Journey Into Trickery
11 Somewhere Only We Know - Parte Um
Notas iniciais
Enquanto isso... Neste capítulo, teremos certo drama por parte da Leah (oh, a friendzone, hahahaah), e algumas pequenas revelações de Loki. Próximo capítulo será a continuação, com o fdp mais querido da Marvel e sua linda parceira desbravando as verdes terras de Vanaheim!
Beijos e boa leitura!
Estavam mais uma vez de volta à Yggdrasil, e a paisagem insólita ao redor do que era o centro de todos os reinos delineava-se novamente em frente aos três companheiros. A madrugada despedia-se em meio à rosada claridade que precede o alvorecer, e nem mesmo as inférteis terras das raízes da existência pareciam tão desoladas assim. Com o próximo sol da manhã, Miranda sentia seu coração libertar-se de alguns de seus pesados fardos antes carregados com esforço.
Não fora a muito que Leah os acompanhara até a entrada do túnel de saída de Helheim silenciosa, levando-os pelo atalho que havia de Elvidner, a moradia de Hela, seu castelo da morte, até os limites das terras da deusa da morte. Seguiram, assim, por uma ponte estreita, construída pelos acidentes geográficos da região, não aparentando servir ao propósito de transferência de um lugar para outro. Era apenas uma elevação das pedras escuras e pontiagudas típicas daquele reino. Andaram, então, guiados pela luz verde-azulada que imperava naquele reino e pelo conhecimento do local por parte da aprendiz que os guiava, caminhando por horas, cada um dos três sem proferir palavra alguma.
Curiosamente, isso foi aliviante para a jovem mulher. Em outra situação, Miranda não agüentaria tanto tempo calada, teria necessidade de, no mínimo, dizer algo espirituoso para quebrar a tensão. Mas, neste momento, nem sequer se importara com o ambiente macabro e fúnebre que a rodeava, andando pela ponte irregular e pouco segura, perdida em seus próprios pensamentos.
Tudo o que ocorrera até então passara como um turbilhão de acontecimentos sem nexo e causalidade, quando decidira acompanhar Loki para além de Midgard. Todos os dias ele a levava a locais os quais sequer poderia imaginar existirem, junto a seres e realidades muito além do que poderia conceber, seguindo um rumo traçado por ele mesmo, com base em mentiras, intrigas, chantagens e um enorme jogo de manipulação, tecido de maneira fria e calculista, e – o que mais assustava Miranda – continuava a delinear-se perfeitamente segundo o que o deus da trapaça previra. Ela entendia, ou ao menos, tentava entender, que o misterioso homem que decidira acompanhar não era nada similar a um mero mortal, mas jamais a jovem mulher poderia entender a dimensão de seus poderes. Loki alegava precisar dela por estar sem sua magia, mas por que razão ele precisaria de capacidades místicas, quando seu próprio brilhantismo era por si só sobrenatural?
Helheim fora, provavelmente, a mais desagradável das “tarefas” que realizaram até então. Miranda seguira o planejado, o máximo que conseguira, e, ainda assim, aquilo fora uma experiência a qual não saberia dizer se valera a pena ser realizada. Entendia as razões de ir a Muspelheim e a Svartalfheim, tudo aquilo fora um aprendizado legítimo, ensinando-a a lidar com suas novas limitações e capacidades. Miranda revelara-se a si mesma poderosa, e podia sentir dentro de si que evoluía, amadurecia, junto ao que nascia dentro de seu ser.
Mas não eram apenas seus novos poderes que finalmente começavam a criar raízes dentro de si. Já havia algo que se assentara há muito, um sentimento pulsante, tão forte quanto a magia que agora fluía pelo seu sangue, espalhava-se por seus poros. Ela sabia, não havia como negar. Antes de ir à Helheim, antes de conhecer o rei Surtr, e antes de enganar, pela primeira vez, todo um reino em Nidavellir, Miranda sentira-o em pequenos momentos, de curta duração, porém significativos em importância. Desde Midgard, desde que um homem esquisito de capa verde, de olhos verdes e de olhos vermelhos, de pele branca e de pele azul — um homem, um deus, um jotun — pelo que poderia ser o mero acaso ou o desígnio dos deuses, entrara em sua vida de uma maneira inimaginável. Loki viera para mudar seus planos e convidá-la a escolher novos, o que ela mesma fizera ao surpreendê-lo e acompanhá-lo para além de Midgard. O deus mudara sua vida, mas ela sabia que a dele também se modificara.
