Journey Into Trickery
21 1/3 True Feelings - Parte Um
Notas iniciais
Even if I love you until it hurts, 1/3 of it won't reach
My true feelings are just spinning on air
My heart can't even say "I love you"
On the long, sleepless nights
The feelings I send to you whisper "that is love"
Talking endlessly until you're moved to tears, your trembling heartbeat
Changes into a slight fever mingled with a sigh
Give me a smile and shiny days, by your smile
I can withstand the cold of a frozen night
Even if my love reaches the breaking point, 1/3 of it won't reach
My true feelings are just spinning on air
My heart can't even say "I love you"
Like rain in the middle of summer
Your shining smile ends the drought
Give me a smile and shiny days, don't clear up so quickly!
Because we can overcome any wall that stands in our way
Whoever you love, these images will reach them, right?
Don't say you can find them, your words are dancing in space
The further apart you go, the more it hurts the person you love
The more I chase them
The more my heart feels the cruel distance
Give me a smile and shiny days
Give me a smile and nice days
If only we could meet in an embrace...
Whoever you love, these feelings will reach them, right?
If only you had said so in your dreams
Even if my love reaches the breaking point, 1/3 of it won't reach
My true feelings are just spinning on air
My heart can't even say "I love you"
Siam Shade — 1/3 Junjou Na Kanjou
Ao acordar, Miranda viu um infinito céu azul, cerúleo e amplo, e nada mais.
Piscou um par de vezes, e rapidamente reagiu, ao levantar o próprio tronco de um salto, buscando apoiar-se com as mãos para logo em seguida estar de pé, alerta, preparada para entender onde estava e o por que da estranha paisagem. Entretanto, esquecera-se de que usava algemas na frente do corpo, e perdeu rápido o equilíbrio, tombando contra a própria vontade para seu lado direito. Ela franziu as sobrancelhas, encarando o que estava a sua frente, e reconheceu a terra arenosa e infértil de Yggdrasil, e a gigantesca Árvore dos Mundos imponente algumas milhas adiante, a sua frente, com suas inúmeras raízes e possibilidades de dimensões e Reinos existentes muitas léguas além.
Miranda ouviu, em seguida, uma curta risada debochada e quase sem som que reconheceu imediatamente. Sentiu seu coração escapar uma batida, ao mesmo tempo em que certa irritação e mágoa novamente corriam juntas dentro de si, como um pesado fardo carregado. Eram emoções tão difíceis de lidar, em conjunto, que lhe faziam sentir-se como se alguma criatura de Helheim pressionasse suas patas contra seu peito angustiado.
Logo depois, a jovem mulher voltou seu rosto na direção de onde o som viera, e seus grandes olhos cor de mel registraram a imagem de Loki, ainda algemado, sentado ao lado de Thor, a distâncias seguras um do outro, como se aguardassem algo. O deus do trovão e o deus da trapaça olhavam fixamente para ela, e a jovem moça tentava evitar cruzar olhares com o irmão mais novo do filho de Odin, temendo que ele pudesse ouvir ou perceber as batidas cada vez mais rápidas de seu coração por esse mero contato. A mulher midgardiana fez o melhor esforço que pôde para se levantar com alguma dignidade e graça, disfarçando ao máximo o efeito que Loki tinha sobre si.
Está cada vez mais difícil de disfarçar... Miranda não pôde deixar de admitir para si mesma, preocupada, enquanto usava de todos os seus esforços para focar seus grandes e redondos olhos cor de mel nos sérios e imperiosos olhos azuis celestes de Thor, que pareciam resplandecer a imagem daqueles amplos céus limpos de nuvens, repletos de um azul puro acima de todos eles.
– Filha de Koehler. – Thor a chamou pelo nome de seu pai biológico, provavelmente sabendo de tanto por conta de Jane, que também deveria tê-lo contado a respeito da dificuldade que tinha com seus pais adotivos. Não é à toa que ele mandou o inglesinho pra ser minha responsabilidade... Miranda pensou, entre o deboche e a gratidão, por mais que não desejasse sentir nada mais pelo deus da trapaça além de raiva e mágoa, no momento, sabendo que ele a enganara, outra vez.
– Filho de Odin. – Miranda respondeu, levantando uma sobrancelha, e reparou que Loki crispou os lábios, como se desagradado, por uma fração de segundos. Assim que percebeu o olhar fixo da jovem moça, o deus modificou sua expressão para o mesmo semblante desinteressado que portava, arrogante e distante, desde que Thor o mantivera cativo sob sua responsabilidade.
– Aproxime-se. Não temos muito tempo. Deste juramento, pretendo liberar Loki logo. – Thor disse em tom de ordem, seco e decidido, referindo-se a promessa que seu irmão lhe fizera de contar-lhe a verdade sobre seus planos, submetendo-se as conseqüências da quebra da promessa quanto aos castigos por descumprir o feitiço do juramento.
