Journey Into Trickery

35 When You Let Her Go


Notas iniciais
Gente! Boa noite a todas as minhas queridas leitoras! Fico tão feliz de saber que, mesmo que eu tenha demorado muito na última postagem, vocês não abandonaram o barco! Gostaria de já começar esse capítulo agradecendo as leitoras: LaurenPS, Renata Dupont, Arrriba, TheWitness, Bia, Hellikait, madiejasper, Larizg, Jade Kingsley, Dinora Seabra Chaves, CokeeH, Baggins e Becca! Suas lindas! Muito obrigada pelos reviews, e, mais uma vez, peço desculpas pela demora... As razões vocês já estão cansadas de saber, então não vou enumerá-las aqui de novo para não deixar ninguém enfastiada! Pelo menos dessa vez foi menos! E espero que na próxima atualização seja menos ainda! Olha, já aviso que este capítulo tem MUITOS feels. Se preparem para o final. É dramático, é triste (calma, ninguém vai morrer nele AUHUHSHUDE), mas o final é bastante romântico. É isso aí que vocês estão pensando! Então corram para ler! Dedico este capítulo a todas as leitoras comentaristas do capítulo passado, mas mais especialmente a leitora Babi Prongs, que faz aniversário hoje! s2 Aliás, estamos de capa nova aqui em JIT! Vejam só que coisa maravilhosa a Sarah Laufeyson Barnes fez! Estou surtando com tanta beleza! *o* Eis o perfil dela aqui no nyah, caso se interessem pela capa: http://fanfiction.com.br/u/512507/ Beijos e boa leitura para todas!

Well you only need the light when it's burning low

Only miss the sun when it starts to snow

Only know you love her when you let her go

Only know you've been high when you're feeling low

Only hate the road when you're missin' home

Only know you love her when you let her go

And you let her go

Staring at the bottom of your glass

Hoping one day you'll make a dream last

But dreams come slow and they go so fast

You see her when you close your eyes

Maybe one day you will understand why

Everything you touch surely dies

But you only need the light when it's burning low

Only miss the sun when it starts to snow

Only know you love her when you let her go

Only know you've been high when you're feeling low

Only hate the road when you're missin' home

Only know you love her when you let her go

Staring at the ceiling in the dark

Same old empty feeling in your heart

'Cause love comes slow and it goes so fast

Well you see her when you fall asleep

But never to touch and never to keep

Because you loved her to much

And you dive too deep

Well you only need the light when it's burning low

Only miss the sun when it starts to snow

Only know you love her when you let her go

Only know you've been high when you're feeling low

Only hate the road when you're missin' home

Only know you love her when you let her go

And you let her go

Oo oo oo

And you let her go

Oo oo oo

And you let her go

'Cause you only need the light when it's burning low

Only miss the sun when it starts to snow

Only know you love her when you let her go

Only know you've been high when you're feeling low

Only hate the road when you're missin' home

Only know you love her when you let her go

'Cause you only need the light when it's burning low

Only miss the sun when it starts to snow

Only know you love her when you let her go

Only know you've been high when you're feeling low

Only hate the road when you're missin' home

Only know you love her when you let her go

And you let her go…

Passenger – Let Her Go



Lá estava ela.

Deitada em um barco, uma espécie de pequena embarcação viking como as que vira nos portos mais abastados de Asgard, o corpo sem vida de Frigga ali jazia.

Vestida com suas vestes reais, sua armadura que lhe cobria somente os ombros, um peitoral dourado e partes de sua comprida saia, seu rosto inclusive era acalentado por um tecido singelo porém belíssimo... De fios dourados, como se alguém tivesse derretido ouro para tecer aquele véu que separava seu rosto surpreendentemente moral de seu encontro com a eternidade.

Seu rosto áureo tinha uma expressão calma, plácida, translúcida. Como se dormisse o sono dos justos, o sono de quem cumpriu seus deveres e enfim recebia seu merecido descanso.

Frigga não estava mais entre eles, Miranda sabia.