Tinham, agora, novos caminhos, novas realidades, novas perspectivas.
E, acima de tudo, era inegável, era inevitável: tinha um novo...
– É aqui que me despeço. — Leah disse, interrompendo o fluxo de pensamentos que corria dentro da cabeça de Miranda. A mulher sentiu certa raiva despertar dentro de si, e voltou seu rosto bruscamente na direção da menina.
Ela fora gentil ao dizer palavras acolhedoras e compreensivas quando Miranda sentira a profunda angústia de temer por Jimmy no Nastronol tomá-la quase que por completo. Ao atravessar aquele rio que lhe lembrava o Estige, da mitologia grega, ela não podia parar de pensar em seu irmão em meio aqueles espíritos atormentados. A ideia corroera-lhe por dentro como veneno, durante todo o caminho que fizeram junto ao Barqueiro em sua canoa que balançava perigosamente, e piorara a cada vez que escutava, quase ensurdecedoramente, os sussurros gritantes dos mortos vingativos e perdidos em seus desejos egoístas.
Mas ela sabia o que Leah queria. Por mais que fosse um desejo altruísta de sua parte — o de proteger Loki — Miranda não seria ingênua a ponto de confiar tão cedo completamente na garota. Sabia que ela era aprendiz de Hela, e, ao conhecer a deusa da morte, suas suspeitas apenas aumentaram. A forma com que a deusa falava de Loki não lhe agradava, não pelo seu desejo de destruí-lo — Miranda poderia imaginar seus motivos por trás, considerando a capacidade do deus de manipulação e no quanto isso poderia influenciar para desgraçar alguém, se assim o desejasse — e sua intuição feminina gritava-lhe que algo de fato estava errado naquilo. Além de tudo, estranhara que, ao receber licença da deusa da morte para sair, Hela tenha pedido a Loki que aguardasse alguns instantes. Miranda temera que ela tivesse descoberto a farsa, e, por alguns momentos, sofrera a pior carga de ansiedade até então. Porém, ao sair dos aposentos da deusa da morte, o deus portava um sorriso convencido e debochado no rosto, e, naquele instante, Miranda sentiu suas desconfianças aumentarem, e sabia, sem poder realmente explicar, que estava certa em fazê-lo.
– Hasta la vista, Leah. — Miranda disse friamente, enquanto a menina a encarou brevemente, sem lhe dar muita importância. Loki, ainda em sua forma jotun, olhava para a Árvore dos Nove Reinos, seus olhos rubros semicerrados em uma expressão pensativa, enquanto seu rosto elevava-se levemente, enquanto ele olhava mais e mais ao topo de Yggdrasil.
Leah continuou encarando o deus, e Miranda reparou que a menina engolira em seco. Ficará decepcionada se ele a ignorar. Ao pensar nisso, Miranda sentiu certa vontade mesquinha de rir, e estranhou tal sentimento. Leah era apenas uma entidade com aparência de menina, apesar de aprendiz de uma tenebrosa — e poderosa — deusa, e Loki não lhe dera mais importância do que dera as outras midgardianas que encontrara enquanto estivera dormindo no mesmo teto que Miranda em sua terra. Entretanto, após alguns segundos, o deus virou-se em direção da garota, e sorriu-lhe um sorriso resplandecente, deixando Miranda morta de ciúmes.
– Ajudou-nos melhor do que eu poderia esperar. Libero-a do juramento de proteger-nos. Não mais compartilharemos corações – Assim que o deus disse tais palavras, Miranda observou a reação de Leah, que fechara os olhos e soltara a respiração, em um movimento claro de profundo alívio. – Mas não do de manter sua palavra. – Loki, antes que a garota pudesse sequer reagir, moveu-se como uma sombra, lepidamente tocando em sua mão direita, o que fez o corpo todo da menina tremer. Miranda sentira seu queixo cair brevemente, entendendo os motivos de Loki, mas, ao mesmo tempo, temendo pela reação de Leah. E sabia que estava certa em fazê-lo.
A menina abaixou seu rosto, enquanto seus cabelos negros como os de Loki caíam em cascata em volto de seus frágeis e curtos ombros, e, por alguns instantes, o grupo manteve-se sem dizer palavra alguma, em meio a certo silêncio constrangedor. Miranda sentia seu coração acelerar, esperando alguma reação muito intensa por parte da garota, conseguindo imaginar perfeitamente o que ela sentia.
