Journey Into Trickery

36 The Hidden Truth


Notas iniciais
OIÊ SUAS LINDAS!!!! Gente... Pra começo de conversa, mil desculpas por toda a minha ausência. Eu realmente fiquei um ano longe da fic, e as motivações foram muitas: estágio e trabalho, final da faculdade, desânimo, problemas familiares... É sempre fácil arranjar motivos para justificar, eu sei, mas espero que, mesmo depois de tanta demora, seja possível me perdoar, ao menos para aqueles que continuam lendo. Realmente sinto muito se frustrei alguém, mas acho que inspiração é algo que não dá pra forçar, e simplesmente tive um bloqueio sinistro com Journey Into Trickery. MAS EU ESTOU FORMADA! Sim, esse foi meu último semestre da faculdade. E a inspiração veio com tudo, estou cheia de ideias mirabolantes, heheheh! E já adianto que JIT está bem perto do fim da segunda temporada. Mas a segunda começa muito em breve, papo de três capítulos apenas! Quero dedicar esse capítulo as leitoras Becca, Caçadora e Dafny Augusta, lindas que recomendaram a fanfic! =D MUITO, MUITO obrigada! É esse tipo de incentivo que me faz ter certeza de que não posso desistir das minhas histórias. Agradeço a todas as leitoras que seguem comentando, todas tão companheiras, só tenho a ficar muito gratificada mesmo com todo esse apoio. Vocês são maravilhosas, espero que saibam o quanto me deixam feliz. Capítulo com POV Loki e Miranda! Se preparem para uma PUTA REVELAÇÃO! E muuuita emoção. No próximo capítulo já começa a guerra do Ragnarok! Dito isso... Beijos e boa leitura!

“— Eu te amo, Loki.

Mais do que tudo.”

O recém órfão deus da trapaça rememorava por vezes incontáveis a fala que fora derrubada sobre si com o peso insustentável de uma verdade que ele tanto fingira não ver. Sempre fora o deus da mentira, do logro e das artes do engano, mas, depois daquilo, não havia mais como esconder.

Ele sabia. Sua resposta não fora em nada mentirosa. Sabia há tempos.

Contudo, logo ele, o maior, o mais mirabolante arquiteto de embustes que os Nove Reinos já viram, se sentia em um beco sem saída. Incapaz de deliberar ideias, traçar planos ou quaisquer estratagemas que o fizessem se livrar do que aquela declaração súbita, tonta e imprópria para o contexto que enfrentavam gerava dentro dele.

Sua ninfa midgardiana o amava. Então, era verdade. Sua feiticeira, sua deusa de Midgard, era, realmente dele.

Mas o que faria com isso? Que rumo traçar, a partir de agora?

Como lidar com a súbita realização, finalmente posta em seus pensamentos conscientes, de que o que quisera com tamanha intensidade estava tão perto de si... E, simultaneamente, a anos-luz de distância?

Depois de desmaiar pela fragilidade que seu corpo e resistência meramente humanos, demasiadamente humanos detinham, Miranda só acordou no dia seguinte, nas primeiras horas da manhã. Teve de deixá-lo, e o fez em silêncio, algo que o deus não ousou quebrar com nenhum som também de sua parte.

Certo desapontamento era visível no belo rosto daquela mulher de olhos cor de mel, misturados com algum tipo de conformismo. Como se soubesse que ele nada diria e não se manifestaria, como se tivesse realmente lhe dito aquela verdade sem esperar nada em troca.

Uma pontada de dor amolada se deu em seu peito, como uma das lâminas aesires mais sofisticamente forjadas atravessando em lento tormento seu tórax de dentro para fora. Sentado em sua cela, Loki Laufeyson sabia que era apenas uma questão de tempo até o contra-ataque de Hela. Ela começara na vantagem. Matara sua mãe adotiva, e certamente já trazia as tropas do submundo de Hel, além de seus aliados — Hreidmar e Surtr — para a invasão definitiva de Asgard.

Odin estava abalado. Thor estava sentido. Ele próprio, oras, não se encontrava na melhor das posições emocionais. Sentimentalismos... Por que insistimos em dizer que somos tão melhores que os mortais ordinários?