Mas o ar carregado de luto, pesado pela dor irremediável da perda de quem fora a verdadeira mãe de todos os Nove Reinos... Pairava sobre cada alma vivente naquele local privilegiado, naquele local que era nada mais, nada menos, do que a morada dos deuses.

E ali, uma mortal testemunhava ao funeral da mãe do deus do trovão.

A despedida final da mãe do deus da trapaça.

Miranda Foster sequer se esforçava para controlar as lágrimas que lhe desciam como uma torrente de um curso d’água pelo rosto desconsolado. Seus olhos marejados pelo pranto tinham de se esforçar para acompanhar a cena que se delineava bem defronte a si mesma; por meio do rio que cruzava o centro de Asgard, próximo as entradas do Palácio da Cidade Dourada, também localizado em uma região perto da ponte Bifrost... Inúmeras embarcações similares as do descanso de Frigga seguiam a dela, que agora era levada pela correnteza daquele fluxo para muito além...

Mas a jovem midgardiana sabia o que tinha de fazer ali. Fora com muito esforço que, horas atrás, Thor, Elaine, Sif e Leah a haviam separado do cadáver de Frigga. Quase inerte, completamente sem reação, quase sem compreensão do que acabara de acontecer... Miranda ainda mal conseguira aceitar o que acontecera.

O mundo que ela conhecia, sua compreensão de realidade, há muitos dias já havia se transformado. Miranda fora tocada pelos poderes de uma deusa, descobrira-se herdeira do poder de Hela e recebera o toque da deusa da morte por meio de sua aprendiz desgarrada. Descobriu ser parte integrante de um plano mirabolante e perversamente genial formulado pelo deus da trapaça, para trazer o Ragnarok somente para impedi-lo.

Tudo o que ela conhecia antes, a vida como ela sabia ser, tudo isso não passavam de grandes ilusões. A verdade era que: ela agora tinha poderes sobre-humanos. Estava envolvida com uma trama política, com uma guerra que envolveria todos os Nove Reinos de todas as dimensões existentes. Estava disposta a impedir que tudo tivesse um fim neste mesmo fatídico evento.

Estava perdidamente apaixonada pelo deus mais traiçoeiro, falso e perigoso de todos os universos concebíveis.

E esse mesmo deus, o deus que ela tanto se afeiçoara, o homem que ela sabia amar... Acabara de perder sua mãe.

Em um ato trágico que fora, em parte, apenas um acidente... Algo que não se poderia culpabilizar ninguém. Mas, ao mesmo tempo... Um ato trágico, cujo início se deu por atos anteriores. Atos de responsabilidade dela.

Atos de responsabilidade dele.

Miranda corria em meio aos inúmeros cidadãos aesires presentes no funeral de Frigga, a Deusa Mãe da dinastia asgardiana. Se esgueirava por meio aos incontáveis acompanhantes daquele fúnebre cortejo, tão belo quanto triste, buscando uma pessoa apenas. A única pessoa que poderia fazer daquele momento um pouco menos doloroso, um pouco menos deprimente, um pouco menos... Desesperador, do que já era.

A jovem mulher de olhos cor de mel buscava, com seus sentidos entorpecidos pela dor do luto, impedindo-a tanto de raciocinar quanto de sentir de forma normal, a figura do irmão mais velho de Loki. Só ele poderia interferir e ajudá-la de alguma forma.

Quando chegou a beira do rio, um pouco atrás da corte de guardas que circundavam Odin, o Deus Pai da dinastia aesir, Miranda Foster finalmente enxergou a figura inconfundível do deus loiro, robusto, alto e austero à distância. Seguiu por mais alguns difíceis passos, desviando dos aesires que, compartilhando todos a mesma expressão entristecida, tinham os olhos fixos nas embarcações que seguiam o fluxo do rio para um destino que ela ainda não compreendia.

Thor Odinson estava no que parecia ser a borda de um cais em meio aquela fluxo d’água. Mais adiante, Miranda podia ver que aquele rio, de certa forma, terminava... Mas seu fluxo não parava. Seguia adiante, para baixo... Em uma cachoeira infindável, que descia até os confins de uma galáxia desconhecida.

