Journey Into Trickery
20 Two Peas In A Pod - Parte Final
Notas iniciais
Miranda, tremendo dos pés a cabeça, arregalava seus olhos cor de mel para o perfeito cenário de um filme de fantasia medieval – e, também, de um possível pesadelo – que se delineava bem a sua frente. A batalha já havia começado, lâminas se chocavam entre si produzindo ruídos que se misturavam aos trovões que Thor chamava no esplendor de seu poder incomparável, e ela simplesmente não podia aceitar que aquilo estava acontecendo de verdade, bem na frente de seus olhos.
– O que pensa que está fazendo? – Sif gritou furiosa próxima de si, girando sinuosamente e atacando com sua longa espada uma espécie de “orc” que se aproximara das duas, cortando fora suas vísceras. – Miranda sentiu a bile subir-lhe até a garganta, mas controlou-se. – Não tem coragem para enfrentá-los? – Ela debochou, ainda irritada, cortando duas gargantas dos mesmos “orcs” ao mesmo tempo.
– Sinto muito, Arya crescida e turbinada, não sou tão sádica quanto você! – Miranda respondeu, irritada, mergulhando por baixo das pernas de um troll que tentara atacá-la com uma clava enorme, cravando-a fundo no chão, sem entender aonde Miranda fora parar. Ela, momentos antes, achava difícil não pensar e se desesperar, mas sentiu subitamente uma forte descarga de adrenalina ajudá-la a simplesmente não pensar.
E apenas agir.
Aproveitando sua distração, subiu habilmente pelas pernas e costas da criatura, ajeitando-se em seu pescoço. Logo depois, encaixou sua pélvis e coxas atrás de seu pescoço, e torceu-o com a ajuda de seus braços, agora fortemente poderosos pelo sopro de Hela, e da pressão de suas pernas em volta da garganta do troll. Sentiu a magia fluindo pelo seu sangue, grossa, quente, aquecendo-lhe de dentro pra fora, como se estivesse tendo uma espécie de febre que a deixava mais forte, ao invés de enfraquecê-la. Sem defesas, a criatura caiu ao seus pés, morta pela habilidade de Miranda. Ao cair, sua clava chocou-se em inúmeros orcs por engano, e Miranda aproveitou o movimento do corpo da criatura, e lançou-se com graciosa leveza para longe do cadáver.
Virou-se para Sif, em seguida, e deu-lhe uma reverência debochada, segurando em suas saias e curvando-se delicada, agindo como uma dama. Como se levada por uma espécie de instinto, Miranda voltou seu rosto em uma direção específica. Muito ao longe, seu rosto aparecendo por trás de inúmeros vultos que duelavam, ela o viu e sentiu seu coração se acelerar, mas não por medo. Próximo de Volstagg e de Hogun, que lutavam ferozmente, deixando para trás rastros de cadáveres de criaturas do submundo, estava Loki, a encarando com uma expressão que parecia um misto de orgulho e... Culpa?
– Like a boss! – Miranda gritou debochada, desviando-se de seus pensamentos confusos, olhando outra vez para Sif rapidamente, e lançou a adaga de Fandral na garganta de um dos “orcs” que quase a atacava com uma pequena foice. Assim que a criatura morreu, ela arrancou a lâmina de sua garganta, enojada pelo sangue fétido que a sujara. Sabendo o que deveria fazer se sua oportunidade chegasse, outra vez encarou a guerreira alta e bonita, que parecia ocupada com um grupo de quatro humanoides de Helheim que a cercara. Sif movia sua espada em todas as direções, girando ao redor dos inimigos como uma dançarina, bonita e amedrontadora ao mesmo tempo, e Miranda sentiu certa pontada de ciúmes, pensando que seria com este tipo inegavelmente encantador e fascinante de mulher que Loki convivera desde sempre.
Em seguida, voltou aos seus sentidos, balançando a cabeça para ignorar o último pensamento. Se ela estava distraída, aquela era a hora. Ótimo. Miranda pensou, caindo em si novamente.e saiu em disparada, dando um último olhar para a guerreira nórdica. Sif a encarou, primeiramente atônita, e logo depois furiosa, porém não surpresa, como se esperasse aquela atitude.
