Journey Into Trickery
6 To Trust Or Not To Trust
Notas iniciais
Neste capítulo teremos Loki se divertindo às custas de Miranda, Thor com uma conversa um tanto pessoal com seu irmão mais novo e Miranda perdendo a razão com as loucuras que o nosso querido deus da trapaça a fará passar! De Nidavellir irão para Muspelheim, mas, no meio do caminho... Algumas coisas serão postas a prova, e outras em prática!
Então, muitos beijos e boa leitura, queridinhas! :3
Era de manhã, e Loki já havia acabado de assumir novamente sua forma jotun. Miranda terminava de juntar seus pertences para que pudessem finalmente sair de Nidavellir e seguir ao próximo local de seu percurso, quando ouviram outra vez batidas na porta dos melhores aposentos da estalagem, no qual se encontravam.
Loki deu a Miranda um olhar significativo, e aproximou-se da porta ele mesmo para recepcionar quem os procurava.
Mahar, o dono da estalagem, esfregava as mãos, afoito, olhando para baixo, quando Loki abrira-lhe passagem. O deus reparou que, pelos seus olhos arregalados e a expressão surpresa, o anão parecia incomodado com algo.
– Milorde Laufar... Eu... Ah... Bem... – O anão começou, aparentemente com dificuldades.
Loki deu um olhar de esguelha à Miranda, que franzia as sobrancelhas. Ele fingira estar dormindo quando a mulher recepcionara o anão na noite anterior, e tivera de controlar-se para não mostrar o próprio contentamento ao confirma que o Rei Hreidmar havia aceitado seu pedido e preparava-se para a guerra. Quando a mulher deitara, ele reparara por sua respiração levemente acelerada, que algo parecia assustar-lhe.
O anão havia aconselhado-a a jamais confiar em Loki novamente, quando mal imaginava que o próprio deus da trapaça havia dormido na mesma cama que a mulher. Era irônico, e ele não esperava que a jovem moça pudesse despertar a empatia de algum daqueles seres interesseiros. Loki estranhava esse tipo de atitude. Imaginava que os anões apenas esperariam em troca ouro, e que não haveria nenhum deles capaz de se apiedar de outrem que não a própria espécie. Em tempos passados, o deus julgaria isso uma fraqueza, mas estava começando a entender — ou lembrando-se do significado – desses aparentes defeitos que supostamente pertenciam apenas aos reles mortais. Pois era um deus, e já sentira-os antes, quando ainda não havia descoberto que vivia uma mentira ao lado daqueles que fingiam ser sua família. Mas agora, ele começava a reconhecer... Voltaram a importuná-lo, e não tinham relação alguma com Odin, Frigga ou Thor.
E sim com Miranda.
– Que que foi, Sor Soneca? Quer um copo d’água pra soltar a língua? – Miranda disse vulgarmente.
– Oh. Milady. – Ele fez uma reverência ainda maior do que a proferida ao jotun. – Sinto muito, venho... Por ordens de Hreidmar.
– E o que vosso nobre Rei deseja? – Loki perguntou, cada palavra falsa cuidadosamente planejada.
– Isto. – Mahar tirou dos bolsos do avental uma espécie de pergaminho, o qual Loki abriu rapidamente. Passou os olhos pelo papel, e conteve mais um sorriso de triunfo. Está acontecendo ainda melhor do que eu imaginava.
– Vosso Rei e Protetor deseja que eu me dirija a Muspelheim? Eu, um jotun? – Loki fingiu debochar, mas já sabia que esta seria a opção do Rei.
– Eu realmente sinto muito, senhor. – O anão voltou a mexer nas próprias mãos. – Não tive outra escolha, sou apenas um dono de estalagem. – Ele baixou os olhos novamente, não sem antes dar a Miranda um olhar de esguelha. O deus perguntou-se se era porque esperava ouro ou por algum motivo a mais, e a segunda opção deixou seu sangue um tanto mais quente do que gostaria.