Ignorando ao máximo que podia aquela visão que, apesar de estonteante, ia além de sua compreensão midgardiana, Miranda Foster aproximou-se de Thor, que se recusara a participar do mesmo cortejo que o pai, ou, talvez... Não recebera permissão para tanto.

Afinal de contas, os planos de Loki só tiveram sucesso, desde o início, pois Thor desobedecera as ordens de seu pai. Fora ele quem o libertara, fora ele quem ludibriara a vigilância de Heimdall e de Odin para enviar seu irmão mais novo para Midgard. Para a companhia de Miranda.

A midgardiana de cabelos castanhos respirou fundo, lembrando-se dos primeiros encontros e interações entre ela e Loki.

Tão superficiais, tão... Medíocres, se comparado ao que ocorrera entre eles agora.

Era risível pensar que um dia Loki “ensaiara” uma vida de refém em Midgard, no apartamento de Miranda Foster no Brooklin... Era ridículo pensar que fora assim, entre flertes descarados, provocações lascivas e jogos persecutórios para ver quem estaria no comando daquela situação tão ínfima, se comparada ao resultado total do que advirá do encontro daquele deus e daquela midgardiana... Fora assim que eles acabaram assim. Neste momento.

Fora assim que o mundo, que todos os mundos, ameaçavam ter um fim. Fora assim que uma das deusas mais poderosas de todos os Nove Reinos falecera.

Fora assim que ela se descobrira amando-o com todas as suas forças.

– Thor! – Miranda o chamou, baixando o capuz de viagem que ainda utilizava, e retirando as mechas de cabelo que caíram ao seu rosto enquanto corria, por fim colocando-as atrás das orelhas. – Thor, por favor! — Ela implorou. Se necessário, ficaria de joelhos, tamanho seu desconsolo.

Os presentes ao redor dispersaram um pouco suas atenções dos barcos que seguiam rumo ao fim da cachoeira. O deus do trovão, entretanto, parecia impassível. Fingira com competência que sequer percebera Miranda Foster ao seu lado.

– Thor! Tenha misericórdia... Compreenda! – Insistiu a jovem mulher. – É a mãe dele também... Por favor, Thor, ele ainda é seu irmão... Ele precisa se despedir dela. Ele... Ele... – Miranda ia dizer que Loki ainda tinha esse direito. Ainda poderia dizer adeus a sua mãe, sua figura materna tão amada, algo que a jovem midgardiana percebera sem dificuldades. Loki, por mais que se esforçasse para agir de forma fria e distante para com tudo e todos, tinha seus pontos fracos...

...Um deles era o amor que sentia por sua mãe adotiva, evidente para aqueles que, um dia, ele permitiu que se aproximassem de si.

Thor ignorou-a completamente. Miranda, em uma última tentativa, tentou tocar em seu braço direito, mas, assim que sentiu os dedos da jovem mulher fixando-se em sua pele, o deus do trovão reagiu de súbito.

– Afaste-se. – Exigiu ele, com uma voz gélida, porém retumbante como um raio que atingisse os pés dela.

Não era um pedido, era uma ordem.

– Por favor... – Suplicou a jovem mulher, fazendo menção de aproximar-se mais uma vez, pateticamente.

Thor levantou as mãos, movendo seu braço em um movimento brusco e voltando-se para a prima de Jane Foster. Com essa postura rígida, inflexível e agressiva, quis deixar claro que, se necessário fosse, usaria de violência para afastá-la.

Ele não consegue ver. Pensou Miranda, as lágrimas ainda descendo por seu rosto, quase permanentes.

– Saia daqui. Você é culpada por isso também. – O irmão mais velho do deus da trapaça disse com rispidez e desprezo. — A hora do seu julgamento chegará. – Thor bradou, fazendo menção de chamar guardas ao longe para conter a prima de Jane, caso ela não o deixasse em paz.

