não mais brilhavam, parecendo encarar tristemente a irmã, de onde quer que esteja naquele momento.

– Foi simbólico. – A deusa da morte debochou, e riu sem alegria alguma.

Freya agora chorava como uma criança. Não contente em destruir suas terras, seus inocentes seguidores, Hela também lhe tomara seu irmão, o Senhor dos elfos da luz, líder governante de Ljusalfheim. Dentre todos os deuses, Frey era o mais cheio de iluminação, o mais bondoso, e gentil. Provavelmente o surpreendera para matá-lo, e não encontrara grande desafio, para a tristeza de todos.

– É chegada a sua hora, deusa do amor. – Hela ainda dizia, debochada, curvando-se levemente perante a agora quase patética Freya, sentada contorcendo-se de dor contra a união perpendicular de um dos cantos da sala.

– Por que o matou? – Freya não se preocupava mais tanto consigo, pensando que Vanaheim, Ljusalfheim e todos os Nove Reinos haviam perdido Frey, e no profundo pesar que isso fosse trazer. – Por quê? – Ela nem sequer podia compreender.

– Como eu disse... Foi simbólico. É um aviso a Odin. Um aviso para que, desta vez, não aceitarei um não como resposta. – Hela afirmou de maneira amedrontadora.

– Não compreendo o que está falando! – Freya admitiu, em meio ao pranto e ao terror.

– Não aceitarei que não me entregue a alma de Loki. Não dessa vez. A guerra que agora se inicia só findará quando tiver meu desejo satisfeito, ou Asgard e todos os Nove Reinos sofrerão as conseqüências. – Hela ameaçou terrivelmente.

– Por quê? Matará a todos, trará a... A guerra final, o Crepúsculo e a Queda dos Deuses, o Ragnarok... Tudo para ter apenas a alma dele? – Freya sentia ainda mais dor, tendo de lidar com tamanho ódio.

– Ter a alma dele será minha vingança. Minha vingança contra a tirania de Odin, e contra todos os deuses aesires que tratam a todos os outros como seus inferiores, como bem sabe na pele. Quantos anos subjugados sob suas vontades, quantas vezes humilhados, quantos séculos oprimidos? – Hela encarou Freya com determinação, que estremeceu mais uma vez. – Já está na hora de alguém questionar o governo de Odin, alguém além de seu filho desgarrado... Que ousou tentar fazer de tola a mim, a deusa da morte. O preço que Loki tem a pagar é o mais caro de todos, e eu irei cobrá-lo até que sua dívida seja quitada. – Freya sentiu-se ainda mais temerosa ao encarar os olhos de Hela, que brilhavam assassinos ao falar de Loki. O ódio que ela nutria pelo deus da trapaça era poderosíssimo, capaz de enlouquecê-la a ponto de achar-se capaz de bater de frente contra deuses muito mais poderosos até do que a própria deusa da morte.

– E é claro... Como bem sabe, Frey estava predestinado a lutar contra Surtr, no Ragnarok. Se estiver morto... Tal batalha não ocorrerá. Todos os mais sábios sabem sobre a profecia, e eu pretendo... Modificá-la, em alguns termos. – Hela disse perigosa.

– V-você se aliou a Surtr?! – Freya não acreditava no que estava prestes a acontecer. As estruturas dos Nove Reinos seriam abaladas, e de maneira, talvez, ainda pior do que previa as antigas profecias.

– Sim... A Surtr, e a Hreidmar. Odin não terá chance de defesas. Não com todos os seus preciosos vanires mortos, e Ljusalfheim entregue aos elfos das trevas. Já é hora de que acordem. – Os olhos negros de Hela tornavam-se ainda mais negros com seus desejos de morte e destruição, e Freya sentia-se cada vez mais desesperançada.

– Mas não posso dar todos os créditos de minhas idéias brilhantes apenas para mim mesma. – Hela riu, cruel. – Um certo Príncipe Jotun deu-me a pequena semente que gerou toda a revolução. – Ela disse sarcasticamente.

– Príncipe Jotun? – Freya não entendia.

– Laufar... A vingança de Laufey. – Hela disse, sorrindo enviesadamente. – Não são poucos os seres dentre os Nove Reinos que desejam a morte de Loki... Como bem deveria saber. – Hela debochou, provocando a deusa do amor, também traída pelo deus da trapaça.

– Você não pode fazer frente à Odin. Não pode atacar Asgard, nem com toda a força bruta de Surtr, ou com a ajuda das criaturas monstruosas de Helheim e o poderio bélico dos anões. Você só trará miséria e desolação para todos os Reinos, até que o Pai de Todos faça justiça e destrua a todos vocês. – Freya ameaçou, mas sabia que aquilo não surtiria efeito algum. Estava nas mãos de Hela, que brincava consigo, contava seus planos apenas para matá-la depois. É agora. Tem de funcionar.

– Silêncio, Freya. – Hela disse, agora não mais sorrindo. – Odin não aceitará perder tantos, para proteger logo aquele que condenou a prisão perpétua. Há de entregar-me o deus da trapaça, para evitar a perda de tantos outros caros para si. – A deusa da morte levantou seu cetro, e sorriu um último sorriso cruel.

– Últimas palavras? – Hela sorriu debochada, e atravessou o cetro de ossos pelo centro da barriga da deusa do amor.

Freya voltou-se para trás, sentindo que todo o seu corpo estava a centímetros de rachar por tanta dor, tinha apenas um segundo, e talvez nem isso, e tudo estaria perdido.