Esperar a batalha era o mais terrível. E esta demora, misturada ao luto recente que tanto queria negar por Frigga, e esta súbita asserção dos sentimentos daquela tola, porém tão indiscutivelmente arrebatadora midgardiana por si, deixara, finalmente, o deus da trapaça sem ação.

Aquilo era inédito. E, por isso mesmo... Terrivelmente assustador.

Como se invocada por seus últimos pensamentos, uma fumaça escura ergueu-se do chão da cela do deus da trapaça. Surpreendido, porém já atento, fazendo uso de seus reflexos privilegiados, o amado filho de Frigga recuou, levantando-se de pronto.

Reconheceu no mesmo segundo quem fazia os ares da última visita.

Bem, não posso negar que não fico entendiado nesta clausura, com tanto movimento. Refletiu com sarcasmo, esperando que a densa névoa negra desvanecesse e revelasse aquela que ali se conjurou.

Leah, a aprendiz de Hela, olhava para Loki com seus verdes e estreitos orbes julgadores. A mesma nota de fragilidade com que o encarava fez-se mais uma vez nítida para suas capacidades perspicazes de observação. O filho adotivo dos maiores deuses dos Nove Reinos não compreendia as emoções turbulentas que advinham daquele olhar, e, como sempre, sequer tinha interesse em entender. Tinha a intuição de que era melhor passar livre disso.

— Ela está vindo — o deus da trapaça fez a afirmação, sem necessidade de confirmação de parte da antes assecla da deusa da morte. Leah apenas meneou a cabeça em um gesto afirmativo, solene. Conseguira transpassar as barreiras à sua energia mágica, uma vez que estas haviam sido destruídas por Miranda quando invadiu aquele espaço, no dia anterior. Deixando o deus da trapaça em um terrível torpor preocupado por segundos, a jovem mulher quase sacrificara a si mesma, fazendo uso do poder ilimitado da pedra da vida.

— Sim. Posso pressentir sua proximidade paulatina. Hela não tardará — garantiu a serviçal que traiu sua chefe, lúgubre.

— Meu tolo irmão e meu desorientado pai discutem? — perguntou retoricamente. Sabia que as mentes limitadas de Odin e de Thor estavam em polvorosa. Contudo, por mais curioso que aquilo fosse, não os condenava naquele momento. A jogada de Hela fora genial. Escolhera o ponto fraco de todos eles, arrancando sua estabilidade sem dó nem piedade.

Leah confirmou da mesma maneira. Loki soltou um sorriso torto, e enfim abrandou seu olhar distante. Precisava lhe pedir algo. E sabia que ela lhe concederia aquilo.

— Ela precisará do seu apoio — o deus da trapaça não teve dúvidas de que a aprendiz de Hela compreendera. Contudo, desta vez não anuíra.

Fez menção de voltar-se sobre si mesma, mas parou antes de mover os braços e mãos de maneira a realizar seu encantamento que a faria escapar daquela cela. Fitou o deus outra vez, com um olhar misericordioso que o revoltou internamente.

— Você realmente não faz ideia — disse, misteriosamente.

Loki sentiu-se ultrajado. O que quer que aquela pequena aprendiz tecesse em sua mente conturbada, não era de interesse do deus. Mas não era capaz de aceitar que lhe desse tamanho tratamento condescendente. Quem ela pensava que era? O que achava que sabia?

— Nem ela. Mas isso vai mudar em pouco tempo — prometeu a aprendiz da deusa da morte, sumindo em sua fumaça transportadora antes que Loki pudesse lhe dar uma resposta atravessada.

Mais uma vez deixado à completa solidão, ensimesmado, o deus da trapaça pensou no que ela poderia estar se referindo. Percebera algum tipo de indireta. Algo maior do que os entraves emocionais que se deram nos últimos tempos.

E, ao mesmo tempo, que tinha todo o tipo de conexão com eles.