– Apenas não te joguei em uma cela porque ela não gostaria. – O deus do trovão indicou com o queixo o barco que agora passava e enfim quedava muito, muito distante.

A embarcação caíra pelo infinito, descendo léguas além do que a visão humana e talvez divina alcançava. Porém, algo saíra de lá, e rumara em direção a elevação mais sublime dos céus. Algum tipo de visão cintilante elevara-se além do barco de Frigga, subindo, subindo sem fronteiras, sem barreiras, para muito acima.

Parecia algum tipo de explosão de estrelas, uma belíssima dança de cintilantes frações cósmicas do infinito... Que rumavam para Valhala.

Dentro de seu peito, pulsando em seu coração, como pulsava a pedra norn da vida em volta de seu pescoço, no pingente de seu colar... Miranda sentira que Frigga se fora.

Para um lugar egrégio que ela jamais alcançaria.

O pranto em seu rosto ainda não cessara, e Miranda sentia-se mais fraca, débil e quebradiça do que nunca. Sentia que, mesmo com o poder inenarrável da pedra que portava, a pedra que era de seu controle, agora... Poderia se partir em mil pedaços, pedaços incontáveis como as estrelas que Frigga se tornara.

Enquanto se afastava de Thor, que a tratara com desdém inusitado, algo que a midgardiana poderia compreender, mas que jamais imaginaria vindo de um indivíduo tão benevolente... Ela ainda não conseguia medir a grandeza e a complexidade de tudo aquilo. Ela sabia que tudo, tudo o que existia estava por um triz.

A vida e a morte nunca estiveram tão próximas quanto naquele momento.

Ao seu lado, inúmeros aesires levantavam o que pareciam ser esferas de luz parecidas em tamanho, porém não em vigor as que ela mesma poderia conjurar graças à incrível força e potência da pedra norn da vida, e as ofereciam aos céus. Como um último tributo, uma última oferenda a deusa mãe que os protegera por séculos e milênios incontáveis.

Frigga ascendera para Valhala, para a morada dos deuses, para o local do universo onde reinava a infinita paz.

Mas o resto do universo estava banhado em meio ao mais tormentoso caos.

A jovem midgardiana passou a correr em direção as masmorras, mais uma vez cobrindo-se com o capuz de viagem, segurando a pedra norn da vida com força em sua mão machucada. Quanto tempo mais até que Hela viesse? Quanto tempo mais até Hreidmar? E Surtur?

Quanto tempo até o Ragnarok?

Frigga se fora, se fora por um mísero deslize... Se a deusa maior de toda a dinastia de Asgard se fora por um acidente... Quantos míseros deslizes não poderiam ocorrer para que tudo tivesse um fim? Quantos riscos não haviam para que toda e qualquer existência acabasse?

O mundo não acabaria em uma explosão, em um rufar de tambores, em uma guerra infinita...

Acabaria em um suspiro. Em uma expiração.

Em um segundo.

Com uma certeza inabalável em seu peito, Miranda Foster rumou o mais rápido que pôde para os calabouços do Palácio Real de Asgard. Sabia o que pretendia, o que ia fazer, sabia dos riscos do que pretendia executar.

Mas aquela era a hora. Ela sabia. Não haveria outra chance.

Era aquele o momento.

Depois de adentrar o Palácio Real, agora mal guardado, uma vez que todos os vigilantes se encontravam ou no cortejo do funeral de Frigga, ou vigiando as fronteiras aesires junto a Heimdall, Miranda não tivera qualquer dificuldade para descer pela passagem secreta que Elaine e Frigga uma vez lhes mostraram ao calabouço aesir.

Encontrando-se com a ninfa de Freya, pediu-lhe o mesmo favor que lhe pedira uma vez. Que encantasse os poucos guardas presentes nas celas, e os fizessem adormecer em meio a lembranças, sonhos e memórias que ela, com o poder da deusa do amor, poderia lhes fazer se perder ainda que de olhos despertos.

