Journey Into Trickery

9 You Make Me Wanna Die - Parte Um


Notas iniciais
Oiê galera! Hoje temos uma notícia excelente! DOIS capítulos num mesmo dia! o/ Êêê tia Menta tá inspiradona! Desde o começo dessa fic eu fiquei pensando sobre como escrever sobre o encontro com a Hela, que é uma deusa muito da sinistra, então precisava ser caprichado. Vamos ter duas partes sobre Helheim, então, com bastante ação, suspense e clima macabro digno da deusa da morte!
Não postei semana passada porque, minhas queridas, eu tenho de pedir a compreensão de vocês nesse aspecto: estou em um período avançado da minha faculdade, tenho que me preocupar com estágio e estudos, então, embora eu AME escrever, nem sempre dá pra cumprir um prazo pré-estabelecido. Por isso, sinto muito por não ter postado semana passada, mas, para compensar, temos dois capítulos para ser lidos nesta belíssima semana que ainda por cima tem feriado! o/
Espero que sejam fofas e comentem nos dois, para minha esplêndida alegria, ehehehe!
E the last but not the least, devo agradecer as lindas Malu Holmes e Arrriba, leitoras muito queridas e maravilhosas que me presentearam com mais duas recomendações! *o* Dez recomendações, galera, isso é que eu chamo de presente dos deuses, eheheheh! Muito obrigada mesmo, minhas lindas.
Saibam todas que, por mais que eu demore, não vou abandonar esta história que me esforcei tanto para desenvolver. =) Espero que continuem acompanhando e gostando, e me fazendo sentir, todos os dias, que minhas palavras são lidas e queridas por alguém. Muito obrigada mesmo! Isso é que é a verdadeira recompensa de um escritor.
Então, muitos beijos e boa leitura!

Take me, I'm alive
Never was a girl with a wicked mind
But everything looks better when the sun goes down
I had everything, opportunities for eternity
And I could belong to the night

Eyes, your eyes
I can see in your eyes
Your eyes

You make me wanna die
I'll never be good enough
You make me wanna die
And everything you love
Will burn up in the light
And everytime I look inside your eyes
You make me wanna die

Taste me, drink my soul
Show me all the thing that I shouldn't know
When there's a new moon on the rise
I had everything, opportunities for eternity
And I could belong to the night

Eyes, your eyes
I can see in your eyes
Your eyes, everything in your eyes
Your eyes

You make me wanna die
I'll never be good enough
You make me wanna die
And everything you love
Will burn up in the light
And everytime I look inside your eyes
(I'm burning in the light)
You make me wanna die

I would die for you, my love
My love
I would lie for you, my love
My love (Make me wanna die)
And I would steal for you, my love
My love (Make me wanna die)
And I would die for you, my love
My love

Will burn up in the light
And everytime I look inside your eyes
(I'm burning in the light)
Look inside your eyes
(I'm burning in the light)
Look inside your eyes
You make me wanna die


The Pretty Reckless — Make Me Wanna Die


A noite caía alta, e Loki, Miranda e Leah haviam escapado escusamente da sala de hóspedes na qual foram alojados pelo Rei Hreidmar, graças à magia antiga e o incrível conhecimento da misteriosa garota de olhos verde esmeralda. O deus da trapaça percebia, em seus gestos levemente ríspidos, palavras mordazes e, principalmente, olhares de esguelha, algo estranho na forma com que aquela aparente criança lhe tratava. Parecia lidar com algum tipo de emoção contida, esta que segundo o deus poderia se assemelhar a raiva, desgosto... Ou algo diferente.


Algo indesejável e curioso, que ele somente havia visto antes nos olhos de Miranda.

De toda forma, não preciso me preocupar com isso. Afinal, ele nem sequer conhecia a menina. E mesmo que a conhecesse, por que deveria levar seu comportamento confuso em consideração? Não era algo que, de fato, fizesse parte de seus planos.

Enquanto Leah e Miranda silenciosamente quebravam o cristal de gelo da caverna de gelo ancestral que ele e a midgardiana antes descobriram em Nidavellir, o deus da trapaça pôs-se a admirar, entre o divertido e o estranhamente orgulhoso, o quanto a jovem mulher havia evoluído. Leah se punha a tentar ditar-lhe alguns comandos para que realizasse um ou outro feitiço, mas Miranda já se adiantava, e, antes que a garota tivesse terminado de falar, os formulava com precisão. Não podia deixar de pensar que, há algumas semanas atrás, ele nem sequer imaginaria que a midgardiana um dia poderia desenvolver poderes mágicos. E, há no máximo dois meses, ele sabia que jamais passaria por sua mente conturbada e amargurada, tentando livrar-se com todas as suas capacidades de seu destino desesperador, que, do dia para a noite, estaria fadado a partilhar seus dias com nada mais do que uma mera humana.