Rangendo os dentes, Loki escorou-se na parede, conjecturando consigo mesmo diversas táticas para lidar com Hela. Porém, por mais certo de que estivesse dos rumos daquela guerra, uma semente de temor crescia escondida em seu âmago. Apenas incentivada pela revelação já conhecida de Miranda Foster.

O que quer que acontecesse... Loki não poderia perdê-la.

Contra toda a sua vontade racional, sabia que não suportaria.

****

— Heimdall nos passou as últimas notícias — Sif falava apressada, andando a passos largos por um corredor do amplo palácio asgardiano. Armada e pronta para o combate, a deusa guerreira conversava com Miranda, também usando uma armadura similar a da aesir, porém, de tons esverdeados e prateados.

— E? Sem suspense, por favor, já estamos todos morrendo de ansiedade — ironizou Miranda Foster, fitando a bela deusa ao seu lado. Sif soltou uma expiração nervosa, voltando seus olhos decididos, porém indubitavelmente atordoados, para ela.

— Hela está chegando. Porém, se encaminha por último. Hreidmar avança com um exército de proporções quase imensuráveis. Heimdall contou mais de cem mil anões e criaturas dos confins da superfície — relatou o funesto contexto bélico em que se encontravam. Miranda respirou fundo, controlando a própria ansiedade. Sua mão, sempre ferida pelo contato com a pedra norn da vida, já fazia o movimento instintivo de segurar o pingente pendurado em seu peito.

— Precisamos esvaziar a cidade — urgiu Elaine, sua voz aguda, atarantada. Sif concordou em um aceno, enquanto todas as três se dirigiam até a sala do trono. Odin queria ter com elas, depois de longas elucubrações sozinho com seu primogênito. Aparentemente, decidira o que seria feito.

Caminharam o mais rápido que podiam, descendo escadarias tão douradas e cintilantes como todo e qualquer ambiente do Palácio Real. O deslumbramento que Miranda uma vez experimentara dera lugar a uma sensação de opressão, por saber o quão não era bem-vinda naquele lugar. O quão não se encaixava ali. Ela era uma midgardiana, apenas uma humana comum tão longe de casa, presa em uma teia de estratagemas muito maior do que sua existência, e até mesmo do que a de qualquer um ali. Uma pequena peça em um tabuleiro imenso, que se delineava muito além do que seus limitados olhos midgardianos poderiam ousar avistar.

Sabia o quão tola fora de se apaixonar perdidamente pelo deus da trapaça, que, como imaginara, sequer se dignou a responder o que lhe dissera na noite anterior. Mas nada daquilo acontecera por razões racionais. Desde aquela madrugada imprevisível em seu apartamento no Brooklyn, a sucessão de acontecimentos intensos, afoitos e irreversíveis — para o bem e para o mal — construíram a situação que ela se via agora incluída. Aquilo era maior até mesmo do que Loki, a mente genial por trás de tudo.

Suas emoções controversas não eram prioridade naquele momento. Levada por aquela gradual teia de aventuras, desventuras e imprevisíveis peripécias, Miranda sabia que havia algo a ser feito. Algo que ela temia, insegura, desde pequena. Ela jamais fora uma pessoa comum, e aquilo simultaneamente a extasiava e a aterrorizava.

Dotada de dons diferenciados da maior parte da humanidade, com um faro incontestável para arranjar problemas e atrair companhias não tão seguras, a jovem mulher de olhos cor de mel sabia, intuía, na verdade, que simplesmente fizera escolhas que a levariam até ali, impreterivelmente. Como se seu destino, já escrito, também tivesse sido escolhido por ela.

Chame isso de karma, ou qualquer baboseira de auto-ajuda do gênero. Pensou, levantando uma sobrancelha.

Para quem levara uma vida de desencontros, sempre burlando as regras, sobrevivendo por meio de ludíbrios, às margens da sociedade, uma pária por escolha e por destino... Miranda não poderia vir a louvar outro deus que não o deus da trapaça.