– Hreidmar deseja aliados. – Loki sorriu enviesado, tentando controlar-se. – Eu compreendo isso muito bem. – Deu um olhar furtivo a Miranda, que franzia as sobrancelhas, a boca levemente entreaberta, como se não estivesse entendendo nada. – E é por isso que seu pedido será aceito. Avise ao grande Rei dos anões que o jotun atenderá aos seus termos. – Loki fez uma ligeira reverência polida, e o anão retribuiu-lhe, sem acreditar.
– Mas... Senhor... És um jotun... – Mahar tentou começar, sem perder o respeito.
– Sem dúvidas. Mas minha aliada não é. Para ela, não haverá problema algum em adentrar o Reino de Fogo. – O deus da trapaça virou-se para Miranda e seu sorriso apenas alargou-se ainda mais.
– O quê?! – Miranda não pôde controlar-se, e Loki deu-lhe um olhar repressor. Ela ainda deixou a boca levemente entreaberta, o rosto formando uma expressão indignada, e o anão tomou licença e deixou-os a sós. Assim que pararam de ouvir seus passos na escada, a mulher aproximou-se de Loki, respirando fundo como se quisesse segurar a própria raiva.
– Do que está falando?! Por que acha que pode decidir as coisas por mim? – Miranda aproximou-se dele, os braços cruzados e o olhar fulminante, indignada.
– Leia isto e entenderá. – Loki entregou o pergaminho a Miranda, seu sorriso ainda mais divertido.
Miranda hesitou por alguns segundos, mas depois se aproximou e arrancou o papel das mãos do deus, fazendo-o rir sinceramente. Era muito divertido vê-la naquela situação, ela que sempre fora tão arrogante com justamente o deus da trapaça, testando seus limites até o máximo que aguentava quando em Midgard. Agora, era enfim a vez da jovem moça ser posta a teste.
– “Eu, o Rei Hreidmar, Senhor Supremo de Nidavellir, Protetor dos Anões... – Miranda leu sem paciência, pulando as partes burocráticas dos termos reais. – “Aceitarei a proposta do Jotun Laufar, sob pena de traição ao juramento, caso assim não me porte. Porém, tal aceitação só se dará sob as condições irrefutáveis de que o Jotun e sua aliada, a asgardiana Hale... – Miranda parou de ler e arregalou seus grandes olhos redondos e cor de mel. – Mas ele falou de mim!!! – Ela parecia assustada, e Loki não pôde controlar mais risadas. – “...Conquistem o apoio do Rei Surtr, o Senhor de Muspelheim, lorde supremo do Reino de Fogo, e também sua fórmula secreta para que seja usada em minhas forjas, inclusive para o preparo da própria guerra que desejam começar.” – Miranda olhou outra vez para Loki, ainda mais assustada. – Mas... Mas... – Ela voltou os olhos ao papel e leu a assinatura real confirmando as palavras, mostrou o brasão de Nidavellir a Loki, apontando também as assinaturas de outros vassalos. – O cara mandou um contrato oficial pra gente, mandando não só você como eu irmos a uma missão num lugar que eu não faço a menor ideia! “Mustafálheim”, o quê? – A jovem moça parecia aparvalhada, seus braços se mexendo de uma maneira esquisita, enquanto andava de um lado para o outro, respirando rápido.
Loki segurou sua risada, sabendo que aquilo a irritaria. Preferiria debochá-la com as palavras que proferiu depois.
– E o melhor de tudo: você vai sozinha. – O deus da trapaça disse, um sorriso perfeitamente inocente desenhando-se em seu rosto, enquanto internamente ele mantinha todos os seus esforços para não soltar gargalhadas da reação da mulher.
