Journey Into Trickery

7 Playing With Fire


Notas iniciais
Oiê, gente! Semana passada não teve capítulo, my bad, I know, mas pelo menos na retrasada tivemos dois, né? :3 Quem sabe nessa teremos dois também, mas o próximo não será tão grande quanto esse. Confesso que gostei bastante desse capítulo, porque tem muuuita ação e novos personagens, um inclusive muuuito importante. Heheheh! Teremos a cena que vocês pediram, de como o Loki se sentiu a respeito do juramento, também =P mas o deus da trapaça, apesar de protagonista e responsável indiretamente por tudo que acontece neste capítulo, não vai aparecer TANTO. E fiquem calmas, meninas huehauhahe porque capítulo que vem ele volta com força total. Nas notas finais eu coloco algumas explicações sobre uma frase que a Miranda vai falar, e outras coisitas mais, então peço que por favor leiam.
Eu espero que gostem deste capítulo tanto quanto eu gostei =D beijos e boa leitura!

Miranda havia caminhado por todo o escuro e íngreme caminho que a levava a Muspelheim, mas sentia que seus sentidos e emoções nem sequer se preocupavam com o mundo externo que a rodeava, mas sim, estavam focados, perdidos em seu mundo interior.

A cada batida de seu coração, acelerada e ansiosa, ela conseguia sentir um segundo coração – o coração de Loki – batendo devagar, em ritmo compassado. Sentia o movimento rápido do sangue fluindo pelo seu e seguia-se, como se do outro lado de seu peito, a batida lenta e controlada do coração do deus da trapaça.

Isso é muito, muito esquisito. Miranda não conseguia se acostumar a essa ideia. Mas, ao mesmo tempo... É muito reconfortante.

Caminhou algum tempo ainda perdida em pensamentos, quando seus sentidos finalmente começaram a registrar a mudança de temperatura. Subitamente, o ar estava pesado, denso... Incrivelmente quente.

Miranda tapou o nariz com as mãos que suavam geladas por conta de tamanha ansiedade, e continuou avançando. Controlou-se o máximo que pôde para não tossir, mas havia tanta fumaça, cada vez mais concentrada à medida que ia avançando por aquele caminho, que não pôde evitar. Baixou as mãos e tossiu longamente. Legal, agora virei uma tuberculosa. Tanta fumaça nesse lugar, acho que o Rei Surtado deve estar fumando um baseado gigante...

Ela avançou tropegamente, quase tropeçando nos próprios pés. Ao alcançar o fim do túnel, parou e ajeitou o capuz acima de sua cabeça, colocando seus cabelos castanhos e ondulados para dentro da capa de viagem. Seu coração acelerou ainda mais, mas o de Loki mantinha-se impassível. Ele está realmente confiante. A mulher olhou para cima, e viu que só havia fumaça, escura e pesada, fazendo seus olhos lacrimejarem. Ela fechou os olhos e baixou o rosto para o chão de terra, e as rochas e protuberâncias que ali haviam lhe fizeram lembrar de algo parecido com um solo vulcânico. Não conseguia nem sequer olhar o ambiente em volta, seu corpo e seus sentidos não eram adaptados para suportar aquilo; a temperatura era demasiadamente elevada, seu corpo suava em bicas de medo e de calor, e a fumaça impedia que usasse de sua visão, agora privilegiada, para estudar as imediações em que se encontrava. Aquilo era assustador, e não estar acompanhada, sozinha naquele local completamente desconhecido e aparentemente hostil, a fazia pensar novamente em Loki e se ele realmente planejara aquilo de maneira segura.

Ou ele sabe que nada vai acontecer... Ou não dá a mínima para mim. Miranda não pôde evitar pensar, mas logo depois sacudiu a cabeça para tentar afastar o pensamento indevido. Não fazia sentido. Se ele não se importasse com ela, por que fizera o juramento? Bastaria simplesmente mandá-la sozinha para uma armadilha.

Ele poderia imaginar que eu só acreditaria nele se fizesse o juramento. Miranda pensou, sentindo como se uma lâmina perfurasse seu peito. Talvez nada me aconteça aqui agora, mas ele poderia achar que eu só confiaria nele caso jurasse, e, a partir de agora, poderia me botar na maior das enrascadas e eu iria como uma idiota, com um sorriso no rosto. Talvez ele tenha planejado meu fim para mais tarde, quando eu jamais fosse especular que ele faria isso contra mim. Miranda pôs-se a respirar fundo, tentando controlar o zumbido que surgiu dentro dos seus ouvidos, e os tremores que lhe vinham dos pés a cabeça, oriundos da enorme descarga de ansiedade que tais pensamentos lhe trouxeram. Estava angustiada, amedrontada e a adrenalina corria solta em seu sangue, preparada para uma fuga desesperada ou um ataque impensado.

