Journey Into Trickery
10 You Make Me Wanna Die - Parte Final
Notas iniciais
Neste capítulo teremos finalmente o encontro com Hela, e isso dará margens a certo mistério na história de nosso querido protagonista. Miranda enfrentará uma grande dificuldade emocional, e Leah provará para que lado está jogando.
Devo dizer que a Hela não é filha do Loki nesta fic, eu preferi mudar isso para escrever algo que será bem importante pra trama daqui a alguns capítulos. As boas entendoras serão capazes de sacar, eu acho, com as "meias palavras" deste capítulo. ;)
Então, muitos beijos e boa leitura, suas lindas!
Leah guiava o grupo, silenciosamente, pela pequena praia circundada pelas águas estranhamente imóveis do grande lago de Helheim. Loki ainda estava irritado pelo descuido de Miranda, mas não era isso o que mais o assustava.
O deus reparara, graças ao juramento da serva de Hela, que seu “segundo coração” havia se acelerado quase imperceptivelmente. Não tinha certeza, entretanto, se isso ocorrera por culpa da atitude estúpida de Miranda, ou apenas pelo fato de que se aproximavam de seus objetivos. Ele sabia muito bem onde estavam, e sabia que, agora, seguiam um caminho o qual não poderiam escolher retornar.
O rosto da pequena garota aprendiz da deusa da morte movia-se, lentamente, encarando as diferentes direções circundadas por aquele grande lago. O deus sabia o que esperavam, e, ao mesmo tempo, imaginava que tudo levaria a esta inevitável escolha. Sabia o quanto aquilo era perigoso para Miranda, mas não haveria outra forma de encontrarem-se com Hela.
Ao menos, agora, tinha a garantia de que não poderiam ser traídos por Leah. A não ser que ela, também, desejasse a própria ruína.
Loki, instintivamente, voltou seus olhos para a jovem mulher ao seu lado. Miranda abraçava a si mesma, evitando olhar para qualquer um de seus companheiros, tiritando de frio com a baixíssima temperatura de Helheim. Seus olhos encaravam o início do enorme lago que os rodeava, mas, estranhamente, ela não parecia aparentar o medo que Loki julgara que sentiria.
O deus imaginara que, se Miranda sentira-se tomada pelo terror em Svartalfheim, influenciada pelos elfos das trevas que se alimentavam do pavor dos humanos, provavelmente enfrentaria seu maior desafio em Helheim, onde a morte se refletia em cada detalhe que ali havia, até mesmo nas águas que jamais se movimentavam. Curiosamente, porém, ele percebia sua respiração entrecortada, e a expressão de ansiedade em seu rosto. Mas ela não parecia assustada, não da forma como a vira no Reino dos elfos escuros. Parecia determinada, como se aguardasse ferrenhamente por algum tipo de acontecimento. Aquilo lhe surpreendera, e lhe fizera pensar que a midgardiana, talvez, fosse ainda mais forte do que ele imaginava.
Leah sussurrou em meio à escuridão fracamente iluminada, cortando o fluxo de pensamentos livres de Loki.
– Estamos, agora, em frente a uma das margens do rio Nastronol. Não podemos seguir sem ajuda, pois não é aconselhável que toquemos a água que nos rodeia. – Loki entendia muito bem por que. – Por isso aguardaremos a chegada do Barqueiro. Graças ao seu grito, ele muito em breve virá para saber quem são os recém-chegados. – Leah disse a última frase virando-se para encarar a jovem mulher que se permitira falhar tão gravemente, suas feições mostrando uma expressão irritada e debochada ao mesmo tempo.
– Puta que pariu, aquela rocha tinha mais de vinte metros de altura! Eu não estou acostumada a me suicidar, sinto muito. – Miranda disse, entre dentes, sussurrando irritada de volta, enquanto franzia as sobrancelhas. Subitamente, sua boca abriu-se levemente, enquanto seu rosto moveu-se rápido para trás, como se subitamente tivesse compreendido algo. – Espera. “Barqueiro”? Eu já ouvi isso antes. – Ela levou a mão fechada em punho até o rosto, mordiscando seu polegar, enquanto parecia especular a respeito. – Eu não entendo quase nada de mitologia nórdica, apesar de gostar de literatura de fantasia medieval, mas todo mundo conhece alguma coisa de mitologia grega... E eu lembro disso. Eu lembro que nas terras de Hades havia um rio enorme, o rio do infortúnio, que tinha uma espécie de barqueiro para levar as almas recém-chegadas... O barqueiro era Caronte, e o rio Aqueronte. Isso... Isso é a mesma coisa? – Miranda perguntou, seus olhos se arregalando consideravelmente.
– Os midgardianos criavam mitos e lendas para explicar verdades que sabiam que seu povo duvidaria ou até acharia impossível de serem reais. Por meio destes mitos, muito se perdeu, ou foi fantasiado. – Loki disse com a voz carregada de desprezo pelos humanos.