– ‘Cê só pode tar de sacanagem comigo. – Miranda respondeu muito séria, e Loki podia ver o suor gelado escorrendo de seu rosto, seus olhos cor de mel mais arregalados do que antes. – Isso é vingança por ter mordido seu aesirzinho?! Se for, você não sabe brincar! Se não sabe brincar, não desce pro play! – Miranda gritou, sentando na cama e escondendo os rostos nas mãos. – Ahhhhhhh, pela bola esquerda de Odin... – Loki franziu as sobrancelhas em repúdio, ouvindo o absurdo. – Onde eu fui amarrar meu bode, puta que pariiiu... – Miranda xingava enquanto se balançava para um lado e para o outro, preocupada.
Loki, ainda divertido, com um largo sorriso estampado no rosto, sentou-se ao seu lado, afagando levemente suas costas. Ela afastou-se, irritada, e ele riu baixinho, divertindo-se ainda mais. Mais uma vez aproximou-se dela, dessa vez puxando-a pela cintura para cima de seu colo, sem dificuldade alguma. Miranda tentou empurrá-lo, evitando olhá-lo no rosto, ainda indignada.
– Você já sabia disso o tempo todo... – Ela falou, sua voz baixa e incrédula, abafada pelas mãos que escondiam seu rosto. A jovem moça havia percebido brilhantemente, e Loki não poderia evitar, era impossível negar-lhe, portando seu sorriso de canto dos lábios que evidenciava a verdade. Nisso, uma das mãos do deus segurava-a em seu colo pela cintura, enquanto a outra tentava puxar uma das mãos de Miranda para baixo para olhar seu rosto.
– Sim. – Ele disse descaradamente, e Miranda tentou estapeá-lo, ainda sentada em seu colo. Ele habilmente segurou a mão que tentava atingi-lo, e depois acariciou-a em seu punho. Miranda crispou os lábios e desviou o olhar, mas não saiu de cima de seu colo.
– E o que nós vamos ganhar com isso? – Ela perguntou, mas Loki já sabia que ela já descobrira partes do que aquilo significava.
– O que você acha? – Loki não podia negar. Estava divertindo-se muito com aquilo. Não apenas pela situação em que a linda midgardiana estava, mas também porque, percebia ele, aos poucos... Era muito divertido tê-la como aliada... Como parceira.
– Se vamos para uma guerra... Ai caramba, uma guerra, você vai mesmo comprar essa briga? – Miranda, assustada, parecia começar a perceber a grandiosidade de tudo aquilo. – Mesmo que seja só um pretexto para o que você quer, como você pode saber se os seus planos funcionarão? E se acabar acontecendo uma guerra mesmo? – Ela olhou para ele, realmente preocupada.
– Desde que chegamos aqui, alguma coisa saiu diferente do que eu havia planejado? – Loki perguntou, calmo como uma brisa de verão. Dissera anteriormente a Miranda que pretendia armar uma guerra, porém não concretizá-la. Sabia que isso a deixaria menos preocupada, mas ele omitira grandes partes da verdade. Afinal, não havia outra maneira dela agir como ele pretendia, ou mesmo de que fosse aceitar suas pretensões. Por algum motivo, aquilo o incomodava quando pensava que estava usando-a para seus próprios motivos, deixava-o desconfortável, e sem dúvidas era o que mais o assustava, e não a ínfima possibilidade de uma falha em seus planos.
– Não... Não saiu. – Miranda disse, soltando um suspiro posterior.
– Continue seu raciocínio, então. – Loki pediu, enquanto acariciava a palma de sua mão, e ela parecia relaxar.
– Bem, já que vamos ao menos armar uma guerra, precisamos de aliados. Os anões não lutariam por você se não tivessem a certeza de que podem ganhar, uma chance certa. Ninguém compra uma causa perdida. – Miranda observou astutamente. – Por algum motivo aí, eles escolheram o Rei Surtur, Surtado, sei lá. – Ela concluiu. – Penso que como o cara tem algo a ver com uma terra de fogo, deve ter relação com a atividade principal dos anões que você disse, que nem no Senhor dos Anéis, são bons ferreiros e tal. Talvez a entrega de algo precioso, essa tal fórmula secreta aí, significasse selar um compromisso entre os dois. – Sua voz parecia mais calma ao final da frase.