A jovem mulher seguiu com suas companheiras até a principal sala do palácio dos mais respeitados deuses aesires. Não pôde evitar olhar do piso marmóreo ao teto, aquela infinitude dourada flamejante, brilhando capaz de cegar os olhos que ousassem encará-la. Odin se sentava em seu trono, seus olhos claros parecendo isentos da luzidia coloração de todo o resto do Palácio Real. Thor, de pé ao seu lado, cruzava os braços, portando o Mjolnir. Fitava as portas de entrada, de frente ao trono, e não mirou nenhuma das mulheres que acabavam de entrar. Seus olhos azuis idênticos aos de Frigga revelavam tormento, como um mar em fúria, transtornado pela perda daquela figura materna tão amada por tantos.

Fandral, Hogun e Volstagg ali se encontravam, ajoelhados e curvados em profundo e silente respeito defronte ao Pai de Todos. Heimdall, alguns centímetros na frente dos três guerreiros aesires tão amigos do deus do trovão, tinha a mesma postura subserviente, apenas aguardando manifestação do deus que governava os Nove Reinos de Yggdrasil.

Alguns guardas reais circundavam aquele grande salão, implacavelmente retesados, prontos para qualquer ordem de seu rei.

— Heimdall, quero que leve Sif, Volstagg, Hogun e Fandral para a linha de frente. Hreidmar tentará derrubar nossos círculos de proteção, e provavelmente conseguiu algum meio de fazê-lo juntando-se à líder desta insurgência desprezível. — A voz do Pai de Todos retumbou pela principal sala do palácio como os trovões controlados por Thor. Miranda tremeu, sentindo a fúria contida em cada sílaba daquelas palavras. Reconheceu nelas o tom perigoso que Loki usava quando estava tomado por sua gélida fúria assassina.

Todos os guerreiros assentiram, respondendo um alto “sim, Vossa Graça” de imediato. Sif deu um olhar de soslaio para Miranda, que meneou imperceptivelmente a cabeça. Sabia que seriam separadas, mais cedo ou mais tarde.

— Elaine, como ninfa à serviço de Freiya, espero que se junte a alguns de meus guardas para ajudar a evacuar a cidade. Temos um abrigo emergencial para este tipo de situação — assegurou o Pai de Todos, sorumbático. A ninfa também anuiu com seu rosto delicado, lançando um olhar para Miranda como quem diz “aguente firme”.

— Thor, eu e a midgardiana a serviço de Loki... — As palavras soaram ferinas, atingindo Miranda com a força de um tufão. Odin as dissera como se tratasse Miranda como algum tipo de meretriz barata à disposição de seu filho adotivo. Ela pôde perceber que custava muito ao pai adotivo do deus da trapaça mencionar o nome do filho desgarrado. — ...Estaremos na retaguarda. Todos iremos lutar para reverter este ultraje. Hela será destruída, de uma vez por todas — asseverou o deus que governava os Nove Reinos.

— Sim, Vossa... — Miranda se punha a concordar, mas Odin levantou uma mão para onde ela estava parada, à uma distância prudente e submissa, alguns metros à direita e a frente do trono do Pai de Todos.

— Espero que saiba que sua posse da pedra norn da vida é temporária — Odin falou, sem um traço de emoção em sua dura voz. A jovem mulher sentiu um calafrio desagradável subir-lhe à espinha, eriçando os poucos pelos de seu corpo. Um mau agouro. Havia certa nota de cobiça na voz do pai de Loki e de Thor.

— Sim. Será devolvida a deusa Karnilla assim que esta guerra terminar — respondeu Miranda, tentando dar o máximo de humildade e subserviência a sua voz, que saiu falha, temerosa.

— Não. A pedra norn da vida ficará comigo — decidiu Odin, sem admitir qualquer tipo de recusa, uma nota terrivelmente gananciosa aferível em suas palavras determinantes. Miranda, boquiaberta, passou a fitar Thor, descrente daquilo. O deus do trovão não lhe deu mais que um olhar indiferente. Não discutiria com o pai, mesmo que aquilo fosse completamente desarrazoado.

Se não devolvessem a pedra norn para Karnilla, Odin compraria uma nova guerra. De que adiantariam subsistir a tentativa de Ragnarok impetrada pela deusa da morte, se teriam de enfrentar logo em seguida a fúria da deusa mais poderosa de todos os tempos, dimensões e Reinos da Árvore dos Mundos? Não havia como fazer frente à Karnilla. Mas, pelo visto, o Pai de Todos fora cego pela cobiça.