E ele sabia, acima de tudo: jamais, nem sequer por um átimo segundo, por um fio de pensamento imprevisto, Loki imaginaria que poderia descobrir que Miranda não era, e nunca seria, apenas mais uma mera humana.

E agora a fizera dele, e ela seria sua para sempre.

– Poderíamos usar algum tipo de auxílio aqui, se o principezinho não se incomodar em ajudar a plebe. – A voz debochada de Miranda soou quase estridente para os ouvidos de Loki, que mergulhava em seus próprios confusos pensamentos. O deus franziu as sobrancelhas, irritado com o que ele julgava ser um princípio de insanidade e uma grande demonstração de fraqueza de sua parte: ousar pensar, ou, pior ainda...

...Ousar nutrir e sentir tais emoções por Miranda.

– É uma longa estrada pela frente. Talvez devesse aproveitar mais os poucos minutos mais calmos que teremos, de agora em diante. – Loki disse rispidamente, como se agir friamente com Miranda pudesse elevá-lo acima de suas emoções e sublimá-las de forma a fingir que nem sequer existiam. A midgardiana, estranhamente, sorriu.

– Quer me meter medo? Não era você que estava todo preocupadinho quando eu fui lá falar sozinha com o Rei Surtado? Com medo de que meu belo corpo voltasse chamuscado pela lava e pronto para ser banhado com molho barbecue? – Miranda lhe sorriu insinuante, como sempre, mas antes que respondesse à jovem mulher, Leah praticamente interpôs-se entre os dois, evitando olhar tampouco Loki quanto Miranda em seus olhos.

O deus registrou tal estranha ação para análise futura, enquanto escutava a garota dizer entre dentes.

– Achei que eu tinha deixado muito claro a urgência da situação. Se quiserem ver Hela, tem de ser agora. – A menina não aguardou resposta, e saiu a passos largos e firmes da caverna de cristais de gelo. Miranda seguiu-a, fazendo uma careta e levantando os braços, seus cotovelos em um gesto que indicava que não entendia o que se passava. Entretanto, ao vislumbrar certa faísca em seus olhos cor de mel, Loki julgou que Miranda sabia exatamente o porque da garota agir desta maneira curiosa.

Enquanto voltavam ao castelo do Senhor dos Anões, Loki tentava deduzir por qual razão a vassala de Hela daria poderes divinos para uma midgardiana. Aparentemente, a encontrara no passado, mais de uma vez; Loki pudera julgar isso inclusive pela maneira displicente e debochada que Miranda agira com a menina, esta reservada aos conhecidos, apesar da jovem mulher agir como uma lunática independentemente do conhecimento de estranhos. Lembrou-se, entretanto, de um fato curioso.

Quando Miranda fora atropelada, Loki ouvira o que os curandeiros humanos tinham a dizer a respeito de seu quadro de saúde. Aparentemente, a batida não lhe causara grandes danos físicos, porém mentais. O homem curandeiro que conversava com uma desconsolada Jane, naquela específica ocasião, dizia-lhe que Miranda aparentemente entrara em “coma”, palavra esta desconhecida por Loki. Fora compreender mais tarde, ao vê-la em um estado letárgico tão profundo que sequer parecia respirar. Naquele momento, aquela cena lhe fora desesperadora, embora ele detestasse admiti-lo, então não seria capaz de raciocinar friamente como lhe seria devido. Porém, agora, ao recordá-la tão distante, lhe parecia cada vez mais claro...

Ele já vira alguém assim antes. Profundamente adormecido, incapaz de responder a qualquer estímulo externo, aparentemente incapaz de sequer voltar, um dia, a acordar. Porém, após apenas algumas horas, ela voltou a si, sem sequelas posteriores, como se estivesse meramente desacordada.