Desceu as escadarias circulares, e, enfim no nível subterrâneo, despiu-se daquela capa, jogando-a junto ao chão. Em um último átimo de pensamento, por razões que desconheceu conscientemente, Miranda usou os novos poderes que tinha para transformar suas roupas de guerreira baseada nas de Sif, para, novamente, o vestido de noiva verde que Frigga havia lhe presenteado. Seus cabelos não estavam trançados, nem portava a mesma tiara, mas isso não importava. Na verdade, suas vestes sequer importavam, eram apenas... Um símbolo.

Seguiu até a cela que pretendia alcançar.

Lá, sentiu seu coração apertar, apertar com dor tamanha, maior do que quando percebera que Frigga havia falecido.

Loki parecia lhe esperar. Não da forma como ela havia imaginado.

Não da forma como ela sabia que ele se sentia.

O deus da trapaça, de porte elegante, altivo, majestoso, parecia sequer se importar com o fato de que sua mãe se fora para sempre. Encarando Miranda de frente, seus olhos sequer piscando, a luminosidade verde quase opaca em meio a um olhar que não revelava nada além de desprezo e até mesmo repulsa... O deus da trapaça parecia olhar para Miranda como se nada no mundo pudesse trazê-lo maior asco do que enxergá-la ali, tão perto de si mesmo.

– Eu... – Miranda tentou começar, mas Loki a cortou de imediato.

– Eu sabia que viria. É sempre tão fácil. Tão fácil, prever o quanto é fraca. – Desprezou-a, sua voz um fio de som gélido e desdenhoso. Contida. Controlada.

Indiferente.

Miranda sentiu aquelas palavras atingirem-na com a força de uma explosão. Foi difícil continuar de pé.

– Eu fiquei surpreso quando disse que iria embora. – Admitiu Loki, forçando um riso de escárnio. – Na verdade, acho que foi a primeira... Não, a única vez em que fez algo que me surpreendeu. Positivamente, é claro. – Desdenhou o deus.

Miranda Foster continuou em silêncio, porém seus orbes cor de mel jamais deixaram os orbes verdes astutos do deus da trapaça. Estava tão destroçada por dentro, tão devastada, que a dor que se acumulava a cada palavra ferina do deus da trapaça apenas a deixava mais e mais entorpecida. Como se a dor apenas se acumulasse, e fosse tão infinita quanto à certeza da perda de Frigga.

– Achei que finalmente tomara uma decisão inteligente. O que, como sabe, é surpreendente, dado seu nível inegável de estupidez. Tão tola. Tão patética. Tão simplória. Tão... Midgardiana. – A voz de Loki falhou, enquanto ele se aproximava da cela.

– Cale a boca. – Miranda falou, em um fio de voz quebradiço. Um ligeiro tom mais alto do que um sussurro.

– O que você disse, mortal? – Loki retrucou, fingindo nojo.

– Você é mortal também! E é por isso que está arruinado! – Miranda Foster levantou o rosto, encarando o deus da trapaça finalmente com raiva. A jovem mulher, por sua vez, decidiu tomar uma aproximação.

A mais arriscada de todas.

Ah, eu te conheço. Eu te conheço bem. Mais do que você queria... Mais do que eu mesma queria conhecer.

A midgardiana de olhos cor de mel compreendia aquilo. Compreendia aquele jogo. Ela sabia o que Loki passava, e fora difícil enraivecer-se dele.

O deus da trapaça, este ser tão fragmentado, tão destruído por dentro, com tão poucas alegrias em vida, com tão pouca sanidade... Tinha como um de seus poucos alicerces de “humanidade” sua figura materna. Loki amava Frigga, e Frigga o amava, Miranda pudera testemunhar isso com seus próprios olhos em privilegiadas situações.

Ela imaginava o quanto a dor da morte de sua mãe devia tê-lo feito desmoronar por dentro. Ele estava em pedaços. Em cacos. Em estilhaços quebrados, talvez irreparáveis.

Ela sabia que ele se culparia pela morte de Frigga. Ela sabia que ele culparia a si mesmo por ter feito Miranda elaborar aquele plano que culminou naquela tragédia.