Bem, ao menos eu sei o que tenho de fazer. Miranda ignorou as instruções de Loki para que fosse discreta, e pôs-se a correr impetuosamente. Não via nada à sua frente, apenas fumaça e mais fumaça, seus olhos fitando o chão mais a frente, pelo qual ela voava com sua velocidade ainda mais surpreendente por conta da influência do sopro de Hela, e assim foi até que pôde ver apenas os contornos de uma rocha saliente, maior do que seu corpo, e teve tempo apenas de proteger o rosto contra o impacto inevitável, pois não conseguiria desviar-se a tempo em uma distância tão curta.

Miranda colidiu com força contra a rocha vulcânica, e sentiu com suas mãos o quanto era quente. Pulou para trás assim que pôde, seu corpo reagindo instintivamente à alta temperatura, mas era tarde demais.

A rocha era alta, Miranda podia ver seus contornos mesmo em meio à densa fumaça, e caiu com tamanho estrondo que o ruído alto e grotesco proveniente da queda poderia ter sido escutado até mesmo em NY. Quando tombou contra o chão, a rocha, cuja aparência lembrava uma longa lâmina saindo de dentro do solo local, afundou em meio à superfície vulcânica, e, em segundos, foi consumida pela lava, que transbordou abundantemente do chão. Miranda pulou para longe, em um movimento felino como os de seu gato Bilbo quando sentia-se acuado, enquanto seus olhos cor de mel arregalavam-se tanto que poderiam ter pulado para fora de seu rosto.

Puta que pariu. Que merda que eu fiz?

Ela sentiu seus cabelos serem puxados para trás com violência, e soltou um grito de dor e surpresa. Uma mão quente como a superfície da rocha com a qual trombara a puxava também pelo braço direito, forçando-a a voltar-se de frente para o corpo daquele que a surpreendera.

A mulher sentiu seu queixo cair, quando virou-se em direção aquele que a agredira, sentindo-se ainda mais surpresa do que antes.

Um ser que lembrava um homem, alto, forte e vestido com uma espécie de uniforme, algo que lembrava um cavaleiro, um guerreiro medieval, a encarava, seus olhos amarelos brilhando como chamas. Sua pele parecia feita de escamas, e seu nariz era ofídico como o de uma cobra, uma fenda em seu rosto. Longos cabelos e barbas desciam pelo seu rosto, alcançando a altura de seu peito, e eram de um loiro ruivo, lembrando a cor de uma chama acesa.

Ele disse-lhe algo em uma língua que não entendia, enquanto sua mão quente em um nível próximo do insuportável apertava seu braço, e Miranda sentia que em breve sua capa poderia queimar-se e o homem a tocaria em sua pele, o que seria ainda mais desagradável. Temendo pelo resultado disso, com a outra mão livre ela lentamente apontou para o seu bolso, no qual o estranho remexeu, até encontrar o pergaminho enrolado com o selo real de Nidavellir.

Seus olhos amarelos apertaram-se à visão daquele papel, e ele bramiu algo em uma voz rude e grave, e logo outros companheiros parecidos consigo seguiram a sua ordem. Os que vieram ao seu chamado carregavam compridas lanças, mas, ao invés de lâminas em suas pontas, havia chamas acesas. Miranda estava cercada pelo que lhe pareciam cavaleiros do Reino de Muspelheim, mas apenas metade de sua atenção se concentrava nisso. Estava mais preocupada com o primeiro passo do plano, quando o cavaleiro que a surpreendera terminasse de confabular com os outros sobre o que fariam com Miranda, enquanto lhes mostrava o selo real de Nidavellir no papel. Ela não sabia se entendiam a língua geral, como Loki dissera-lhe que assim era chamada a língua principal que os midgardianos falavam, mas tinha certeza de que discutiam a respeito do símbolo real que havia no papel da carta. Aquilo certamente reconheciam.

Miranda, nervosa, não pôde mais esperar.

– Venho a pedido do Rei Hreidmar, Senhor de Nidavellir, Protetor dos Anões. Gostaria de ter com o nobre Rei Surtr, Senhor de Muspelheim, Lorde e Mestre do Fogo. – A jovem mulher proferiu as palavras ensaiadas com Loki, suas mãos crispando-se de ansiedade, esperando que o resultado fosse realmente o que o deus da trapaça havia previsto.

Os que ali estavam pareciam ter entendido alguma parte do que havia dito. Loki previra que bastaria o documento real, a menção a Hreidmar e o tratamento honrado a Surtr, que seria levada de encontro ao Rei. Os cavaleiros se entreolharam, e avançaram até onde Miranda estava parada. Ela engoliu em seco.

O cavaleiro que a encontrara riu com escárnio, e puxou-a pelo braço. Outro o acompanhou, levando-a pelo outro braço, e, sem dificuldade, carregaram Miranda. Ela mais uma vez sentiu a temperatura do tecido de sua capa de viagem elevar-se gradualmente, e fechou os olhos, inspirando fundo a névoa quente de Muspelheim, esperando que a levassem a seu destino antes que sentisse seus braços em brasa.