– Acho que estou tão interessada nisso quanto você. – Miranda disse, debochada, lançando a insinuação para o deus do qual sentia tantos sentimentos controversos, encarando-o no alto de sua bravura. Seu queixo vacilou levemente, tremendo um pouco quando ele lhe respondeu o olhar, mantendo toda a postura convencida de antes, porém, revelando tão pouco naquele gesto quase inexistente. Seus verdes olhos pareciam lhe suplicar que esperasse, e ela sabia que, no fundo, não conseguiria lhe negar esse pedido.
Thor moveu o rosto na direção do irmão, como se algo na expressão de Miranda houvesse lhe entregado algum tipo de gesto significante por parte de Loki, e, no segundo seguinte, o deus da trapaça assumira a mesma postura de antes. Thor a encarou de novo, semicerrando os olhos, desconfiado, mas ela engoliu em seco e ignorou o que acabara de acontecer. Sentou-se na frente dos dois, formando uma espécie de triângulo circular. Uma triquetra. Que irônico...
Assim, um tanto afastados de Sif e do resto do grupo, Loki, Thor e Miranda encontravam-se sentados na desolação das terras áridas de Yggdrasil, podendo ver os contornos dos outros guerreiros esperando muito ao longe, em uma distância na qual nem mesmo Miranda, Loki ou Thor poderiam escutar, se estivessem em seus lugares. Parecia ser por volta de meio-dia, e Loki finalmente começara a falar.
– Eu pensei nisso quando me trouxe para cá. – A midgardiana percebeu que o deus da trapaça referia-se a Yggdrasil, olhando para Thor enquanto falava. – Depois que descobrimos, ambos, que ela havia ganhado poderes, e pulou junto a nós dentro do portal que você conjurou usando a minha magia armazenada no Ambreon. – Loki indicou com o queixo Miranda, e ela percebeu, levemente sentida, que ele tentava agir de maneira um tanto distante consigo. – A minha magia que passou incólume a Heimdall, pois está repleta dos encantamentos para evitar a visão tanto de seu cão de guarda quanto de Odin e seus mascotes Munin e Hugin. – A jovem mulher fisgou de imediato a referência. Lera no livro de mitologia nórdica que Munin e Hugin eram dois corvos que sussurravam nos ouvidos do pai de Loki e Thor tudo o que puderam ver e escutar pelos Reinos de Yggdrasil e além.
– E você sabe por que ela os recebeu? – Thor perguntou, mantendo-se sério e frio, aproveitando o juramento de sinceridade do irmão. Parecia ignorar seu deboche e suas desfeitas, e para Miranda, outra vez apresentava um porte respeitável e quase assustador. Thor na vibe policial mau. Ainda bem que estou com créditos com ele. Pensou, sentindo uma leve torção no peito, preocupada com Loki. Sentiu-se imediatamente irritada por se importar tanto com ele.
– Não. – Loki admitiu, franzindo o cenho, encarando Miranda como se a estudasse. Dentro de suas íris verdes, pareceu brilhar uma fagulha de interesse que a fez sentir certo frio na barriga. Como eu sou idiota.
– Mas sei que ela recebeu uma espécie de cópia dos poderes de Hela, a deusa da morte. – Loki ajeitou-se, mexendo-se desconfortável com as algemas prendendo seus punhos juntos atrás de si, elevando seu queixo e semicerrando os olhos, parecendo curioso e arrogante ao mesmo tempo. Miranda sabia que não era seguro revelar, naquele momento, que fora Leah que lhe permitira desenvolver aquela magia, para, na verdade... Proteger Loki em seu lugar. Pretendia, na verdade, jamais admitir isso nem mesmo para o deus que a acompanhava.
– Não faz ideia do por que Hela teria lhe conferido poderes? – Thor insistiu, duvidando de Loki. Sua mão direita pareceu apertar com força o cabo do Mjolnir, e Miranda sentiu seu coração acelerar, temendo mais uma briga familiar de perigosas proporções.
– Não foi Hela. Foi sua aprendiz, Leah é seu nome, que aparentemente a traiu. Jurou-nos que não contaria nada a sua mestra, e manteve o juramento. Encobriu-nos na farsa que planejei, inclusive, mas chegarei neste ponto depois. – Loki disse fria e diretamente, coçando seus punhos com elegância com o pouco de movimento que as algemas lhe dispunham, e Thor crispou as mãos, parecendo segurar a raiva. – Tenho certeza de que ela nos procurará em breve, pois se continuar em Helheim ou próxima de Hela será morta, se não tiver um destino pior. – Miranda fechou os olhos, estremecendo levemente, lembrando-se da presença aterradora de Hela.