Toda essa conjunção de fatores não era incomum a Loki. Seguia a mesma descrição do problema descrito pelo curandeiro humano, no qual ele dissera a Jane que Miranda vivia, porém em um mundo quase alheio ao dos midgardianos, profundamente adormecida, perdida em recantos insondáveis de seu pensamento. Segundo a análise do homem em questão, tal situação não fazia sentido, uma vez que os danos físicos não foram graves o suficiente para gerar-lhe tamanha consequência. Dissera a Jane que estudaria o caso com afinco, assim, para dar-lhe respostas mais seguras.

Mas Loki não precisava das tolas palavras de um humano. Ele já entendera.

Ela entrou em uma espécie de Sono de Odin.

Apesar de reconhecer todos os sintomas, Loki não podia deixar de perguntar-se algo mais: se a midgardiana entrara no mesmo processo doloroso que seu pai — no caso, movido pela extrema dor emocional de julgar ter possivelmente perdido Thor, e revelar seu passado a Loki, após anos enganando-o sem aparentar nenhuma culpa por isso – de que meio ela retirara a magia necessária para a realização de tal feito? Humanos médios não poderiam usar do Sono de Odin. Aliás, tal acontecimento era assim chamado porque, supostamente, era uma reação de poder retida apenas por seu falso pai. Loki imaginava que não seria impossível de ser reconduzido a outro ser mágico, se acaso os meios para tanto fossem conhecidos.

E quem mais conheceria magia ancestral de tamanha magnitude?

Os olhos agora vermelhos de Loki não saíam da nuca da discípula de Hela que os acompanhava. Ela era a resposta, tão clara como o cristal de gelo no qual esconderam a fórmula secreta de Surtr. E, no conhecimento de Loki, alguém com tamanho poder, magia capaz de reproduzir até mesmo feitiços reservados ao Pai de Todos... Não poderia ser criança indefesa alguma.

Leah era perigosa, e ele descobriria o que a motivava. E sabia que não tardaria muito.

Com um sorriso enviesado nos lábios, o deus aguardou, junto a Miranda, a recepção tardia pelo Rei Hreidmar. Leah desaparecera, mas Loki podia senti-la perto. A magia emanava daquela falsa criança com uma força que ele temia que o próprio Rei dos Anões a percebesse.

Foram recebidos alguns minutos depois, com insultos e ameaças de morte, mas, ao ver nas mãos da falsa bastarda asgardiana a fórmula secreta que tanto almejava, o anão real se calou, e beijou a mão de Miranda que a segurava. Loki sentiu seu estômago embrulhar-se, desagradado com aquele gesto, mas nada disse.

Seguiram caminho após receberem mais votos de lealdade e de boa viagem, e Hreidmar reassumira sua posição de que apenas aguardaria o chamado para a guerra. Tudo se encaminhara como Loki imaginara, mas agora teria seu desafio maior.

Hela, sem sombras de dúvidas, não era alguém fácil de dobrar. E, provavelmente, sua pequena discípula não seria diferente.

Miranda provocava a pequena garota, que a respondia com rispidez e a mesma sagacidade da midgardiana em suas respostas tipicamente debochadas. Loki reparou que havia certo ar cúmplice entre elas, o que o deixava ainda mais curioso.

Por que motivo à serva de Hela despertaria seu interesse por uma midgardiana? O que teria a ganhar em dar-lhe poderes que, bem ou mal, as colocariam em posições similares? Que tipo de interesse comum poderiam partilhar?

A mente de Loki fervilhava com inúmeras perguntas, mas as respostas ainda não eram claras. Estranhamente, uma parte de si, a qual ele sabia que sempre deveria ser colocada de lado em contrapartida à racionalidade e outros meios mais seguros de se chegar a respostas concretas... Dizia-lhe que tudo era aferido de seu comportamento.

Sua intuição lhe gritava que a resposta estava à sua frente. Bastava abrir os olhos e enxergar.

Ao chegarem a Yggdrasil, Loki ainda não tinha a resposta. Porém, Leah e Miranda continuaram trocando farpas estranhamente amigáveis e ameaçadoras ao mesmo tempo, e a pequena garota não se virou para trás para ter com Loki nenhuma vez. Seria possível...? Loki pôs-se a conjecturar sobre algo que percebia-se cada vez mais claro, mas não lhe fazia sentido.

Eu nem sequer a conheço.