– Você não sabe mesmo... Não tem ideia de quem eu sou... Não é? – Leah disse, murmurando, suas palavras curtas, sua voz fina e fraca como a menina que sua aparência fingia ser, revelando uma tristeza profunda. Nem sequer levantara o rosto para encarar o deus da trapaça. Em seguida, ela afastou-se de Loki, retirando sua mão do alcance da dele, caminhando para trás, como se estivesse acuada. Miranda podia ouvir o ruído do pequeno coração da garota partindo-se em dois, e naquele momento compadeceu-se dela. Ao menos ele a liberou do juramento antes de sentir o que ela sentiu.. Miranda apiedou-se da pequena humilhação que a menina sofrera, e poderia imaginar sua dor de ver Loki tratando-a como uma possível inimiga, quando tudo o que ela fizera até o presente momento fora ameaçando a própria segurança para poder garantir a do deus da trapaça.
E é dessa forma que ele a retribuiu... Estranhamente, Miranda sentiu-se identificada com os sentimentos da pequena aprendiz de Hela, e não pôde se segurar. Apesar de compreender todos os motivos de Loki, e de saber que o deus, ao manter Leah presa àquela promessa, garantiria que Hela não poderia descobrir por sua responsabilidade a respeito dos dois, e que isso, na verdade, a protegia de possíveis perigos e problemas, ela sentia-se muito mais contemplada pela rejeição que Leah sofrera, dessa maneira tão fria e indiferente.
Pois era o que ela mais temia que acontecesse consigo.
Miranda fez menção de aproximar-se da menina, sua cabeça formulando diversas frases que poderia dizer para consolá-la, mas, quando uma de suas mãos quase tocara um de seus ombros antes trêmulos, a garota afastou-se com rispidez, virando-se de costas para os dois. A jovem mulher voltou seu rosto para Loki, e teve vontade de estapeá-lo ao testemunhar sua expressão de pura surpresa e incompreensão estampada em seu rosto jotun. Podia imaginar o deus tentando raciocinar a respeito da reação de Leah, que ele por muito pouco não sentira dentro de si.
– Espero que tenham muita sorte na sua jornada. Sei que Hela não desconfia de nada. E, no que depender de mim, jamais saberá. – A menina disse, e Miranda intuitivamente sentiu que era melhor se afastar dela, por segurança. Podia perceber sua tristeza ser transferida para um forte sentimento de raiva, e, dessa vez, foi ela que andou alguns passos para trás.
– Adeus. – Leah voltou-se bruscamente em direção a Loki, e, olhando furiosa para o deus da trapaça, fechou sua mão direita em um punho firme e cerrado, e levantou-a na direção de Miranda. Antes que pudesse afastar-se, a aprendiz abriu a palma da mesma mão e moveu-a como se atirasse algo na jovem mulher. Em seguida, em um átimo de segundo, fechou-a e levou o braço direito na direção do ombro esquerdo, sumindo em uma nuvem de fumaça escura, fazendo um forte ruído de explosão, idêntico a quando surgira a partir do nada em meio aos aposentos de hóspedes no castelo de Hreidmar.
Loki movera-se com a mesma rapidez para evitar que o que Leah havia conjurado atingisse Miranda, mas a jovem mulher finalmente fora mais rápida. Fechara seus braços junto ao seu peito, elevando-os com os cotovelos dobrados na direção de seu rosto, os punhos firmemente cerrados, seus olhos fechados formulando o pensamento que despertou seus poderes de maneira mais rápida que o feitiço da aprendiz de Hela. Um campo de força lilás se formara na frente da midgardiana, evitando que o próprio Loki chegasse mais perto dela, assim como o que Leah jogara em sua direção.
Ao abrir os olhos novamente, Miranda viu pequenas adagas caídas ao chão, lâminas pequenas e insignificantes que poderiam ser confundidas com agulhas. É claro, ele cortou seu coração... Apesar de quase ter sido atingida e ferida pela menina, a jovem mulher não poderia deixar de perceber a ironia contida naquele gesto. Não é à toa que ela e ele se deram tão bem, em outra vida, em outra realidade... Miranda fechou os olhos e respirou fundo. Sentia-se cansada, exausta. Lidara com inúmeras dificuldades por toda a sua vida, mas nada poderia se comparar com aquilo. Corria perigo a cada segundo, desconhecia o mero chão que pisava, o ar que respirava, e o ambiente que a rodeava, e, como se não bastasse tudo isso, tinha de lidar com sentimentos angustiantes e distorcidos, não apenas os seus, como alheios.