– Ela achou o Brisingamen. Achou. – Com uma de suas mãos tocou o braço de Hela que segurava o cetro, torcendo-lhe dentro de si, e gritou agudo de dor, sabendo que cada criatura, de Helheim ou vanir, escutaria seus berros de pavor.

Imediatamente, Hela retirou o cetro do corpo de Freya, que sangrava à beira da morte. Freya cobriu sua enorme ferida com as mãos, manchando-as de sangue, e sentia-se quase desfalecer.

– É melhor que não esteja mentindo. – Hela ameaçou, sinistramente. – Senão terá uma passagem muito mais dolorosa. – Seus olhos negros fixaram-se fundo nos olhos cinza-esverdeados de Freya, que mal conseguia enxergar, perdida em meio a mais profunda dor física que já sentira, agonizando em seus últimos momentos.

– É verdade. Cure-me. Cure-me e eu posso provar! – Freya gritou, e sabia que com seu grito esvaíam-se suas últimas forças.

Freya sentia-se num estado de torpor, desmaiando, como se seu espírito tentasse abandonar seu corpo. Achava que seu último pensamento seria o de que falhara, quando, subitamente, abriu seus olhos, voltando a um estado de consciência completa. Hela a havia curado, com um movimento limpo de seu cetro. Freya olhou para sua barriga, e não havia ferimento ali. A tentativa de assassinato de segundos antes era denunciada apenas pelas suas mãos, sua brancura conspurcada com seu próprio sangue.

– Você tem um minuto para provar o que acabou de dizer. – Hela disse, séria.

Freya sabia o que tinha de fazer. Rapidamente, puxou os braços de Hela para baixo, e, entoando o mantra que conhecia em sua mente, transferiu a memória da visão que teve para a consciência de Hela.

Podia ver o que a deusa da morte via. Na imagem que a deusa da beleza havia transferido para a deusa da morte, ela percebia a si mesma lembrando-se do momento em que tivera a visão de quem encontrara o Brisingamen.

Naquela memória de clarividência, Freya dançava com um de seus seguidores, quando, subitamente, seus olhos tornaram-se prateados, e ela viu, entre o raivosa, amargurada e triunfante: a ninfa aesir que dissera ser inimiga de Loki, tropeçara, nas areias de uma baía de Vanaheim próxima a Folkvang, no colar que era de direito da deusa do amor e da beleza. O sinal do resultado de seu encantamento, de que aquela que seria a companheira de Loki já caminhava entre eles. Atrás de si, estava o deus da trapaça, encarando a jóia como se não compreendesse.

E Hela também estava ciente do que aquilo significava: a companheira, a parceira do deus da trapaça já tinha nome, corpo e forma.

E ela sabia, apesar de não compreender o ódio amedrontador de Hela, ou seus desígnios assassinos, e seu desejo pela destruição e sofrimento, entendia que ela também fora ludibriada por Loki da mesma forma que ela, Freya. Sabia que ela já o amara, se alguma vez existira um coração pulsante no corpo e na alma da deusa da morte.

– Aquele pequeno verme... Eu sabia, eu sabia que era ele por trás daquele disfarce. Era Loki... Era Loki por todo este tempo. Loki como Laufar! Como pude não ter percebido... Como pude... Maldito seja Laufeyson e aquela que o acompanha! – Hela amaldiçoou, mais para si mesma do que para a deusa moribunda próxima de si, e Freya sentiu o calafrio mais terrível de todos naquele momento de negrume antes do alvorecer. Logo em seguida, Hela gritou, e o som foi tão terrível que Freya temeu morrer novamente. Podia imaginar as almas atormentadas de Helheim contorcendo-se ao som da fúria de sua senhora.

Havia dor naquele som, e uma promessa ainda pior de rancor. Segundos depois, Hela voltou-se a Freya, e sabia que não seria o suficiente para sobreviver.

A ninfa Hale acompanhava o Príncipe Jotun? Este Laufar é Loki? Freya tentava entender as palavras desconexas de Hela, e, pela primeira vez em muitos anos, sentiu-se grata pela inteligência e astúcia de Loki. Ele acabara de trazer a ameaça iminente de morte a todos os Nove Reinos, mas, ao iludir Hela, poderia trazer o fim da deusa da morte, e de toda a ameaça que ela sempre simbolizara.

– Não posso deixá-la viver. Se contar a alguém o que viu, tudo estará comprometido. Eu preciso desta guerra contra Asgard. – Hela atravessou novamente o cetro no mesmo ponto do corpo de Freya, que mais uma vez gritou de dor, sentindo suas entranhas em chamas, desejando morrer.

– Se Surtr ou Hreidmar souberem que Loki é Laufar, não irão junto a você nessa jornada rumo a auto-destruição. – Freya debochou de volta, tentando seguir o raciocínio da deusa que a atacava, e Hela deu-lhe um tapa tão forte que sentiu que poderia ter deslocado sua mandíbula.

– Cale-se, maldita. – Hela, girou o cetro na ferida aberta de Freya, fazendo-a contorcer-se de dor, sem forças nem mesmo para gritar. – Seu irmão foi mais fácil de matar. – A deusa da morte chutou o rosto de Freya, que bateu contra a parede e não viu mais nada.

****

Freya piscou os olhos, e viu Elaine, sua ninfa virgem, que agora já tinha um companheiro e florescera como mulher.