– Digamos que é basicamente o mesmo. O que quer dizer que: se preza pela própria segurança, mantenha-se o mais silenciosa possível, e, acima de tudo: JAMAIS toque na água. – Leah os interrompeu, falando rápido e levando o dedo aos lábios como que pedindo silêncio. – É realmente melhor evitarmos todo o tipo de conversa. – Ela disse, adotando uma postura repressora, como se falasse com uma criança.
– Mas foi você quem começou a falar... – Miranda respondeu, e Leah voltou-se rapidamente para ela, fuzilando-a com um olhar furioso e abrindo as mãos como se ordenasse que fosse mais precavida.
A jovem mulher revirou os olhos, e mais uma vez levantou os braços em rendição, seus lábios movendo-se e formando as palavras silenciosas “foi mal, então”.
Passaram-se alguns minutos, e os três aguardaram, sem proferir som algum, a chegada do Barqueiro. Loki ainda não compreendera os motivos de Leah em ajudar-lhes, e agora, tinha ainda mais uma pergunta a ser solucionada. O que motivava Miranda o suficiente para que não se assustasse perante as terras da Morte? Aquilo não lhe fazia sentido algum, posto que não havia outro Reino mais ameaçador dentre todos os Nove Reinos de Yggdrasil. Miranda deveria estar assustadíssima, mas, a cada minuto que se passava, parecia mais e mais determinada.
Loki percebeu uma movimentação soturna em um ponto próximo ao local onde se encontravam, e, pouco a pouco, os três foram capazes de ver os contornos de uma comprida canoa de madeira que se aproximava, e um vulto ao longe fazendo os movimentos de remada necessários para que chegasse ao seu destino.
Leah remexeu em seu vestido verde esmeralda, da mesma cor de seus olhos, e tirou uma curiosa moeda dourada que se refletiu em meio ao brilho sobrenatural verde-azulado que ali havia. Ela a remexeu entre os dedos, e o deus da trapaça viu as duas faces diferentes: em uma, via-se o rosto de uma belíssima mulher, e, na outra, uma caveira putrefata.
Há quanto tempo não nos vemos, Hela. Acho que seus sentimentos por mim se mantêm os mesmos. Loki sorriu maliciosamente, lembrando-se de acontecimentos passados.
Assim que o Barqueiro parou a pequena embarcação próxima o suficiente para que não precisassem tocar nas águas do Nastronol ao juntarem-se a ele, Leah moveu-se sem dificuldades para dentro da canoa, entregando ao aparente homem a moeda que permitiria sua passagem. O Barqueiro usava uma capa de viagem ainda mais escura que a de Loki, com um capuz que cobria completamente suas feições e membros. Porém, ao receber de Leah a moeda, ele virou-se para os dois tripulantes que ainda não haviam subido à canoa, e levantou o capuz o suficiente para que pudessem ver seu sorriso. Miranda segurou a respiração, enquanto Loki deu um sorriso enviesado, pois já predissera a visão que tiveram de seu rosto.
Ao invés de pele e lábios, puderam ver os ossos à mostra da face de uma caveira, com dentes abrindo-se arreganhados e apodrecidos em seu sorriso inflexível, rígido, sem alegria. A face da morte.
Loki fez um aceno para que Miranda entrasse antes. Sabia que ela não confiava ainda nas próprias capacidades, e era melhor entrar por último caso houvesse a necessidade de ajudá-la. Estranhamente, ela subiu à embarcação sem dificuldade alguma, e sentou-se do lado de Leah encarando as águas do Nastronol, respirando profundamente. Parecia, mais do que nunca, aguardar que algo acontecesse.
O deus da trapaça pulou elegantemente para o lugar restante, e o Barqueiro pôs-se a remar.
– Minha mestra os aguarda. – Leah sussurrou para o Barqueiro. – Leve-nos com urgência até ela.
***
A canoa seguia pelo rio Nastronol, que mais se assemelhava a um enorme lago pela sua falta de movimento e de vida, balançando-se perigosamente de um lado para o outro. Os três tinham de tomar muito cuidado para que a água não respingasse em sua pele, sempre alertas para qualquer possível movimento em falso da embarcação.
Quanto mais avançavam para dentro de Helheim, mais os tripulantes podiam escutar e perceber ruídos, visões e manifestações um tanto... Incomuns. Passaram por rochas pontiagudas, saindo perigosamente das águas escuras do Nastronol, por ilhas desoladas em meio aquele rio que parecia infinito, e, curiosamente, quanto mais adentravam os domínios de Hela, mais sentiam seus próprios olhos perderem-se em meio a escuridão, uma vez que a fraca luz verde-azulada diminuía cada vez mais, quando antes brilhava mais forte na saída do túnel de Yggdrasil. Loki tinha ciência de tudo que poderia encontrar naquelas terras, mas Miranda não fazia ideia. O deus passou boa parte do tempo estudando as reações da midgardiana, e encarando Leah para tentar descobrir se daria algum tipo de pista do que realmente pretendia. Mas ele sabia que, mais cedo ou mais tarde, a presença deles seria sentida. Especialmente a de Miranda.