– ...Ela já se foi. – Loki disse, sua voz baixa, com um tom de surpresa indicando sua curiosidade. Ao olhar para seu rosto, Miranda viu sua expressão irritada, encarando o local onde a menina desvanecera. Sentiu uma pequena chama acender-se em seu peito, e quase o desculpou por tudo que o culpava internamente, naquele momento.
Miranda não tivera sequer tempo de digerir o alívio de saber que seu irmão estava em um lugar melhor do que o Nastronol ou Helheim, quando fora levada a ter com Hela, e sentira sua intuição avisar-lhe que algo estava errado quanto à forma que ela mencionava o nome de Loki. Havia muita amargura nas falas da deusa da morte, mas, ela sabia, era algo mais do que mero rancor. Ou, ao menos, subentendia-se o motivo de tamanho rancor... Algo similar a raiva de Leah momentos atrás.
– De qualquer forma... – Loki baixou o capuz da capa que usava, revelando seus cabelos sempre negros. – Suponho que não seja muito recomendável continuarmos parados aqui. Sei para onde devemos nos dirigir agora... – O deus virou-se para Miranda, que reagiu no mesmo instante.
– CHEGA! – A jovem mulher gritou, aproximando-se perigosamente de Loki com o dedo indicador em riste. – Eu acabei de ir, literalmente, pro ‘inferno’ por sua causa! Quase morri corroída por ácido num rio cheio de personagens doentios do George R. R. Martin, depois tive de aturar a deusa MILF metida a matriarca de família italiana mafiosa, e, como se não bastasse tudo isso, ainda sofri um atentado contra minha própria vida da aparentemente pacífica menininha prodígio do submundo! – Miranda mantinha o indicador firmemente apontado na direção do nariz de Loki, que mantivera suas feições impassíveis. – Não vou me meter em buraco NENHUM agora, só saio daqui pra receber tratamento VIP, entendeu? Cin-co es-tre-las! Só saio daqui pra ir pro castelo de Asgard ou algo ainda melhor! – A jovem mulher estava a ponto de explodir de frustração. – E, é claro... – Miranda baixou a voz. – Depois de ouvir boas explicações. – Ela disse perigosamente debochada. Sabia que Loki entenderia o recado.
Ao enunciar a palavra dita, Loki franziu o cenho, quando antes a encarava friamente, e revirou os olhos. Levantou as mãos para tocar Miranda em seus ombros, com delicadeza, porém firmemente, e, quando seus dedos encostaram-se ao tecido de sua capa, a jovem mulher estapeou uma de suas mãos para em seguida virar-se de costas para ele, cruzando os braços, enfurecida.
– Não pretendo levá-la tão cedo a Asgard. – Miranda voltou o rosto em direção a Loki, e sabia que estava a ponto de espumar de tanta raiva. Tudo isso é culpa dele. Absolutamente tudo. Mas ela sabia que não era apenas isso que a irritava. Na verdade o que a tirava do sério não tinha de fato relação com seus planos manipulativos no limite do bom senso, ou com sua frieza, ou com o fato de que muitas vezes ele a tratava como uma maneira de atingir seus fins, quase um objeto. O pior era perceber que, apesar de todos esses fatores, ela não queria ver-se longe dele. E, a cada dia, parecia uma possibilidade cada vez mais distante a remota ideia de conseguir se afastar.
Filho da puta. Filho da puta mesquinho e ardiloso. Miranda fechou os olhos e respirou fundo, para em seguida pular na direção de Loki como um animal acuado que se defende do predador em um último impulso de sobrevivência. Ele apenas deu seu típico sorriso enviesado, e parou o movimento da jovem mulher sem dificuldades. Loki puxou um de seus braços que avançava na direção dele, torcendo-o levemente para trás, mantendo-a imobilizada. Puxou-a sem dificuldades, como se não pesasse mais do que uma pena, enquanto sua outra mão livre alcançava o outro braço de Miranda, prendendo-a de costas contra si. A jovem moça quase rosnou de ódio, debatendo-se contra a força sobrehumana de Loki, que era ainda mais forte do que ela, mesmo com o sopro de Hela. Então, o deus inclinou o rosto próximo a um dos ouvidos de Miranda, dando-lhe um suave beijo no lóbulo de uma de suas orelhas. Filho... Da... Puta... Miranda pensou, contorcendo-se de raiva reprimida, agora saindo explosiva por todos os seus poros.
