Journey Into Trickery
19 Two Peas In A Pod - Parte Um
Notas iniciais
E agora?
Ela sentia seu coração acelerar-se fortemente em seu peito. Miranda respirava pesadamente, sentindo as mãos femininas, porém fortemente protegida por luvas grossas, com seus punhos revestidos por algum tipo de metal, mantê-la presa contra si. Não ousava fazer movimento brusco algum, sabendo que quem acompanhava o grupo do que pareciam ser guerreiros nórdicos de alguma espécie era ninguém menos do que... Thor, o deus do trovão.
Durante aquele preciso momento, Thor socara Loki com tanta força eu seu rosto que Miranda temeu, por um segundo, que o deus da trapaça pudesse ter morrido. Entretanto, encarando-o com cuidado, pôde ver que o soco forte não causou nada além de uma vermelhidão na bochecha esquerda do irmão mais novo do deus do trovão, e o fez perder a consciência. Puta que pariu. Eu sabia que tinha algo de errado.
Miranda não fez menção de desvencilhar-se do aperto imobilizador que recebera. Sentia o clima pesado entre aquele grupo, não apenas por ter testemunhado Thor mais raivoso do que ela jamais tinha visto, e, claro, raiva essa motivada por Loki. Era o que se deduzia claramente depois da agressão nem um pouco contida.
Será que ele descobriu? Como? A midgardiana tentava raciocinar, assustada, mas sabia que nem Hela, nem Hreidmar, nem Surtr e muito menos Thymr ou algum dos jotuns poderia ter dedurado os planos do deus da trapaça para Thor. Aquilo era muito súbito. Vira o deus da trapaça pedir ajuda ao irmão momentos antes, tocando na safira que seria a sinalização de que estavam em perigo, mas Thor chegara a Jotunheim rápido demais. E, claro, chegara, literalmente, quebrando tudo. Especialmente a cara do inglesinho... Miranda sentiu uma pequena pontada em seu coração, porém aguda, como se algo a pinicasse por dentro. Ele literalmente desacordou o irmão. Deve estar muito, muito puto. Mas como Thor poderia ter descoberto tudo tão rápido? A resposta era clara...
Algo dera errado nos planos de Loki. E, se não tivesse dado errado, se correra tudo exatamente como ele imaginara... Ele mentira para ela.
Aquilo instantaneamente teve um efeito forte dentro de si: Miranda sentiu seu estômago dar voltas, como se estivesse sendo corroído por dentro por uma espécie de ácido, sentindo-se nauseada. Logo depois, sentiu um gosto amargo em sua boca, e a sensação de algo pesado esmagando seu peito. Ele me manipulou direitinho. Mais uma vez.
E o pior... Porque eu quis.
Miranda quase se sentiu grata pelo enorme golpe que Thor dera em seu irmão mais novo. Loki estava de fato merecendo uma surra, e tentar atingi-lo com as bolas de fogo lhe pareceu muito pouco perto da indignação que ela estava sentindo naquele momento. Seus pensamentos internos de revolta, entretanto, foram interrompidos por Thor, que levantara Loki desacordado como se fosse um saco enorme de batatas, colocando-o de qualquer jeito sobre um de seus ombros.
– Fandral. As algemas. – Thor ordenou com sua voz de trovão parecendo chamar uma tempestade em meio aos céus sempre nublados de Jotunheim. Um dos guerreiros, loiro, com um bigode proeminente e empinado, além de um cavanhaque excêntrico, fez Miranda instantânea e comicamente lembrar-se de uma espécie de Jack Sparrow nórdico, e aproximou-se a passos largos abruptamente, desfilando com sua armadura similar a de Thor no meio da neve infinita da terra dos gigantes de gelo. Em minutos havia algemado o corpo inerte de Loki, mantendo seus pés livres, porém não suas mãos, juntando seus braços as suas costas. Enquanto isso, a figura feminina ainda mantinha a boca de Miranda fechada com uma de suas mãos, e, com a outra, apertava com uma força assustadoramente grande os braços de Miranda atrás de si, mantendo-a imobilizada, quase os torcendo.
– Sif. – Thor chamou a figura feminina que imobilizava Miranda, e, curiosamente, a jovem moça reparou que a respiração da mulher atrás de si se modificou, ficando mais curta e rápida. Por que a voz de Thor a deixaria nervosa? Miranda percebeu, astutamente.
Segundos depois Miranda sentiu algum metal forte e grosso estalar e apertar firme seus pulsos atrás de si, agora imobilizados. Thor mandou me algemar? Os pensamentos receosos lhe vieram imediatamente, e Miranda tentou formular um plano ela mesma. Estava tão preocupada que nem sequer sentia a dor em seu pé ferido, ainda sangrando abertamente. A tensão era tamanha que a adrenalina corria fluida por seu sangue, impedindo-a de relaxar um músculo.
Finalmente, a mulher chamada Sif soltou sua boca, e Miranda soltou um suspiro baixo que não pôde reprimir. Viu os olhos do guerreiro loiro faiscarem, e parecia haver deboche em sua expressão, além de certa curiosidade e uma centelha de interesse.
– Hogun. Por favor, aproxime-se dela, agora que não poderá surpreender-nos. – O deus do trovão disse friamente, e Miranda sentiu um arrepio subir-lhe pela espinha. – Sei que aprendeu feitiços de cura em Vanaheim, peço que os use neste momento.