Ao passarem por um determinado ponto, começaram a ouvir sussurros quase inaudíveis. Pareceriam tão baixos, para um leigo, que poderiam se confundir com peças que a própria imaginação de alguém assustado poderia pregar contra si mesmo. Mas Loki sabia que aquilo era apenas o início.
Leah parecia indiferente ao que acontecia, assim como o Barqueiro, que remava indefinidamente. Mas ele viu Miranda juntar suas mãos uma contra a outra, apertando-as devagar. Conseguiu ver o suor frio que banhava as palmas dela escorrer de leve pelo polegar da mão direita, e começou a sentir-se ainda pior pelo que a fazia passar. Apesar de não se importar com o significado daquelas vozes, que não o atingiam de forma alguma, aquilo sim o perturbou de verdade.
Continuaram avançando, e as vozes tornaram-se cada vez mais altas. Sussurros plenamente audíveis, dizendo frases ainda incompreensíveis, com diferentes emoções. Alguns pareciam raivosos, outros, angustiados, outros, desesperados, e alguns até mesmo melancólicos.
Leah levantou o rosto e encarou Miranda, como Loki já o vinha fazendo há algum tempo. A jovem mulher respirava rápido, e seus olhos pareciam não se fixar em ponto algum, como se todo o seu ser se concentrasse em algo que se passava em seus pensamentos. Sentiu o estranho ímpeto de dizer-lhe que nada lhe aconteceria, mas sabia que aquilo não era verdade, e sentiu a mesma sensação ruim que aflorara dentro de si manifestar-se ainda mais fortemente. Loki franziu as sobrancelhas, e desviou o olhar de Miranda, querendo lutar contra o que sentia. Leah ainda a encarava, como se quisesse se certificar de que não faria nada... Impensado.
Subitamente, a canoa balançou perigosamente como se movida por uma força externa. Como se algo – ou alguém – debaixo da água, tivesse tentado atingir sua superfície de madeira, fazendo com que todos quase fossem atirados para a imensidão das águas do Nastronol.
O Barqueiro parou de remar por alguns segundos, e todos os tripulantes aguardaram o que aconteceria. Não era possível ouvir mais sussurros ou até mesmo a respiração do grupo, perdidos em meio a um silêncio agourento e fúnebre. Passados alguns momentos de silêncio, o espectro que os levava passou a remar outra vez, enquanto o deus da trapaça inevitavelmente olhou para a jovem mulher novamente. Miranda levantava o rosto, fechando os olhos, como se estivesse muito concentrada em algo. Loki podia sentir sua ansiedade, e moveu devagar sua mão direita para alcançar a mão esquerda dela. Sabia que aquele gesto só evidenciava sua fragilidade, e não passava de uma enorme tolice, ainda mais na frente de estranhos como Leah e o Barqueiro, mas ele sentia como se não pudesse mais ver Miranda aparentando tamanho sofrimento.
Antes que a tocasse, porém, os sussurros começaram outra vez. Cada vez mais altos, como se gritassem murmúrios. Miranda levou as mãos aos ouvidos, apertando-os com força, e fazendo uma expressão angustiada como se segurasse o próprio choro. Os sussurros pioraram em intensidade, e Loki encarou Leah, como se lhe perguntasse silenciosamente se havia algo a fazer. Ela o olhou indiferente, e meneou brevemente a cabeça.
Ao olhar outra vez para Miranda, ela respirava ainda mais rapidamente, balançando-se, junto com o movimento da canoa, para frente e para trás. Seus olhos estavam cerrados fortemente, suas feições movidas em uma expressão de pura dor, enquanto os murmúrios, agora, eram passíveis de serem compreendidos.
“- Ele me matou, descobriu que o roubei e assassinei sua mulher, ele me matou, mas me torturou antes. Arrancou cada um dos meus dentes, colocou lâminas por baixo das minhas unhas, e eu implorei para morrer. Não deveria ter sido assim. Eu quero vingança. EU QUERO VINGANÇA.”
“- Não me arrependo. Foi tão gostoso. Uma bocetinha de doze anos, seu ânus era tão apertado, a pele tão quente e macia, foi uma delícia vê-la gritar até perder a voz, chorar tanto, não achei que fosse aguentar tantas estocadas antes de morrer... Nunca me arrependerei, nada se compara em prazer.”
Leah parecia nem se importar, como se estivesse acostumada a ouvir aquelas vozes. Loki, apesar de levemente incomodado pelo que diziam, sentia-se muito mais perturbado pela reação de Miranda. Ele sabia que aquilo aconteceria.