O deus já havia reconhecido a idade ancestral daquela aparente menina. De criança, além da aparência e baixa estatura, de fato não tinha nada. Mas nunca a vira antes, apenas reconheceu-a pela menção que Miranda fizera, e pelo fato de que o mistério a respeito dos súbitos poderes da midgardiana era algo que simultaneamente o interessava e preocupava dia e noite. Ele sabia que estava cada vez mais próximo da resposta, mas, ainda assim, não parecia haver uma ordem racional naquilo...

– Um momento. – Loki disse, antes de continuar. Miranda virou-se antes, olhando-o de forma inquisidora, enquanto Leah ainda mantinha-se ignorando os dois. – Estou falando com você. – O deus ignorou Miranda, e manteve seu olhar fixo na nuca da menina.

– O que quer saber? – A voz de Leah saiu carregada, com uma estranha emoção que se assemelhava à tristeza.

– Que garantia tenho de que não nos entregará a Hela? Não sei quais são seus propósitos, nem tenho ideia do que planeja. É de fato muito mais seguro adentrar os domínios da deusa da morte acompanhado de uma de suas aprendizes, mas isso não significa que confio em você. – Loki disse friamente, aguardando a resposta da garota. Olhou Miranda de esguelha, e percebeu que seus olhos cor de mel voltaram-se nervosamente para a garota que o deus sutilmente ameaçara.

Leah pareceu tremer levemente, e virou-se para ele, subitamente. Seus olhos verde esmeralda tinham uma aparência surpresa e, curiosamente, lhe demonstraram certa... Fragilidade. A todo momento, agia como se estivesse no controle da situação, auxiliando Loki e Miranda como se estivessem posições abaixo de si. Ao olhar para Loki, porém, pareceu-se realmente com a criança que aparentava ser, antes de mudar totalmente de expressão e encarar o deus com frieza, usando de uma voz sibilante e irritada. – Pensei que sua companheira havia lhe dito que pretendo ajudá-los.

– Ela não é minha companheira. É alguém interessada nos mesmos objetivos que eu. – Loki disse sem pestanejar, e sentiu um pequeno nó torcer-se em seu peito, como se negasse as próprias palavras dentro de si. Recusou-se a olhar para Miranda, que se manteve silenciosa.

Leah sorriu, para depois menear a cabeça para os lados delicadamente, como se não acreditasse.

– Digamos que eu também partilhe dos mesmos interesses. – A menina respondeu, de forma tão parecida com a fala de Loki. O deus reparara em seu sotaque similar ao dos aesires e em seu discurso mais formal, tudo muito similar ao que estava acostumado em Asgard. Mas aquilo era incoerente, nunca vira aquela menina ou ouvira falar dela, por que tinham tanto em comum?

– Então jure. Faça o feitiço do juramento. – Loki disse ainda frio.

Leah riu com escárnio. – Jamais juraria algo para uma humana. Eles são fadados à morte, não sou senhora do futuro para arriscar-me por algo tão frágil. – Leah disse como se apenas falasse o óbvio, e Loki reconhecia a racionalidade daquelas palavras. Recusou-se mais uma vez a olhar para Miranda, imaginando sua expressão ao encará-lo naquele momento, agora que ela entendia ainda mais sobre a profundidade de um juramento por magia.

– Não disse para que fizesse o juramento a ela. Faça para mim. Eu sei que sabe quem sou. – Loki se aproximou da menina, que recuou quase imediatamente.

– Eu... Não sei se é uma boa ideia. – Leah olhou para Miranda, sentindo-se claramente acuada.

– Eu achei uma excelente ideia. – Miranda disse, cheia de deboche, e Loki sentiu raiva ao imaginar a expressão de triunfo sarcástico que ela provavelmente portava no rosto, enquanto tinha certeza que o encarava.

– É a única forma de acompanharmo-la. – Loki levantou o rosto alguns centímetros, encarando a menina com superioridade. – Se quiser ter as ordens de sua mestra cumprida, precisará ser pelos nossos termos.

– Eu sei que você não nos machucaria. – Miranda disse, e Loki a olhou curioso, reparando que ela encarava Leah com uma expressão cúmplice. A garota franziu ainda mais as sobrancelhas, e retorceu o rosto em uma careta, antes de responder.

– Tudo bem. Mas ao menos dê-me algum espaço para fazê-lo. – Leah disse, irritada, fazendo um movimento com o rosto para que Miranda se afastasse.

– É impressionante como todos vocês são cheios de não-me-toques. – A midgardiana debochou. – Será que é um efeito colateral de ter poderes? Você acaba ficando fresco?