– Você costumava ser mais caloroso, “cunhadinho”. – Miranda disse debochando, especialmente a última palavra, enquanto sorria para Thor tentando estudar sua reação. O deus do trovão nem sequer levantou os olhos para ela, em uma perfeita posição de indiferença. A jovem moça sentiu-se como se tivesse levado um tapa na cara.
Um dos guerreiros, também fortemente armado e protegido pelo mesmo tipo de vestimenta nórdica, porém de olhos puxados e traços claramente orientais, com cabelos negros lisos e longos e uma barba que faria inveja ao Mestre Miyagi, aproximou-se de Miranda e fez o que foi dito. Abaixou-se na altura de seus pés, e circundou o seu pé machucado, sem tocá-lo, com as duas mãos, movimentando-as devagar enquanto entoava palavras conhecidas para ela, agora. Era o mesmo feitiço de cura que já aprendera com Loki.
– Muito obrigada. – Miranda disse com certa ironia misturada a um alívio honesto, mas o guerreiro de traços orientais a ignorou. Não chegou sequer a olhar em seus olhos, virando-lhe as costas, após ter visto o ferimento secar e cicatrizar. Tá foda. O inglesinho precisa realmente melhorar seu convívio social.
– Qual é o próximo passo, Thor? Dada à estirpe de quem ela acompanhava, eu sugeriria costurar a boca dos dois para poupar aborrecimentos. – Um guerreiro gordo, porém não menos largo e forte por isso, andou para mais perto de Thor, suas mãos postas na altura de sua cintura redonda, enquanto analisava a midgardiana com um olhar que evidenciava desprezo. Usava as mesmas vestimentas que os outros três, além de carregar na cintura um enorme machado de guerra, e ter cabelos castanhos arruivados enormes, além de uma barba espessa. Uau. Um anão supernutrido de Senhor dos Anéis purinho na minha frente, e de alguma forma eu já consegui fazê-lo me odiar.
Sabia que a julgavam assim por culpa de Loki, e nem sequer sabia o que Thor poderia ter lhes dito que fez, mas, dado o “cumprimento” nem um pouco cordial de minutos atrás, provavelmente não fora nada bom. Entretanto, não poderia fingir não saber o que se passava, aquilo provavelmente a colocaria numa situação ainda pior, não apenas manipulável por Loki quando acordasse, como inclusive pelos quatro quase estranhos a sua frente e por um irritadíssimo deus do trovão.
– Acho que seus amigos não gostaram muito de mim. – A jovem moça debochou, encarando Thor, que se recusou a olhá-la. Porém, aquilo chamou novamente a atenção de Fandral, que a olhou com interesse e deboche, seus braços cruzados na altura do peito, como se a analisasse. Sif e Hogun ainda a ignoravam solenemente, seus olhos postos em Thor, o líder óbvio desta pequena comitiva.
– Cuidado com suas palavras, Volstagg. – Thor censurou o guerreiro de barriga proeminente, voltando-se em sua direção. – Apesar de tudo, apesar do monstro que se tornou, Loki é meu irmão, por mais que isso só me traga vergonha atualmente. – Miranda sentiu a mesma pontada em seu coração, e engoliu em seco, tentando disfarçar ao máximo o que sentia. Era uma mistura de indignação pelas palavras frias de Thor a respeito de Loki, logo ele que sempre fora tão caloroso, e também, infelizmente, um grande nível de triste compreensão. Aquele plano de Loki não era inofensivo, e ela sabia disso, e agora carregava a óbvia culpa que uma hora a atacaria, mais cedo ou mais tarde. E o pior, além de tudo isso, era saber que... Não queria abandoná-lo, ainda assim.
– E a midgardiana é prima de Jane Foster. Em nome de Jane, eu a devo um tratamento digno. Temos de ir imediatamente a Ljusalfheim, lidar com a situação. Precisaremos da magia dela agora, e é apenas por isso que não a envio imediatamente para Midgard. – Miranda sentiu como se jogassem um balde de água fria em sua cabeça, pelo tratamento claramente frio de Thor, deixando claro que sua consideração por ela, ao menos naquele momento, não passava de uma forma de respeito a Jane, independentemente de si mesma. Entretanto, registrou a menção do deus sobre o primeiro dos Reinos de Yggdrasil que visitou, depois de Midgard. O que pode ter acontecido?
Porém, assim que Thor tocou no nome de sua prima, Miranda reparou o rosto de Sif voltar-se discretamente em outra direção, não mais encarando o rosto do deus do trovão. Huuuum. Que interessante. Ela compreendeu no exato instante o que era aquele sinal.
Essa daí vai me odiar pra sempre, dado meu... Parentesco. A midgardiana pensou, percebendo que Sif tinha algum tipo de interesse amoroso em Thor.
Logo depois, Thor fez um gesto para que o grupo o seguisse, caminhando em direção a uma das montanhas de Jotunheim bastante longínqua, onde Miranda reconhecia ser o caminho que percorrera pelas raízes de Yggdrasil, para chegar aquele reino. Todos o obedeceram prontamente, Sif, entretanto, mantendo a retaguarda de Miranda, apontando-lhe sua espada que parecia suficientemente amedrontadora, pontiaguda e afiada.
– Não se preocupe, vou ser uma boa menina. – Miranda disse debochadamente, ainda tentando entender o que poderia ter se passado. Algo, de fato, saíra muito errado.