– O rei chama-se Surtr. É melhor aprender a pronunciá-lo corretamente, pelo seu próprio bem. E, apesar de leigas e mal estruturadas, suas convicções não estão de todo erradas. – Os dedos do deus agora passeavam pelas madeixas castanhas de Miranda, acariciando seus cabelos, e Miranda encarou-o indignada pela leve ofensa.
– Agora, por que cargas d’água você não pode vir comigo falar com o Picão das Chamas aí? Medo de fazer xixi na cama? – Miranda debochou, voltando a preocupar-se.
– O que acontece quando gelo entra em contato com fogo? – Loki perguntou sarcástico, mostrando a obviedade do motivo, como se falasse com uma criança.
– ...Derrete. – Miranda respondeu, desviando o olhar. Loki sabia que ela se condenava por não ter percebido algo tão lógico, e soltou mais um risinho baixo por conta de sua reação. – E como você vai ter certeza de que nada vai me acontecer? Por que o Chamuscado aí iria nos apoiar? Por que ele iria sequer me ouvir? – Miranda perguntou sem paciência.
– Você acha que não há espiões entre os Nove Reinos? Realmente acha que sua visita não será premeditada? – Loki riu baixinho, debochando da ingenuidade da midgardiana.
– Desculpa, senhor Príncipe, mas eu nunca passei férias fora de Midgard, meus falsos pais poderiam cagar grana mas não tinham uma diarreia financeira tão grande assim! Nunca estudei geografia além da minha realidade! E esse livro de mitologia nórdica da Darcy é praticamente uma versão resumida e adaptada da vida de vocês por aqui. Você deveria dar graças por eu ter lido Tolkien, isso sim! – Miranda cruzou os braços, detestando sua alegação de ignorância.
– Isso não é uma questão de conhecimento... – Loki começou, puxando-a para mais perto de si, suas mãos afagando suas bochechas. – Tratar com pessoas perigosas não é novidade para você. Não encare tudo isso como um sonho, uma falsa realidade, uma fantasia. Isto é real. Não menospreze o que desconhece. – Loki disse sussurrando, para depois plantar um longo beijo nos lábios da midgardiana.
Quando a soltou, os olhos de Miranda estavam semicerrados, e seu sorriso debochado alastrava-se por seu rosto.
– Não menosprezar o desconhecido... Que nem você esqueceu de fazer quando foi a Midgard e levou uma surra de meros humanos? Está me aconselhando por conhecimento de causa? – Ela sorriu, enquanto o beijava novamente, soltando tais palavras venenosas.
Loki a puxou para trás bruscamente, finalmente irritado, e Miranda parecia triunfante. Seus olhos cor de mel transmitiam o mais puro deboche, como se tivesse ganhado alguma coisa com isso.
– Não subestime os que aqui vivem. São mais velhos, mais experientes, e mais astutos. Quando sairmos daqui, em cada lugar que visitarmos, olhe a sua volta, com cuidado. Todos os que vir, são todos mentirosos, e cada um deles... Melhores do que você. – Loki disse, levantando-se da cama.
– Eu já ouvi isso em algum lugar... – Miranda franziu as sobrancelhas, como se recordasse de algo, para depois aparentar refletir sobre as palavras do deus da trapaça. – O Thor não mente melhor do que eu. – Miranda disse, como se isso fosse uma boa comparação.