Loki poderia ter planejado tudo... Poderia ter tido a certeza de que traria a destruição para todos os Nove Reinos apenas para salvá-los do caos, e ressurgir como o Rei por sobre as cinzas. Mas Loki Laufeyson não pretendia, em momento algum, em nenhum átimo de segundo... Que sua amada mãe fosse uma vítima de seus caprichos.

Antes que o deus da trapaça pudesse redarguir o que ela dissera, Miranda retirou a pedra norn da vida de seu pescoço, tirando o colar que envolvia seu peito. O deus encarou sua mão machucada, que novamente sangrava apertando com todas as suas forças restantes o pingente em sua mão, que passou novamente de insosso e acinzentado para alvo, brilhante, resplandecente.

Miranda avançou para a barreira fatal que havia entre a cela de Loki e o corredor do calabouço do Palácio da Cidade Dourada de Asgard.

Subitamente, tudo aconteceu.

O deus da trapaça, antes tão elegantemente vestido, de aparência irretocável, desfez a ilusão que havia ao seu redor. Transformou-se para o que era em realidade... O que refletia seu exterior.

Vestido com trapos verdes e negros, seus cabelos despenteados, longos, sujos e maltrapilhos, seus pés feridos, suas mãos com veias pulsantes, assim como seu rosto e pescoço... Toda a sua aparência demonstrava uma aparência moribunda, frágil, destroçada como seu interior. Seus olhos verdes, encovados por olheiras profundas, focaram-se mais uma vez nos olhos cor de mel de Miranda, que, gritando de dor pela atitude quase suicida que tomara, tendo apenas a certeza instintiva de que sobreviveria...

...Usou ao máximo toda a potência da força infindável da pedra norn da vida para protegê-la de morrer, ao romper a barreira de energia infinita que impedia quaisquer prisioneiro aesir de sair de sua cela.

Miranda atravessou a cela de Loki experimentando por segundos que pareceram eternos a dor insuportável de sentir cada poro de seu corpo sendo penetrado por chamas de calor efervescente, como se cada milímetro de seu ser fosse ser consumido por algum tipo de fogo invisível, queimando-a de dentro para fora.

Ela não se ouviu gritar, ela sequer conseguiu ver o que havia diante de si, até que tudo passou tão rápido quanto começou.

Miranda caiu para frente, sem resistir.

Loki a amparou em seus braços, e ambos quedaram, juntos, em direção a uma das alvas paredes da cela, sujas em parte pelo sangue do deus da trapaça, que se ferira em meio ao luto.

Segurando a pedra norn da vida, que agora fazia cicatrizar a ferida que novamente se abrira na palma de sua mão, bem como as bolhas de queimaduras horrendas ao longo de seu corpo, transformando sua pele novamente ao que era antes...

...Miranda, com esforço sobre-humano, levantou seu rosto e o encarou mais uma vez, caída sobre si, em meio aos seus braços.

Loki, tremendo, ele mesmo agindo quase como uma criança descontrolada... Passava suas mãos ao longo das costas e braços de Miranda, como se abraçá-la mais forte fosse, de alguma forma, consolá-lo.

A jovem mulher de olhos cor de mel movimentou-se lentamente, quase sentindo que perderia os sentidos, e passou um de seus braços ao redor do peito dele, sua mão vagando pela camisa verde que ele usava, já em farrapos, para enfim enlaçá-lo contra si.

– Eu estou aqui. Por favor, me perdoe. Eu não queria que ela... Eu nunca pretendi ir embora. – Miranda garantiu, sua voz saindo como se fossem seus últimos suspiros. Loki pareceu conter um soluço.

Não havia mais falsidade naquele momento. Sem mais ilusões. Sem mais trapaças.

Sem mentiras.

– Eu queria que você pudesse se despedir dela... Eu juro que tentei. Eu juro que tentei protegê-la... Eu juro... – Miranda Foster tentou juntar a palma de sua mão em uma das mãos do deus para completar o juramento, mas Loki desviou, brusco, quase agressivo, soltando um “tsc” e abraçando-a com ainda mais ardor.