E, se não saíra errado, se fora parte dos planos de Loki... Ele não havia lhe contado. E isso era ainda mais assustador. Miranda instantaneamente sentiu uma grande pontada aguda em seu peito, torcendo para que ele não a tivesse ferido mais uma vez.
Caminharam por algumas horas, Miranda mantendo o silêncio junto a todos os outros cinco, e o deus da trapaça ainda parecia desacordado, carregado daquela maneira quase ridícula por seu irmão mais velho. A expressão de Thor era a mais intimidadora, seus olhos azuis claros aparentando uma enorme raiva reprimida, além de sugerir, estranhamente, alguma tristeza... Um grande ressentimento.
– Vocês dois até que são parecidos. – O loiro com expressão debochada voltou a se manifestar, parecendo divertir-se com algo, encarando primeiro Thor e depois o corpo de Loki desacordado, nos ombros do deus do trovão. Sif olhou para Fandral com uma expressão desgostosa no rosto, como se entendesse o que o guerreiro mencionava, e cutucou Miranda com a espada, que havia diminuído o passo, surpresa com uma voz alterando o constante silêncio.
– Não estou com bom humor para brincadeiras, Fandral. – Thor avisou perigosamente, mas o guerreiro não pareceu intimidado. Miranda se surpreendeu com a atitude audaz. Ela não era também facilmente impressionável, mas Thor de fato parecia assustador naquele instante, parecendo próximo de explodir em uma tempestade de raios.
– Mas de fato é engraçado. – Fandral cutucou de leve o braço de Thor, que o olhou de esguelha, um sorriso pequeno brincando em seu rosto, surpreendendo Miranda. Pareciam amigos de longa época, e provavelmente era realmente o que eram. – Admita. – O loiro continuou, dando um leve tapa nos ombros de Thor, insistindo.
– Não sei do que você está falando. — Thor disse impaciente, e desviou do toque do amigo.
– Sabe sim. Vocês não podem nem ver uma midgardiana! Não perdoam! – Fandral olhou para seu lado direito, encarando sem pudor algum Miranda e lhe sorrindo debochado, depois olhando para Thor outra vez, que sorriu discretamente e depois o encarou, sério.
– Achei que tivesse lhe avisado que exigia respeito. – Thor ameaçou.
– Mas estou respeitando! Estou elogiando, ora. – Fandral encarou Miranda com um olhar dúbio e depois se voltou para Thor. – Devo dizer que, apesar dos pesares, seu irmão pelo menos tem um bom gosto estético. – Fandral disse inconveniente, e Miranda soltou uma risadinha. Pelo menos Loki não é o único com senso de humor por aqui.
– Isso na verdade não foi escolha dele. Foi escolha de Thor. Jane o trouxe desacordado para minha casa em Midgard, todo mole e “troncho” assim, parecendo um bonecão de posto vazio de ar. – Miranda disse debochadamente, mas o sorriso de Fandral diminuiu, como se sua fala desinibida tivesse dado margem a uma aproximação da midgardiana que ele não desejava. Ele desviou o olhar rápido e encarou Thor.
– Se elas são primas, certamente a futura “princesa de Asgard” deve ser bela também. Até quando vai postergar o casório? – O loiro de cavanhaque provocou Thor, que o empurrou para o lado, segurando o sorriso.
– Por Odin, Fandral, cale essa boca! – Sif disse, irritada. Ai, dor de cotovelo. Miranda pensou venenosa. Talvez eu possa usar isso mais tarde... Suas mãos se remexeram nas algemas atrás de si, impaciente para melhorar o mínimo que fosse sua imagem perante o grupo.
– Desculpe-me, Sif, mas eu tenho de concordar com ele. – Volstagg dizia, um pouco atrás, sua voz grave também parecendo divertida. – Da próxima vez, Thor, me exile em Midgard também! – O guerreiro bufão gritou fanfarrão, e até mesmo Hogun, que se mantivera distante e silencioso, riu com todos os outros, exceto a guerreira mulher. Thor parecia finalmente mais leve.
– Você não sairia de dentro das tavernas de lá. – Thor disse, provocando. – E ficaria revoltado com a qualidade das cervejas! Bebi com Selvig uma noite inteira, são muito fracas. Você teria deixado Midgard seca e ainda reclamaria! – O deus do trovão voltou-se em direção ao guerreiro glutão, fazendo os outros companheiros rirem, dessa vez inclusive Sif.
– Talvez ele gostasse. Se passasse um tempo na Alemanha, na Bélgica ou na Irlanda. As melhores cervejas vêm destes lugares. – Miranda sugeriu, tentando deixar o clima mais leve a respeito de si, mas, no momento em que interrompeu a conversa, a aura pesada voltou a pairar sobre o grupo.
– Loki esteve no reino da Alemanha no ano passado. E tirou a vida de muitos inocentes. – Thor disse rancoroso e novamente irritado, depois de alguns segundos de silêncio constrangedor, e Miranda sentiu-se imediatamente arrependida. Merda. Péssimo timing. Reino da Alemanha?! Não pôde deixar de registrar a ingenuidade de Thor, também tão típica de Loki, a respeito de Midgard, e sentir uma mistura de pesar e saudades torcer-se em seu peito, lembrando-se da época em que fora “anfitriã” do deus da trapaça. E quando eu estava em casa eu já achava tudo difícil...
Um silêncio sepulcral se seguiu depois disso. Miranda nem sequer encarava os outros guerreiros, tamanho o clima sério e pesado. Quase podia sentir-se condenada a alguma espécie de julgamento no qual certamente receberia uma sentença desfavorável. Já sou culpada de antemão só pela companhia... Mas ela sabia que eles tinham toda a razão de encará-la com o máximo de desconfiança.