Os cavaleiros caminharam rapidamente, adentrando a névoa sem dificuldade, como se aquilo não lhes afetasse em nada a visão, e Miranda evitava o máximo que podia a tosse que lhe acometia por conta do ambiente. Estou me sentindo... Defumada. Ela pensou, mas não havia um traço de humor em seu rosto assustado.

Logo chegaram a um local que Miranda reconheceu como sendo algo que lhe lembrava a entrada de um castelo. Muros enormes com a mesma coloração e aparente feitio da rocha vulcânica que derrubara se erguiam a distância, e correntes baixavam uma ponte levadiça, que parecia descer por cima de um fosso. Os cavaleiros ainda a levavam, e, curiosamente, ela percebeu que, quanto mais a tocavam, mais seu corpo se acostumava à temperatura elevada de suas mãos. Era como se seu corpo reagisse instintivamente, para proteger-se de possíveis danos por conta da alta temperatura, assumindo por si só o mesmo grau elevado daqueles que a tocavam. Sentia-se estranhamente febril, mas não fraca, e muito menos próxima de se queimar.

Quando atravessaram a ponte, ainda a carregando, Miranda olhou para baixo. O fosso que antes reconhecera não era feito de água, como da maioria dos castelos que antes existiram em épocas antigas de Midgard, mas sim de lava. Lava transbordando, pura, quente como o fogo.

Miranda desviou o rosto, evitando olhar para aquilo. Respirou ainda mais fundo do que antes, tentando manter o mínimo de tranquilidade que fosse possível. Não precisava ficar especulando sobre o que poderia acontecer-lhe. Sabia que agora tinha a influência dos poderes de Hela sobre si, mas não sabia o que poderia acontecer ao seu corpo mortal se fosse jogado em um rio de lava. Era melhor não pensar naquilo.

Ao atravessarem a ponte, Miranda viu que ali a fumaça diminuía. Tudo tinha uma coloração levemente avermelhada, tons de terra rubros, e tudo era muito silencioso. Ela ouvia o som de algo que lembrava uma cachoeira ao longe, mas imaginava que o que descia por ali não deveria ser água propriamente dita.

Havia uma espécie de jardins do castelo, porém não com flores. Rochas e rochas de pedra vulcânica se desenhavam ao longo do enorme pátio protegido pelo muro que também lembrava as mesmas rochas vulcânicas, porém esculpido habilidosamente, sem as mesmas protuberâncias distintas, feito de forma equivalente. Havia algo que lembrava um lago de lava próximo à entrada do castelo propriamente dito. Este era construído de maneira diferente de tudo o que Miranda já havia visto em Midgard. Era alto, espaçoso e tinha uma espécie de torre, no alto da qual uma fumaça cinza a circundava, como um anel em volta, mas suas paredes não pareciam ter tido origem arquitetônica, e sim natural.

Afinal de contas, era um vulcão. Miranda fechou os olhos novamente e expirou com força. O Rei Surtr morava em seu palácio dentro de um vulcão.

Os cavaleiros soltaram-na e permitiram que andasse com as mãos livres. Entretanto, circundavam-na, e baixaram suas lanças de fogo, deixando-as centímetros próximas de Miranda, que sentia o calor do fogo aceso quase tocá-la, seu corpo mais uma vez sentindo a ardência das chamas próximas a si. Ela levantou as mãos acima dos ombros, mostrando que fora em paz, e seguiu o caminho para onde a levavam.

Em alguns minutos, terminaram de percorrer o pátio e adentraram o palácio no vulcão, que tinha portas de pedra cinza-escuras, na qual havia runas esculpidas com delicadeza, douradas, lembrando um metal que conhecia. Era uma porta com fios de ouro.

Miranda julgou que assim que adentrassem o vulcão, tamanha a suntuosidade das portas que se abriam ao pátio, finalmente entraria na Sala do Trono.

Estava certa.

A cada extremidade do chão cinza esculpido também de maneira suntuosa, parecido com mármore escurecido, havia um rio de lava, descendo à esquerda e à direita do salão. As paredes de rocha vulcânica seguiam muito acima deles, e Miranda imaginou que na mais alta torre dentro do vulcão a vista poderia ser bela e exótica, algo que certamente nenhum humano jamais vira. Quando baixou os olhos novamente, ela viu um enorme tapete dourado a alguns metros adiante da entrada, e sua extensão ia até os pés do também grande trono no qual sentava-se alguém ainda mais parecido com um homem, porém muito maior do que todos os que Miranda já havia conhecido. O Trono era dourado, e chamas saíam de seus pés. Estava em brasas, e era chamado o Trono de Fogo. Aquele que ali sentava também parecia feito e originado da chama mais quente, do fogo mais arrasador.

Seus cabelos eram compridos e ondulados, e pareciam dançar mesmo que aquele que os tinha não se movimentasse. Tinha uma coloração de um ruivo profundo, alaranjado, literalmente cor de fogo. Sua barba era vistosa e também bem cuidada, da mesma cor rubra, e descia até sua cintura, assim como suas longas madeixas. Usava uma longa capa vermelha, unida em seu peito por algo que lembrava a pele de um leão. Suas vestimentas pretas e vermelhas também eram ricamente adornadas por algo que brilhava tão dourado como ouro, e Miranda não duvidou que fossem feitas do metal em questão.