– Thor é um imbecil. Não é margem de comparação a qualquer atividade que não envolva a brutalidade física. – Loki debochou, olhando impaciente para Miranda. – Eu a treinarei, dir-lhe-ei tudo que deverá falar perante Surtr, e retornaremos a Yggdrasil antes do anoitecer. Mas precisamos encontrar com Thor, antes que ele nos encontre aqui. – Loki puxou-a pelo braço, quase agressivamente, e ela desviou-se, outra vez indignada.
– Vou tirar esse Churrasquinho de letra. Você vai ver. – Miranda debochou, enquanto seguia Loki para fora dos aposentos da estalagem.
***
O dia estava claro e quente quando haviam finalmente alcançado o fim do túnel que saía de Nidavellir. No abismo de Yggdrasil, Loki já retornara à sua aparência asgardiana, auxiliado por Miranda, para que Thor não pudesse desconfiar do teor de seus planos.
Loki já havia dito tudo o que Miranda deveria falar, e ela já decorara palavra por palavra. No entanto, em meio aquela realidade desconhecida, ela não tinha como não assustar-se com os riscos que corria. O deus de fato parecia saber muito bem o que planejara, e suas pretensões se realizavam da maneira como havia previsto. Mas o quanto ele realmente se preocupava com ela? Teria ele certeza de que nada poderia acontecer-lhe, ou estava apenas mentindo-lhe para livrar-se dela de uma maneira mais... Fácil?
Aquilo doía em seu coração, e a assustava ainda mais. Preferia ter de lidar mais uma vez com todos os elfos negros do que, um dia, ser forçada a confrontar essa possibilidade.
Enquanto caminhavam pelas terras áridas de Yggdrasil, Miranda olhava para baixo, perdida em pensamentos. Apenas voltou a realidade ao ouvir uma grossa voz de trovão bradar-lhes a uma distância próxima de onde se encontravam.
– Irmão! Encanta-me saber que está bem. – Thor aproximava-se a passos largos, seus olhos azuis brilhando de felicidade ao ver Loki inteiro e são. Ao chegar perto do irmão, puxou-o para um longo abraço, o que fez Miranda segurar o riso ao ver a expressão do mais novo, que parecia enojado com a ação de Thor.
– Estou bem. Acabamos de sair de Nidavellir, buscávamos abrigo e comida na terra dos anões, agora pacificada, quando nos reconheceram. Tentei usar os disfarces de Miranda para cobrir minhas feições, mas havia um dos anciões de Hreidmar presente na taverna em que tentávamos nos alojar. Por isso Miranda tocou na safira, para chamar-lhe em auxílio. – Loki mentiu tranquilamente, como se suas palavras não fossem na verdade grandes mentiras.
– Eles lhe fizeram alguma coisa? – Thor perguntou a Miranda, preocupado, e ela negou, meneando a cabeça.
– Tentaram roubar umas joias que eu tinha como suborno, mas eu não deixei. Rolou uma porradaria mas fugimos com facilidade. – Miranda também mentiu e debochou.
– Da próxima vez que algo do gênero ocorrer, não toque apenas uma vez na safira. – Thor orientou Miranda, preocupado. – Mantenha-a firme em suas mãos, quanto mais tocá-la, mais forte a safira-gêmea brilhará e esquentará sua temperatura, o que chamará mais a minha atenção. Peço sinceras desculpas por não tê-la alertado disso anteriormente. – O deus do trovão explicou, e Miranda sorriu-lhe grata, assentindo. Ele é tão bobinho, pobrezinho.
– Crê que os anões alertaram Hreidmar, irmão? – Thor perguntou, ainda preocupado.
– Não. – Loki disse, quase enfastiado. – Se assim o fizessem, suas cabeças rolariam. O Rei não perdoaria o fato de que o maior traidor de seu Reino entrasse livre em suas terras sem ser capturado. Meu temor é que a notícia chegue a Heimdall, e é por isso que estou feliz de encontrá-lo. – Loki disse falsamente, e os olhos de Thor brilharam de alegria. Miranda queria rir da ingenuidade do irmão mais velho do deus da trapaça, enquanto Loki continuava a falar.