Finalmente, depois de muito tempo em meio a tamanho constrangimento, alcançaram a saída pelo túnel de Yggdrasil.
Quem poderia acompanhar o deus da trapaça que não fosse companhia do mesmo nível? Ela sabia que não era flor que se cheirasse, mas, ao mesmo tempo, sabia que Loki não era tão ruim como eles julgavam. Não podia ser. Tinha de ser melhor.
Ainda que provavelmente a tivesse enganado a respeito de muitas coisas.
Ela engoliu em seco e baixou os olhos para a última neve de Jotunheim, cruzando as fronteiras, com Sif a escoltando logo atrás.
****
Ao finalmente chegarem ao abismo de Yggdrasil, aguardaram, parados nas terras áridas próximos as raízes de todos os Nove Reinos, enquanto Thor acordava Loki de uma maneira não muito gentil, jogando-o como um saco de lixo no chão. A manhã já subia alta, com o sol daquele fim de novembro não muito forte, porém trazendo considerável iluminação.
Miranda fechou os olhos, não querendo ver o irmão mais velho esbofetear daquela maneira quase covarde – apesar de ser merecedor – o deus da trapaça. Sabia que não poderia falar nada para impedir, nem nada fazer, e o quão mais se mantivesse em silêncio seria melhor. Ainda não podia entender perfeitamente o que acontecera, então precisava manter alguma distância.
Porém, vê-lo tratado assim, daquela maneira tão agressiva, rude, transparecendo a rejeição enorme que ele sofria a fazia se sentir, por mais que fosse estúpido... Muito, muito machucada também.
Abriu os olhos novamente ao som de um grunhido de dor vindo do deus da trapaça, e o encarou imediatamente, sabendo que seu rosto expressava preocupação e alívio simultaneamente. No meio do caminho cruzou olhares com Sif, que parecia surpresa ao ver a expressão de Miranda. Acho que ela me compreende.
– Loki. Qual é o caminho para Ljusalfheim? – Thor demandou impetuosamente.
– Boa tarde irmão. Pretende me levar para um passeio com os elfos da luz? – Loki disse debochado, sua voz embargada e levemente fraca pelo desmaio.
– Não sei se suas loucuras permitiram ainda existirem elfos da luz. – Thor disse sombriamente, e Loki o encarou, subitamente sério.
– Ela sabe? – O deus da trapaça falou, e Miranda não compreendeu. Ela?
– Não se faça de sonso. – Thor o segurou pelo colarinho e bateu sua cabeça com força contra o solo árido ao redor de Yggdrasil. – Você planejou tudo isso. Conheço você, Loki, e infelizmente sei que não há limites para o seu egoísmo megalomaníaco. – O deus do trovão parecia se controlar para não espancá-lo, rangendo os dentes de ira mal contida.
Miranda encarou preocupada os outros guerreiros, que pareceram adotar uma posição preventiva. Sif apertava com força o cabo da espada, e Volstagg mantinha a mão direita próxima ao cabo do machado. Hogun cruzara os braços, e Frandal passou a circundar Thor.
– Você quer a verdade, Thor? Toda a verdade? – Loki o encarou depois de piscar os olhos demoradamente, e Miranda podia ver uma extrema frieza e desafio faiscarem juntos em seus olhos verdes, parecendo penetrar a alma de Thor.
– Você não é capaz da verdade. – O deus do trovão quase esganava o irmão, que, indefeso, respirava com dificuldade. Aquilo apertava cada vez mais o peito de Miranda, quase a impedindo de respirar, e ela se surpreendeu consigo mesma vomitando palavras sem que as formulasse em pensamento.
– Deixe-o falar! – Miranda gritou, incapaz de se segurar, sua preocupação no limite do insuportável. Seu coração retumbava em seu peito, e realmente temia que Thor estivesse próximo de sucumbir à raiva e matar Loki ali mesmo, que continuava provocando-o. O deus do trovão finalmente a encarou, como se a preocupação dela fosse de certa forma significativa para ele.
– Eu concordo com ela. – Fandral disse, coçando o queixo. – Mal não poderá fazer. Você retirou seus poderes e o mantém preso algemado. Na pior das hipóteses mentirá, e você poderá puni-lo por isso. – O loiro considerou, e Hogun anuiu com a cabeça, silencioso.
– Vai deixar a cobra destilar mais veneno? – Volstagg desprezou e cuspiu no chão, próximo de Loki. Miranda sentiu vontade de atacá-lo, suas mãos esquentando como se tivesse conjurado uma bola de fogo. – Não temos tempo para isso. Temos de tapar os buracos que ele mesmo cavou para todos nós. – O guerreiro quase rosnou em resposta.
– Mas ele conhece Hela como nenhum de nós conhece. – Sif disse e deu um sorriso debochado para Miranda, que compreendeu o gesto. Piranha escrota. Me provocando. – Thor pode fazê-lo falar o que nos ajudaria. – Miranda sentiu um calafrio de medo ao sequer considerar que o deus do trovão poderia tentar extrair informações do irmão com base em algo tão baixo quanto tortura.
– Eu falarei a verdade. – Loki disse, sério. – Posso... Fazer o juramento. – Seus olhos verdes passarem de Thor, que ainda o continha, furioso, para todos os quatro guerreiros nórdicos, e, rapidamente, pelos olhos de Miranda, que sentiu algo torcer-se em seu peito.