Acima de sua cabeça, havia uma coroa dourada, que parecia pesada como uma grossa espada. Runas similares as que vira na porta e em partes de sua vestimenta desenhavam-se pela coroa, e um enorme rubi, maior do que todos os que ela já vira, estava incrustado no centro do objeto.

Bastou apenas um olhar, e Miranda reconheceu o Rei Surtr.

Lentamente, Miranda abaixou-se, o reverenciando da maneira que Loki a havia treinado. Seus olhos não o fitavam, esperava que fosse chamada para ter com ele, e sua coluna quase torcia-se tamanho o movimento de submissão que fizera, curvando-se até onde conseguia aguentar.

Ela ouviu a voz grave do Rei dizer algo no que deveria ser a língua de seu Reino, e ela não mais sentiu as lanças de fogo atrás de si, a ameaçando caso fizesse algo indevido.

Miranda levantou os olhos lenta e humildemente, e reparou no cavaleiro que a surpreendera levando ao Rei o documento real de Nidavellir. Após reverenciá-lo, Surtr pareceu dispensar-lhe, e o cavaleiro saiu sem dizer palavra do salão, por uma entrada lateral menos suntuosa, a qual Miranda ainda não havia registrado.

A jovem mulher fitou de esguelha o Rei, que lia o documento, sua expressão impassível. Finalmente reparou em seus olhos. Rubros como seus cabelos cor de fogo, brilhantes e penetrantes, que pareciam brilhar como uma chama ardente.

Evitou encará-lo para mostrar-se humilde e submissa, e levou os olhos devagar para quem se sentava ao seu lado.

Uma linda mulher, de pele branca, contrastando com o tom bronzeado de Surtr, olhos castanhos avermelhados tão brilhantes quanto os de seu Rei, e cabelos de tom rubro similar, sentava-se ao seu lado, vestida inteiramente de negro. Seus lábios estavam pintados em um vermelho vibrante, e sorria para Miranda, seus olhos avermelhados a encarando como se soubesse o que pretendia.

Miranda sentiu-se levemente acuada, mas manteve a postura submissa.

Em seguida, ouviu o Rei dirigir-se à mulher ao seu lado, sua mão vestida com uma luva negra tocando seu queixo delicadamente, a acariciando enquanto a nobre mulher lhe sorria educada e sensual. Falavam algo na língua local, mas Miranda julgou ter percebido um teor de malícia em suas palavras no idioma de Muspelheim.

A ruiva Rainha dirigiu-se a Miranda, e seus olhos maldosos pareciam debochá-la.

– O que a traz aos domínios do Grande Rei Surtr, asgardiana? – Miranda percebeu o sarcasmo evidente na última palavra proferida. – Sabe com quem está tratando neste preciso momento? – A Rainha disse, enquanto o Rei tocava sua mão e sorria, parecendo divertir-se também.

– Tenho a honra de falar com o Rei Surtr, Senhor de Muspelheim, Lorde e Mestre do Fogo. Dizem os sábios que foi o Primeiro, e será o Último, originado no fogo primordial. Também honra-me a atenção dirigida a mim pela sua Senhora, a Rainha Sinmara, bela e poderosa como as chamas que domina. – Miranda novamente os reverenciou, e os senhores de Muspelheim trocaram um longo olhar antes que Surtr se dirigisse a Miranda.

– Hreidmar, o Senhor de Nidavellir, escreveu-me esta carta. – Surtr balançou o documento em sua mão. – Sempre o respeitei e temos uma convivência pacífica, tratando de negócios parecidos. – O lorde do fogo sorriu, enquanto continuava a falar. – Porém não entendo que loucura o acometeu recentemente. Nesta carta foi-me escrito que deseja fazer parte de uma guerra planejada por um jotun denominado Laufar, que é apoiado por uma filha bastarda de Balder, chamada Hale. Uma asgardiana. – Miranda pôde novamente perceber o evidente sarcasmo e desprezo na última palavra.

– Sou filha de Balder, senhor. – Miranda mentiu. – Mas também fui aprendiz de Loki. E desejo vingança. Ele me traiu, prometeu-me vingança contra Asgard e meu pai, mas tentou matar-me e abandonou-me às raízes de Yggdrasil. Tenho sorte de ter sobrevivido. – A jovem mulher nem sequer precisou esforçar-se para colocar raiva em sua menção à Loki. No momento, estava irritadíssima com o deus por fazê-la passar por uma situação perigosa e desagradável como aquela.

Miranda reparou nas mãos de Sinmara crispando-se na cadeira senhorial ao lado do Trono de Fogo de Surtr, mas o Rei não parecia ter acredita no que ela dizia. Miranda esforçou-se ao máximo para não mostrar-se temerosa, enquanto o Rei lhe respondia.