– Por isso preciso que desvie as atenções. Volte imediatamente a Midgard. Tenha certeza de que Odin e Heimdall não desconfiam de nada, e depois nos encontraremos de novo, aqui mesmo. E, enfim, poderemos retornar a Asgard, para pedir o perdão de nosso pai. – O deus da trapaça falava tudo com uma expressão de profundo arrependimento e pesar, e Miranda quase acreditou em suas palavras.
– É claro, irmão. Nosso pai é justo. Ele lhe concederá seu perdão. – Thor abraçou Loki com força outra vez, sem esperar sua permissão. Miranda cobriu a boca, dessa vez não controlando o riso que lhe saiu livre. – Antes de despedirmo-nos... Posso falar-lhe a sós? – Thor perguntou, e Miranda levantou as mãos, sorrindo enviesado, afastando-se a passos largos. Seria muito divertido observar de longe a conversa dos dois, e quem sabe poderia ouvir alguma coisa.
Ela afastou-se e sentou-se apoiada em uma pedra larga, envolta por alguns arbustos secos. Aprumando-se para não machucar a pele nas plantas espinhosas, Miranda fechou os olhos e tentou concentrar-se no que eles diziam.
– ...Levá-la para Asgard. – A voz de Thor se pronunciava um tanto incrédula. – Deve deixá-la novamente em Midgard, irmão. – Miranda fechou ainda mais os olhos, como se aquilo fosse uma prova instintiva de que poderia ouvir melhor.
– Isto não é da sua conta, Thor. – Loki o repreendeu, e Miranda ficou ainda mais interessada. – A levarei para Asgard, e isso será necessário. Não me importo com a opinião de Odin a respeito. – O irmão mais novo dizia rispidamente.
– Não estou me referindo à opinião de nosso pai, Loki. Sabe que, se não puder escondê-la, terá de tratar do motivo que o levou a trazê-la para Asgard. – Thor disse, finalmente sensato.
– E o que quer dizer com isso? Acha que eu deveria escondê-la? – Loki provocou. – Nosso pai sabe muito bem de seu envolvimento com sua preciosinha de Midgard, mas nem sabe da existência dela. Ela não passa de uma aliada, e aliadas sempre são bem-vindas. – Loki disse friamente, e Miranda sentiu uma pontada em seu coração.
O deus do trovão demorou a responder, como se pensasse em palavras a serem ditas depois, ou como se receasse dizê-las, talvez temendo a reação de Loki. Finalmente, Miranda ouviu suas voz pronunciar-se mais uma vez.
– E se nosso pai tocar no tema... Do seu envolvimento com ela? – Thor perguntou, e Miranda poderia ouvir de longe a voz de Loki arfando, ou fora ela mesma que soltara uma exclamação de surpresa.
– Eu não tenho envolvimento algum com ela! – O deus da trapaça começou a dizer, e Miranda mais uma vez sentiu a maldita dor apertar seu peito, mas sua atenção foi desviada da conversa. Sentira que finalmente percebera algo que sequer havia passado por sua cabeça anteriormente.
Ai meu Odin. Miranda se pegou pensando. Sentiu um zumbido invadir seus ouvidos, e seu corpo todo tremia. Ainda não havia parado para pensar no que Odin e a família real de Asgard poderiam dizer ao descobrirem que Loki viajava com uma midgardiana, e muito menos como pretenderia mostrar-lhe perante os pais. Será que sequer a apresentaria, ou esconder-lhe-ia deles? Pelo visto, não pretendia escondê-la, se não iria se importar com a opinião do Pai de Todos a respeito dela.