Talvez ele e Loki tivessem mais em comum do que o deus da trapaça esperaria.

Ainda mais nervosa do que já estava antes daquela distribuição de atribuições, Miranda tentou formular algum tipo de resposta para aquilo, embora soubesse que não seria escutada. O único motivo pelo qual não havia sido morta por Odin, que claramente a desprezava e desejava sua destruição, culpando a si mesma e a Loki pelo destino de sua falecida esposa... Era que ele não podia ser mais forte do que a pedra norn da vida. O pingente pendurado naquele colar que rodeava seu pescoço era a única razão para que ainda respirasse.

O que Odin pretendia com aquilo? Trazer Frigga de volta à vida? Teria tido a verdade distorcida pela dor do luto a esse ponto de contestar leis acima de quaisquer poderes divinos?

Mas ele não havia terminado suas ordens. Logo retornou a falar.

— A aprendiz de Hela... — Odin mencionou Leah, que logo se fez visível, escondida por fileiras e fileiras de guardas reais que antes a cercavam, impedindo sua movimentação. Como se o deus fosse incapaz de confiar nela, mesmo depois de provar sua lealdade lutando a favor deles.

— ...E a serviçal do deus da mentira ficarão sob às vistas de Thor e de meus guardas até o momento de agirem. Meu filho, levem-nas até seu confinamento — ordenou o Pai de Todos, fazendo o queixo de Miranda cair ainda mais. Seria presa em uma cela? Como Loki? Mas aquilo não apenas ia contra a vontade de Frigga quando ainda viva, como era pouco oportuno para a batalha que se daria em pouco tempo. Dividir suas forças era uma ideia ruim, tendo em vista que toda e qualquer resistência deveria estar preparada para se unir contra Hela assim que o caos da fúria dos deuses do submundo se insurgisse contra toda Asgard.

Thor obedeceu o pai de prontidão. Não falou nada, apenas guiou Miranda e Leah, também absolutamente silenciosas, até o terceiro andar do Palácio Real. Ficaram presas em uma sala circular, repleta de livros do chão ao teto, em estantes de madeira antiga tingidas em uma tonalidade clara que as faziam parecer de um amadeirado terroso, também em um tom dourado.

O deus do trovão, mantendo-se gelidamente distante, as deixou ali dentro, e mandou cercar todo o perímetro do lado de fora da biblioteca. Não havia escapatória. E Leah sabia o que a esperava, se tentasse usar sua magia para se transportar por meio de seu feitiço evanescente. Seria entregue de bandeja para sua antiga chefe que traíra declaradamente.

— Ela está cada vez mais perto — Leah sustentou, fechando os olhos em uma expressão de desconforto. Como se pudesse ver com olhos além dos físicos a aproximação da deusa da morte.

Miranda sentia o peso da pedra norn da vida ficar ainda mais estafante. Era penoso, era inumano ser obrigada a carregá-lo. Sabia que aquilo pouco a pouco a modificava, causava-lhe danos que, intuía, talvez jamais fosse capaz de superar.

Ou que, quem sabe... Poderiam transformá-la em uma pessoa diferente da que um dia fora. Alguém transformada... Após toda essa série de desventuras.

Ela tentou se distrair fitando os mais diversos tomos literários que ocupavam aquela sala circular. Era incapaz de contar todos os livros ali guardados. Todos escritos em uma língua aesir antiga, desconhecida. Todavia, a visão deles trazia a sensação de formigamento, uma espécie de despertar axiomático que ela pouco a pouco se habituava a lidar com e senti-lo sobremaneira. Aquela sala estava repleta de energia mágica, pulsante como o sangue que vibrava percorrendo rápido todo seu corpo. A pedra norn pareceu brilhar em seu peito, chamando a atenção de seus olhos.