– Não tenho relação alguma com seus dramas pessoais, e não são de importância para mim. Muito menos os problemas de Jotunheim. Tenho maior respeito aos jotuns do que aos aesires, e apenas aceitei ouvi-la pela minha amizade ao Rei Hreidmar. Não lhe jogo a lava por sua audácia de destruir uma parte do meu Reino apenas por ter o respeito do Senhor de Nidavellir. Mas isso não significa que não irei marcá-la, ensiná-la a jamais pôr os pés em meus domínios se não desejar a própria morte. – Surtr sorriu malignamente. – E que isso sirva de lição ao jotun também.

O rei fez um gesto com a cabeça, e uma entrada abriu-se do chão de pedra escura bem à frente da jovem mulher. Miranda apenas teve tempo de arregalar os olhos, dessa vez permitindo que seu pavor se manifestasse. Os cavaleiros atrás de si abandonaram a sala a uma ordem na língua de Muspelheim proferida por seu Rei, e, das profundezas do solo vulcânico, surgiu uma criatura hedionda.

Um Elemental de Fogo, alguns metros maior do que Miranda e do que o próprio Rei Surtr, aproximava-se da jovem mulher. Brandia um chicote de fogo, e chifres em chamas saíam de seu rosto, maligno e apavorante, com seus olhos amarelos em brasas.

– Um balrog... – Miranda não acreditava. Era um monstro mitológico a sua frente, criaturas apenas conhecidas pela mitologia nórdica, celta e anglo-saxã, um mito de fantasia, uma história para assustar crianças. Mas era real, e queimava bem a sua frente, ameaçando engoli-la com suas chamas e gritos agudos capazes de fazer o mais valente tremer dos pés a cabeça.

– Um balrog. Meu balrog. A meu serviço. – O Rei Surtr disse, sorrindo ainda mais malévolo. Sinmara assistia assustada, enquanto o Rei dizia, fazendo questão de falar na língua geral que Miranda conhecia.

– Queime. Derreta uma das pernas dela. – Surtr disse, e soltou uma gargalhada, deliciando-se com a imagem que previa.

Miranda não sabia o que fazia, sentiu que reagia como que por instinto. Quando viu o chicote do monstro das profundezas do fogo aproximando-se de sua perna esquerda, ela juntou os punhos acima do rosto, fechou os olhos, e lembrou-se do que fizera no Reino dos Elfos Escuros, Svartalfheim.

O mesmo campo de força de tom levemente arroxeado formou-se ao seu redor, colidindo com um som ensurdecedor contra o chicote de fogo do balrog. O monstro olhou-a sem entender, e encarou o próprio chicote, agora não mais em brasas, como se tivesse sido apagado.

Miranda encarou por trás de seus braços o Rei Surtr, e sentiu uma fúria que jamais havia sentido apoderar-se dela. Loki não havia lhe dito que nada daquilo aconteceria, e pensar que ele a havia enganado de novo fez sua ira apenas aumentar, apesar de sentir seu coração, seu segundo coração, finalmente batendo acelerado, como se não houvesse intervalo entre uma batida e outra.

Miranda gritou algo em uma língua que não conhecia, e seu campo de força apenas aumentou, espalhando-se pelo salão, indo alcançar o casal real que olhava aquilo sem compreender. Os dois senhores do fogo levantaram seus braços para proteger seus ouvidos do som ressonante que o campo de força produzia, fechando os olhos com força, como se aquilo realmente os atingisse.

Assim, o balrog, desesperado, lançou seu chicote para o lado e avançou indiscriminadamente contra Miranda. Sua mão em chamas se aproximava da mulher, mas ela sabia que era superior a ele em seu poder. Não saberia explicar, apenas sabia. Como uma certeza que vinha de dentro de suas entranhas, do fundo de sua alma.

Movida pelo sopro de Hela.

Quando a mão da horrenda criatura aproximou-se de seu ombro direito, Miranda permitiu que a tocasse, sentindo seu ombro arder em brasas, queimando-a como nada havia queimado antes, e, gritando de dor e ainda mais enfurecida, a mulher pôs suas duas mãos em seu ombro, e retirou a mão do balrog, enquanto dizia uma única frase.

“Fra brann til vann, demon.” – Miranda pronunciou com uma voz grave e solene, que não parecia com sua própria, enquanto apertava a mão do balrog com uma ira nunca antes sentida.

Suas mãos não queimaram em contato com o monstro, pelo contrário. Ele a olhou desesperado, enquanto urros de dor e horror saíam de sua boca. Pouco a pouco, o fogo em seu corpo se extinguia, e a criatura começou a pingar água, liquidificando-se. Sua carne em brasas derretia, seus olhos amarelos apagaram-se, e, em segundos, o horrível monstro tornara-se uma massa disforme, negra, derretendo ao chão, até que nada mais restou além de água, que evaporou rapidamente.