– Como eu estava dizendo... – Loki sussurrou sensualmente, o que fez a raiva da mulher apenas aumentar, assim como uma leve torção em seu peito. Aquilo era covardia. O deus sabia muito bem o efeito que tinha sobre ela, e usá-lo daquela forma, quando sua maior vontade era atingi-lo com uma esfera de energia, era algo que beirava à humilhação. – Não pretendo levá-la tão cedo a Asgard. O que não significa que a levarei, agora, a algum lugar desagradável. Estava pensando em uma idéia bem diferente, na verdade... – Miranda debateu-se com todas as suas forças uma última vez, mas ele manteve o aperto. Quanto mais ela se debatia, mais seu corpo contorcia-se para junto do de Loki, sentindo, curiosamente, sua temperatura fria jotun aquecer-se cada vez mais.
Miranda parou de resistir, jogando sua cabeça para trás, encostando-se ao ombro de Loki. Seu rosto moveu-se delicadamente para a esquerda, e sentiu a própria respiração batendo no pescoço do deus. Em seguida, fechou seus olhos languidamente, para depois abri-los, semicerrados, com seu sorriso provocante que sabia afetá-lo. Isso é um jogo que dois podem jogar, seu smurf calculista de merda. – Vamos para onde, então, inglesinho? Para o Ritz medieval? – Miranda pôs-se a beijar seu pescoço, dando-lhe leves chupões, transformando a pele em que tocava com a quente língua e lábios, antes azulada da natureza jotun de Loki, na pele alva de sua aparência asgardiana. Ela sentiu a temperatura do deus aumentar cada vez mais, e a força que usara para mantê-la imobilizada vacilar por alguns instantes. Porém, antes que pudesse reagir, aproveitando aquele momento de fraqueza, Loki virou-a para si, quase com violência, mantendo seus braços presos atrás de seu corpo, enlaçando-a de maneira possessiva.
– Não sou tolo, pequena. – Loki sorriu enviesado, seu rosto jotun pouco a pouco adquirindo a aparência do deus que Miranda conhecera em sua casa. – Eu sei o que está fazendo. – Miranda ignorou-o, e tentou beijá-lo nos lábios, mas Loki manteve-a longe o suficiente para evitar ser levado pelo próprio desejo. – Antes de qualquer coisa... – Loki começou, sua voz agora fria e perigosa. – ...Aviso-lhe que Asgard não é nosso rumo atual, mas, para seu contentamento, pretendo levá-la agora para um local muito próximo: iremos a Vanaheim. Os ânimos de vários reinos já foram exaltados, precisamos deixá-los com alguns momentos de paz e reflexão antes que a guerra possa ser de fato travada. Ou, melhor dizendo... – Os agora verdes olhos de Loki brilharam de entusiasmo malicioso. — ...Antes que a falsa guerra possa começar. – O sorriso do deus da trapaça ampliou-se largamente por seu rosto ao dizer tal frase, e Miranda sentiu um desagradável calafrio temeroso.
– Vanaheim? Isso parece nome de lanchonete hippie. Que serve sanduíche de tofu, suco de clorofila e aquelas merdas intragáveis. – Miranda quase ronronava, apesar das palavras chulas, enquanto tentava seduzir Loki.
– Vanaheim é a terra dos vanir. Encontra-se no mesmo nível de Asgard, ou seja, é um dos reinos mais elevados da existência. – Loki disse com soberba, e Miranda controlou-se para não revirar os olhos por conta de seu comportamento tipicamente arrogante. – Entretanto, os vanires, diferentemente dos aesires, não compreendem as artes da guerra e da estratégia, são simples fantoches de Odin reduzidos a sua terra bucólica, que não produz nada além de produtos agrícolas. – O deus da trapaça disse, repleto de desprezo. – Vivem para contemplar a natureza e trabalhar com a agricultura, camponeses tolos e acéfalos, muitos sem magia e sem conhecimento algum além do que se limita a sua vida alienada voltada para o cultivo da terra. – Miranda quase podia ver o veneno escorrendo da boca de Loki. – Meras peças, e tão inúteis quanto o pouco conhecimento medíocre que detém.