O Rio Nastronol afogava as almas dos espectros que foram infelizes por agirem de maneira perversa em vida, segundo suas próprias escolhas. Em Helheim havia também os espíritos dos que morreram por doença ou sem glória, mas tinham um espaço reservado a eles, no qual não mais sofriam. Entretanto, para as almas sem luz, estas eram levadas ao rio da Morte, para afogar-se em suas mágoas até que pagassem pelos seus pecados e pudessem ter seus espíritos novamente libertados e iluminados.
Todos os sussurros e maldições que ouviam pertenciam a estes espíritos, e Leah e Loki eram capazes de ouvi-los sem sentirem-se amedrontados ou acuados, por conta seus poderes elevados que vinham desde o berço. Eram entidades superiores. Miranda, entretanto, não passava de uma midgardiana que, para piorar seu quadro facilmente impressionável, recebera o dom de comunicar-se com os mortos. Estes percebiam sua fragilidade e sua capacidade. Seus poderes eram como um ímã, pois aqueles espectros a veriam como igual, não como um espírito superior, e a única capaz de ouvi-los.
Eles a enxergavam.
A mão de Loki estava a centímetros de tocar Miranda, quando ela subitamente voltou-se para a água, abrindo finalmente os olhos. Foi um enorme erro.
No momento em que encarou a superfície do Nastronol, a luz verde-azulada que banhava Helheim pareceu acender-se nas profundezas daquelas águas sempre escuras. Apesar do rio não se movimentar, graças à luz que fora subitamente acesa, como um fogo queimando em meio à escuridão, a atenção de todos aqueles espíritos foi atraída para a mulher que havia dentro da canoa.
Em segundos, vultos e mais vultos surgiam das profundezas do rio, distorcidos pela água que impedia sua clara visão, suas mãos espectrais abertas como garras buscando uma presa fora da superfície do rio. Miranda comprimiu um gemido de terror, levando as duas mãos aos ouvidos, e balançando-se perigosamente para a frente e para trás, quase tocando a superfície da água. Parecia querer fugir dali, fugir de si mesma, quase descontrolada.
Seus olhos arregalados não pareciam mais ser capazes de se fechar novamente, enquanto seu queixo tremia cada vez mais, e Loki sabia não ter relação alguma com o frio de Helheim. Ele dependia de um único movimento, ou todos os tripulantes do barco estariam fadados a um destino cruel. Sabia que aquilo era incrivelmente perigoso para todos, e ainda mais para Miranda, e que não havia maneira de evitar o que ela sentia.
“- Preciso de ajuda. Preciso que o mate por mim. Ele me traiu, então eu matei sua amante. A matei com prazer, cortei cada pedaço do seu corpo, enquanto ela gritava de dor, amarrada, incapaz de se mexer, e eu nunca ouvi melodia mais doce. Quando descobriu o que fiz, me sufocou antes que eu pudesse me livrar dele também. Preciso que o mate. Você vai matá-lo. Se não o fizer, eu te levo comigo.
Sei que está me ouvindo.”
A mão espectral do espírito sem luz saiu furiosa de dentro das águas, suas unhas compridas preparadas para rasgar o rosto de Miranda e levá-la junto consigo. Loki puxou a midgardiana para trás com todas as forças que tinha, fazendo a canoa balançar perigosamente uma última vez, caindo sobre sua superfície de madeira e imobilizando a jovem mulher. A água respingou para dentro do barco e atingiu a capa de Loki, que foi corroída no mesmo instante nos pontos que o Nastronol banhara, como se o líquido fosse tão corrosivo quanto ácido.
Loki ainda segurava Miranda, que tremia dos pés a cabeça, soluçando baixinho. Lágrimas desciam de seus olhos cor de mel que encaravam o céu de Helheim, como se nada vissem. O Barqueiro continuava a remar, como se nada tivesse acontecido, e Leah continuava silenciosa.
Passado algum tempo, Loki sentiu que Miranda recompunha-se, pouco a pouco, e foi soltando-a devagar. Ela respirava profundamente, como se tivesse acabado de fazer um longo exercício, que tomara grande parte de suas forças.
– É aqui que devem desembarcar. – O Barqueiro disse com sua voz macabra, e Loki sentiu um arrepio desagradável subir-lhe pela espinha. Leah foi à frente do grupo, indicando-lhes o caminho, e Miranda, antes que Loki pudesse sequer fazer menção de ajudá-la, levantou-se rapidamente, como se o que mais desejasse fosse deixar aquele rio para sempre.
O rosto da jovem mulher portava uma expressão não mais assustada, mas sim, profundamente triste e angustiada. Loki não entendia aquela reação. Nem sequer conhecia aqueles espíritos, por que se sentiria tão sensibilizada?