– Faça como foi dito. – Loki disse, olhando para Miranda e tentando transmitir-lhe o que as palavras não lhe permitiam pelo olhar. Ela semicerrou os olhos, encarando-o com desconfiança, e depois levantou os braços, rendida, com impaciência. Afastou-se alguns passos, e encarou-os um tanto distante.

Leah parecia ainda mais frágil naquele momento. Baixou seu rosto, e a todo tempo desviava o olhar de Loki, trocando a direção de seus olhos verde esmeralda entre o rosto do deus e o chão sem fertilidade que pisavam.

– Então? – O deus já estava impaciente.

– Você disse que eu sabia quem você era... – Leah disse, sussurrando, sua voz aguda e diferente do tom grave e pomposo habitual. — ...Mas e você? Será que você sabe... Quem eu sou? – Suas estranhas palavras não pareciam uma pergunta, e sim uma súplica.

Loki franziu as sobrancelhas, sem compreender. Aquele comportamento confuso e emocional lhe lembrava de Miranda, mas era algo tão destoante e sem sentido, se portado por uma entidade que ele jamais conhecera. Antes que pudesse responder, Leah levou as mãos ao rosto, que havia baixado em um movimento instintivo, impedindo Loki de ver sua expressão após a pergunta, e rapidamente levantou-o de volta. Suas feições arrogantes ali estavam, e ela se aproximou o suficiente para tocar uma das mãos do jotun, e espalmar suas duas palmas juntas.

Leah fechou os olhos, franzindo as sobrancelhas e proferindo palavras em uma língua aesir arcaica que Loki conhecia, e aferiu seu significado imediatamente.

“- Eu, Leah de Helheim, serva de Hela, juro que manterei seguras as duas almas que me acompanharão até os domínios de minha mestra. Sob pena de quebra de juramento, comprometo-me com sua segurança, até que saiam do Reino da Morte, incólumes e protegidos.”

O deus passou a sentir, no lado direito de seu peito, o coração da serva de Hela bater compassadamente. Aquilo lhe trouxe severo desconforto, sem entender realmente a razão por trás.

***

Depois do juramento, o trio seguiu até as proximidades da Árvore dos Mundos que os levariam ao seu destino desejado.

– Seguiremos por baixo da terceira raiz de Yggdrasil. Tenham muito cuidado. Não podemos errar o caminho. – Leah disse, mas Loki já sabia a razão do conselho.

– Não queremos parar na Costa dos Cadáveres, em Náströnd. – Loki sorriu perigoso.

– Precisamente. – Leah disse, baixando os olhos, e falando alguns tons mais baixo. Miranda encarou os dois, franzindo as sobrancelhas e levantando seu queixo levemente, como se aquela interação lhe desagradasse. Não parecia ter se abalado com o frio comentário anterior do deus a seu respeito. Na verdade, agia como se estivesse um tanto... Incrédula. E desconfiada. Loki sentiu vontade de rir, sem entender a razão disso.

– O que tem nesta tal Costa dos Presuntos? – Miranda perguntou, cruzando os braços. – Sou bem familiarizada com a ideia não muito agradável de se livrar de evidências. Não é muito incomum quando você circula por um meio de traficantes e mafiosos. – Ela levantou uma das sobrancelhas enquanto falava desconfiada. – É um lugar onde os poderosos destes tais Nove Reinos vão para jogar fora os corpos que os incriminariam? Pensei que deuses fossem menos falhos do que isso. – A jovem mulher fulminou Loki com o olhar, como se o repreendesse por antecedência.

Loki ignorou a estranha reação e iria pôr-se a explicar, mas Leah foi mais rápida, enquanto fazia um gesto com as mãos que fez com que a terceira raiz da enorme árvore se levantasse o suficiente para que mostrasse mais um dos túneis os quais Loki e Miranda estavam familiarizados a percorrer.

– Níðhöggr é um dragão. A Costa dos Cadáveres é onde passa seus dias, sendo um dos poucos de seus habitantes vivos. – Leah dizia enquanto os outros dois a seguiam pelo caminho tortuoso e íngreme, descendo por baixo de uma das mais antigas terras que havia, levando-os para o submundo, para a morada dos mortos.