– Para mim eles soam idênticos aos hobbits. Curti. Só falta beberem cerveja, se tiver um Dragão Verde nesse Condado de Vanaheim, é lá que vamos nos hospedar! – Miranda sorriu debochadamente, enquanto Loki a encarava com a expressão de quando não entendia absolutamente nada do que havia dito. – Deixe-me ver se entendi... – Miranda inclinou-se em direção ao pescoço de Loki, novamente, desta vez estando de frente para ele. O deus a manteve a uma distância segura, evitando que o tocasse, e ela levantou os olhos para encarar seu rosto, fingindo inocência. — ...Podemos ir para lá porque é um reino seguro, não encontraremos oposição alguma à nossa chegada, assim como em Ljusalfheim, e teremos um tempinho pra descansar, também? E quem é o chefão dessas terras?
Loki pareceu mais animado ao perceber o raciocínio rápido de Miranda. – Não há governantes em Vanaheim. Alguns dos principais deuses vanires são Njord, o deus dos mares, dos ventos e da fertilidade, pai de Frey, o tolo, o deus chefe da agricultura, que agraciou Vanaheim com seu sopro, sendo este o Reino da Natureza. Frey comanda o tempo e a prosperidade, e conhecemos alguns de seus servos e criaturas em Ljusalfheim.
– A Sininho e suas amigas. – Miranda disse, enquanto Loki ainda a mantinha alguns centímetros distante de si. Seus braços, tórax e peito se tocavam, mas ele tentava evitar que pudesse beijá-lo e impedi-lo de manter o raciocínio frio. – Eu me lembro delas. E lembro-me do que me fizeram lembrar... – Ao dizer isso, Miranda encarou Loki profundamente, recordando-se também de quando sentaram-se juntos ao piano da sala de hóspedes de Hreidmar. Não sabia dizer por qual razão relacionara os dois momentos, apenas sentira-o intuitivamente.
– Em Vanaheim, o único templo nobre existente é Folkvang, o palácio de Freya, irmã de Frey. Alguns anos atrás, Thor e eu visitamos o local por ordens de Odin. Ela é a deusa mãe da dinastia de vanir.
– E é deusa do quê? – Miranda tentou avançar uma última vez, e Loki não conseguiu segurá-la. Miranda pôs-se a beijá-lo antes com raiva, que em pouco tempo deu lugar ao desejo, embora outra vez sua intuição aguçada lhe dissesse que algo estava errado nas informações dadas por Loki. Depois de beijá-lo com afã, enquanto o deus ainda segurava seus braços, Miranda trilhou de seu queixo até seu pescoço, dando-lhe pequenas mordiscadas e beijos em cada pedaço de pele que encontrava.
Loki adiantou-se, empurrando-a rapidamente para trás, até que as costas de Miranda alcançaram algumas das raízes de Yggdrasil. Seus olhos verdes levemente enegrecidos pelo desejo semicerraram-se em luxúria, enquanto ele levantava os braços da midgardiana com os seus, deixando-os acima de sua cabeça, apoiados nas raízes da Árvore dos Mundos, e prendia, juntos e apertados, seus dois pulsos com uma de suas mãos. Aproximou-se mais ainda, prensando-a contra a madeira, seu rosto a centímetros do dela, enquanto a outra mão passeava pelo seu corpo, tocando-a onde desejava. Sorrindo maliciosamente, Miranda sentiu a mão do deus passar suavemente pelos seus seios, cobertos pela capa de viagem, descer por sua barriga e entrar por baixo das saias já levemente levantadas pelas próprias pernas de Loki que a prensavam contra as raízes de Yggdrasil. Ela fechou os olhos, sentindo a raiva e o tesão explodirem dentro de seu corpo, enquanto o deus subia a mão livre pela parte interna de suas coxas, alcançando cada vez mais carne, mais calor... Até tocar suas partes íntimas.
Miranda gemeu, a contragosto, e, ao abrir seus olhos novamente, Loki a encarava com uma expressão de pura malícia e deboche estampados em seu rosto.
– Freya... É a deusa do sexo. – Loki deu-lhe um sorriso significativo, mas Miranda não precisava daquele gesto, já tinha compreendido tudo. Em segundos, o deus da trapaça afastou-se dela, prevendo sua ira, e pôs-se a subir pelas raízes da Árvore dos Nove Reinos, para alcançar a entrada que os levaria para Vanaheim, enquanto ria, divertido.
Filho da puta. E tem a coragem de falar na minha cara. Se ele não fosse tão gostoso, juro que eu capava.
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