– Olá, querida. – Freya não mais sentia dor, apesar do peso em seu peito do temor a respeito das futuras ações de Hela contra os Nove Reinos. – Estamos em Valhala? – A deusa da beleza perguntou, certa de que estava morta, renascendo no paraíso para onde vão os deuses que morrem com bravura, em batalha.

– Não, minha senhora. – Elaine disse, preocupada. – Eu a salvei.

Freya levantou-se, apoiando os cotovelos em uma superfície conhecida. Deitava-se em um dos quartos de cura de Folkvang, e não havia nenhum outro ser vivente próximo de si além da ninfa adorável a sua frente. Ao seu redor, via apenas as paredes douradas e as camas de lençóis brancos e macios para os enfermos.

– Como? – Freya arregalou os olhos, preocupada. – Mas Hela saberá! – Freya desesperou-se, tentando sair da cama em que antes repousava.

– Não saberá, senhora. – Elaine segurou-a pelos braços gentilmente, tentando acalmá-la. – Eu a encontrei quando Hela preparava-se para abandonar Vanaheim. Trouxera um de seus lobos carniceiros para devorar seu corpo junto a sua alma, acredito que por alguma razão ela não desejaria que seu espírito continuasse existindo. – Aquilo fazia sentido, Freya pensou. Freya teria de ser calada inteiramente, para que ninguém descobrisse a verdade por trás de Laufar, e havia caminhos para comunicar-se com Valhala, e as almas que lá habitavam imortais.

– Como sobreviveu, minha doce ninfa? – Freya sorriu, tocando o rosto gentil da loira.

– Alguns de nós tivemos sorte. – Ela sorriu, modesta. – E tivemos ajuda das almas dos guerreiros midgardianos, que a senhora sempre abrigou, após suas vidas humanas, em nosso lar, Folkvang. – Elaine se controlava para não chorar.

– Eu a encontrei, quase morta, caída na sala dos tesouros, prestes a ser devorada por aquele horrível monstro. – Os lábios de Elaine tremeram, emocionada. – Mas os guerreiros que me acompanhavam, protegendo a mim e a meu amado, destruíram a fera, evitando que o pior acontecesse. E, com os feitiços de cura que me ensinou, pude trazer-lhe de volta do limbo. – Freya apertou as mãos de Elaine, e a beijou no rosto, em agradecimento.

– Nada mais acontecerá, senhora. – Elaine disse, lágrimas começando a descer de seus olhos.

– Não teria tanta certeza, minha querida. Tempos difíceis estão à nossa frente, e o equilíbrio dos Nove Reinos está prestes a ser testado... Hela deseja a destruição de Asgard, mas traz consigo a sua própria, eu posso sentir isso. Mas não sei quantos encontrarão também seu fim por culpa de seus desejos sombrios. – Freya previu sabiamente.

– Não compreendo, senhora. – Elaine disse, assustada.

– Compreenderá. Ao seu tempo. – Freya decidiu não ameaçar a vida de Elaine mais do que seria necessário. – Preciso que cumpra uma tarefa para mim. Preciso que reúna todas as almas dos guerreiros midgardianos, e os vanires restantes, e marchem para Asgard, para aliarem-se as forças do Pai de Todos. Hela não pode saber que estou viva, precisam agir como se eu sequer existisse, ou ela poderá calcular e prever o que faremos. Por favor, faça isso por mim.

– Mas, minha Rainha... – Elaine insistiu, apavorada.

– Se não pode fazê-lo por mim, faça por si mesma. Faça por seu amado. – Freya suplicou, segurando firme as duas mãos da antes virgem ninfa. – Apresente-se como um arauto de minha palavra. Afirme para Odin que estou morta, isso é o mais importante. Proteja Asgard, use o dom da bondade e proteção que lhe foi conferido, e proteja Loki.

– Proteger... Loki? – A ninfa loira perguntou, sem compreender, atônita.

– Ironicamente... Ele trouxe essa guerra. E ele será a única chance de sobrevivência de todos. – Freya disse sombriamente.

– Senhora, mas, desculpe-me, não consigo compreender como... – Elaine mais uma vez tentou discutir, como se as palavras de Freya lhe soassem muito apressadas e sem sentido.

– Acredite em mim. Eu... Eu vi. – Freya falou em tom profético, e Elaine engoliu em seco, sem mais ter coragem para duvidar.

****

Thor estava desconfiado. Loki estava demorando em contatá-lo novamente, e ele sabia que aquilo não poderia significar algo bom. Mas era muito tarde para voltar atrás. Será que cometi um erro enorme? Thor pensou, mais uma vez. O deus do trovão, apesar de decidido, temia as conseqüências que libertar seu irmão, o deus da trapaça, poderiam trazer. Retirara seus poderes, para evitar que pudesse causar grandes estragos, mas, infelizmente, ainda não havia magia que pudesse proteger Loki de sua própria esperteza e malícia.

E não apenas proteger a si próprio, como aos outros próximos dele.

Preocupado, o deus do trovão caminhou imponente pela ponte que unia as fronteiras dos terrenos de Asgard com a torre de vigia imortal de Heimdall. Era madrugada, mas Heimdall não descansava, e não havia mais tempo a perder. Fora tolo em esperar demais.

Thor estava a um passo de lhe contar o que fizera, esperando poder contar com sua ajuda. Sim, aquilo significaria traição, a mesma que cometera ao libertar seu pequeno irmão, mas até mesmo Heimdall já poderia ter percebido a dificuldade de conciliação e diálogo recente com Odin, o Pai de Todos. Suas decisões eram firmes e inquestionáveis, e muitas vezes o governante deixava de ouvir seus próprios conselheiros. Ainda não tinha um plano formado para ajudar Loki, mas unido a Heimdall, Frandall, Volstagg, Sif e Hogun poderia esperar triunfar.