Mas a respeito daquela ideia temível, tenebrosa, assustadora: ter de ser apresentada ao deus supremo dos Nove Reinos, sendo uma espécie de... Do que ela era para Loki? Uma peguete? Namorada? Parceira do crime? Ele acabara de dizer que não tinha envolvimento algum com ela, e embora fosse verdade tecnicamente – nunca discutiram a respeito disso – seu comportamento confuso e dúbio, a preocupação que mostrava com ela, sua cara de bobo quando ela o beijara em sua forma jotun, as palavras sussurradas na Torre Stark... Em Midgard, Loki dizendo-lhe “Minha linda menina.” As cenas quentes que protagonizaram, tudo, tudo o que viveram indicavam que o que tinham não era algo muito simples de definir.
Isso era uma ideia que jamais havia passado por sua cabeça, tratando-se de qualquer um, especialmente de um deus nórdico que havia literalmente caído em sua vida aleatoriamente. Não, não era possível. Não fazia o menor sentido preocupar-se com aquilo. Loki queria uma guerra, e jamais aceitaria a ideia de apresentar alguém para seus pais, isso não era possível, tinha que ser algum absurdo da cabeça limitada de Thor.
Miranda colocou as mãos nos cabelos, puxando-os para trás, para depois movimentar seu corpo devagar para frente e para trás. Muita informação... Muita informação... Ela pensava, sentindo que sua cabeça iria explodir a qualquer momento, depois de tantas surpresas.
Quando deu por si, Loki e Thor a observavam, seus olhares preocupados, como se ela estivesse se comportando de uma maneira muito estranha. Ela pigarreou e soltou seus cabelos rapidamente, dando-lhes um sorriso amarelo.
– Você está se sentindo bem? – Thor perguntou primeiro, enquanto Loki a olhava desconfiado.
– Estou. É só que... Não tinha muito ar lá na terrinha dos anões, sabe como é né, debaixo da terra. Acho que o problema foi muita exposição ao ar livre, respirei muito oxigênio, devo ter ficado um pouco esclerosada. – Thor parecia não ter entendido absolutamente nada, e Miranda levantou-se rapidamente, limpando a capa que havia sentado na terra árida.
– Bem, voltarei a Asgard, então. Boa sorte e tomem muito cuidado. – Thor voltou-se para Loki que, dessa vez, fugiu de seu abraço de urso. Em seguida, o irmão mais velho do deus da trapaça voltou-se para Miranda, segurando-lhe as mãos como se a tratasse por uma irmã pequena. Miranda ficou levemente emocionada com aquilo, enquanto ele lhe dizia:
– Se precisar de ajuda, aperte a safira com todas as suas forças. – Thor sorriu-lhe feliz, dando uma última olhadela da mulher para Loki, para em seguida acenar-lhes um adeus e seguir em direção ao túnel que o levaria de volta a Asgard.
– Ele é uma coisa, não é? – Miranda disse, divertida, enquanto olhava o deus do trovão se afastar. Loki a encarou desconfiado, e seus olhos verdes semicerraram-se brevemente, como se a frase o tivesse deixado um tanto enciumado.
– Seu irmão gosta muito de você. – Miranda insistiu, provocando Loki, e ele apenas deu de ombros, dizendo-lhe com um sorriso sarcástico.
– Ele não é meu irmão. – Sua voz áspera fez a mulher desistir de tocar no assunto, e apenas seguiu-o para onde ele o levava, o que ela sabia ser o caminho para a entrada de Muspelheim. Seguiram em silêncio, e Miranda reparou que havia certo constrangimento no ar. O que será que havia se seguido ao final da conversa, quando ela tivera aquela pequena espécie de surto?
Alcançaram a entrada de Muspelheim, e esta era ainda mais baixa que a terra dos elfos negros.
– Beleza, já vi que vou parar numa placa tectônica... Vou conseguir respirar lá embaixo? – Miranda debochou, tentando fingir que não estava assustada.