– Eu sei. – O deus finalmente falou. E a jovem mulher compreendeu.

Miranda Foster compreendeu que ele não só sofrera pela perda da mãe, perda que deveria estar arrasando-o por dentro. Que o deixara naquele estado.

Loki sofrera porque receara pela segurança de Miranda. Aquela última frase fora uma forma de dizer... Uma forma de confessar, que temera perdê-la também.

– Por que você sempre tem de ser tão estúpida? Tão tola... – Loki puxou-a para si, levantando seu rosto com as duas mãos e beijando-a com vigor, com força quase descontrolada. Miranda podia sentir seu luto, podia sentir sua dor, naquela forma desesperada como ele a agarrava, como se ela fosse o seu chão, que o separava do abismo e da queda infinita.

Da mesma forma agressiva com que a puxou para si, o deus da trapaça se afastou, e desviou seus olhos verdes dos dela. Baixou-os para o chão alvo da cela, sujo pela bagunça que ele mesmo fizera ao revirá-la em meio ao seu pesar pela perda de sua mãe amada.

– Você poderia ter morrido invadindo este lugar, sua imbecil. – Loki falou de forma simultaneamente bruta e carinhosa, ao mesmo tempo que abraçou Miranda Foster com força, uma de suas mãos forçando o rosto dela contra seu peito.

Com dificuldade, porém naturalidade... Miranda sorriu.

– Eu ainda posso te surpreender positivamente. – A jovem mulher retrucou, levantando um tanto o pescoço e tentando dar um mínimo tom humorístico aquela situação devastadora, e o encarou nos olhos. Loki soltou um riso triste, algo entre um suspiro e uma exclamação, e seus orbes se encontraram.

Olhos verdes mergulharam em olhos cor de mel.

Miranda entendia tudo o que ele sentia, pois podia senti-lo também. Há muito ela não mais necessitava do feitiço do juramento para sentir bater, em seu peito, também o coração de Loki. Simbolicamente, ela já o tinha consigo, em seu peito, e zelava por ele... A cada segundo de sua vida.

Sentia seu luto. Sentia suas perdas. Sentia seu medo. Sua insegurança. Sua culpa. Sua mais profunda angústia.

Mas sentia algo, além disso... Algo ainda mais escondido nos locais mais recônditos e inóspitos de sua alma... Algo que ele guardava a sete chaves, assim como ela, mas que ela já admitira para si mesma.

E agora, para ele também.

– Eu te amo, Loki. Mais do que tudo. – Miranda Foster declarou-se a ele. Confessou seu amor a Loki. Ao deus da trapaça. Ao homem por quem daria sua vida.

Loki Laufeyson não pareceu esboçar reação. Por segundos que pareceram demorar mais do que o tempo que ela levara para transpor a barreira daquela cela, o deus da trapaça apenas a encarou. Seu peito subia e descia, ao rumor de sua respiração que agora se acelerava. O deus pareceu engolir em seco.

Ainda se encaravam, quando Loki disse:

– Eu sei. – E, finalmente, lágrimas desceram por seu rosto divino. Loki chorou, um pranto que poderia ser de alívio ou de dor, ou dos dois ao mesmo tempo. Em seguida, puxou a midgardiana para ainda mais perto de si, deitando o rosto da jovem mulher em seu ombro, encaixando seu rosto no dela, beijando sua testa em mais um segundo de eternidade. Miranda sentiu que perdia aos poucos a consciência, já fraca pelo esforço que quase lhe custara sua vida.

Loki não precisaria responder-lhe.

Aquilo já lhe confessara tudo.

Notas finais
Sei que demorei, mas... Sejam boazinhas, please! Aguardo reviews! Ainda mais em um capítulo tão bombástico quanto esse! ~ Gif by me. Ah, os feels... Ps: a música do Passenger, apesar de batida e tal, realmente tem muito a ver tanto com Loki quanto com Mirandita. Ah, os feels [2]...