Após serem guiados por algum tempo por Leah, esta se virou e encarou Miranda com feições mais gentis no rosto. Parecia ter entendido o que se passava.
– Estamos seguros aqui. Aquelas almas estão fadadas a penar no Nastronol até que seus espíritos iluminem-se o suficiente para que possam libertar-se e ficar em paz. Não podem mais nos atingir. Te atingir. – Ela olhou Miranda com certa compaixão em seus olhos verde esmeralda.
A jovem mulher concordou, balançando devagar a cabeça, como se quisesse conter a tristeza que a engolfava. Loki ainda não entendia, e encarou Leah, que ainda olhava Miranda com certa pena.
– Ele não está aqui. Não precisa se preocupar. – Leah disse, devagar e cautelosa. – Ele já morreu liberto. Jamais estaria com aqueles. – Leah sorriu brevemente, e os grandes olhos cor de mel de Miranda pareceram brilhar levemente.
– Mas não poderá vê-lo. Sinto muito. Não posso levá-la até onde ele está. Não até que seja... Chegada a hora. – Leah disse tristemente, e Loki sentiu-se estúpido por não ter percebido antes.
Era por isso que Miranda parecia tão determinada a encarar os terrores de Helheim. Por isso aparentara perder-se em pensamentos, ensimesmada. E também fora o motivo para o qual as almas do Nastronol tenham lhe aturdido de tamanha maneira, pensando que ele poderia estar ali, sofrendo as mesmas agruras.
Miranda esperara encontrar a alma de Jimmy, de seu falecido irmão, no mundo dos mortos.
Loki sentiu algo quente subir pelo peito, e, ao mesmo tempo, certa angústia descer-lhe pela garganta. Por que ela se importava tanto com um irmão que nem era seu irmão de verdade? O que motivava tamanhos sentimentos, verdadeiras fraquezas, capazes de deixá-la assim tão abalada?
Se fosse Thor condenado ao Nastronol, Loki nem sequer se importaria. Passaria com um sorriso no rosto, feliz pelo destino de seu falso irmão. Era o que mereceria.
Ou era isso o que gostaria de acreditar.
Sem que pudesse se controlar, a imagem de Thor criança tomou-lhe os pensamentos. “Isso poderia ser o paraíso, irmãozinho.”
Odiando a si mesmo, Loki sentiu o calor que havia subido ao seu peito apenas aumentar.
***
Leah levou-os silenciosos até uma pequena formação montanhosa. As terras de Helheim eram mortas, e ali não crescia grama, flores ou vegetação de qualquer tipo. Era apenas terra infértil e arenosa, sem sequer sinal de fauna ou flora. Nunca havia sol, ou nuvens, apenas a luz fantasmagórica verde-azulada para banhar a noite eterna, e uma névoa fria e acinzentada como os espectros que ali habitavam.
Caminharam alguns metros, e Loki reconheceu a moradia da deusa da morte. Um enorme palácio negro, construído com pedras negras e afiadas como as que encontraram após a saída do túnel que os levara a Helheim, dispunha-se alto e inexpugnável acima daquela superfície perigosamente íngreme que se aproximavam.
– Esta é Elvidner, onde Hela reside. – Leah disse. – Em breve seremos recepcionados.
O grupo mantinha silêncio, como se estivesse, ironicamente, em um momento de luto. Em pouco tempo, puderam ver a aproximação de uma figura tão baixa quanto Leah, porém de cabelos curtos e roupas masculinas. Quando chegou mais perto, reconheceram traços do que parecia ser uma criança do sexo masculino, magra e melancólica.
– Atraso, avise aos outros que Precipício precisa ser aberta. – Leah disse friamente. – Os convidados de nossa Senhora aguardam para ter sua conferência.
– Então são eles quem ela procura? – Atraso, um dos criados de Leah, olhou para o jotun e para a midgardiana, sorrindo debochado. Parecia desprezá-los.
– Não cabe a nós julgarmos os motivos de Hela. Sabe muito bem disso. – A menina disse em tom de repreensão, e o garoto sorriu dissimuladamente.
– Certamente. Venham comigo, senhores. – Atraso os saudou com alguma polidez, e fez um movimento com uma das mãos para indicar que o seguissem.
Seguiram uma trilha feita em meio à terra infértil, até chegarem a um enorme abismo o qual não havia maneira possível de atravessar. Atraso proferiu algumas palavras em aesir antigo, reconhecidas por Loki.
“- Pela vontade de Hela, desçam a ponte.”
Em segundos uma enorme ponte levadiça desceu, permitindo que o grupo avançasse com segurança. O deus encarou Miranda, para reparar se estava apta a encontrar Hela, e a viu olhando quase sonhadoramente para o abismo sem fim que os rodeava. Talvez seja mais corajosa do que antes julguei. Loki pensou, para depois reprimir-se a si mesmo.