– Thor! – A guerreira morena gritou, cortando as costelas de um dos que a atacavam. – THOR! ELA NOS TRAIU! – Miranda já estava longe, mas podia ouvir seus gritos, e sabia que era uma questão de segundos até que Thor a alcançasse.
Mais rápido. Mais rápido. Pensou, incentivando a si mesma, correndo para longe da batalha e próxima das ruínas do antigo templo de Frey, no qual sabia haver uma fonte de enorme poder benigno dentro de Ljusalfheim. A adrenalina corria loucamente em seu sangue, a energia da batalha e do confronto em cada um de seus poros, em um misto de animação e de medo como ela nunca havia sentido antes. Agora já muito próxima, pôde ver os contornos das ruínas, ainda correndo desesperadamente, e percebeu que o templo ainda não fora tocado pelas criaturas nefastas.
Ela podia ouvir o som dos trovões e o movimento do martelo de Thor se aproximando. Sabia que ele não iria matá-la, mas, ainda assim, aquela imponência e a ameaça de sofrer as consequências de uma traição ao deus do trovão eram assustadoras. Em um átimo de segundo, Miranda juntou seus braços próximos de seu corpo, unindo-os como se fosse proteger seu rosto, seus punhos fechados, seus cotovelos na altura de seus seios, enquanto estava próxima a uma pilastra quebrada no meio daqueles restos da construção do templo, após ter subido desesperadamente o pequeno lance de escadas que ainda restava nas ruínas a céu aberto. Estava em um ponto central do templo quando fechou seus olhos e se concentrou. O feitiço que aprendera com Loki fora feito no preciso instante em que Thor aterrissou ao seu lado, o Mjolnir em punho, pronto para atacar.
No mesmo instante, Thor foi zunido para longe pelo campo de força lilás que Miranda acabara de conjurar, trazendo uma espécie de surdez tanto aos seus ouvidos como aos do irmão mais velho de Loki, como um ruído superssônico e abafado que penetrava fundo na audição de qualquer um.
– O quê? – O deus do trovão perguntou, sem acreditar, ouvindo ainda o mesmo zunido supersônico que se espalhou por toda Ljusalfheim, levantando-se de um salto e tentando se aproximar de Miranda, surpreso por não ter conseguido.
Miranda, ainda concentrada, como se levada por uma espécie de entorpecimento mágico, continuou a proferir as palavras em uma língua nórdica antiga, palavras que ela não aprendera, mas que recebera junto com a magia de Hela, como se seu corpo e sua essência as conhecesse desde sempre, apesar de sua mente sequer poder reproduzi-las quando não estivesse realizando algum tipo de feitiço.
Desta vez, Miranda manteve seus olhos fechados, abaixando seus braços e unindo suas mãos em concha, abertas, como se fosse receber nelas certa quantidade de água. Ao invés de alguma espécie de líquido, uma esfera de luz tão brilhante, clara a ponto de poder cegar quem a olhasse por algum tempo diretamente, surgiu em meio as suas palmas. Logo em seguida, abrindo seus olhos, sorrindo sem poder acreditar no que fazia, e, ao mesmo tempo, sabendo, sentindo profundamente que aquilo era real e acontecia naquele momento, ela teve tempo de colocar a esfera junto a pilastra central do templo. Um segundo depois, Thor finalmente alcançou-a, e a puxou sem delicadeza alguma pelos ombros, movendo-se de volta para a batalha com o Mjolnir, girando-o para que pudesse voar para longe levando Miranda consigo.
E então tudo aconteceu devagar.
Miranda e Thor encararam a esfera que havia sido colocada em meio a pilastra central do templo de Frey. A luz crescia cada vez mais, assim como a esfera em seu diâmetro, tornando-se ainda mais brilhante e mais forte. As criaturas de Helheim perceberam sua presença, e voltaram-se na direção do templo, subitamente assustadas.
A batalha parou.
Sif, Hogun, Fandral e Volstagg abaixaram as armas, olhando para o ponto ao longe no qual havia o templo. A esfera já havia tornado-se maior que a própria construção, e o zunido supersônico antes realizado pelo campo de força de Miranda passou a ser feito pela esfera de luz, que não parava de aumentar.
Desviando o olhar da esfera de luz, Miranda procurou a vastidão dos campos de Ljusalfheim buscando um rosto específico. Guardava dentro de si uma espécie de triunfo antecipado, sabendo que o que pretendia fazer funcionara perfeitamente.