– Eu ouvi direito? Dragão? Ele é feito o Smaug, mais true, fala e é viciado em dinheiro e trapaças, ou é que nem os dragõezinhos indomáveis da Daenerys? De qualquer forma, se parecer com os últimos, ia ser maneiro se me chamassem de Khaleesi. Nunca mais ia ter que trabalhar na vida, e eu daria uma rainha mais gata que aquela loira oxigenada. – Miranda comentou suas frases sem sentido, e Leah fez um muxoxo de desdém. Loki se impressionava com a capacidade da midgardiana de sempre dizê-las em qualquer situação, mesmo se estivesse vivendo um momento de risco extremo.

Considerando que não contei para ela o que nos aguarda em Helheim... Loki engoliu em seco, sentindo a maldita pontada de culpa que lhe era usual. Ele sabia que aquilo era necessário para seus fins. Por que, então, o incomodava que estivesse, por vezes, usando a midgardiana da forma que achasse melhor?

– Níðhöggr não se curva a ninguém. Ele é senhor de si mesmo. Por que julga que vive sozinho em um lugar chamado Costa de Cadáveres? – Leah virou seu rosto para o alto e para a esquerda, encarando Miranda que seguia ao seu lado, seus olhos verdes mostrando, estranhamente, repreensão e diversão ao mesmo tempo. Loki fechava a retaguarda, caminhando atrás das duas, podendo vê-las com facilidade.

– Porque ele é uma criatura do metal. Deve curtir essas bandas que pagam pau pra mitologia nórdica, beber vinho fingindo que é sangue, mas na verdade é um emo enrustido, um lagarto grande demais que só quer alguém para escovar suas escamas e dar-lhe muito amor, como todo Pokémon que se preze. – Miranda disse debochadamente, ao final da última frase juntando suas mãos ao cruzar seus dedos entre si e piscando seus olhos exageradamente, tentando forçar um falso ar inocente.

Leah permitiu-se um sorriso enviesado antes de responder. – Eu lhe garanto que ele bebe sangue. E não é nenhum tipo de sangue falso. – Seus olhos verdes brilharam perigosamente na escuridão antes de continuar. – A tradução de seu nome é “devorador de cadáveres”, para a língua que utiliza. Ele rói as raízes mais profundas do mundo, apenas aguardando o momento... A previsão do Ragnarok. O crepúsculo dos deuses. Enquanto isso se alimenta não apenas das raízes, como a de certos cadáveres levados ao seu encontro. – Leah aparentemente pretendia impressionar Miranda, que apenas levantou uma sobrancelha e fez mais uma pergunta.

– Crepúsculo dos deuses? De onde eu venho esse nome não é muito bem quisto. Especialmente se for relativo a Best-sellers...

– O Ragnarok é a guerra final. – Loki interrompeu as baboseiras de Miranda, já levemente irritado. – Há uma antiga profecia sobre o momento em que todos os alicerces do mundo ruirão, e da morte de vários deuses, a ruína de alguns, e a ascensão... De outros. – Seus lábios crisparam-se sutilmente, enquanto a garota Leah continuava olhando para a frente, e Miranda o encarava sem aparentemente entender.

– Quer dizer que até vocês parentes do He-man acreditam nessa história de fim dos tempos? – Miranda forçou um sorriso falso, mas Loki sabia que ela ficara um tanto ansiosa. – Nem mesmo vocês são satisfeitos com seus templos e palácios, e precisam fantasiar com a destruição da vida como conhecem... – Loki faria menção de responder-lhe e explicar-lhe mais a respeito, mas Leah fez um som sibilante sem olhar para nenhum dos dois, indicando que deveriam fazer silêncio.

– É melhor que paremos de conversar agora. Não seria nem um pouco agradável se o que nos aguarda lá embaixo perceba nossa presença. E o silêncio talvez não seja garantia alguma. – Leah disse de maneira macabra, caminhando um pouco mais rápido. Miranda franziu as sobrancelhas e apertou o passo para acompanhá-la em seu ritmo, seus passos ecoando de forma agourenta naquele túnel cavernoso quase sem iluminação alguma, não sem antes soltar alguma de suas típicas frases.

– Estamos indo pra onde? Para as Minas de Moria? Se tiver orcs lá embaixo não tem problema nenhum, já treinei com aqueles Gollums em Spartalfheim, sei bem como me virar. – Ela sorriu presunçosa, enquanto Leah corrigia, sibilando entre dentes, a pronúncia errada.