A jovem mulher de cabelos castanhos segurou a pedra em sua mão direita, reparando que a superfície do objeto estava mais clara do que jamais fora. Como se alimentada pela potência etérea daquela biblioteca, provavelmente repleta de livros de magia escritos em tempos imemoriais.

— Eu relutei para fazer isso... Mas terei de fazer. Senão jamais saberão. É meu dever... Não posso mais adiá-lo! — Leah comentou, soltando um suspiro contrariado. Franzia o cenho, parecendo lutar contra algum tipo de martírio interno, escondido em seus pensamentos que Miranda não podia atingir, ao contrário da entidade com aparência de criança.

— Está com dor de barriga? — debochou Miranda, sem saber o que dizer, tentando fugir do terror que pouco a pouco a acometia. Hela estava chegando. Ela sabia o que aquilo significava.

Poderia estar muito perto de seu fim. Não só ela, como toda Asgard. Todos os Nove Reinos.

Loki.

— Não seja estúpida — retorquiu a aprendiz da deusa da morte, irritada. Torceu o nariz, fitando a midgardiana com o ar soberbo de sempre. — Não é certo que vamos todos morrer. Quero dizer. Um dia, iremos — acrescentou a pequena garota. — Mas talvez não seja hoje — tentou Leah.

— “O que dizemos para a deusa da morte?” — brincou Miranda, lidando com esta situação implacável com o bom humor que lhe era característico, fazendo menção a uma fala típica de um personagem dos livros de George R. R. Martin.

A antes assecla de Hela a fitou com desprezo, e a jovem mulher sabia que não compreendia a referência.

— “Hoje não!” — continuou a midgardiana de olhos cor de mel, dizendo o mantra do mestre espadachim Syrio Forel, o personagem referido, forçando um sorriso amarelo. Leah lhe deu as costas, e moveu os braços, como se desenhasse uma comprida esfera no ar. Miranda franziu as sobrancelhas, sem saber o que a garota pretendia.

— É alguma daquelas suas bolas de cristal, tipo daquele teste que você convenientemente me fez esquecer depois só para me fazer lembrar dele em um clímax dramático? — criticou a aprendiz da deusa que pretendiam derrotar com sarcasmo ferino. Leah lhe olhou por cima do ombro, a fitando com o mesmo olhar de desdém costumeiro.

— Quase isso. Até a sua mente limitada entenderá, em pouco tempo — redarguiu a pequena garota, dando um sorriso enviesado para a cúmplice do deus da trapaça.

— Para alguém tão baixinha... — Miranda Foster pretendia retrucar, mas a esfera conjurada em pleno ar passou a se tornar transparente, exceto por suas extremidades, brancas e esfumaçadas como as típicas magias brumosas de Leah. Foi aumentando de tamanho até englobar toda a sala, como se formasse uma passagem para outra dimensão.

— Você ‘tá maluca? O velho ditador mata a gente se... — a midgardiana começou a dizer, atônita, temendo que a aprendiz da deusa da morte buscasse fugir da clausura impetrada pelo Pai de Todos. Porém, Leah não esperou. Segurou o braço de Miranda, e, com força surpreendente, atirou-se consigo para dentro do portal.

— Estamos mortas! — bradou Miranda, assustada, assim que atravessou os limites do pórtico etéreo. A serviçal de Hela apenas revirou os olhos, impaciente, e pôs-se a esclarecer.

— Não saímos da biblioteca. Estamos fisicamente no mesmo lugar. Eu só conjurei tudo isto para lhe revelar algo que você deveria saber — dilucidou a pequena entidade poderosa, sem fleuma alguma para lidar com Miranda.

Miranda Foster aferiu que estava em um cenário diferente. Algo semelhante as raízes de Yggdrasil, mas mais abandonado. Vazio. Como um limbo totalmente desocupado.

— O que é isso? — perguntou a jovem mulher, engolindo em seco. Leah, ao seu lado, passou a conjurar mais uma esfera reveladora, dessa vez menor, compacta, do tamanho de um quadro ou espelho ovalado.

— Inception de bolas de cristal, agora? — a midgardiana se mantinha debochando, sem saber como lidar com tantas surpresas, uma seguida da outra. A aprendiz de Hela continuou silente, apenas murmurando as palavras de seu feitiço.