Se as criaturas vinham do submundo, se Loki sugerira que o melhor a fazer naquela situação seria usar a magia que ela realizara em Svartalfheim, o que ela sabia intuitivamente que poderia funcionar, apenas pelo fato de ter um pouco do poder de Hela em si... De ter um pouco de “deusa” em si, então, de fato, ela saberia que não haveria nada mais efetivo contra criaturas da escuridão do que um encantamento de pura iluminação em seu poder.
Finalmente, depois de procurar com o olhar, sem sequer controlar seu ímpeto, sua urgência em fazê-lo... Ela o viu. Em meio ao caos e as expressões atônitas de todos, o deus a encarava. Encarava a ela, não a esfera, não aos inimigos assustados, ou aos guerreiros também surpreendidos. Olhava somente e direto para ela, Miranda, sendo carregada por Thor para o meio da batalha, e sorria discretamente, seus verdes olhos resplandecendo a luz do feitiço que ela realizara. Sorria seu lindo sorriso de garoto, aquele que ela conhecera há um mês atrás, o qual, na verdade, parecia conhecer há tempos, há uma eternidade... Quando o vira, menino, em sonho, e seu sorriso sincero, revelando-se agora em sua face, parecendo orgulhoso, satisfeito... E cúmplice. Olhos verdes em olhos cor de mel, dizendo mais do que todas as palavras tortas que ambos tinham tanta capacidade e talento em proferir.
Aquela visão não saiu dos olhos de Miranda por muito tempo, e ela não pôde evitar sorrir de volta também, sentindo que seu rosto ruborescia como se suas bochechas estivessem em chamas, queimando iluminadas, daquela forma tão pouco usual para ela. Algo que somente ele tinha despertado dentro de si, sensações quentes e também ternas, pela primeira vez em sua vida. Nem tudo eram mentiras, afinal de contas.
Todos ouviram um estrondo, como uma explosão de grandes proporções.
Logo depois, tiveram que proteger os olhos para não serem cegados pela intensa luz. Os inimigos fugiam assustados, lançando suas armas ao chão, tentando encontrar algum lugar nas terras amplas de Ljusalfheim para se esconder, mas era inútil, pois lá não havia nada além de colinas e montes sem fim. Thor e Miranda caíram em meio a muitos corpos de antigos habitantes de Helheim agora mortos, seus olhos fechados em expressões de dor, como se não suportassem tamanha luz. Miranda cobriu seus olhos, e o efeito daquela magia era tão potente, tendo sido realizado por si mesma, que começou a sentir-se cansada. Era esforço demais para seu corpo midgardiano.
Em alguns segundos, sentiu seu corpo fraquejar, movendo-se fraco para a esquerda, perdendo as forças. Com a visão do sorriso de Loki que ainda não escapara de seus pensamentos, desmaiou sorrindo.
****
– Você realmente nos surpreendeu a todos. – A voz de Thor disse, brandamente, parecendo vir de muito longe. Miranda sentia sua cabeça zunir, com uma forte enxaqueca, seu corpo fatigado, fraco. Entretanto, sentiu um cheiro reconfortante, masculino e fresco, que lhe trazia calor ao peito, fazendo-a esquecer da dor enquanto acordava.
– O que foi? – A jovem moça perguntou, se levantando com as mãos e cotovelos em um apoio para sentar-se, ainda estranhando o peso daquela armadura prateada a qual copiara do modelo de Sif.
– Agradeça logo, Thor. Isso nunca foi difícil para você. – Loki debochou, sentado próximo de Miranda, e ela surpreendeu-se com sua presença. Sabia que era dele o aroma que sentira, e sentiu seu coração pular uma batida, enquanto entendia onde estava. Muito ao longe da cena da batalha, a noite caía alta, agora não mais nublada e cinzenta, e sim mais iluminada, com estrelas no céu, em meio a um bosque de Ljusalfheim. Havia árvores frondosas e antigas ao redor deles, e a grama já parecia mais verde depois do que provavelmente haviam sido horas após a batalha.
– De fato, poderíamos agradecê-la. Mas você se provou inútil como sempre. – Fandral respondeu para Loki, provocando-o, enquanto abria um sorriso galante para Miranda, que sentiu vontade de lhe responder com uma careta. O deus da trapaça crispou os lábios, e Miranda sabia que fora por alguma reação de ciúmes, o que a divertiu.