– Continue. – Thor disse, sério, e Miranda segurava a respiração, ansiosa. Ele realmente está contando. O que me escondeu por todo este tempo? Ela pensou, magoada, e se odiou por sentir vontade de chorar.
– A midgardiana contou-me ter sonhos mediúnicos desde uma idade muito nova. – Loki falou, e Miranda sentiu mágoa pela forma de tratamento distante.
– Como você sabe, não é comum para reles humanos terem este tipo de dom. Além de tudo, ela é muito forte para o tamanho, muito rápida e consideravelmente inteligente. Somente almas tocadas, almas... Renascidas, poderiam ser capazes de tanto em uma forma tão fraca. – O deus da trapaça continuou, e Miranda o encarou irritada pelo comentário de desprezo, apesar de ele estar evitando seus olhares, e Thor pareceu levemente impressionado. Entretanto, o deus da trapaça só havia comentado com ela sobre sua possibilidade sobrehumana de magia em Ljusalfheim, quando não lhe contara o que conjecturara a respeito. Dissera apenas que ainda não sabia o que poderia estar por trás de sua capacidade de armazenar tanto poder, e que não seria qualquer midgardiano a consegui-lo.
– Você acha que ela pode... – Thor encarou Miranda, mostrando de leve uma faceta de assombro, ao mesmo tempo em que parecia querer refrear as próprias emoções, mostrando-se distante, e Loki o interrompeu.
– Espere. Isso não é uma certeza, é uma suposição. – O deus da trapaça franziu o cenho, parecendo fatigado, e encarou rápido Miranda, como se não quisesse que ela entendesse plenamente aquilo, o que desconfiava que fosse a razão de poder juntar tantos poderes. – E, como você não tinha nenhum plano brilhante para conseguir a modificação da minha sentença, e eu pessoalmente acredito ser impossível mudá-la no que diria respeito à Odin – Loki falou repleto de desprezo, debochando de Thor – eu tinha de pensar em algo que pudesse me fazer recuperar meus poderes. – O deus da trapaça sorriu enviesado.
– E, portanto você traz uma guerra para destruir a todos nós? Para ter a chance de, na obrigação de lutar para corrigir o que fez recuperar o que perdeu por justiça? – Thor bradou revoltado, controlando-se com dificuldade, e Miranda mais uma vez temeu sua revolta.
– Você comprometeu-se a ouvir até o final. – Loki sibilou entre os dentes e continuou, enquanto Thor o encarava irritado. A tensão entre eles era palpável; Miranda imaginava que havia uma grande dificuldade emocional entre ambos, mas não pensara que poderia chegar a tamanha magnitude. Bem, de certa forma ele tentou destruir Midgard por conta de uma rixa entre irmãos... A jovem moça deduziu, e sentiu-se outra vez culpada por se permitir sentir tanto por Loki, sendo tão óbvio o quanto ele não merecia aquilo.
– Nós dois, assim como a maioria dos aesires, fomos criados desde jovens sabendo sobre a profecia do Ragnarok. O Crepúsculo dos Deuses. Sabemos que será inevitável, e que, quando ocorrer, tanto eu quanto você, como Odin e toda Midgard – Miranda engoliu em seco – não sobreviveremos. Morreremos, e no próximo ciclo retornaremos em outras existências, com exceção do casal de midgardianos que repovoaria os Nove Reinos.
– Pensou em adiantá-la alguns anos, em vingança contra suas mágoas infantis? – Thor aproximou-se de Loki, furioso, e o deus da trapaça se manteve impassível.
– Não. Pensei em fazer Hela adiantá-la, acreditando que fosse uma ideia de sua própria autoria. E pretendo mudar o destino de todos. – Loki disse, sério, e Miranda sentiu seu queixo cair.
– Você... Quer mudar a profecia? – Ela disse, compreendendo aos poucos. Já vira este tipo de roteiro antes. Se algo é profetizado, deve seguir o caminho que é destinado... Porém, se os fatos que levariam até a profecia mudarem... Miranda franziu as sobrancelhas, esforçando-se para concluir o raciocínio, mas aquilo era tão fora de sua realidade e de tudo o que acreditara por toda a sua vida, apesar de não ter tido uma rotina de fato comum, que era realmente muito difícil. Foi logo despertada de seus pensamentos pela voz de Loki.
– Hela já o está fazendo por mim. Sei que sua ira não veio à toa, irmão. Ela já invadiu Vanaheim? – Loki disse, ainda encarando o irmão, sorrindo enviesado, parecendo se divertir muito em provocá-lo. Thor parou, respirando com dificuldade.
– Eu tinha certeza de que você tinha planejado tudo isso. – Thor disse, e parecia decepcionado, amargurado. – Como consegue matar tantos e não sentir remorso? Tornou-se realmente um louco? – Thor disse, encarando Loki desapontado.