Ao finalmente adentrar a câmara na qual Heimdall podia enxergar tudo o que acontecia em todos os Nove Reinos de Yggdrasil – exceto os que adentrassem outros domínios por caminhos além de sua visão, como Loki e a prima de Jane agora faziam – ele pensava em como poderia pedir-lhe ajuda. Precisava, antes de mais nada, localizar o deus da trapaça. Thor sabia que era um péssimo sinal o aparente sumiço de seu irmão menor.

Entretanto, para sua surpresa, Thor não precisou falar nada.

– Eu estava lhe esperando. – Heimdall dirigiu-se a Thor, antes que o próprio fizesse menção de falar.

– O que aconteceu? – O deus do trovão perguntou, mas já sabia o que lhe esperava. Loki... Eu confiei em você. Mais uma vez. Sentiu-se mais tolo do que nunca, e a ira dentro de si crescia tão rápida e desmedida quanto um vulcão em erupção. Apesar de não ser tão inteligente quanto o irmão, Thor o conhecia bem. Sabia, sentia correr em seu sangue a sensação de que Loki fizera algo muito, muito ruim.

– Algo que creio que gostaria de explicar. – Heimdall aproximou-se de Thor, e, com seu cetro dourado de vigilante, fez menção de tocar a mão de Thor. O filho mais velho de Odin o encarou, surpreso, enquanto o vigilante dos Nove Reinos falava:

– Toque e veja por si mesmo. – Heimdall estendeu o cetro para Thor, que o tomou em uma das mãos, e caminhou até o ponto central da câmara de vigia, juntando-o acima de uma pequena construção na qual poderia ter acesso a visão de Heimdall. Seus olhos enevoaram-se, e ele viu a imagem que este desejava lhe mostrar.

Tudo o que ocorrera em Vanaheim, naquela madrugada, desenhou-se diante dos olhos despertos de Thor.

Ao final de tudo, não sabia o que mais lhe chocava: se a morte de Frey, a ousadia e insanidade de Hela, a coragem de Freya ou...

Mais uma vez, a previsível traição de Loki. Seu irmão, a quem libertara, a quem acreditara ter dado uma chance de redenção... Conspirara com Hela contra Asgard e a todos que uma vez o amaram. Fizera-se passar por um jotun, segundo as palavras da deusa da morte, e levara a prima de Jane para o mesmo abismo de autodestruição que sempre procurava para si mesmo, e acabava por levar junto muitos outros inocentes. Ele está fora de si. Não há mais meu irmão neste... Neste louco. Thor queria acreditar que não era verdade, mas sabia, intimamente, que aquilo era a mais pura verdade.

Sentiu seu coração comprimir-se pesadamente, como se um enorme troll de Helheim pisasse em cima de seu peito, ameaçando esmagar-lhe vivo. Eu sou um tolo. O maior dos tolos. Ele sempre teve razão.

– Eu posso explicar. Mas não será algo que desejaria ouvir. – Thor disse, sério e sorumbático. – E temos pouco tempo, talvez dias, no máximo, antes que tudo esteja perdido.

– O que temos dentro de nossas celas em Asgard, neste momento? Quem substituiu Loki? – Heimdall perguntou, interrompendo o deus do trovão, como se não conseguisse acreditar no que Thor lhe dizia. O deus do trovão jamais havia se sentido tão culpado em vida.

– A falta de quem realmente deveria estar lá. Por minha culpa – O deus do trovão respondeu, furioso. – Eu não permitirei que tudo termine assim, Heimdall. Sei que pode não me achar digno de confiança, mas não deixarei que Loki destrua a todos nós. Nem que eu tenha que morrer tentando. – Thor disse resoluto, sua voz de trovão retumbando por toda a câmara.

– O que devo fazer? – Heimdall perguntou, sério.

– Como? – Thor não acreditava, encarando o vigilante com as sobrancelhas franzidas, confuso. Sabia que Heimdall devia cumprir seu dever, e entregar a verdade a Odin. Não o entregaria, depois de tudo? Depois de libertar Loki e dar-lhe a chance de destruir a todos?

– Há algum tempo atrás, você escutou seu irmão. E eu quase morri. Mas foi graças a você que estou vivo novamente. Você descobriu as mentiras do deus da trapaça e me salvou. Devo-lhe minha vida.– O vigilante disse, sério, também decidido.

Thor sentiu-se levemente emocionado pela honradez de Heimdall, mas manteve a compostura. Encarou seus olhos com afinco, e respondeu-lhe, firme:

– Eu o trarei de volta. Farei com que corrija todo o mal que está prestes a fazer. Não me preocupo com seu destino depois. Mas não poderemos permitir que jogue a todos nós no abismo, sem chances de salvação. Loki nos trouxe este problema, e será ele a solucioná-lo. Seu destino, depois disso, ainda haverá de ser decidido.

– Se Odin souber que está livre, e que o ajudamos, estaremos todos condenados. Provavelmente à execução. – Heimdall disse, sério.

– E é por isso que não pode saber. Não ainda. A hora chegará. – Thor apertou firme uma das mãos de Heimdall. – Obrigado por confiar em mim.

– Não agradeça a mim. – O vigilante cumprimentou-o de volta, sorrindo-lhe educadamente. – Eu simplesmente sei... Sei que é digno. – Heimdall encarou a mão de Thor que carregava o Mjolnir, significativamente, e o deus do trovão sentiu-se genuinamente grato e lisonjeado.