– Svartalfheim. E não haverá elfos escuros lá embaixo. Nenhuma das criaturas que já viu antes. – Leah disse, enfastiada.

– Se não há monstros, não tem problema nenhum, ué. Quem é que vai estar lá que eu devo temer? Meu tio Henry, que me obrigava a escutar conversas do tempo do quartel nas festas de família?

– É melhor que não saiba. – Loki se adiantou, antes que Leah pudesse responder-lhe. A garota nem sequer virou para encará-lo desta vez, apenas moveu seu rosto em direção a Miranda, ao seu lado esquerdo, enquanto portava um sorriso malicioso.

A midgardiana abriu a boca pretendendo impôr-se e protestar, mas Loki segurou rapidamente sua mão, sabendo que o gesto a agradaria.

– É realmente melhor não falarmos mais nada. Isto é, se quisermos sair vivos dos domínios de Hela. – Miranda encarou rapidamente a mão que ele havia segurado, e depois levantou seus olhos cor de mel até seu rosto. Olhou de Leah para Loki, rapidamente, e, sem dizer mais nada, seguiu a menina para dentro do covil da Morte.

***

Após horas de caminhada madrugada adentro, descendo cada vez mais fundo nos mais abissais subterrâneos do mundo, Loki surpreendia-se com a quantidade de tempo que Miranda conseguira manter-se calada. Talvez fosse bom se essa menina nos acompanhasse mais vezes. Assim que eu descobrir o que pretende, é claro.

Entretanto, apesar da ligeira surpresa, ele compreendia as maiores razões para a jovem mulher agir como agia agora. Miranda era humana, e partilhava, apesar de seus recentes poderes doados por Leah, as mesmas fraquezas de um midgardiano. Suas fraquezas eram evidentes, e iam desde a dificuldade ou até impossibilidade de adaptação à temperaturas muito baixas ou elevadas, ou o inegável desconforto e até mesmo desespero capaz de tomar-lhes quando temerosos.

Loki sabia que ela era orgulhosa demais para admitir, mas via-se sua fragilidade em sua respiração agora mais fraca e irregular, deixando claro que ela estava tiritando de frio. Sua boca levemente entreaberta soltava pequenas baforadas de ar quente, enquanto seu queixo tremia. Pudera, Helheim era localizada em profundezas ainda maiores que as de Svartalfheim, embora não fosse tão úmido e claustrofóbico quanto este. O deus sentiu vontade de dizer-lhe que conjurasse uma capa de frio, uma veste mais quente, mas sabia que isso geraria desconfiança aos olhos de Hela. Miranda deveria ser e pensar como Hale, a bastarda asgardiana que interpretava, e os aesires não são tão fracos quanto os humanos, até mesmo os que não são deuses.

Mas o frio era quase irrelevante. Loki sabia que Leah mentira, apenas para que Miranda não despertasse mais atenção do que seria inevitável. O silêncio não os protegeria de nada. Os habitantes de Helheim poderiam estar acostumados à presença de Leah, mas não a de Loki ou da jovem humana. Especialmente a de Miranda.

Se antes do sopro de Hela a jovem mulher já partilhava com a deusa de seu toque, dom este evidenciado pela capacidade que tinha de comunicar-se com os mortos, mesmo que apenas em seus sonhos, agora ela seria um perfeito chamariz para tudo o que rondava e assombrava aquelas profundezas. Seria um banquete para eles, uma caça apetitosa, o deleite dos deleites. Mas ele não poderia dizer-lhe a respeito, de nada a ajudaria, e talvez a fizesse desistir de acompanhá-los. E Loki não poderia se dar ao luxo de ter seus planos frustrados, ainda mais agora que as peças apenas haviam começado a andar como o jogador previra.

Mas, estranhamente, apesar de reconhecer tudo isto racionalmente, ele sentia seu coração acelerar-se tal como no dia em que ela fora ter, sozinha, com Surtr. Mais uma vez ele a levava para o perigo, sem realmente poder garantir-lhe que sairia ilesa. E enojava-se consigo mesmo ao perceber que tal pensamento causava-lhe inegável desconforto.

Leah, subitamente, virou-se para eles, que a seguiam mais atrás, e fez um gesto com a palma da mão para pedir-lhes que parassem. A menina apontou para frente, e Loki aproximou-se alguns passos, o suficiente para ver uma quase invisível iluminação azulada e esverdeada, não muito mais clara do que a escuridão que os acompanhara por quase todo o túnel.