Uma vez atravessada a ponte, estavam dentro de Elvidner. A porta de Hela chamava-se Precipício, e já havia sido cruzada. Agora, bastava seguir até os aposentos em que a deusa da morte desejava encontrá-los.
Atraso virou-se para os forasteiros e Leah, e disse, sorrindo de maneira dissimulada. – Vagareza os levará de encontro a minha senhora. Tenham uma boa madrugada. – Atraso os cumprimentou com polidez, e seguiu em meio ao enorme salão que se abrira para eles, até sumir de vista.
Em pouco tempo, uma velha encurvada se aproximou do grupo. Tinha um olho maior do que o outro, ambos negros como a escuridão que os permeava, e aparentava ser corcunda. Movia-se tão devagar que mais parecia, ironicamente... Morta.
Sua voz aguda e idosa impôs-se desagradavelmente acima do silêncio.
– Bem-vindos, meus jovens. Hela os aguarda. – Com dificuldade, a velha levantou um candelabro que segurava, e passou sua outra mão por cima das velas, que se acenderam pelo gesto. Em seguida, a idosa levantou o indicador, sorrindo seu sorriso de dentes amarelos, e moveu seu dedo para frente e para trás, expondo uma unha quebradiça e amarelada, em um gesto para que a seguissem.
Acompanharam Vagareza em uma escadaria central de degraus branquíssimos, que estalavam de uma maneira desconfortável com o peso dos visitantes. Loki sabia do que aquilo era feito, mas não perturbaria Miranda contando-lhe. Apesar de julgar que, pela expressão enojada que fazia, ela aparentava ter percebido, pisando tão levemente como se quisesse evitar tocar aquele material... Aquela escadaria feita com ossos de cadáveres.
Seguiram com a fraca luz das velas acesas por inúmeros corredores, até subirem uma última branquíssima escadaria de caracol, e adentrar uma sala oval, na qual havia uma mesa também redonda em seu centro, cujo alicerce que a segurava evidenciava os ossos com o qual havia sido feita, empilhados de forma a parecer uma pilastra. Próxima a essa mesa, havia um trono feito de caveiras, especialmente explícitas no fim de seus braços, nos quais sorriam mortas, seus dentes arreganhados sem alegria alguma.
Sentada no trono estava a que julgavam a mulher mais bela e mais terrível que já caminhara por todos os mundos: a Inevitável. Hela, a deusa da morte. Seus cabelos desciam escuros, emoldurando seu belíssimo rosto, nos quais brilhavam seus olhos negros como a escuridão de Helheim. Pareciam divertidos e intrigados, brilhando ao encarar os visitantes, e sua pele pálida era ainda mais alva que a brancura dos ossos dos cadáveres. Hela vestia um longo e sensual vestido verde evidenciando suas curvas voluptuosas e convidativas, e continuava idêntica a mulher que Loki um dia conhecera.
E, sabia ele, era tão perigosa como em tempos ancestrais.
– Vossa Graça. – Loki foi o primeiro a manifestar, ajoelhando-se humildemente da forma como sabia que agradaria à deusa. Miranda seguiu-o quase imediatamente, estando alguns passos atrás do deus da trapaça, assim como Leah, que se mantinha silenciosa.
– Deixe-nos, Vagareza. Quero ter com eles a sós. – A voz grave e sensual de Hela era ao mesmo tempo fascinante e assustadora. Não havia nenhum calor em sua sensualidade fria e perigosa, que ao mesmo tempo despertava calafrios desagradáveis que subiam pela espinha, e também desejo de alcançá-la... Tocá-la.
A serva idosa assentiu e moveu-se para fora dos aposentos, sendo seguida por Leah. Hela riu com escárnio, e Leah voltou-se, sem compreender.
– Não falei com você, minha Leah. – Hela levantou o queixo e chamou-a a distância com um aceno. – Venha. Fique aqui, ao meu lado. – Leah obedeceu prontamente, e prostrou-se firme do lado esquerdo de Hela.
– Chegou ao meu conhecimento que um jotun e uma bastarda de Asgard desejam travar uma guerra contra o Pai de Todos. E que já conseguiram dois fortes aliados. Será que não têm conhecimento de como se delineará o Ragnarok? – Hela perguntou com frieza e com uma leve ameaça implícita, mas Loki manteve seu semblante submisso impassível.
– Sou apenas um jotun, Vossa Graça. – Loki disse dissimulado. – Porém, apesar de minhas humildes condições, trago comigo sede de vingança. – O deus da trapaça levantou seus olhos vermelhos e encarou Hela expressando a amargura que tinha por seu falso pai, Odin, por meio de palavras mentirosas. – Sou Laufar, filho de Laufey, e tive meu pai assassinado a sangue frio pelo filho de Odin. Meu povo é constantemente reprimido, e sofremos diversas perdas por culpa de Asgard. Quantas vezes Odin não marchou contra nós em batalha, quantas vezes nos subjugou, quantas vezes fomos humilhados por conta da arrogância dos aesires? – A voz de Loki ia pouco a pouco aumentando a medida que deixava seu discurso mais apaixonado.