Miranda engoliu em seco. Ele mentiu para mim. Disse que não haveria guerra. A guerra já começou... E eu acreditei. Eu deveria saber. Eu deveria ter previsto.
Mas será que eu o abandonaria? Ela pensou rápido, mordendo o lábio inferior, nervosa e muito confusa.
– Hela matou Frey. Estou certo? – Loki perguntou, mas Miranda podia ler por seu rosto que sabia a resposta.
– Sim. – Thor disse, controlando-se mal, e Miranda sabia que era pura e unicamente para cumprir o juramento.
– Frey lutaria contra Surtr durante o Ragnarok. E perderia. Os jotuns teriam um papel principal no Ragnarok, e Thymr, o Rei Jotun, me jurou, enquanto me disfarcei como o Príncipe Jotun, que não tomaria parte na guerra que Hela agora inicia, a qual lhe dei a sugestão de começar. Jörmungandr não será despertada, a serpente que lhe mataria, pois Hela atacará diretamente Asgard, e seria ela a chamá-la. Sabe que Hela destruiu Vanaheim com o intuito de avisar Odin que em breve invadiria Asgard. E que seu único preço para parar a destruição total seria a da minha alma. – Loki continuou. – Se mudarmos os alicerces da profecia, podemos mudar o resultado. – Ele disse astutamente. – Não sinto remorso, irmão, porque sei que o que estou fazendo é por um objetivo maior. – O deus da trapaça encarava o deus do trovão com a mesma expressão imperiosa de seu irmão mais velho, e Miranda não podia deixar de se sentir impressionada com a majestade inerente a ambos.
– E este objetivo seria o de proteger somente a si? É tão egoísta a esse ponto? – Thor perguntou indignado.
– É o de proteger a todos. – Loki virou-se subitamente para Miranda, e ela sentiu seu coração quase parar, encarando seus olhos verdes que pareciam olhá-la com sinceridade. Por um segundo, ela viu a imagem do garoto que lhe dera a rosa, em seus sonhos, por trás da imagem do Loki adulto.
– Pretendo evitar o Ragnarok. Pretendo conseguir minha liberdade e meus poderes legítimos por fazê-lo. – Loki falou com honestidade.
– Você vai evitar a guerra final trazendo-a? – Thor disse sem compreender, parecendo julgar Loki de fato como um louco.
– Nós vamos derrotar aqueles que trariam a guerra final. E assim ela não acontecerá. Pretendo evitar que os embates finais, nos quais todos nós morreríamos, sequer cheguem a acontecer. – Loki disse genial. – Vamos derrotar Surtr e vamos derrotar Hela e todos os seus aliados. E assim não haverá mais ameaças.
– E tudo o que você quer para tanto são seus poderes de volta? – Thor disse, ainda não aceitando. – Nem com toda a magia do mundo você teria capacidade de derrotá-los a todos, Loki. Tampouco eu. Podemos destruir Surtr, mas não podemos destruir Hela. Hela é a deusa da morte. É indestrutível. – Thor rebateu indignado.
– Não é indestrutível. A vida pode derrotar a morte. – Loki disse, parecendo ter chegado ao ponto que queria, abrindo um largo sorriso, seus olhos verdes brilhando encarando os do irmão. Miranda sabia que ali havia o ponto principal da história, mas não podia compreender tão rápido. Eram inúmeras informações para um mesmo dia, e usava ao máximo sua capacidade lógica e estratégica para compreender os planos agora revelados do deus da trapaça e não se perder enquanto eram finalmente contados.
– Você quer dizer... – Thor arregalou os olhos, parecendo finalmente compreender, suas mãos cruzadas, encarando um ponto qualquer a distância. Logo depois, voltou-se para Loki, e os irmãos disseram em uníssono:
– Karnilla. – A voz grave e retumbante de Thor juntou-se a debochada e melodiosa de Loki, e Miranda os encarou sem compreender.
– E quem é essa aí? – A midgardiana perguntou, desconfiada, levantando as sobrancelhas. Se ele tiver comido ela também, juro que eu arranco o inglesinho que ele tem entre as pernas e as bolas de cricket junto.
– Karnilla é uma deusa norn, a governante de Nornheim, um pequeno país dentro de Asgard. – Thor explicou para Miranda, parecendo compreender o que Loki insinuara. – Ela revoltou-se contra Odin, separando-se de Asgard, que permite que mantenha seu reino contanto que não saia do território no qual tem poder.
– Está deixando-a mais confusa, irmão. – Loki disse debochado, encarando o deus do trovão com desprezo. – Deixe-me contar. – O deus da trapaça piscou e encarou Miranda rapidamente, que sentiu seu estômago dar voltas, engolindo a vontade simultânea de estar perto e longe dele, e depois desviou os olhos de volta a Thor, que não parecera impressionado ou irritado, apenas mantinha a mesma postura séria e decidida.