– Serei grato eternamente. – Thor acenou, e sentiu algo brilhar dentro de um de seus bolsos. Com uma de suas mãos, Thor retirou a safira brilhante que indicava, agora claramente, onde o deus da trapaça se encontrava. Curiosamente, ele mesmo havia tocado na pedra, algo que haviam combinado que apenas faria se ele e a prima de Jane se encontrassem em perigo. Conveniente.

– Confio em você, Thor. – Heimdall agradeceu, e Thor acenou-lhe uma despedida.

– Obrigado. Heimdall, envie Sif e os Três Guerreiros para Jotunheim. Já sei para onde devo ir. E não permita que Odin descubra o que planejamos. – O deus do trovão pediu encarecidamente.

Heimdall assentiu, ao longe, enquanto Thor afastava-se da câmara para seguir junto às fronteiras de Asgard que o levariam para o túnel de Yggdrasil. Sabia que deveria encontrar a passagem para Jotunheim, e que tinha de ser rápido. Cada segundo faria diferença.

Heimdall confia em mim... Quando nem mesmo eu posso confiar, agora.

Usando do máximo de velocidade que conseguia com suas fortes pernas, Thor alcançou rapidamente o túnel para a Árvore. O sol já despontava no horizonte, guiando seu caminho com suficiente luz. Ao atravessar a passagem para as raízes da Árvore, tentava lembrar-se somente e apenas do seu dever, mas era quase impossível. Não quando julgara que estava tão perto, tão perto de consertar tudo o que estava quebrado. Apenas para descobrir, depois, que nunca houve esperança.

Lembrou-se uma última vez das palavras de Hela, e permitiu que uma única lágrima solitária escorresse por seu rosto, quando já afastado.

Por que, pequeno irmão? Por que quer tanto destruir a si mesmo?

****

Ele acordara junto com os primeiros raios de sol daquela manhã, e com uma lufada de vento frio trazendo neve até seus corpos que deitavam entrelaçados.

Loki abriu seus olhos, naquele momento verdes, e estudou o ambiente a sua volta. Sentiu o aroma familiar e irritantemente confortante de Miranda envolvê-lo ainda mais fortemente do que o vento que trazia algumas camadas de neve para dentro daquela pequena caverna em Jotunheim, e o toque de sua cabeça e ombros contra o macio colo da midgardiana. Por sua própria vontade, havia se aconchegado ali, e dormira por horas a fio.

Levantou-se rapidamente, intimamente torcendo para que ela não estivesse acordada. Logo em seguida, lembrou-se de que adormecera com suas palavras pacíficas e suas carícias em seus cabelos, após ter confessado a respeito de seus sentimentos e sensações dúbios e odiosos a respeito de Frigga. Isso está indo longe demais. O deus da trapaça pensou, irritado consigo mesmo, enquanto avaliava as feições de Miranda, que parecia ainda estar dormindo, alheia ao que se passava consigo. Reparou em seu rosto e costas apoiados contra a parede da caverna, encolhida em uma posição na qual tentava claramente guardar o máximo de calor possível, e em seus olhos fechados, seu rosto calmo, entregue, relaxado de tal maneira que lhe fez sentir algo quente subir-lhe pelo peito, de certa forma deixando-o tão calmo quanto ela aparentava estar. Vê-la segura, de alguma forma, o deixava mais... Feliz.

Loki rangeu os dentes, sentindo aquela maldita sensação familiar de ódio contra si mesmo, e levantou-se com destreza, aproximando-se da saída da caverna. Ela estava começando a perceber algumas de suas fraquezas, e esse era o pior momento para que tudo aquilo acontecesse. Estava tão perto, tão perto de concretizar o que planejara...

– Bom dia, flor do dia. – Miranda disse, bocejando, estalando as costas audivelmente e se espreguiçando. Foi só pensar. Loki praguejou mentalmente, voltando-se para ela, tentando manter a expressão mais má humorada possível.

– Oh-oh. Mau humor matinal... – A midgardiana disse debochada, enquanto sorria seu sorriso lascivo sempre de forma tão convidativa para ele. – Eu sei como curar isso. – A jovem mulher fez um gesto com sua mão esquerda, indicando que o chamava para mais perto de si.

– Na verdade não estou mal humorado. – Loki disse, sabendo que era a hora de voltar a estar por cima. Em vários sentidos diferentes. Pensou, maldosamente.

– Nem vem, eu já consigo reconhecer essa sua carinha. – Miranda falou, semicerrando seus grandes olhos cor de mel. – Ou você está puto da vida, provavelmente comigo, por alguma razão injusta, como sempre, ou você comeu alguma estalactite estragada e está com uma disenteria gravíssima. – A sensual migdardiana disse de maneira tão grosseira em comparação a sua aparência convidativa, como lhe era costumeiro.

– E, como sempre, você interpretou erroneamente. – Loki retribuiu a grosseria com um tapa na cara verbal, e Miranda rapidamente fechou a expressão.

– Sem mais colinho para você, Sheldon nórdico. – Miranda revirou os olhos, desistindo de contra-argumentar. Loki sorriu enviesadamente, aproximando-se, por sua vez, da parede da caverna. Sabia o que mexia com ela, e não tinha medo de usar aquilo para favorecer a si mesmo. Apesar de, ainda assim, uma pequena parte de si sentir-se mal por fazer aquilo, e trazer-lhe a típica irritação contra suas próprias reações, algo que o acompanhara desde que conhecera aquela exótica, e inegavelmente marcante jovem mulher.