Todos mergulharam em um silêncio absoluto por alguns momentos, e Miranda sabia o que aquilo significava. Será? Mas o que pretende com isso?
– Não confie, Thor. – Volstagg insistiu, resoluto, sua voz grave cortando o silêncio feroz como sugeria a lâmina de seu machado de guerra.
– Eu não confio. Não mais. – Thor disse, sorumbático, e levantou Loki do chão, puxando-o com as duas mãos pelo colarinho.– Mas eu quero a verdade. Aceito seus termos. Depois que consertarmos o problema que criou em Ljusalfheim. – Thor movimentou uma das mãos para tocar uma das mãos de Loki, ainda segurando-o com força pelo pescoço, com uma mão só.
– Eu não os disse. – O deus da trapaça sorriu enviesadamente.
– Acha que está em posição de barganhar? – Thor fechou a expressão ainda mais, e Miranda sentiu um calafrio de medo.
– Se você quer a verdade, Thor, terá de ser do meu jeito. E são apenas duas condições, muito simples. – Loki manteve o sorriso e o olhar penetrante, desafiando a ira de Thor.
– Eu posso arranjar meios de lhe fazer contar a verdade. – Thor falou sério, sua voz retumbando como um trovão.
– Então faça! Mate-me de tanto me espancar. Prometo que não ouvirá uma palavra vinda de mim. – O deus da trapaça elevou seu queixo, encarando Thor com os olhos semicerrados, repletos de desprezo. Miranda se impressionava com a frieza dele, tão diminuído nessa posição de fraqueza, e ainda ousado e capaz de fazer ameaças.
– Prove que é um covarde. – Loki lançou o desafio, olhando o irmão com ódio. Miranda segurou a respiração. Agora fodeu.
Thor lhe deu outro forte soco que fez o deus da trapaça voar a distância e todos soltaram exclamações de surpresa e espanto. Em seguida, Miranda ignorou a escolta de Sif e saiu correndo na direção do corpo caído de Loki, surpreendendo a guerreira, que assim que percebeu seguiu em seu encalço.
Aproximando-se do deus espancado, Miranda encarou seu irmão, assustada, com medo de ser tarde demais. O deus do trovão pulava, descrevendo um arco gracioso, porém não menos terrível, na direção do corpo de seu irmão mais novo, girando o Mjolnir como se fosse golpeá-lo. Miranda sabia que ele não mataria Loki, não naquela situação, mas não podia evitar.
Tudo aconteceu como se estivesse em câmera lenta. Ela Miranda, instintivamente, jogou-se em cima de Loki, desviando-se de Sif que tentava puxá-la pelos braços, usando de sua velocidade privilegiada, ganhada após o sopro de Hela. Quando caiu, ajeitou-se o protegendo com seu próprio corpo. Sentiu o corpo de Loki com o seu e aquilo lhe trouxe uma espécie de coragem que jamais havia sentido antes, junto com algo quente espalhando-se por seu peito, ainda que não pudesse abraçá-lo por conta das algemas. Logo depois voltou seu rosto para Thor, encarando-o em desafio.
O deus do trovão aterrissou a sua frente, não mais girando o martelo. Parecia de fato surpreso, e, julgava Miranda, com a expressão novamente mais leve.
– Chega. – Thor disse, sério, ainda encarando Miranda, como se não conseguisse acreditar naquilo. Fez um gesto para que Sif a tirasse de perto de Loki, e a guerreira assim o fez, puxando-a pelos braços e a mantendo em pé. Miranda respirava rápido, seu coração ainda batendo acelerado. Thor a encarou, como se quisesse entender porque ela fizera o que fizera, e finalmente voltou-se para Loki outra vez, que se levantou devagar, estalando o pescoço. Miranda encarou o deus da trapaça, que parecia resoluto a não olhá-la de volta.
– O que você propõe? – Thor perguntou finalmente.
– Duas condições simples: você me ouvirá até o final, até que eu diga de fato tudo o que eu sei ou pretendo. – O deus da trapaça disse sibilante, levantando o queixo, encarando de maneira esnobe o irmão mais velho. – E só você e ela poderão ouvir. Poderá contar aos outros depois, se quiser. – Miranda sentiu seu coração pular uma batida, sabendo que ele se referia a si mesma.
– Ele quer deixá-lo sozinho e vulnerável, Thor. – Volstagg insistiu. – Não aceite. – Os outros guerreiros mantiveram-se silenciosos, parecendo considerar.
– Não poderá fazer nada contra mim, Volstagg. Está sem seus poderes e imobilizado. Assim como Miranda. A prima de Jane. – A jovem mulher registrou, um tanto mais satisfeita, que Thor voltara a usar seu nome. Provavelmente seu ato impensado de proteção a Loki surpreendera positivamente o deus do trovão. Talvez ele ainda não tivesse, de fato, desistido do irmão.
– E então? Concorda? – Loki disse, debochado, sorrindo sarcasticamente para o irmão.
– Faça o juramento. – Olhos azuis mergulharam em olhos verdes, e Loki jurou o que garantira, comprometendo-se as conseqüências do feitiço tão poderoso.
****
Passadas algumas horas, o grupo já havia chegado aos terrenos de Ljusalfheim. De início, não parecia ter ocorrido nada, apesar de uma estranha névoa permeando todo o terreno e pairando ao redor do grupo que adentrava o Reino dos elfos da luz desde o final de seu respectivo túnel junto as raízes de Yggdrasil.