– E, ainda assim, você conspira e trai o Pai de Todos com ajuda de uma asgardiana. – Hela disse, sem ser movida pelas palavras do deus da trapaça.
– Eu conspiro contra Loki. – Miranda adiantou-se, sua voz quase imperceptivelmente trêmula, repetindo as palavras que ela e o deus da trapaça haviam combinado. – Foi meu mestre, e traiu-me. Tentou matar-me e abandonar-me a minha própria sorte no abismo de Yggdrasil, julgando que eu não sobreviveria. Mas eu sobrevivi. E também desejo a minha vingança. – Loki olhou Miranda de esguelha, e reparou em seus olhos cor de mel fixos nos amedrontadores olhos de Hela. Sentiu uma pontada de orgulho pela bravura e pelo desempenho da jovem mulher.
– E quem seria você? – Hela disse, com uma enorme carga de desprezo em sua bela e assustadora voz.
– Chamo-me Hale, Vossa Graça. Sou filha bastarda de Balder com uma das aias do Palácio de Asgard, mas herdei a magia de meu pai. – Miranda mantinha o olhar fixo em Hela, que sorriu debochada.
– Tem um nome curioso. – A deusa da morte disse sarcástica. – Se é verdade o que diz, por que não prova, então? Mostre-me uma memória de seu pai. – Hela ordenou displicentemente.
– Se assim desejar. – Miranda já estava preparada para isso. Sem dificuldades, juntou as mãos e proferiu o encantamento que Loki lhe ensinara. Haviam forjado uma falsa lembrança de Balder, que na verdade pertencia a Loki. Ao abrir as palmas das mãos, uma esfera de luz mostrava em seu centro um jovem Balder tocando harpa, enquanto presidia uma assembleia de homens livres.
– E como pretendem evitar a visão de Heimdall de seus planos? Como sabem que ele não percebeu as ondulações nos mundos enquanto viajavam? – Hela perguntou sagaz.
– Usamos caminhos secretos de Yggdrasil, Vossa Graça. – Miranda respondeu prontamente. – Loki e meu pai me ensinaram a usá-los. Conheço todas as passagens perdidas, as quais a visão de Heimdall não alcança. – A falsa bastarda disse, ainda encarando a deusa da morte.
Hela não parecia impressionada. Virou-se lentamente para Leah, e disse, a voz perigosamente baixa.
– Já havia tido conhecimento destes dois, minha aprendiz?
– Sim, minha Senhora. A plebe dos anões e de Muspelheim está em polvorosa com os novos acontecimentos. – Leah disse, mentindo também com facilidade, para a surpresa de Loki.
– E o que comentam, mais especificamente? – Hela perguntou ainda mais perigosa.
– Sobre a avareza de Odin, que escondeu dos anões as pedras mágicas preciosas que eram deles por direito, segundo o que acreditam. Sobre o julgamento de Loki, no qual os senhores dos Nove Reinos não tiveram participação, embora tenham sido igualmente enganados pelo deus da trapaça. Sobre a beleza e o poder surpreendente da bastarda de Balder. E sobre o novo Rei Jotun que lidera uma rebelião contra o Pai de Todos. – Leah sussurrou aos ouvidos da mestra, que fez um gesto para que se afastasse quando terminou de falar.
– E por qual motivo o Rei Jotun e a bastarda de Balder se consideram tão importantes a ponto de não implorarem pela ajuda de Hela, nesta guerra por vir? – Hela dissera as palavras que Loki mais aguardara, carregadas de desprezo e asco, e teve de controlar-se para não sorrir em triunfo.
– Não achamos que Vossa Graça iria aderir à nossa causa. – Loki disse falsamente humilde. – Tem inúmeros deveres e compromissos mais importantes a honrar... – Loki começou, mas foi interrompido.
– E o que seria mais importante do que uma guerra contra Odin? – Hela perguntou perigosamente. – Leah. – Chamou a aprendiz com um gesto das mãos. – Traga-os até mim. – Ela proferiu a sentença.
Loki sentiu um terrível calafrio percorrer seu corpo. Não. Não agora.
– Vossa Graça, não será preciso. – Ele disse, tentando manter a compostura.
– O que teme, Rei Jotun? – A deusa da morte perguntou, cheia de malícia. – Para o líder de uma guerra, temer a morte não é algo muito sábio. – Ela debochou.
Leah pareceu aflita, e Hela insistiu para que os trouxesse. Loki tentou improvisar.
– Vossa Graça. – Ele disse, como em um último apelo. – Sei que quando toca os corpos dos vivos, tira-lhes a vida.