– Quando Karnilla nasceu, há milênios atrás, sendo uma das deusas mais antigas dos Nove Reinos de Yggdrasil, foi na noite de maior magia que todos os Reinos jamais viveriam. Seu nascimento concentrou em si uma quantidade de poder maior do que poderia armazenar, e por isso sempre viveu contida e reclusa, para que não causasse destruição com o que não podia controlar. Suas emoções poderiam determinar terremotos, maremotos e fenômenos da natureza de grandes proporções, tamanha era sua capacidade mágica. Muitos morreram e sofreram porque Karnilla não podia segurar seu próprio poder. – Loki iniciou, e Thor continuou a explicar.
– Quando atingiu a maturidade, Karnilla criou objetos mágicos, que concentravam parte de sua magia e permitiriam que tivesse mais liberdade. Tirou de seu corpo a essência de muitos dos seus poderes, que eram, dentre eles, a manipulação dos elementos. Karnilla criou quatro pedras que concentravam sua magia: a pedra norn da água, do fogo, da terra... – Thor dizia, e Loki o interrompeu.
– ...E a pedra norn da vida. Karnilla era capaz de reviver seres antes mortos, mas, assim que Hela surgiu, foi proibida por Odin de exercer tal poder. A vida e a morte tinham de ser complementares, e ninguém poderia interferir no curso anteriormente natural da existência. – Loki parecia entediado com a história, como se concentrasse para manter interesse em algo deveras enfadonho e desimportante, e a midgardiana não pôde deixar de pensar que Thor teve muita paciência por aturar por anos e anos o temperamento quase insuportável do caçula.
– E é claro que Hela se interessou por uma pedra específica. – Loki disse debochado.
– Hela roubou a pedra da vida? – Miranda perguntou, sentindo-se quase entontecer por tantas informações diferentes, embora estivesse acompanhando o raciocínio dos dois.
– Sim. – Thor respondeu e olhou amargurado para Loki. – Odin, preocupado com o que artefato de tamanho poder poderia fazer nas mãos de alguém como Hela, reconhecidamente gananciosa e de gênio... Difícil, ordenou a meu irmão que a recuperasse e devolvesse diretamente a Karnilla. Ele enganou Hela, agindo como seu amante, até que conseguisse a confiança da deusa da morte e ela o deixasse, de bom grado, tocar na pedra norn que roubara. Deu-lhe o Brisingamen que roubara de Freya, a quem também enganara da mesma forma, para distrai-la e poder levar o artefato de volta a Karnilla, de quem ganhou a confiança. Karnilla permitia a entrada em Nornheim somente para Loki e Balder, que agora está morto. – Thor entregou o passado do irmão de bandeja e nem sequer pareceu arrependido. Miranda encarou Loki, fuzilando-o com o olhar, mas o deus da trapaça não foi tolo a ponto de encará-la depois que Thor lhe dedurara.
– Quem tenta tomar uma pedra norn, sem conhecer seu poder ou ser capaz de adestrá-lo, na verdade acaba consumido por ele, trazendo apenas destruição para si mesmo e aqueles ao seu redor. Karnilla não as utiliza, apenas raramente, porque já tem muita energia concentrada, e sente-se insegura ao aumentar seu poder. Portanto, ela as concede, de tempos em tempos, para alguém... Digno de usá-las. – Loki adiantou-se, olhando feio para Thor, parecendo querer mudar o assunto a respeito de Hela. Miranda registrara aquilo, porém, e guardaria para uma discussão posterior. – E é por isso que eu pretendo recebê-las dela, todas, de bom grado. – O deus da trapaça falou convencido, como se não houvesse nada mais lógico do que isso.
– Como vai fazer isso? – Thor perguntou incrédulo, encarando Miranda e Loki múltiplas vezes, desconfiado, e ela entendeu o que o irmão mais velho de Loki pensava. Se esse inglesinho de merda acha que vai colocar mais uma deusa no currículo, se é que já não colocou, está muito enganado. Pensou, já repleta de ciúmes.
– Simples. Karnilla saberá, a essa altura, que Hela pretende começar o Ragnarok, mudando algumas partes da profecia. – Loki abriu um enorme sorriso e enfim revelou a última parte de seu plano. – O que fez Karnilla se revoltar contra Asgard e Odin? – Loki deu a dica, seus verdes olhos finalmente brilhando ansiosos, como uma criança espevitada esperando para fazer alguma travessura.
– A morte de Balder, seu amado? Culpa a mim e a Odin até hoje por isso. – Thor respondeu, tentando acompanhar o raciocínio.
– E quem foi previsto que retornará da casa dos mortos, durante o Ragnarok? – Loki perguntou, sorrindo ainda triunfante.