Miranda olhou o próprio ombro, e reparou que uma mancha enegrecida havia se formado no local. O balrog a queimara, mas o ferimento já havia cicatrizado. Ela não mais sentia dor, e sua fúria contra o Rei e a Rainha do Fogo agora estava contida, aparentando uma falsa calma.

A jovem mulher encarou seus algozes, e Sinmara, a Rainha, parecia realmente preocupada, seus olhos rubros indo de seu Rei a Miranda, repetindo o mesmo movimento inúmeras vezes. O Rei Surtr, entretanto, sorria ainda mais. Parecia divertido. Mas não mais malignamente, e sim interessado, quase respeitoso.

– Derrotou meu campeão, asgardiana. Todos os que haviam enfrentado meu balrog pereceram, e alguns tinham ao menos metade da força e do poder que vi em você. – Surtr disse, sem mais desprezo em sua voz. – Agora eu entendo porque conquistou a confiança de Hreidmar. Seus poderes são dignos do Pai de Todos e seu filho Loki, o meu pior inimigo. Ele a treinou bem. – Surtr pôs seu rosto apoiado em uma de suas mãos, esta apoiada pelo cotovelo mantido estável acima de um dos braços de seu Trono de Fogo.

– Loki, o deus da mentira, o trapaceiro, o indesejável. – O Lorde do Fogo disse rancoroso. — Foi ele quem tirou-me minha glória no Ragnarok, aquele que destruiu a ponte Bifrost quando esta seria minha tarefa quando chegasse o Último e o Primeiro dia. – Surtr dizia, e olhava Miranda impressionado.

– E aquele que se levanta, poderoso, contra meus inimigos, é meu amigo também. – O Rei fez uma pausa solene, e dessa vez, baixou levemente o rosto.

– Confiarei em sua causa. Hale e Laufar: no que depender de mim, terão sua guerra. Mas deixe um pouco de seu mestre para mim. – Surtr sorriu divertido, e Miranda piscou os olhos várias vezes, sem acreditar. Consegui. Não é possível. Consegui.

Após algumas formalidades, nas quais o Rei jurava confiar na causa de Laufar e Hale, e também do Rei Hreidmar, dando seu completo e total apoio, Surtr escreveu algo em um pergaminho, que foi entregue a Miranda por um de seus criados, lacrado com o selo real de Muspelheim.

– Aí está a fórmula que Hreidmar deseja. Entregue diretamente em suas mãos. – Surtr disse-lhe, e Miranda assentiu.

Ao se despedir formalmente, Miranda reverenciou o Rei e a Rainha, que agora a tratavam quase como uma igual. A jovem mulher reparou que ainda havia um leve tom de desconfiança no olhar de Sinmara, mas ela não parecia demonstrar ao seu Rei. Entretanto, quando o Rei se despediu de Miranda, finalmente ela pôde entender ao que isso se devia, lembrando-se da frase que Loki lhe dissera: “Surtr aprecia a beleza.”

– Quando tudo estiver terminado, asgardiana, terá um lugar de honra em Muspelheim. Seus poderes seriam muito bem-vindos aqui. – Surtr dirigiu-lhe um olhar lascivo, e seus olhos em brasa deixavam seu teor devasso ainda mais evidente. Sinmara crispou os lábios, desagradada, e Miranda julgou que seria pelas claras segundas intenções perceptíveis na frase.

Miranda sorriu-lhe maliciosa, e respondeu, semicerrando os olhos, lembrando-se de Loki.

– Agradeço a honra, Senhor. Mas temo que já tenha laços em outro lugar, difíceis de serem desfeitos. – Pensou mais uma vez no deus da trapaça, sentindo seu segundo coração se manifestar, batendo devagar, e em como mal podia esperar para vingar-se pelas suas aventuras e mentiras daquele dia.



***



Loki esperava o retorno de Miranda, preocupado com o resultado de seus últimos esquemas. Sabia que ela não seguiria palavra por palavra o que ele lhe diria, então disse-lhe o que fazer prevendo o que ela desobedeceria e obedeceria. Imaginava que uma hora a mulher iria se descontrolar, e poderia pôr tudo a perder. Sabia da natureza de Surtr, sempre faminto por poder e deliciado com a força mais bruta, lascivo e amante da luxúria, de belas mulheres e do que era ostensivo. Sabia também de seu respeito pelo Senhor dos Anões, e que não mataria uma enviada de Hreidmar. Mas não poderia garantir que não sairia machucada, embora ele soubesse que o poder que havia em Miranda agora era muito superior a qualquer ser vivente naquele Reino.

Mas Loki não podia negar. Sabia que estava fazendo uma aposta quando a lançou, sozinha, para enfrentar Muspelheim. Bem ou mal, ela ainda era uma midgardiana. Tinha suas fraquezas, e era por isso que o teste em Svartalfheim fora tão necessário. Miranda precisava saber como agir, caso... Caso não pudesse estar sempre perto para protegê-la. Ultimamente, embora seus planos fossem perfeitamente planejados, Loki sabia que tinha que contar com o fator dos riscos. Por maior que fosse o cuidado que tivesse, não era capaz de prever se sairia ileso disso ou não.