Em seguida, ele apoiou-se contra a superfície gelada, sentando-se a uma altura e distância próxima da de Miranda, a uma questão de centímetros, encarando-a direto em seus grandes e redondos olhos cor de mel, sorrindo-lhe com um dos cantos dos lábios.

– Venha cá. – Usou o mesmo tom convidativo da jovem moça.

– Isso não é nenhuma pegadinha... – Miranda perguntou, desconfiada, e orgulhosa demais para obedecê-lo tão facilmente.

– Não. Estou sendo bastante sincero. Quero que se aproxime, e sente-se bem aqui. – Loki deu um leve tapa audível em uma de suas coxas, e acompanhou o olhar de Miranda, seguindo o gesto, e encarando-o desafiador, depois. Tinha de se controlar para não sorrir. Aquilo era muito divertido, especialmente as reações dela, por mais que não quisesse admitir.

– Não sei se devemos acreditar quando o deus da trapaça diz que está sendo sincero... Provavelmente é a forma de ele nos avisar de que está mentindo. – Ela respondeu irônica.

– Ou talvez ele diga que está sendo sincero, esperando que seja interpretado como se estivesse mentindo, mas na verdade está de fato sendo sincero e se aproveitando do fato de que não acreditarão em suas palavras dúbias. – Loki disse divertido, jogando com a pequena e deliciosa humana.

– Ou quem sabe ele, ao dizer que está sendo sincero, espera que seja interpretado como se estivesse mentindo, e depois age como se estivesse sendo verdadeiro mas na verdade está mentindo? – Miranda insistiu, entrando no jogo.

– Ou talvez... – Loki ia começar a tolice de novo, sabendo que ela desistiria em breve.

– Chega! Eu realmente não faço ideia do que você quer, admito. A fundo, quero dizer. Tenho idéias do que você quer... Superficialmente. – Miranda provocou, tirando devagar o manto azul claro que a cobria para protegê-la do frio, deixando seus ombros e uma sugestão de decote à mostra, enquanto sorria libidinosamente para Loki.

– Eu não quero superficialmente. Eu quero ir... A fundo. Bem fundo. – Loki disse em resposta, cheio de segundas intenções, sabendo que ela percebia claramente o desejo sexual que sempre lhe despertava. Em segundos, puxou-a pelo braço, arrastando-a para onde desejava que estivesse. Ajeitou-a sentada entre suas pernas, levemente abertas, de forma a enlaçá-la pelas costas, seus lábios na altura de uma de suas orelhas. Sabia que enquanto usasse os sentimentos dependentes que ela tinha por ele para seu favor, poderia mantê-la subjugada.

Ainda que uma parte de si o fizesse sentir-se levemente arrependido por manipulá-la assim.

– E se eu não estiver com vontade? – Miranda perguntou, ousada, sua voz levemente mais grave e sussurrada entregando seu desejo.

– Vou fazê-la querer. Como sempre. – Loki debochou de volta, mordendo o lóbulo de sua orelha direita. Miranda gemeu levemente, e ele intensificou seu aperto, levando uma de suas mãos para dentro de seu vestido. Subiu por entre o tecido azul, apertando pouco a pouco a carne que encontrava. Apertou sua cintura, fina e lindamente delineada, fazendo-a estremecer e respirar ainda mais fundo, enquanto seu outro braço a enlaçava na altura de seu ventre, puxando-a com força para si, cada vez mais.

Miranda tentava acompanhar seus movimentos, tentando tocá-lo com suas mãos na altura do rosto, virando-se para ele, mas ele a impedia, usando de sua força bruta que, mesmo sem seus poderes, ainda era superior à dela.

– Quietinha... Estou no comando, agora. – E sempre. Loki pensou, sugando a carne tenra e quente do pescoço macio de Miranda, que gemeu descontrolada.

Logo depois, sua mão que subia por baixo de suas vestes alcançou um de seus seios, o qual fez-la tomar a forma, apertando-o em concha. A midgardiana gemia, entregue, e ele sabia que ela sentia falta de ser tomada por ele, mesmo que não o tivesse feito há apenas um dia. Era delicioso aferir o quanto seu mero toque a deixava completamente submissa aos seus efeitos, ela, sempre tão audaciosa, tentando questioná-lo e bater de frente contra ele, o deus da trapaça, tão claramente superior... Sentindo seu membro viril já pulsante, soltou-a devagar, permitindo que pudesse voltar-se para ele, para finalmente...

Antes que pudesse reagir, Miranda gritou. Um grito agudo, sonoro, e potente.

Mas não de prazer.

Gritara por puro terror.

Loki teve apenas tempo de perceber que passara a não mais sentir a pele ou o toque das pernas e quadril da jovem moça em volta de suas pernas, e que algo a arrastava para fora da caverna, suas mãos desesperadamente tentando se agarrar ao chão, falhando miseravelmente. Antes que sumisse em meio a nevasca infinita e branca, o deus apenas pôde ver seus grandes olhos cor de mel abertos arregalados em uma expressão de medo e surpresa.

Um segundo depois, Loki adotara a posição de combate. Seguiu o corpo arrastado de Miranda para fora da caverna, e, rapidamente, a enxergou tentando desvencilhar-se de uma enorme e grotesca criatura que a puxava por um de seus pés, com unhas cravadas em sua carne. A mísera unha de um dos dedos do animal era do tamanho de metade dos pés da jovem mulher, e já a fazia sangrar consideravelmente. Loki instantaneamente sentiu uma enorme carga de preocupação tomar-lhe por inteiro.