Entretanto, ao caminharem mais adiante, saindo das fronteiras, Miranda sentiu seu queixo cair, em uma visão de pleno assombro.
No mal sentido.
Ao invés da idílica paisagem de sonho, com campinas verdes e vagalumes, que, na verdade, eram algumas das espécies de elfos da luz que lá moravam, só havia grandes extensões de terra pisoteadas, sujas com alguma espécie de lodo estranho, e uma constante escuridão apesar de estarem ao final da tarde. Ela podia ver o sol, ao longe, mas ainda assim a aparência do céu era noturna. A midgardiana virou-se para Loki, franzindo as sobrancelhas, e deu-lhe um olhar significativo. Não tinha nem sequer ânimo para brigar com ele agora. Sentia-se tão ferida por finalmente constatar que ele havia mentido e omitido partes de seu plano para ela, que apenas pôde encará-lo, sua expressão torcida em uma máscara de tristeza... E desapontamento.
O grupo os circundava, mas Miranda aproveitou um momento em que estavam mais preocupados em examinar o solo e fazer a ronda do terreno que agora caminhavam, para estudar a aproximação de inimigos, e ela e Loki foram deixados para trás, algemados e sozinhos.
– Por que mentiu para mim? De novo? – Miranda perguntou, sincera e ferida, não querendo acreditar, sem mais conseguir se segurar.
O deus da trapaça ainda se recusava a olhá-la. Ela via por sua respiração acelerada e seus lábios tensos e comprimidos que ele parecia incomodado, mas sua tentativa infantil de fugir do confronto apenas a deixou ainda mais perturbada.
– Se não teve coragem de me convencer a acompanhá-lo por minha própria vontade, ao menos não se prove um covarde completo e tenha a decência de olhar pra mim. – Ela falou, se esforçando para não gritar, mais ferida do que irritada.
Loki piscou os olhos devagar e voltou-os para ela, sua luz verde brilhando com uma mistura de irritação e algo que ela não conseguia desvendar. Ainda em meio a um reino agora desolado, e mesmo que estivesse tão frustrada e magoada consigo seu magnetismo ainda era arrasador.
– Eu tive que mentir. Não havia outra opção. Precisava que você agisse da exata maneira que agiu, para que funcionasse. – O deus da trapaça disse, e pareceu curiosamente sincero, suas sobrancelhas levemente franzidas, encarando Miranda tão profundamente que ela quase se arrependeu de tê-lo pedido para olhá-la nos olhos. Perder-se em seu olhar verde apenas a levaria a perder-se em seus encantos novamente, e ela precisava manter-se sã. A jovem mulher desconfiava de que ele usava aquele ar inocente apenas para enganá-la ainda mais, mas ainda assim o efeito era surpreendente. Não conseguia resistir a ele.
– Por que tem de ser sempre assim, com você? – Miranda perguntou frustrada, não sabendo se queria socá-lo como Thor ou se queria chorar, frustrada por tantos joguinhos como os que ela antigamente costumava apreciar.
– E por acaso é diferente com você? Pensa que não sei que tem tentado me esconder muito também? – O deus da trapaça perguntou, parecendo cobrar-lhe algo, sua voz levemente mais alta e sibilante como uma serpente. Pela artrose de Odin. Isso virou uma D.R. Miranda engoliu em seco, mas percebeu uma parte de si sentir-se agradecida por ele, de certa maneira, parecer se importar.
– E agora você se importa? Isso é uma novidade. – Miranda lançou o desafio. Já estava algemada, muito longe de tudo o que conhecia e sua única companhia aparentemente a jogara em uma situação de alto risco da qual não sabia se escaparia ilesa, não havia mais nada a perder.
Ou assim achava.
Loki franziu as sobrancelhas, ligeiramente desconcertado. Abriu a boca para responder, e Miranda sentiu seu coração se acelerar, temendo e desejando o que ele poderia dizer. Entretanto, ambos estremeceram ao ouvir a voz imponente de Thor chamar-lhes a atenção.
– Miranda. Precisaremos de você agora. – Thor a convocou, e ela encarou Loki, sem entender, que manteve a expressão impassível, levantando as sobrancelhas em uma perfeita expressão inocente a qual ela sabia ser completamente fingida. Filho da puta babaca infantil. Não quer nem me contar o que o irmão pretende, e eu SEI que ele sabe.
Em segundos, aproximou-se de Thor, que encarava algo muito ao longe, estando parando em uma espécie de cume de um monte. Miranda forçou a visão e viu, abismada.
Milhas e milhas adiante, reunia-se uma espécie de exército de animais, bestas e humanoides que ela apenas vira em filmes de fantasia. Seres similares a orcs destruíam árvores e as queimavam em altas fogueiras, enquanto jogavam dentro das labaredas o que pareciam ser... Corpos vestidos com roupas similares aos servos de Freya em Vanaheim. Outros tipos de elfos da luz?!
Miranda engoliu em seco, ainda olhando ao longe, controlando o medo e a repulsa por tudo aquilo. Pôde ver animais como lobos, imensos, negros e peludos com muitas fileiras de dentes se alimentando de carnes que ela preferiu não olhar, e enormes trolls andando com maças ameaçadoras e rudimentares, urrando palavras ininteligíveis.