Haviam chegado ao Reino da Morte.

Miranda aproximou-se de Leah, abaixando-se para ver além da saída do túnel. Loki viu a jovem mulher engolir em seco com a visão que seus olhos tiveram.

Ainda mais embaixo, por uma descida íngreme e irregular de rochas esculpidas na terra, as quais teriam que descer confiando em sua agilidade e tato, havia um gigantesco lago que mais se assemelhava a um mar escuro, cujas águas não tinham movimento algum. O teto acima deles não era visível, apenas algumas pequenas ilhas de rochas pontiagudas e inférteis que subiam acima do lago em questão, sem haver nenhum tipo de presença viva por perto. Era um cenário desolador, melancólico, e, acima de tudo... Sobrenatural. Até mesmo para Loki, o deus da trapaça, aquele ambiente não lhe deixava muito confortável. A sensação de mau agouro pairava sobre tudo e todos, evidenciada por aquela estranha água que permeava tudo o que podiam ver, engolfando até o horizonte mais distante. Cada pequeno pedaço de terra, rocha e líquido pareciam... Mortos.

O deus podia imaginar o medo que corroia Miranda por dentro, e imaginava que teria de ajudá-la a encontrar forças para continuar. Entretanto, curiosamente, a jovem fora a primeira a atravessar o fim do túnel, descendo pelas rochas íngremes o melhor que suas recém habilidades adquiridas junto à sua incapacidade de midgardiana permitiam. Leah seguiu-a rapidamente, e, em segundos, pulando sem dificuldades pelo terreno pedregoso e afiado, chegou à superfície arenosa que os aguardava lá embaixo, em uma espécie de praia em volta daquele lago enorme.

Loki viu seus olhos verde esmeralda a distância, e adiantou-se para seguí-la. Ainda não descobrira as reais intenções da menina, e não seria tolo o suficiente para dar-lhe qualquer vantagem que pudesse. Sabia que ela não poderia trair o juramento, sentia os batimentos cardíacos de seu coração junto aos seus, em seu peito, mas ainda assim... Ele era o deus da trapaça. Estava sempre preparado para lidar com mentiras e traições.

Ou até mesmo formulá-las.

Em pouco tempo, Loki havia descido as rochas. Ao descer até a última que o separava do terreno próximo ao lago de Helheim, havia uma queda vertiginosa de mais de vinte metros. Sabia que com a força de Hela, Miranda seria capaz de completar o salto sem nenhum tipo de sequela decorrente. Mas ela era humana, e, como humana, vivia sempre o constante receio de ferir-se... O receio da morte.

Ele e Leah aguardaram enquanto a midgardiana descia desajeitadamente, evitando o máximo que podia usar de seus poderes e saltar as rochas sem dificuldades. Apesar das recentes forças, Miranda ainda permitia que sua fragilidade humana evitasse o pleno desenvolvimento de suas capacidades. Loki ainda teria de treiná-la melhor nisso, antes de tudo aquilo terminar.

Ao chegar quase se arrastando na última rocha, Miranda olhou para baixo e mordeu o lábio inferior, claramente preocupada com a queda que estava por vir. Ela equilibrou-se o melhor que pôde acima da superfície pontiaguda da pedra, e pulou desajeitadamente até o chão, fechando os olhos com força.

Quando provavelmente sentira a vertigem da queda livre, a jovem mulher não pôde se controlar. Miranda soltou um rápido grito agudo, não durando nem um segundo antes de atingir o chão sem ferir-se, mas fora o suficiente. O som estridente ecoou por toda Helheim, e Loki levou a mão direita ao rosto, respirando fundo e fechando os olhos para concentrar-se em controlar a própria raiva.

Ao abrir os olhos, o deus viu Miranda aproximando-se com as mãos em concha, como se implorasse, sua boca movendo-se em um repetido pedido de desculpas silencioso. Ao seu lado, Leah também estava de olhos fechados, respirando fundo. Em seguida, acalmando-se, a pequena menina olhou para o grande lago que ali havia, seus olhos verde esmeralda brilhando sombrios na escuridão levemente iluminada por luzes opacas esverdeadas e azuladas, refletidas em suas íris de cor similar.

– Agora já foi feito. Eles sabem que estamos aqui.

Notas finais
Reviews, hein, minhas lindas? Tô escrevendo a parte dois e posto logo, logo!