– Já orientei-lhe a respeito. Não terá grandes dificuldades. Você tem agora a aparência e a magia de uma asgardiana, e os outros seres dotados de magia percebem isso. – Loki disse a contragosto. – E além de tudo é bela, e Surtr aprecia a beleza. – O deus da trapaça disse, sem vontade, como se aquilo o incomodasse. – Apenas siga em direção ao seu castelo com o documento de Hreidmar, e permitirão que tenha uma audiência com o Rei. Não profira nada diferente das palavras que lhe ensinei, isto é a parte crucial do plano. Garantirão sua segurança. – Loki disse, enquanto Miranda ia passo a passo em direção ao túnel, lutando contra o próprio medo.
Quando finalmente entrava na passagem para Muspelheim, Miranda voltou-se para Loki, seus olhos cheios de lágrimas. Fraquejara. Estava realmente assustada, e mais uma vez se perguntava se ele a mandava em direção à morte ou se realmente se preocupava com ela.
Loki levantou seus verdes olhos para ela, e sua expressão mudou completamente quando a viu em posição tão frágil. No segundo seguinte ele a abraçava com força, e Miranda deixou as lágrimas escorrerem, enquanto escondia seu rosto em seu peito. Abraçou-o de volta, suas unhas entrando em sua carne, enquanto Loki falava em seus ouvidos, sua voz finalmente sincera, lembrando um pouco do menino que um dia fora, e que Miranda conhecera em seus sonhos.
– Nada vai acontecer-lhe. Eu prometo... – Loki segurou a respiração, para enfim dizer depois, como se aquilo o custasse muito esforço, apertando-a com mais força ainda, suas palavras mais baixas do que um sussurro. – Eu juro.
Naquele momento, algo muito estranho aconteceu. Ela jamais havia presenciado algo como aquilo, dentro de si. Não mais sentia seu coração bater, como sentia outro coração batendo junto com o seu, como se os dois pertencessem ao seu corpo.
– O que... O que você fez? – Miranda perguntou, preocupada, soltando-se do abraço.
Loki virou-lhe as costas de maneira brusca, afastando-se dela, como se não quisesse que ela visse sua expressão, escondendo algo que não queria que ela visse em suas feições.
– Fiz um juramento. Posso não ter meus poderes mágicos agora, mas as consequências continuam as mesmas para mim, está no meu sangue. – Miranda franziu as sobrancelhas, começando a entender. — Ainda que sem poderes, sou um deus, e agora... Você é uma midgardiana com poderes divinos. – Ele explicou, sua voz esquisita, assumindo um tom como se estivesse ele mesmo fragilizado.
– Assim como o fez o Rei Hreidmar, falando sobre a pena do juramento contrariado, naquele documento... – Miranda disse, ouvindo as batidas de seu coração e as de Loki, ao mesmo tempo. – Isso significa que...
– ...Se algo lhe acontecer, acontecerá o mesmo a mim. – Loki disse, ainda de costas.
- Por que você fez isso? — Miranda perguntou, sinceramente, a voz embargada. Loki respondeu-lhe com uma pergunta.
– Confia em mim, agora? – Sua voz nunca fora tão sincera, como se lhe segredasse algo, tão parecida com a do menino travesso e encantador que Miranda tivera a sorte de conhecer.
Sem pensar duas vezes no que fazia, Miranda caminhou rapidamente para onde ele estava parado, e, mesmo que não pudesse ver seu rosto, apenas suas costas, abraçou-o com força, apertando-lhe contra si. Loki não voltou-se para ela, ainda querendo esconder alguma coisa, mas Miranda sentia as batidas de seu coração, e aquilo não poderia ser fingido.
– ...Confio. – Ela respondeu, abraçando-o uma última vez, deixando mais lágrimas saírem de seus olhos. Depois, voltou ao túnel de Muspelheim, e seguiu seu caminho, não mais aterrorizada.
Deixou cair de seus olhos uma última lágrima, e secou-a com um sorriso no rosto. Não mais chorava por desespero, mas sim, de alívio.
E de amor.
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