– Uma parte do exército de Hela começou a se apropriar de Ljusalfheim. É uma questão de tempo até que os elfos negros acordem. – Thor explicou rapidamente. – Vi o que seus poderes são capazes em Midgard, e quando a deixei a sós com meu irmão nas raízes de Yggdrasil. Estou certo de que ele a ensinou muito. – Ele voltou-se para ela, e parecia bem mais aberto do que quando a encontrara em Jotunheim. – Não sei até onde está envolvida nos planos de Loki e infelizmente não posso confiar em você. Mas sei que pode cumprir esta tarefa, e, se ajudar-nos a limpar a bagunça de Loki... Talvez eu possa melhorar meu julgamento sobre você. – Thor ofereceu a barganha, como se Miranda não fosse aceitar ajudá-lo.
– Você acha que eu realmente quis tudo isso? – A midgardiana perguntou, levantando as sobrancelhas, mas o deus do trovão não pareceu comover-se. Ferira-se tanto com Loki, percebeu Miranda, que não se daria mais ao luxo de cometer o mesmo erro com ninguém. Pelo menos ele aprendeu. E eu... Nem isso. Pensou, sentindo a mesma união de sentimentos controversos duelarem dentro de seu peito, angustiando-a profundamente.
– Tudo bem. Eu o ajudarei no que for preciso. Eu juro que quero apenas ajudar. – Miranda respondeu, apressada e séria, tocando uma das mãos de Thor, sentindo os efeitos do juramento instantaneamente. – E sei que pode não acreditar... Mas eu nunca quis ferir nenhum de vocês. – Ela insistiu, sentindo-se muito culpada.
– Não creio que Loki tenha desejado ferir-nos também. Não de uma maneira tão... Simples assim. – Thor disse misteriosamente, com a expressão ainda mais branda após ter recebido de bom grado o juramento de Miranda. Ela sentiu-se levemente assombrada pela grande percepção que ele tinha do irmão. – Entretanto, não é isso o que importa, agora. Não temos tempo a perder. – Thor bradou para o grupo, em seguida:
– Sif! Chegue mais perto, aproxime-se dela. Algeme-a com os braços para frente agora. – Thor ordenou como um general de batalha, e a bela moça de compridos cabelos negros que lembrava Miranda do mito das valquírias fez o que lhe foi dito.
– Miranda. Acredito que Loki tenha lhe ensinado alguma magia de alquimia. Consegue concentrar-se e conjurar para si mesma vestimentas similares as de Sif? – O deus do trovão perguntou, e Miranda anuiu silenciosamente. A guerreira encarou os dois sem compreender, e Thor a deu um olhar como se dissesse que explicaria mais depois.
Miranda tocou na armadura de Sif, na altura de seu tronco, com as mãos algemadas, e concentrou-se o suficiente. Em segundos, como um mágico que realiza um truque de ilusão de ótica, passara a usar botas pesadas prateadas. Usava junto um colete do mesmo tom e mesmo metal acima de um vestido de couro verde e negro, com os ombros protegidos por ombreiras também de prata, e calças grossas negras de couro por baixo. Além da armadura, portava a mesma espécie de luvas que a guerreira morena usava, do tom verde que combinaria com o vestido que conjurara para si.
Encarou Loki a distância, e reparou que, apesar dele tentar disfarçar, seus belos olhos mostraram grande interesse, apesar da expressão blasé do resto de seu rosto. Em seguida, o deus da trapaça pareceu conter um pequeno sorriso e desviou os olhos, encarando Frandal, que rondava as cercanias. O safado ficou todo feliz que escolhi verde. Miranda pensou, entre o irritada e o divertida. Mas sabia que não fora, de fato, uma escolha aleatória de cor.
– Alguém trouxe alguma arma reserva? – Thor perguntou com autoridade, e os quatro guerreiros se entreolharam, não parecendo animados com a sugestão. Loki sorriu consigo mesmo, abaixando a cabeça e encarando o irmão com uma expressão debochada.
– Ela não vai precisar usar armas, irmão. – Loki debochou ao longe, mas Thor o ignorou. Miranda entendeu no mesmo instante. Ah, caralho. Vou ter que dar uma de hobbit aprendiz de espadachim aqui.
– Eu não fui muito treinada com armas a não ser as de fogo, na época da S.H.I.E.L.D. – Miranda explicou, sorrindo amarelo. – Não estou certa de que é uma boa ideia. Minha mira e improvisação são razoáveis, mas nunca tinha caído dentro de um livro do Tolkien antes e tive de enfrentar um exército saído direto das Minas de Moria. – A midgardiana falou debochada, mesmo sabendo que nenhum deles compreenderia suas referências.
– Reclame com o responsável por tudo isso. – Thor debochou e apontou para Loki, e Miranda respirou fundo, mordendo o lábio de raiva, instantaneamente encarando o deus da trapaça, que ainda adotava a mesma falsa expressão inocente. Sua conta comigo fica cada vez mais alta. Ela pensou raivosa, desejando que ele ouvisse o que pensava, enquanto Frandal se aproximava com uma adaga que parecia guardar junto a cintura.
– É tudo o que tenho extra. Boa sorte. – O loiro de cavanhaque sorriu debochado. Agora tem três inglesinhos que estão pedindo uma surra de mim. Pensou, irritada, enquanto sorria debochadamente de volta para ele, referindo-se não só a Loki como a Thor e Fandral.