– Apesar de eu saber que sou foda e diva – Miranda começou, sorrindo debochada – devo os créditos do que fiz hoje ao meu professor. – Ela indicou com o queixo Loki, sentado relativamente próximo. Ele apenas levantou as sobrancelhas e deu um sorriso enviesado. É duro ser gostoso, né, seu escroto? Miranda pensou carinhosamente, ainda irritada e magoada pelas suas recentes mentiras, mas sabia que precisava limpar um pouco o nome do deus da trapaça para que tudo pudesse se resolver, e também para ser aceita.
– Eu a agradeço em nome de todos, Miranda Foster. – Thor disse polidamente, sentado a sua frente. – Você ganhou nossa confiança para caminhar ao nosso lado sem algemas. – Miranda olhou para seus pulsos livres, reparando nos pequenos ferimentos em seus pulsos onde as algemas, que também retinham seu poder mágico, a machucaram e conteram horas atrás.
– O que não significa que confiamos inteiramente em você. – Hogun disse sinistramente. – Achamos que tivesse nos traído ao fugir da batalha, mas comprovou que estava querendo salvar-nos a todos. Mas se tentar algo contra nós... – Ele ameaçou.
– Entendido, Senhores Comandantes. Eu levo a sério meus juramentos a Patrulha da Noite. Exceto quanto ao celibato. – Miranda fez a piada, e todos a encararam sem compreender. Ai, essas pessoas de outros mundos...
– Acho que não nos apresentamos devidamente. – Fandral se levantou na frente dela e fez um gesto para beijar sua mão, o que fez Loki fuzilá-lo com um olhar de ameaça que Miranda se controlou para não rir. Ela aceitou, sorrindo-lhe debochada, enquanto o loiro teatral se apresentou:
– Eu sou Fandral, o Audaz. Pode ficar com a minha adaga. Fez bom uso dela. — Ele sorriu de orelha a orelha e incentivou os outros com um gesto de sua mão direita, como se os chamassem para mais perto, a se apresentarem também.
Volstagg parecia mais simpático a ela no momento. – E eu sou Volstagg, o Valente. – Ele sorriu rudemente enquanto arrancava um naco de carne da perna de algum animal que assavam em uma fogueira próxima.
– Eu sou Hogun, o Sinistro. – O guerreiro de traços orientais se apresentou com um aceno de cabeça, solene e reservado, e Miranda respondeu com a mesma ação.
Fandral encarou Sif, cobrando-a, que revirou os olhos, desagradada. – E eu sou Sif, a deusa da guerra. – Ela mexeu a cabeça impaciente.
Miranda lhe sorriu de volta, mas ela apenas a encarou desconfiada. Jane, você me arranjou uma inimiga eterna.
– Ela é Sif, a mulher mais perigosa de Asgard! – Fandral debochou animado, interromendo a guerreira, e Miranda percebeu que também pareciam ser bons amigos, de longa data. O guerreiro aproximou-se de sua amiga, tocando nos ombros de Sif, que, irritada, desviou-se de seu toque e deu-lhe um forte soco no estômago, e ele não pôde esquivar-se rápido o suficiente. Todos os companheiros riram, exceto Loki, que revirou os olhos, e Miranda segurou a risada, mais por conseguir adivinhar os pensamentos do deus da trapaça do que pela cena de comédia pastelão. “Estou cercado de idiotas.” A jovem mulher pensou, imaginando o que Loki estaria pensando desde que aquele dia começara.
– Eu falei. – Fandral disse, com a voz alguns tons mais aguda, despertando Miranda de seus pensamentos, e lembrando-a assim de que estava perigosamente se deixando envolver ainda mais, tamanha a distração que Loki lhe causava. – E isso porque ela está bem humorada. – O guerreiro loiro de cavanhaque deu um olhar quase imperceptível na direção de Thor, e Miranda entendeu perfeitamente a insinuação. Janey, Janey... Cuidado!
– E eu sou Miranda, a deusa de Midgard. – Ela debochou de volta, e Volstagg e Fandral sorriram. Loki, entretanto, apenas a encarou com certa curiosidade, como se suas palavras de fato fizessem sentido e não fosse piada. Ela se sentiu desconfortável, como se fosse uma desconfiança que ela mesma tivesse já há algum tempo.