– Balder. – Thor respondeu, compreendendo, seus olhos azuis iluminando-se. – Karnilla jamais entregaria as pedras norns a mim ou a Odin, mas poderia... – Loki o interrompeu outra vez.
– Entregá-las a mim. Karnilla saberá que Hela se aproxima. A deusa da morte virá com Balder, como um presente em troca da pedra da vida, se não pedir por todas as outras também. Karnilla não poderá negar-lhe o pedido, não com uma oferta tão boa... Mas não suportaria tê-las entregado para Hela, que também é uma de suas inimigas, alguém por quem nutre um rancor ainda maior do que por você e Odin ou qualquer outro aesir. Não as usarei, entretanto, porque não tenho familiaridade com nenhum de seus poderes, e sei das conseqüências disso. – Loki respondeu apressado, antes que Thor pudesse julgar que desejava tê-las para si. – E eu pretendo recuperar parte da confiança perdida de alguns familiares com tal... Magnífico presente. Porém, para tanto, preciso adentrar Nornheim de posse de meus poderes, senão não poderei sequer oferecê-las para quem pretendo. – Loki disse, debochado.
– Entregará a pedra do fogo a Odin, a da terra a Frigga... – Thor presumiu, compreendendo.
– A da água a você, já que controla as tempestades. – Loki disse com um leve traço de desprezo na voz, fazendo uma expressão de repulsa. Parecia odiar-se a si mesmo por estar se aliando ao irmão e o favorecendo de alguma forma, mas Miranda podia ver, por trás desta máscara de distância e desprezo, os pequenos traços de expectativa que Loki deixava antever, como se aguardasse a maior aventura de sua vida. E ela sabia, sentia, que Thor era uma parte especial dela.
– E a pedra da vida... Entregará... Para ela? – Thor perguntou, porém, parecendo saber a resposta, e não pôde conter um leve sorriso, encarando Miranda discretamente, mudando sua expressão para o mesmo semblante sério o mais rápido que podia.
Loki encarou Miranda longamente, e, por algum motivo, ela não conseguiu manter seu olhar. Sentiu-se ruborescer, e logo em seguida julgou-se muito tola.
– Para Hela é que não seria. – Loki respondeu, debochado, e Miranda viu nos olhos de Thor uma espécie de faísca de humor, o que também alegrou seu coração, contra sua própria vontade racional.
Em seguida, Miranda fechou os olhos, respirando longamente, tentando compreender.
– Você vai me dar... O poder da vida? Por que agora, em tese... Eu tenho o poder da morte? – Miranda perguntou, sentindo-se levada por um torpor. Era muita informação em um mesmo dia, e ela ainda não havia esquecido que por todo este tempo Loki a manipulara como uma marionete a acreditar em falsos objetivos e num teatro completamente falso. Tudo o que ele me contou era para me fazer agir como ele queria que eu agisse, e não o que ele realmente planejava. E eu caí como uma pata.
– A vida e a morte são faces da mesma moeda. – Loki respondeu, encarando Miranda agora levemente interessado, como se tentasse controlar a própria animação e um sorriso que brincava no canto de seus lábios. – Você vai se sair muito bem. – Loki incentivou sarcasticamente.
– Você é realmente um grande filho da puta. O maior de todos. – Miranda disse, embasbacada com a genialidade do deus da trapaça, e, pela reação de Thor, ele parecia sentir o mesmo. – Com todo o respeito. – Miranda disse, voltando-se rapidamente para Thor, aparentando contrição por ter xingado Frigga. O deus do trovão a encarou com alguma leveza e deu-lhe a sombra de um sorriso. Miranda não conseguia acreditar. Era o cúmulo do egoísmo, mas, ao mesmo tempo era simplesmente... Genial.
Não havia ponto sem nó na estratégia de Loki: Hela tentaria trazer o Ragnarok, depois de todo o teatro de Miranda como Hale, e de Loki como o jotun Laufar, incitando-lhe de novo a raiva e ódio pelo deus da trapaça, mas, por saber que também pereceria junto a todos se não mudasse a profecia, agiria exatamente como o deus da trapaça havia previsto. Levaria Surtr, Hreidmar e seus exércitos junto ao seu de Helheim para Asgard, buscando conseguir chantagear Odin para lhe entregar Loki. Buscaria destruir Asgard e talvez outros Reinos, se bem sucedida, mas não seria capaz se a magia de Karnilla estivesse em Asgard, aparentemente a única maneira de pará-la. Iria para Nornheim, buscar a deusa mais poderosa, com a troca de Balder, seu amado, para receber em troca as quatro pedras, ou no mínimo a pedra da vida. Karnilla era inimiga de todo e qualquer aesir que se submetesse a Odin, e o único “aesir” que assim não o era... Era Loki, um jotun, na verdade, o filho adotivo e amargurado de Odin. E, claramente, era também inimiga de Hela, por manter Balder morto e ter tentado roubar-lhe uma de suas jóias de maior poder, a pedra norn da vida.