— Cale a boca e me escute — ralhou Leah com severidade. Fora tão enfática que Miranda realmente silenciou por um tempo. A midgardiana de olhos cor de mel passou a mirar o que havia dentro das novas esferas enfeitiçadas.

Vislumbres do que vira quando fora imposta a um teste. Um teste que jamais compreendera completamente, imposto pela aprendiz da deusa da morte. A mesma que lhe dera consciência do toque de Hela, e posteriormente lhe provera seu sopro. Que a fizera tão poderosa, antes da pedra norn de Karnilla.

— Por que está me mostrando isso de novo? — Os olhos de Miranda já estavam debulhados de lágrimas. Era impossível rever todas as versões de Loki, mostradas nessas esferas que realmente lembravam as visões de bolas de cristal tão contadas em lendas humanas, sem ficar arrasada. Todas elas enfrentavam destinos terríveis, perseguições, abandonos, rejeições... Castigos.

— Chega! — implorou Miranda, novamente movida. Leah fez as esferas sumirem em um floreio com as mãos. A garota a fitou com olhos austeros, estreitados como se estivesse se preparando para lhe contar algo que mudaria em definitivo a vida da jovem mulher de olhos amendoados.

— Vocês em Midgard inventaram uma ideia ignorante para explicar o ciclo sem fim que comanda o universo — começou a aprendiz de Hela. Miranda ficara tão perturbada com as imagens de sofrimento de todos os possíveis Loki já existentes em todos os tempos e dimensões, que apenas pensou rapidamente na piada que faria com a fala da garota, se estivesse bem o suficiente. Debochando da similaridade com o roteiro de “O Rei Leão”.

— O ciclo de vida e morte, destruição e reconstrução, da eterna renovação... Um eterno retorno a que todos estamos submetidos — ela continuou, mas a parceira do deus da mentira ainda não compreendia.

— Vocês o chamam de “reencarnação”. — Leah parou e respirou fundo. — Mas, diferente do que pensam, suas almas não viveram muitas vidas. Cada alma é uma alma nova, que, depois de morta, se renova e retorna a existir, em uma possibilidade completamente nova. Não há destino escrito, como alguns de vocês defendem. Tudo se baseia em escolhas — garantiu a pequena menina.

— Por que está me contando isso? — Miranda Foster sentiu saber. Contudo, ainda não ousava conscientemente assumir aquilo. Era como se ela apenas tivesse esperado para ouvir aquelas palavras de Leah, mas a verdade por trás dela estava guardada consigo há muito tempo.

Desde sempre.

— Porque a sua alma, quem você é hoje, já foi outra pessoa no passado. Vocês não são a mesma pessoa. Compartilham tão somente a mesma energia — disse a aprendiz da deusa da morte. Acompanhar aquele raciocínio de forma pragmática era difícil, para não dizer impossível. Mas, dentro dela, no âmago de suas emoções, instintos e intuição... Fazia todo o sentido.

— Hela tocou o invólucro da sua alma, a essência da sua alma, sentindo que havia algo especial nela. É por isso que você tem o toque dela. Por esta energia compartilhada. E é curioso... Que vocês duas tenham escolhido o mesmo destino — Leah sorriu um sorriso torto. Parecia envolta por uma tristeza conformada.

— Eu e quem? — Miranda indagou, mas já sabia a resposta. Podia prevê-la. Podia senti-la dentro dela, pulsando junto ao seu coração.

A garota de olhos verdes não respondeu. Apenas caminhou, seu longo vestido verde esmeralda, da mesma cor de seus olhos, se arrastando pela terra sem vida. Parou alguns metros à distância, de costas para a midgardiana.

A jovem mulher de cabelos castanhos seguiu o mesmo caminho. Seus batimentos cardíacos aumentavam de ritmo, a pulsação de seu sangue cada vez mais vigorosa ao passo que avançava em direção da entidade com semblante e estatura de menina.

Miranda se deparou com um abismo comprido, porém, muito ao longe, pôde ver. E atestou o que sentira.