– A mim você já conhece. – Thor disse sorrindo discretamente e servindo-se de um pedaço da carne que assava na fogueira do acampamento improvisado do grupo. – Seu feitiço para conjurar tamanha energia de luz de fato é digno dos poderes de Hela. Loki terá de me contar muitos detalhes a respeito, como sei que fará pelo juramento, mas conversaremos amanhã. Sei de sua natureza midgardiana, e imagino que o esforço tenha sido... Bem... Sobrehumano. – Thor brincou e todos os guerreiros riram, exceto Loki. Miranda sorriu, encarando o deus da trapaça, que levantara as sobrancelhas em desprezo como se dissesse: “puxa-sacos”.
– Estou liberada para comer, então, chefe? – Miranda brincou despojadamente e aproximou-se da fogueira.
– Sinta-se a vontade. – Thor sorriu e passou a conversar com Hogun.
Miranda sentou-se a frente da fogueira, com Loki ao seu lado. Seus braços estavam em seu colo, ainda presos pela algema, e ela sentiu-se culpada, apesar de saber que não deveria. Cacete, foi ele que trouxe todos esses problemas. Mas por que nada disso era suficiente para desviar os indesejáveis sentimentos que já percebera nutrir por ele?
Ignorando a sensação, serviu-se de um enorme pedaço de carne, uma coxa ainda maior do que a que Volstagg comia e a mordeu comicamente, mastigando enormes bocados.
– Ahhhhh, que delícia! Isso é carne de quê? Cervo? Tá bom demais! – Miranda quase gritou, devorando a perna e sujando seu rosto de gordura até o nariz. – Só estava faltando uma cerveja para acompanhar. – Ela suspirou, comendo com gosto.
– Está me parecendo alguém de melhor caráter agora, moça. – Volstagg brincou, referindo-se ao enorme apetite de Miranda e seu bom gosto para bebidas, e ela lhe sorriu de volta, ainda concentrada na comida. Vou cair dura de sono depois disso, e espero conseguir alguma sanidade de volta. Ela franziu as sobrancelhas, ainda preocupada com todas as controversas sensações e sentimentos duelando dentro de si.
Aos poucos todos se recolheram e Thor pegou o primeiro turno de vigia, para não serem surpreendidos por algum possível inimigo que improvavelmente tivesse sobrevivido a magia de Miranda. Loki, silencioso, não parecia querer trocar palavra alguma com ela, o que Miranda compreendia, considerando que provavelmente não queria se abrir perante todas aquelas pessoas que o reprovariam de qualquer forma. Miranda o encarou, levantando-se depois de saciar sua fome, tentando fazê-lo entender o que faria com o olhar, lançando-lhe um penetrante olhar com suas grandes íris cor de mel. Se entendeu, Loki não demonstrou, mantendo a expressão impassível.
Bufando de impaciência, Miranda tentou ir o mais discretamente possível que sua armadura permitia ter com Thor. Caralho, como ela consegue se mover com tanta graça e eu me sinto o próprio Robocop? Pensou, revoltada, lembrando-se do charme e da beleza selvagem, porém não menos intensa, de Sif, ao lutar contra os seres de Helheim. Em seguida, tentando manter-se um pouco mais feminina, prendeu o cabelo em um coque malfeito e improvisado, deixando alguns cabelinhos na nuca, enquanto pensava em como falaria o que queria realmente dizer.
O deus do trovão estava um pouco afastado, vigiando os limites daquele lúdico bosque em Ljusalfheim, e a jovem mulher teve de caminhar por alguns minutos até finalmente alcançá-lo. Algumas luzes dançavam em volta da fronteira da floresta, e Miranda sorriu.
– Os elfos da luz. Não morreram todos! – Ela exclamou alegremente.
– Acredito que alguns tenham sobrevivido por sua ajuda. – Thor sorriu de volta. – Sua magia de luz é puramente benéfica para eles, e incrivelmente danosa para as criaturas do submundo. – O deus do trovão disse com sua voz retumbante.