E, por ser agora uma espécie de réplica, em poderes, da deusa da morte... Miranda era a única que poderia fazer frente a ela. E agora, subitamente, eu virei a Portadora do Anel. E eu não me ofereci para isso!
– Enfim já sabe de tudo, Thor. – Loki disse debochado. Miranda sentiu vontade de encher-lhe de tapas e de perguntas, simultaneamente, não podendo acreditar que ele de fato antevera tudo perfeitamente e manipulara a todos tão bem. Ele realmente é o deus da trapaça. Ela concluiu, incrédula, simultaneamente horrorizada e abismada.
– Está satisfeito? – O deus da trapaça provocou.
– Não. – Thor respondeu, novamente sério, levantando-se e puxando Loki pelo braço. – Mas devo admitir que é a única solução. Seu plano é louco, ousado demais, com inúmeras chances de fracasso. Mas faz sentido, e de fato é o melhor que alguém poderia pensar. – Thor puxou-o pelo colarinho, encarando-o a centímetros de seu rosto. — O que não significa que confio em você. Faça algo diferente disso, mova um dedo para agir de outra forma que não a de proteger o que ameaça a todos nós, e eu o matarei sem hesitar. Você nos jogou num ninho de cobras e saltou junto como um suicida. Se não agir precisamente como o falso herói que vai bancar ser, você está morto. – Seu olhar azul era mais ameaçador do que todas as vezes que lhe surrara.
– Eu estou longe de ser um herói. – O irmão mais novo de Thor disse honestamente, levantando uma sobrancelha em uma expressão de divertimento, e o deus do trovão quase rosnou para ele em resposta.
– Não estou brincando. Um passo em falso e você morre. – Thor decretou a sentença, apontando o Mjolnir a centímetros do rosto do irmão.
– Quando começamos? – Loki respondeu, abrindo-lhe o seu sorriso mais cínico, seus olhos verdes brilhando em sarcasmo.
Miranda acompanhou os dois com o olhar, levantando-se com alguma dificuldade por conta das algemas. Depois, seguindo-os enquanto se afastavam, teve de perguntar.
– Espera um minuto. O que foi que aconteceu em Vanaheim? – Ela percebeu que Loki havia previsto a destruição do Reino, mas Thor não lhe dissera o que ocorrera. Se participaria daquilo, se agora realmente sabia o que iria acontecer, e os enormes riscos que seriam trazidos... Merecia no mínimo saber de tudo. E encher de porrada a cara do inglesinho, também.
– Isso vai demorar um pouco mais do que imaginei. – Loki disse, debochando, encarando Thor, que respirou fundo e pôs-se a contar para Miranda o que acontecera.
*****
Após finalmente ter sabido da invasão de Vanaheim por Hela, em detalhes, Miranda admitiu ter ficado levemente triste pela morte de Freya, e temia pelo destino de Elaine. Provavelmente se foi também... Pensou, com tristeza, enquanto caminhava demoradamente por dentro do túnel de Yggdrasil pelo qual seguia junto a Thor, Sif, os Três Guerreiros e Loki, até a entrada de Nornheim.
A frieza de Loki em planejar tudo aquilo a surpreendia e até a assustava, tanto quanto sua inteligência inenarrável, capaz de prever cada um daqueles detalhes. Não lhe parecia possível que alguém fosse sagaz a esse ponto, que pudesse ser repleto desse brilhantismo enganador que ele tinha. Não é à toa que é o deus da trapaça. Miranda pensou, totalmente admirada por suas capacidades.
Mas, acima de tudo, o detalhe do Brisingamen fora o que mais a chocara. Hela iria atrás dela, aquilo era claro. Loki a usara como isca, e nem sequer hesitara em fazê-lo, e aquilo a destruía por dentro, mais até do que todas as suas maquinações as quais ela não tivera papel algum além de passar como tola, como todo o resto dos Nove Reinos de Yggdrasil.
Não entendo mais nada. Estou até com enxaqueca de tanto pensar.
E agora Thor sabia a respeito do Brisingamen. E, apesar de não estar simpático nem a ela nem a Loki, quando tocara neste detalhe, Miranda reparou que o deus do trovão parecera menos amedrontador e mais aberto a seu respeito, como na conversa do dia anterior. Entretanto, parecia se controlar muito quando em contato com Loki, como se sua maior vontade fosse de quebrar-lhe todos os dentes. Compreensível. Miranda pensou, magoada.
Se isso era o que era reservado para aquela que viria a ser a companheira de Loki, que tipo de sentimento distorcido e doentio ele nutria por ela? Como poderia ser tão egoísta, tão mesquinho a ponto de usá-la a esse ponto? Ao ponto de conseguir oferecê-la como isca na guerra mais perigosa que estaria por vir?