– Atacaremos agora. – Thor chamou o grupo e expôs o plano de ataque. Sif, fique na retaguarda de Miranda, e a contenha se agir de maneira incongruente com o plano. Pode soltá-la agora. Ela pode ter um grande poder mágico dentro de si, mas tenho certeza de que não conhece nem metade do que poderia fazer. – Thor concluiu inteligentemente, e Miranda irritou-se em constatar que Loki jamais a ensinaria tudo enquanto precisasse tê-la levemente dependente de si. — Grite por mim se ela não cumprir exatamente o que combinaremos agora. – Thor disse na frente de Miranda bem diretamente.
– Essa Miranda parece uma grande filha da puta mesmo. – Miranda interrompeu, debochada, e Loki deu uma risadinha sem som, acompanhado do Frandal, que se conteve logo depois. Ela reparou, levemente triunfante, que os olhos do deus da trapaça estreitaram-se e moveram-se na direção do loiro de cavanhaque com uma expressão de desgosto num ato que durou menos de um segundo. Enquanto isso, Sif abriu suas algemas, encarando-a desconfiada.
– Fandral, você me cobre. Hogun e Volstagg, ataquem em dupla. Sif pode cuidar dos humanoides de Helheim, corte seus membros e cabeças e tudo mais que puder. Vocês dois ataquem os lobos e outras criaturas animalescas. Eu chamarei a atenção dos maiores e mais fortes, a ideia é não ser nem um pouco sutil.
– Não sabia que conhecia essa palavra. – Loki disse fingindo surpresa, debochado, e Miranda franziu os lábios para não rir. O grupo ignorou Loki sem nenhuma cerimônia, após Volstagg chutar uma de suas canelas, o que gerou um inevitável e desconfortável aperto no peito de Miranda, e continuaram a escutar Thor.
Depois de findadas as estratégias de guerra, algumas horas depois, a noite já havia caído na ainda mais escura Ljusalfheim. Miranda, acostumando-se com suas novas vestimentas, sentindo o peso de todo aquele metal que protegeria seu corpo, tentava evitar o medo e a ansiedade que tentavam consumi-la por inteiro agora que iria literalmente entrar no meio de uma batalha medieval.
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Entretanto, enquanto seguia a linha de ataque que Thor havia montado, na qual, obviamente, Loki era apenas arrastado junto com o grupo, impedido sequer de lutar com as próprias mãos, ela o ouviu sussurrar, ao seu lado, de forma que apenas ela pôde ouvir.
– Ignore a luta. Você sabe o que tem de fazer. – Loki disse misteriosamente.
– Não vai me convencer a fazer merda agora. – Miranda respondeu irritada, embora soubesse, dentro de si, ao que ele se referia. Já havia pensado nisso antes, assim que lembrou-se do templo de Frey e da magia concentrada dentro dele.
– Você sabe o que eu quero dizer. Você já o fez. Em Svartalfheim. – Loki respondeu também irritado com sua teimosia. – Não estou te manipulando. – Miranda revirou os olhos e o encarou com uma expressão de incredulidade.
– Sabe o que tem de fazer. Você tem poderes agora. Eles vão lhe guiar sem precisar de mim. – O deus da trapaça respondeu, enquanto o grupo caminhava para onde se travaria o embate.
– Mas eles não vão entender o que estou fazendo. – Miranda disse, rápida. – Eu pensei nisso também. Sei onde fica o antigo templo de Frey. Estamos perto, mas não vai dar certo. Thor vai me destruir em pedacinhos. – A jovem mulher respondeu, ansiosa.
– Você realmente acha que ele feriria a companheira de seu irmão? – Loki respondeu debochado abruptamente, e Miranda percebeu o claro sarcasmo daquelas palavras, mas voltou-se em sua direção naquele momento. Sentiu-se desarmada, indefesa e surpresa. Seu coração palpitou ainda mais, muito mais do que motivado pelo medo da batalha.
O deus da trapaça portava um sorriso enviesado como sempre, seu rosto mostrava um enorme desdém, mas seus olhos lhe segredavam outra coisa. Apesar de ter falado com ironia, por trás disso...
– AGORA! – Thor gritou e, acima deles, o céu se fechou e trovejou, enquanto o deus do trovão lançou-se em um pulo épico para atacar um troll que mais parecia um urso sem pelos em uma forma semi-humana de muitos metros de altura. Seu martelo girou no ar, recebeu uma descarga elétrica, e, com uma expressão de fúria em seu rosto, Thor quebrou em mil pedaços o inimigo.
– Isso mesmo, Thor. – Loki gritou ao longe. – É espancando tudo e todos que se resolvem os problemas. – O deus da trapaça debochou audivelmente, e Hogun o arrastou pela nuca para mais perto da batalha, evitando seus comentários sarcásticos.
Tudo aconteceu muito rápido, e, ao mesmo tempo, muito devagar. Uma tempestade passou a cair dos céus agora nublados de Ljusalfheim, obscurecendo ainda mais a visão dos guerreiros, porém também a de seus inimigos. As fogueiras e armas construídas a base de fogo pelas criaturas abissais de Helheim passaram a molhar-se e diminuírem em seu poderio, e, surpreendidos, trolls, humanoides como orcs, pela visão de Miranda, lobos, feras e sombras se alinhavam para atacar os recém-chegados, e corriam em sua direção de maneira desordenada, cada vez mais rápidos e próximos. O som de urros, berros e rosnados eram similares a tambores ensurdecedores, e enchiam de terror cada pequeno pedaço do corpo e da alma da jovem mulher.
Ai, Gandalf, me ajuda.
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