– É bom saber disso. Esses elfos me trouxeram bons... Momentos. – Miranda disse, lembrando-se de sua estadia com Loki em Ljusalfheim, e da sessão carnal que tiveram próximos ao templo de Frey, e também dentro do rio que corria próximo aquelas árvores, e de tudo o que ele a ensinara naquele Reino. Apesar dos pesares, aquilo, de fato, estava sendo a “viagem” de sua vida. Não apenas pelos locais exóticos e a quantidade de novas experiências que tivera, mas, principalmente... Pela companhia. Pelo que a motivara a sequer ir para tal estrada.
Seu rosto ruborizou, e ela mordeu o lábio, ainda em dúvida se estava com raiva do deus da trapaça ou preocupada com o destino dele, enquanto todos ainda o julgavam com péssimos olhos, mesmo sabendo que o mais seguro seria ela fazer o mesmo e contrariar seus instintos e emoções.
Ficaram em silêncio por algum tempo, e Miranda deixava os olhos perdidos nas luzes dançantes que eram os elfos de Ljusalfheim. Após alguns momentos, Thor falou primeiro.
– Jane gosta muito de você. E confia em você. Eu gostaria de um dia poder confiar também. – Thor disse sério.
– Eu gostaria que você pudesse. – Miranda respondeu melancólica e misteriosamente, e Thor franziu o cenho ao encará-la. – Mas você está tomando a decisão mais sábia. Eu sou... Sou como o seu irmão. – Ela confessou, admitindo.
– O que quer dizer? – Thor insistiu, parecendo incomodado.
– Thor... É tão claro para mim. Claro como água. Você julga que Loki está perdido, talvez esteja certo, mas... Eu tenho certeza que ele apenas chegou aonde chegou porque... Bem, esqueça. Não deveria falar disso. – A midgardiana disse, mas segurou-se. Thor deveria perceber por si mesmo. Sentira um forte ímpeto de ser sincera, talvez por sua fragilidade no momento, ou talvez porque, simplesmente, tivesse algo dentro de si que tinha a maior das urgências em dizer.
E ela sabia que era pelo segundo motivo.
– Eu tentei acreditar por muito tempo que ele não estava. Eu temo que ele tenha te enganado também, Miranda. – Thor disse sincero, e Miranda sentiu seu peito torcer-se em uma dor aguda e lenta.
– Talvez você não esteja de todo errado... Mas ele também acabou por enganar-se a si mesmo. – Ela disse, sincera.
– Eu acho que entendo o que quer dizer. – Thor acompanhou a fala de Miranda. – De tudo o que vi pela visão de Heimdall, tudo o que está acontecendo agora por culpa deste plano de Loki... Eu sei que ele planejou tudo, embora ainda não saiba todos os pontos e consequências, mas há um detalhe... Tenho certeza que há algo, um pequeno porém significativo, certo acontecimento que ele não pôde prever. – O deus do trovão falou.
– Qual? – Miranda perguntou, sabendo internamente o que ele diria, temendo ouvi-lo e também querendo escutar, ao mesmo tempo, entendendo finalmente que Thor descobrira que havia algo errado por conta de Heimdall, o vigilante de todos os Reinos.
– Você. – Thor sorriu levemente. – O Brisingamen. – O deus do trovão voltou seus olhos azuis para ela, brilhando como a luz dos elfos que dançavam ao seu redor. – Nem eu mesmo em meus melhores sonhos esperaria por isso. – O deus do trovão levantou as sobrancelhas, sincero. — Amanhã lhe explicarei como sei de tudo isso, pode esperar algumas horas para todos nos recuperarmos. – Ele estalou o pescoço, relaxado.
Miranda sentiu certo calor espalhar-se por seu peito, enquanto continha um sorriso idiota, e se julgou muito estúpida. Sabia que seu rosto estaria vermelho como um pimentão, e levou as mãos ao rosto, como se fosse uma adolescente. Desviou o olhar de Thor, sentindo-se envergonhada, algo que ainda não se acostumara a sentir. – Sabe... Eu... Eu não quero andar com as mãos livres. – A jovem mulher falou séria, encarando Thor de novo, mais recomposta.
– O quê? – Thor ficou surpreso.
– Me deixe com as algemas de novo. Por favor. – Ela insistiu.
– Por que iria querer isso? – O deus do trovão não compreendia.
– Porque você não o soltou. E nem vai soltar. A não ser quando precisar. – Ela disse, séria, movendo as mãos impacientemente. – Eu sei que você tem que fazê-lo. Mas eu também tenho que usá-las. Tente entender. – Ela insistiu, séria.