Loki, preso em correntes dos pés à cabeça, incapaz de se mover, com o pescoço arqueado de forma que seu rosto ficasse fitando o céu. E, acima dele, uma serpente pingava veneno em seu rosto, mas o fel derramado era contido por um cálice.

Um cálice segurado por uma jovem mulher. De cabelos castanhos, olhos cor de mel e pele apenas poucos tons mais claros do que Miranda Foster. Seu rosto, de feições idênticas as da midgardiana, estavam tomados pela mais angustiante dor.

— Esta é Sigyn. A deusa da fidelidade, e a esposa de Loki, de um dos Lokis, o que veio a se casar. A Sigyn que já morreu há muito tempo, cuja alma se uniu ao universo e agora descansa eternamente. A alma que compartilha com você a mesma energia, a mesma origem. A mesma essência. E este é um dos Lokis que já viveu, e morreu, e retornou depois de inúmeros ciclos de renovação e destruição. Depois de inúmeros Ragnaroks.

Os olhos de Miranda ficaram completamente marejados. Ela não podia deixar de encarar o casal, sentindo-se não só espectadora mas também Sigyn, a própria Sigyn, a companheira do deus da trapaça, o protegendo o melhor que podia do destino terrível ao qual fora condenado.

Ela não só partilhava sua dor, suas perspectivas, sua consciência. Ela era ela. Era e não era, ao mesmo tempo.

— É por isso... É por isso que eu encontrei o Brisingamen? — a jovem mulher fez a pergunta retórica. As lágrimas desceram por seu rosto, melancólicos como um fluxo delicado de águas de um córrego.

Ela não era Sigyn.

Ela era Miranda.

Mas, de alguma forma, a existência das duas era semelhante. Como se partissem de um mesmo ponto, tomando caminhos diferentes, cruzando com também um mesmo ponto semelhante milhas e milhas além.

— Talvez. Como eu disse... Não há destino. Tudo é movido por escolhas. Mas eu imagino que vocês fizeram escolhas parecidas por terem isso em comum. Você e ela... E ele também — confessou Leah. A jovem mulher mirou a garota, que desviava seu olhar tanto da midgardiana quanto da cena que desvanecia aos poucos, revelada para Miranda pela magia da aprendiz da deusa da morte. Estavam novamente na biblioteca, sem mais feitiços reveladores.

— Isso quer dizer que... Talvez tenhamos outro fim? — questionou. A garota apenas fez que sim com a cabeça, e a humana que partilhava a energia criadora de sua alma com Sigyn ainda chorava em silêncio, contendo um suspiro.

— Eu vou tentar meu melhor — prometeu Miranda, limpando as lágrimas, sem jeito. Ela sabia que não precisava de uma declaração de Loki. Não tão cedo. Não enquanto ele não estivesse pronto, como ela estivera. Apesar dos pesares, dentro de suas limitações, ele demonstrava. O encontro do Brisingamen provara tudo. Haviam obstáculos a serem superados, tanto da parte dela quanto dele. Mas estava decidida. Estava disposta a enfrenta-los a todos: Odin, Hela, os Nove Reinos e os próprios inúmeros conflitos dela e de Loki somados todos juntos.

Pois ela sabia que ele a amava também.

Como pressentira, fazia parte de um todo muito maior do que ela. Um todo de infinitas possibilidades, tecido pelas escolhas individuais de cada um deles. Escolhas que o trouxeram até ela, e a levaram até ele.

Eles tinham se encontrado, contra todas as intempéries e infindáveis variáveis, universos e distâncias que os separavam.

E, como uma vez disse Boann... Enquanto estivessem juntos... Haveria esperança.

Loki e Miranda se amavam. Acima de tudo.

Notas finais
Créditos para a arte Sigyn/Miranda e Loki: http://orig08.deviantart.net/ Gif fofinho Loki e Sigyn/Loki e Miranda: http://orig10.deviantart.net/2bca/f/2012/306/5/0/sigyn_and_loki_gif_by_suiskellington-d5jrmjg.gif Uma união kármica dessas nem Odin separa! Aguardo reviews! :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.