– Todo homem vivo deve morrer. Até mesmo bastardas de Balder, e jotuns. – Ela sorriu sem alegria, como uma caveira. – Por que não posso encurtar seus destinos? Não confio em suas palavras. Parecem-me, estranhamente, com as de um deus que conheci há algum tempo... – Hela disse, referindo-se a Loki, sem saber que o mesmo encontrava-se parado bem à sua frente.
– E não deseja a sua vingança? – Loki levantou os olhos para ela, fazendo a pergunta impertinente.
Hela fez um gesto para parar Leah, que parecia quase desesperada, antes de continuar.
– Do que está falando? – A deusa da morte perguntou devagar, perigosa como uma cobra preparando-se para dar o bote.
– Eu sou filho de Laufey. O rei de Jotunheim. Posso ser um jotun, mas não somos tão ignorantes quanto os aesires nos julgam. – Loki disse também devagar. – Eu conheço as histórias de Loki. Conheço as traições e as ruínas dos deuses.
– O que exatamente acha que conhece? – Hela disse, aparentando irritação, e Loki mais uma vez respirou aliviado.
– Eu sei que a única forma de termos alguma chance de sucesso contra Asgard é com a união entre Reinos poderosos. Sei que nem mesmo Vossa Graça poderia enfrentar Odin sozinha, para enfim alcançar Loki. E eu também sei o que ele fez contra você, Vossa Graça. Assim como todos os Nove Reinos o sabem. – Loki disse sutilmente ameaçador, e os dedos de Hela agarraram com força as caveiras nos braços do trono em que sentava.
– E o que eu teria a ganhar se o deixasse viver? – Hela disse soturnamente.
– A alma de Loki. Seria um prazer permitir que Vossa Graça o matasse. Pessoalmente, se nos permitisse ir, ou até se quisesse ajudar-nos em nosso plano. – Loki disse falsamente, sabendo que havia vencido.
A deusa da morte se manteve em silêncio, pensando a respeito. Em seguida, dirigiu-se à sua aprendiz.
– Leah. Não posso tocá-los sem matá-los, dentro de meu Reino, mas você pode. – Ela apontou para os visitantes. – Toque-os, e diga-me se o que alegam é verdade. – Hela olhou para Miranda e Loki friamente, levantando seu queixo em arrogância.
Leah assentiu e seguiu até os dois. Proferiu o encantamento que seria necessário, e, em seguida, tocou-os, um a um.
– Eles são quem alegam ser, minha Senhora. – Leah mentiu descaradamente, e Loki respirou outra vez aliviado.
– Então, Rei Jotun e sua aliada, que a vida de vocês renda bons frutos. Um dia nos encontraremos novamente, mas isso ainda demorará. Enquanto isso... Contem com meu auxílio nesta guerra. – Hela levantou a mão, permitindo que os forasteiros também se levantassem.
– Se, e somente se... Eu for aquela a tirar a vida de Loki. – Hela encarou-os com tamanha frieza que Loki sentiu-a enxergando por sua alma. Aquele olhar lhe era familiar, e ele mal podia se conter pela ironia de toda aquela situação.
– Será, Vossa Graça. – Disseram Miranda e Loki em uníssono, ao reverenciarem a divindade antes de saírem.
Hela fez um gesto para dispensar os dois, parecendo levemente entediada. Ordenou que Leah os acompanhasse de volta. Miranda levantou-se primeiro, e foi levada por Leah. Ao levantar-se para sair, Hela disse a Loki que parasse.
– Sim, Vossa Graça? – Ele voltou-se com toda a dissimulação e a polidez necessária para agradá-la. Conhecia Hela de longa data, e, agora mais do que nunca, descobrira que de fato sabia como lidar com ela.
– Você... Você me lembra... – Ela disse, aparentando lembrar-se de alguma memória importante, mas fez um movimento rápido com a cabeça, como se negasse algo a si mesma. – Não. Esqueça. Apenas me diga uma coisa, Laufar... – Hela disse, enquanto se levantava e caminhava até Loki, cada passo igualmente sedutor e perigoso, lentamente calculado.
Ao aproximar-se dele, sua mão que, sabia ele, era ainda mais fria do que a temperatura jotun de seu corpo, fez menção de tocar-lhe em sua bochecha. Loki sabia que não o faria. Quando chegou muito próxima de tocar sua face, ela recuou a mão, e semicerrou os olhos, como se o estudasse com afinco.
– Quem de fato é você? – Ela dizia, desconfiada, para divertimento de Loki.
Ele curvou-se em despedida, e disse-lhe as últimas palavras daquele encontro.
– Sou a vingança de Laufey. – Loki deu-lhe um último olhar significativo, mais dissimulado do que jamais fora, e voltou as costas para a deusa da morte, desejando ficar a sós com a única mulher que de fato era uma deusa para seus olhos.
Sua ninfa midgardiana, sua Miranda, para partilhar juntos do triunfo daquele dia.
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