E fora por isso que jurara. Não podia enviá-la assustada, fraca, com medo de seu poder e do desconhecido. Ela era muito maior agora, muito mais forte, e muito mais capaz. Embora ele sentisse, mesmo que não quisesse, que a mulher crescera em tudo, menos em importância para ele.

Ela já era seu ponto fraco desde Midgard.

Fora por um ímpeto que fizera o juramento, não fora algo pensado. Se fosse racionalizar sua ação, Loki jamais teria feito aquilo. Deixava-o exposto, fragilizado. Dividir, mesmo que apenas por horas, parte de seu corpo com alguém, era deixar-se ferir, deixar-se tocar... Deixar-se alcançar. Se estivesse em seu estado normal, se fosse quem costumava ser, aquele que estava habituado a ser, nunca o faria. Mas ele sentia e percebia, cada vez mais, que não era mais o mesmo.

Por isso ele virara de costas, e não permitira que ela visse sua expressão. Aquilo era humilhante. Era ridículo. Patético. O deus da trapaça, jurando proteger alguém? Desejando proteger alguém? Ele deveria preocupar-se consigo mesmo, apenas, e em como se arriscava portando-se daquele jeito...

Mas era tarde demais para se proteger, ele percebia, quando a mulher já o tocara muito mais fundo, muito além de seu coração... Nas maiores profundezas de seu ser, ela estava impressa ali. Na sua alma. E fora aquilo que mudara em Loki, e fizera-lhe tamanha diferença.

E, mais do que tudo, ele sabia... Não havia nada que pudesse fazer para tirá-la de lá. Era ainda pior do que isso: desejava, no que restava do seu gélido e partido coração, que ela jamais saísse dali. Permanecesse sempre, perto dele, junto dele.

Mesmo que fosse apenas mortal.

O tempo já estava próximo a hora crepuscular, e Loki sentia os batimentos cardíacos de Miranda cada vez mais próximos. Tudo correra bem, apesar de um pequeno imprevisto. A mulher se machucara, fora queimada no ombro, e ele já imaginava que isso teria alguma relação com a besta-fera de Surtr, seu balrog, seu campeão de lutas, o monstro treinado para destruir e devorar com fogo seus inimigos. Gostaria de ter visto a cena de Miranda derrotando a criatura, aquilo o divertiria, e, sabia ele, o deixaria repleto de orgulho. Mas mesmo tamanho triunfo, e a perfeição cuidadosa de seus planos astutos, nem mesmo o evidente sucesso que tivera era capaz de retirar a maldita culpa que pesava em seus ombros por estar usando-a daquela maneira.

Loki socou a parede de terra ao lado da saída do túnel de Muspelheim, irritado e odioso de seus próprios sentimentos. Não conseguiria nunca acostumar-se àquilo, simplesmente não lhe era habitual. Embora ele os sentisse com facilidade, agora, como se fosse algo incrivelmente natural.

Em minutos, ouviu a voz debochada de Miranda dizendo algo, e odiou-se a si mesmo quando sentiu uma onde gritante de alívio percorrer todo o seu ser, partindo de seu peito que se aquecera subitamente, saindo de seu coração para cara poro de seu corpo.

– E aí, “Sensei”. Pode falar. Sou melhor que o Gandalf! – Miranda fez uma dancinha ridícula comemorando seu triunfo, enquanto Loki suspirou quase inaudivelmente, finalmente sentindo-se tranquilo. Não mais sentia os batimentos cardíacos de Miranda, agora que ela finalmente o encontrara novamente, e seu juramento se mostrara verdadeiro. Ela voltara sã e salva, como lhe havia jurado.

– Divertiu-se em Muspelheim? – Loki disse, debochado, tentando manter-se distante, fingindo indiferença. Miranda sorriu-lhe também debochada, e Loki virou-lhe as costas, tentando controlar-se.

– Vamos de volta a Nidavellir, então. Conseguiu a fórmula que Hreidmar desejava, eu presumo? – Loki fez a pergunta, já sabendo que a resposta era afirmativa, tentando impor desprezo em sua voz.

– Consegui. – Ele ouviu a voz debochada de Miranda falar-lhe as suas costas. – Tá aqui, toma! – Miranda gritou, e quando Loki voltou o rosto em sua direção, Miranda lançara-lhe uma enorme pedra que atingiu-o grosseiramente em sua bochecha direita.

Loki sentiu a surpresa e a raiva subindo pelo seu sangue, enquanto levava a mão direita em direção à bochecha atingida. Miranda encarava-o enraivecida, seus lábios tremendo ligeramente, suas sobrancelhas franzidas em uma expressão de dor. Quando viu seu rosto, Loki sentiu como se um punhal ferisse seu coração, da mesma forma que se sentiu impelido a jurar-lhe aquelas palavras quando a viu fragilizada mais cedo neste mesmo dia.