Thor comprimiu um sorriso. – Eu gostaria de ver a reação dele ao vê-la fazer isso. – O deus do trovão girou o Mjolnir distraidamente enquanto falava, e buscou algo guardado consigo. Depois, algemou Miranda novamente, suas algemas juntando seus punhos a frente de seu corpo. Em seguida, a mulher de cabelos castanhos e grandes olhos cor de mel se despediu dele para aproximar-se do grupo outra vez e finalmente recolher-se.
Miranda escondeu-se atrás de algumas árvores, esperando até que todos adormecessem. Assim que reparou que Volstagg ressonava, e que Sif dormia em uma pose que quase a fazia parecer frágil, caminhou para mais perto do grupo. Após alguns passos, pôde ver que Fandral estava adormecido e espalhado pelo chão, e Hogun dormira apoiado ao tronco de uma das árvores ancestrais de Ljusalfheim.
Assim, Miranda caminhou rápida como uma sombra até onde Loki estava, longe do grupo de guerreiros e também adormecido, sentado com as costas em uma árvore mais afastada.
Sentou-se ao seu lado, e seu movimento o acordou. Em um átimo de segundo, o deus viu que ela também estava algemada, e Miranda lhe abriu um largo sorriso, como se aquilo fosse divertido, quicando seu corpo na grama.
– Você é realmente muito tola... – Loki disse, disfarçando o sorriso que surgiu no canto de seus lábios e desviando seus lindos olhos verdes para outra direção, evitando olhar para Miranda.
– E você adora isso. – Miranda debochou cutucando-o com um ombro, quase desequilibrando-se por conta das algemas. Loki não respondeu, apenas respirou fundo, seu peito subindo e descendo devagar, como se fizesse um grande esforço para dizer o que falaria em seguida.
– Por que fez isso? – Ele perguntou, parecendo sincero, seus olhos verdes em uma expressão como se ele não quisesse compreender seus motivos, como se suas razões, de alguma forma, lhe gerassem alguma espécie de desconforto. E parecia também desconfortável por mostrar curiosidade a respeito, da maneira arrogante que Miranda tanto estava acostumada.
– Eles têm de confiar em mim. Se eu adotar uma pose submissa, vai funcionar bem quando eu resolver aprontar com eles. Funcionou com você. – Miranda deu uma piscadela o provocando, abrindo seu sorriso largo e travesso que sabia mexer com ele.
– Não duvido que consiga dobrá-los. Não será muito difícil. – Loki revirou os olhos, desprezando a inteligência dos que os acompanhavam.
– Loki. – Miranda se encheu de coragem para perguntar o que viria depois, e sentiu certo calor subir pelo seu corpo quando viu a reação do deus a olhá-la quando o chamou pelo nome, como se subitamente passasse a prestar muita atenção. Ela raramente o chamava assim, e ele sempre portava uma expressão surpresa e adorável em sua reação.
– Por que não pôde me contar tudo desde o começo? – Ela perguntou, sincera, tentando evitar sorrir para não dar-lhe chances de evitar o assunto. – Não minta para mim agora. Por favor. – Ela quase suplicava, encarando-o profundamente. Ela viu o olhar dele vacilar, enquanto o deus suspirava quase inaudivelmente, seus olhos verdes baixando-se para suas algemas, para depois voltarem-se para ela, fuzilando-a com o olhar daquele jeito que a deixava completamente indefesa, submissa e... Encantada.
– Para conseguir meus poderes de volta. Para fugir da sentença de Odin. Para que tudo funcionasse como eu queria. – O deus da trapaça admitiu, sussurrando, e por alguma razão aquilo lhe parecia tão sensual. Loki não parava de encará-la diretamente em seus olhos, e Miranda achava difícil não perder o foco do que queria dizer. Sentia que seu rosto ia contra sua própria vontade racional para mais perto dele, seus lábios estando a centímetros de se tocarem, como um animal paralisado pelo olhar de uma serpente em seu bote, como uma mariposa que voa irresistivelmente para a luz de uma lamparina, mesmo sabendo que vai morrer queimada. E, ainda assim, ela não desejava nada mais do que estar em seus braços de novo, já sentindo seus lábios entreabrirem-se, perdendo-se nas profundezas, mentiras e mistérios de seu olhar...