Fazia algum tempo que não vira um desses. Um quadrúpede gigantesco, provavelmente dez vezes maior do que Loki, azul como os gigantes de gelo, com o corpo reptiliano, garras afiadas, quatro fileiras de dentes, uma cabeça achatada, e o corpo coberto de músculos. Apesar da aparência reptiliana, suas patas eram em um formato felino, e sua cabeça tinha uma aparência humanóide. Além de tudo, o que mantinha seu equilíbrio corporal naquela aparência horrenda e disforme era uma cauda, idêntica as dos animais que os midgardianos chamavam de... Leões.

Uma manticora de Jotunheim.

– Conjure fogo! Agora! O que está esperando? – Loki perguntou, enquanto ordenava, movendo-se rapidamente em volta da besta fera que agarrava Miranda, que estava brincando com a midgardiana como se fosse um pequeno rato, e ele, um grande felino. Ela ainda arrastava-se debilmente na neve, tentando escapar da garra que perfurara um de seus pés, ao invés de agir rapidamente.

Loki esquecia-se que, apesar de Miranda ter o sopro de Hela, ainda tinha as falhas dos midgardianos, e que seus reflexos ainda não eram comparáveis aos de um deus em sua plenitude, apesar de seus poderes terem a magnitude de um. – Conjure! – Ele gritou mais uma vez, tentando puxá-la para longe do animal, que agora retirara a unha da carne dos pés de Miranda, e parecia mirar uma de suas patas na direção de Loki.

A jovem mulher pôs-se de pé, mancando pelo ferimento recém aberto em grande parte de um de seus pés, e Loki tentou dar-lhe apoio, segurando uma de suas mãos, enquanto com a outra ela conjurava uma bola de fogo e a mirava na direção do rosto da criatura.

Acertou-a em cheio, e tiveram tempo de afastar-se alguns metros, Miranda fragilizada pelo ferimento em um de seus pontos de apoio, manchando de sangue a superfície gelada de Jotunheim. Loki odiava a si mesmo por estar sem seus poderes, inútil naquela situação, apenas sendo capaz de ditar ordens e esquivar-se com pouco sucesso. Mas odiava-se ainda mais por ter permitido que o animal a machucasse.

– Mire dentro da boca dele! – Loki ordenou, gritando, e Miranda fez o que foi pedido, aturdida. Algo parecia distraí-la, e aquilo preocupava Loki. Se não estivesse atenta, completamente concentrada naquela batalha, poderia morrer.

Não havia outra forma. Tinha de chamar Thor. Já era chegada a hora.

Loki tocou a safira que guardara consigo, colocando o máximo de urgência possível em seu toque. Era horrível admitir, mas nunca precisara tanto da ajuda de seu falso irmão quanto naquele momento.

Entretanto, em poucos minutos, o feroz monstro havia se recuperado do primeiro ferimento, e avançava desmedidamente na direção de Loki, que se esquivou por um triz. O animal mais uma vez levantou uma de suas patas, rugindo um ruído grotesco, e a mirava no rosto de Loki, que se abaixou outra vez, mergulhando para além de suas quatro patas, e desviou-se.

Porém, após ter errado sua investida, o animal mudou de alvo. Aparentemente, Loki era rápido demais para ele.

Ao longe, viu Miranda procurando-o com o olhar, enquanto parte de sua atenção era desviada para criar uma enorme barreira de chamas, suas mãos postas a frente de seu corpo, projetando o fogo, no qual o estúpido animal avançou, queimando-se completamente. Ela sorriu, satisfeita, talvez mais por ter visto Loki, do que por aparentemente ter derrotado a fera. O deus da trapaça incomodava-se grandemente em perceber o quanto ela distraía-se em um momento tão perigoso. O seu grau de atenção faria a diferença para sua sobrevivência.

Assim que o animal fugiu alucinadamente dos dois, assustado por estar queimando em chamas, derretendo pouco a pouco, Loki caminhou devagar para perto de Miranda, que havia sentado na superfício congelada do solo de Jotunheim, enquanto apertava o próprio pé ferido. Ainda sangrava abundantemente, e Loki sabia que não tinha meios para curá-la, ali, sozinho. Sentiu-se ainda mais inútil e irritado consigo mesmo, além de sua carga de culpa ter apenas aumentando.

Ele sentou-se ao seu lado, enquanto ela virou o rosto em sua direção.

– Parece que ultimamente estou zicada. Já é o segundo dia seguido com machucados consideráveis. – Miranda disse, tentando debochar, enquanto seu rosto denunciava a dor que sentia, apesar de ser orgulhosa demais para admiti-la.

– Você poderia ter lutado melhor. – Loki a censurou, levantando uma das sobrancelhas.

Miranda levantou seus olhos lentamente para ele, como se aquilo tivesse sido a gota d’água. Ela tirou rapidamente uma das mãos de seus pés, e, no segundo seguinte, estava mirando uma bola de fogo na direção de Loki, que escapou por um triz, sentindo as chamas lamberem seu ombro esquerdo.

– Você ficou louca? – Ele sibilou entre os dentes, surpreso pela raiva súbita da imprevisível midgardiana que agora o acompanhava.