Miranda perguntava a si mesma, sentindo-se imbecil por usar aquelas algemas, e por demonstrar-se sempre aberta e compreensiva para com Loki. Não podia aceitar aquilo. Era a última ofensa que suportaria, traição em último grau, como ele poderia usá-la daquele jeito? Por mais que fosse a única forma, fora ele quem planejara aquilo, ele que sabia que, desde o princípio, a ofereceria de bandeja como distração para a deusa da morte, a inimiga mais perigosa de todos eles, naquele momento.
Eu sou realmente muito burra...
Como poderia um dia sequer ter confiado em alguém que era reconhecido como o deus da trapaça? O deus da mentira?
Como poderia ter vindo a amá-lo?
Miranda, com Sif em seu encalço, caminhava longe de todos. Depois de finalmente saber de tudo, se recusara a olhar nos olhos de Loki novamente, por mais que sentisse seus verdes olhos a procurando, talvez tentando lhe incutir mais uma mentira para fazê-la virar uma peça em suas mãos outra vez. Não mais. Nunca mais. Assim que tudo estivesse terminado, ela tinha decidido. Não poderia mais ficar ao seu lado. Aquilo passara dos limites. Já tivera seu espírito machucado, quebrado quase, se, mais uma vez, se permitisse deixar-se usar, deixar-se ser enganada... Não suportaria mais.
E não haveria pedra da vida que a deixasse inteira.
Ela segurava as lágrimas e os soluços que pareciam inevitáveis. Uma respiração atrás da outra, Miranda se controlava para não desfalecer. Tudo doía. Por dentro e por fora. Como aquilo doía. A destruía por dentro. Corroia suas entranhas, passava pelo seu sangue, por todos os poros, como ácido, como uma substância nociva, destruidora, suja, um veneno para sua alma.
Tinha vontade de morrer, tinha vontade de não ter vivido nada daquilo, e, ao mesmo tempo, não conseguia tirar a imagem do rosto de Loki, seus olhos verdes lhe encarando em seus poucos momentos de sinceridade ao longo daquela jornada, e como aquilo lhe lembrava sempre a expressão doce e encantadora do menino que conhecera em seus sonhos há menos de um mês em Midgard.
Tudo aquilo acontecera em vinte dias, pelas suas contas. Se estivesse em NY, se nada disso tivesse acontecido, seria dia 17 de novembro, e Miranda teria um livro para escrever, um trabalho na redação de uma pequena revista e as visitas ocasionais de Jane para lhe distrair. Mas, ao mesmo tempo... Fora aquela vida que tanto a entediara, a sua vida solitária, a qual ela decidira realmente abandonar. Seguira Loki por sua própria vontade, não mais se sentindo sozinha, sentindo-se em casa, em seu lar, quando estava em seus braços...
E tudo era uma mentira.
Seus olhos imediatamente ficaram marejados novamente, e dessa vez ela não pôde refrear suas emoções a lhe aturdir. Seu coração doía a ponto de explodir, e ela tinha de fazer um esforço sobrehumano para andar um passo atrás do outro. Ela não tinha escolha. Não podia morrer. Tinha de ajudar a proteger a todos, tinha de lutar, caso contrário, todos morreriam.
Tinha de se sacrificar no momento certo, se necessário.
Não será difícil morrer... Se eu de fato nunca tive nada em vida.
Ela fechou os olhos, as lágrimas descendo abundantes por seu rosto. Seus ombros tremiam enquanto ela caminhava, e Miranda não conseguiu mais se conter. Fechou seus lábios em uma linha reta, com toda a força de vontade que lhe restava, mas seus olhos choravam toda a dor que a consumia internamente.
Sif pareceu reparar no pranto de Miranda, pois antes lhe acompanhava duramente, empurrando-a quando ela se demorava demais, e, agora, pareceu virar seu rosto bruscamente em sua direção. A jovem mulher não voltou seus olhos para a bela guerreira, mas reparou que os gestos dela passaram a ser mais gentis. Ela deve entender de dor de amor... Pelo menos não se apaixonou pelo maior filho da puta de todos os Nove Reinos.
Miranda fechou os olhos novamente, querendo descobrir um feitiço para não sentir mais nada, enquanto o grupo alcançou o fim do túnel que os levariam para aquele Reino próximo aos limites de Asgard. Quando abriu os olhos outra vez, viu uma enorme floresta repleta de árvores mortas, com folhas outonais caídas ao chão. Seus pés pisaram aquele chão, e o som das folhas pisoteadas pareciam-lhe com o som de um coração partido.
Parece comigo. Ela pensou, repleta da mais triste ironia, adentrando Nornhein e suas já quebradas promessas.
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