– E por que tinha de me usar para isso? – Ela perguntou, ferida, as lágrimas descendo sem que ela fizesse ruído algum além de suas palavras sussurradas, seu coração dolorido por tanto amar alguém que tanto a fazia sofrer. Fez um esforço sobrehumano para se afastar mais um pouco, tentando ao máximo resistir ao que já não havia mais volta.
Loki franziu as sobrancelhas em uma expressão entre o confuso e o entristecido, como se pudesse se sentir tocado pela dor dela. Miranda reparou em suas mãos levantando-se algemadas para secar suas lágrimas, seus dedos compridos delicadamente limpando-as, e ela sentiu mais vontade ainda de chorar.
– Para poder te proteger. – O deus da trapaça disse, e parecia verdadeiramente honesto. Miranda sentiu seu coração retumbar em seu peito, e não mais resistiu. Estava também confusa, magoada, irritada e, sem dúvidas, apaixonada, mas era impossível aguentar. Loki moveu seu rosto para mais próximo do dela, enquanto ela fazia o mesmo e seus lábios se uniram em um beijo delicado, lento, porém íntimo, terno, mesmo sabendo que próximos deles havia cinco pessoas a testemunhar, cinco pessoas que não os viam com bons olhos e talvez até pudessem machucá-los e se aproveitar de suas próprias fraquezas...
Mas nada fazia Miranda sentir-se mais forte do que aquele homem e aquele deus ao seu lado. Seu tutor, seu enganador, seu protetor e seu algoz... Seu amante. Seu amado.
– Sif! – Thor gritou ao longe, se aproximando, e os dois se afastaram abruptamente. Quando deu por si, Miranda estava a alguns bons centímetros longe de Loki. – É a hora de trocarmos turnos, agora. – O deus do trovão ajudou a guerreira a se levantar, e ela, aliviada, percebeu que nenhum dos que a acompanhavam agora haviam reparado no beijo recente entre ela e Loki. Depois, tentando distrair-se com Sif levantando-se para cobrir o próximo turno, Miranda sentiu certa compaixão por ela, que não parecia lidar bem com o toque de Thor, sua mão tremendo levemente ao se separar da dele. Quantos corações problemáticos temos aqui...
A jovem moça, em seguida, ajeitou-se para dormir, deitando-se na grama, encontrando uma posição confortável. Olhou para Loki uma última vez, que mantinha o rosto virado para outra direção, como se estivesse fingindo que nada havia acontecido naqueles últimos momentos, e aquilo pareceu dar-lhe forças, simplesmente por ser algo tão típico dele.
Miranda sorriu consigo mesma e adormeceu, pensando que tudo poderia, talvez, dar certo. Pena que não poderei dormir abraçada com ele... Não ainda, ao menos. E, se pudesse, talvez o esganaria durante o sono para entrar em desespero depois.
De tudo o que acontecera, Miranda só estava certa de que o amava, amava Loki, apesar de tê-la ferido tanto. Aquilo a assustava, a irritava e a deixava indignada consigo mesma, apesar de ser tão previsível, tão óbvio que aconteceria... Eram tão parecidos. Tão complementares, também. A atração entre eles, explosiva desde a primeira vez em que se tocaram, a química insuperável, a compatibilidade perfeita sexual... E, além do carnal, Miranda compreendia tão bem suas dificuldades, apesar dele ser nada mais nada menos do que um deus. Ela também era adotada. Era rejeitada. Sempre a ovelha negra, sempre a sombra dos irmãos, sempre subestimada e sempre querendo se provar, mostrar seu valor. Porque, se ela se importava tanto... Era porque também amava. Porque conhecia este sentimento. Não haveria inveja sem admiração, ou ciúmes sem afeição, ou tamanha sofrimento em solidão... Sem um enorme desejo por companhia.
E pensar que tudo começara como um jogo de intrigas, no qual ela esperara sair superior... E, aparentemente, poderia ter perdido completamente, se também não desconfiasse, não tivesse uma parte de si que soubesse...
Eu preciso dormir. Não posso mais pensar nisso. Preciso dormir.
Miranda o amava, e sabia que este sentimento era ainda mais intenso do que a imensa magia que fluía por seu corpo e pulsava em seu coração.
E também muito mais poderoso.
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