– Você é um babaca! – Miranda gritou feroz, e já se preparava para lançar mais uma bola de fogo. – Tenho tido muita paciência com os seus chiliques ultimamente, e tenho levado muita porrada por sua causa, inclusive vindo de você! – Ela mirou mais uma bola de fogo e Loki se afastou ainda mais. Miranda se levantou mal, mancando, e tentando atingi-lo com as chamas.

– Estava apenas atestando uma verdade. – O deus da trapaça disse, sentindo-se um tanto ferido ao ouvir suas acusações, principalmente por saber serem verdadeiras, e abaixando-se para se esquivar de mais uma bola de fogo. – Você lutou muito distraída. Poderia ter acabado rapidamente com a manticora, se tivesse se concentrado mais.

– Posso não ter acabado com a manticora rápido, mas tem alguém na minha frente pedindo pra virar churrasco inglês! – A midgardiana gritou, repleta de raiva, avançando para Loki. Ele não desviou. Teria que, mais uma vez, controlá-la com seus meios.

Assim que Miranda aproximou-se o suficiente, Loki segurou seus pulsos, usando do favorecimento de, mesmo sem seus poderes, ser mais rápido do que a midgardiana com o sopro de Hela. Levou-os para trás do corpo dela, virando-a de costas para si, imobilizando-a com o golpe que ela jamais conseguira desviar.

– Isso é muito clichê! – Miranda debochou, irritada, ainda tentando se soltar. Loki via a expressão irritada em seus grandes e redondos olhos cor de mel, e, por algum motivo, aquilo o divertia.

– Se puder me escutar, e agir racionalmente. – Loki debochou aos seus ouvidos. — Apenas a critiquei porque sei que é capaz de mais. Isso é um elogio. – E, sabia ele, pela grande carga de preocupação que sentira. Mas não admitiria. Jamais.

– Não me parece muito incentivador. – A midgardiana achou uma brecha e conseguiu dar uma rasteira nas pernas de Loki, que caiu, surpreso, em meio a neve. Ela se afastou agilmente o suficiente para que ele não pudesse imobilizá-la da mesma forma de novo, enquanto o encarava se levantar, aos poucos, seus olhos cor de mel adotando uma expressão decidida. Por algum motivo, aquilo fez Loki sentir-se ansioso pelo que ela diria.

– Eu estava desatenta... Porque estava preocupada com você, seu merdinha. – Miranda disse sincera e grosseira, respirando fundo, suas sobrancelhas franzidas em uma expressão honesta, seus olhos cor de mel levemente lacrimejantes. Loki sentiu algo quente instantaneamente alojar-se em seu peito, e uma súbita vontade de beijá-la. Piscou os olhos, sentindo-se levemente desarmado, e tentava reunir palavras para respondê-la de alguma maneira que o livrasse de se comprometer.

E tudo aconteceu muito rápido outra vez.

Logo neste preciso momento, o deus da trapaça viu um vulto feminino aproximar-se de Miranda, e tapar sua boca com uma mão protegida por uma armadura. Reconheceu instantaneamente quem havia imobilizado sua midgardiana, ainda que não a tivesse visto. Não esperava encontrá-la tão rápido.

Não era para ela estar aqui. Loki engoliu em seco, verdadeiramente assustado.

Do lado direito e esquerdo do vulto que agora imobilizara Miranda, surgiram, em meio ao gelo e desolação de Jotunheim, a figura conhecida de Três Guerreiros que o acompanharam por algum tempo, especialmente em seus anos mais jovens.

Frandall, Volstagg e Hogun ali estavam, assim como a bela Sif, que agora mantinha Miranda refém, para profundo ódio do deus da trapaça.

Loki fechou os olhos e respirou fundo. Sabia o que aquilo significava.

Sabia que Hela havia mordido a isca. Aquilo era planejado.

Mas não esperava ter de lidar com a fúria de Thor tão cedo.

Logo depois, sentiu duas fortes mãos se fechando em volta de sua garganta, e o jogando com força imobilizado contra a neve do solo daquele reino. Ao abrir os olhos e esforçar-se para respirar, a imagem de Thor, levado pela mais profunda ira, o encarava, este também respirando com dificuldade. Seus olhos azuis brilhavam, furiosos, como se estivesse se controlando para não matá-lo.

– Olá, irmão. – Loki esforçou-se para debochar, rindo falsamente, com a garganta prensada contra a neve. – É bom vê-lo de novo.

– Poupe suas mentiras, Loki. Não vão lhe proteger agora. – Thor disse, assustador, enquanto socava-lhe em cheio o rosto, com mais força do que Loki jamais sentira.

O deus da trapaça desmaiou, e, por um tempo, a última imagem que viu foi da imensa amargura e decepção nos olhos de Thor. E, por mais que jamais admitisse, aquilo, muito mais do que a força física usada para desferir o golpe dado por seu falso irmão... O feriu consideravelmente.

Notas finais
Os guerreiros midgardianos mencionados são os vikings que têm suas almas recebidas em Folkvang: "Na mitologia nórdica Folkvang ("Campo do Anfitrião"1 ou "Exército"2 ) refere-se ao palácio de Freyja, local onde metade dos guerreiros vikings eram recebidos após terem morrido, com honra, em batalha.3 Metade das almas dos guerreiros passariam, então, os seus dias a treinar-se em combates, desfrutando de grandes banquetes e orgias à noite. A condição imposta seria a de proteger o castelo. Eles formariam um exército, invencível até ao advento do Ragnarok, quando combateriam ao lado de Freyja. A outra metade seguia para Valhala, palácio de Odin." Fonte, wikipédia, ehehehe, sempre ajudando! =D