– E agora está atacando pelas costas? Muito bem, vi que seu treinamento deu frutos. – Loki falou debochado, mas, curiosamente, sua voz não saiu sarcástica, e sim, triste, enquanto acariciava o rosto na parte em que fora atingido.

– Não ouse me condenar por fazer algo pelas costas. Estou apenas te pagando na mesma moeda. – Miranda avançou, seu rosto cada vez mais expressando mais dor.

– Do que está falando? – Loki disse, surpreso, sem realmente entender. Não queria mostrar preocupação, mas era inevitável. As palavras, a pedra, a agressão, tudo isso não lhe feria. O que lhe atingia de verdade era a dor que Miranda parecia sentir, a qual ela o culpava por sentir.

– Não se faça de sonso. Você não tem ideia do que eu passei hoje! – Miranda disse furiosa, e avançou tentando esbofeteá-lo. Loki segurou seu braço, e ela tentou retirá-lo, como se não quisesse que ele a tocasse. Ela levantou o outro, mas Loki também o segurou. Miranda fechou os olhos e deixou as lágrimas escorrerem. O deus sentiu-se abalado, movido por uma súbita vontade de impedir que a moça chorasse. Queria dizer alguma coisa, mas não esperava vê-la assim, jogando em cima dele toda a culpa que merecia sentir.

– Eu não te devo nada. Você não é nada meu. E eu não sou nada sua. Eu tenho minha vida, e eu deveria voltar para ela, e não me arriscar por conta das suas ideias e sonhos e planos malucos. Nada disso me envolve realmente, isso é tudo maluquice sua, e está na hora de eu seguir meu caminho! Você não pode me pedir tudo isso, você não merece nada disso! – Miranda gritava descontrolada, sua voz chorosa, enquanto as lágrimas continuavam a descer profusamente pelos seus olhos.

Loki lembrou-se de Thor olhando-o desapontado, de Frigga e Odin olhando-o decepcionados, e de como tudo o que ele uma vez amou o desprezava e menosprezava. E agora era Miranda, e ele sabia que era inevitável, que merecera tudo aquilo. Quando ela o beijara em sua forma jotun, aquilo não passava de um sonho, um sonho do qual ela já acordara. Ele sabia que pedia demais, que queria demais e que não merecia nada daquilo, ele, um monstro jotun, fingindo ser um deus, fingindo ser poderoso, fingindo ser o filho de Odin e até mesmo fingindo ser filho de Laufey, agora, o pai que matara e que odiava, que jamais aceitara.

E agora ela não mais estaria com ele, e ele sabia que era o que merecia.

– Você pode acreditar no que quiser... – Loki disse enquanto soltava os punhos da mulher, e sentiu que sua voz saiu ainda mais ferida do que a expressão de Miranda. Ela virou-se de costas para ele, cruzando os braços e levantando o rosto que ele sabia que continuava a chorar.

– ...E eu sei muito bem o que você passou hoje. De certa forma, eu também estava lá. Perto do seu coração. – Loki disse, e Miranda voltou-se para ele, seus olhos cor de mel arregalados como se tivesse entendido algo.

Loki abaixou o tecido da capa que cobria seu ombro direito, odiando-se a si mesmo pela urgência e necessidade com a qual fazia isso, e mostrou a ferida recém-cicatrizada que ali havia. Os olhos cor de mel de Miranda foram imediatamente levados naquela direção, e ele sabia que ela havia compreendido.

– Você... Você também se machucou? – Ela perguntou, incrédula, aproximando-se devagar, os braços ainda cruzados.

Loki assentiu com a cabeça, silencioso. Miranda aproximou-se mais ainda, seus olhos hipnotizados pela marca que havia na pele do ombro do deus.

– Então... Esse juramento... É realmente verdade? – Miranda perguntou, enquanto levava seus olhos em direção aos do deus da trapaça.

– Quando voltou sã e salva, ele provou sua veracidade. Não reparou que não mais escuta as batidas do meu coração? – Loki perguntou, e Miranda fechou os olhos, concentrando-se. Quando abriu-os de novo, ela aproximou-se ainda mais.

– Eu sinto muito. – Loki disse, e foi realmente sincero. Movia sua mão para tocá-la, sem sequer entender o que fazia, apenas sentindo que era aquilo que deveria, que queria fazer. Miranda desviou de seu toque, e levantou o rosto. Loki sentiu-se outra vez ferido, mas dessa vez ela sorriu, o sorriso que havia naquela gravura que achara dentro do livro de mitologia nórdica, e tudo desanuviou. Estranhamente, o deus sentiu-se feliz.

– Não. Sou eu quem sente muito. – Miranda abaixou-se e beijou a cicatriz de Loki, igual ao ferimento que havia no mesmo ombro da jovem mulher, a queimadura do balrog. – Me desculpa por tudo que eu disse. – Ela pulou em seus braços semicerrando seus olhos, seu sorriso travesso espalhando-se por seu rosto, e o deus não mais sentia culpa, nem dor, nem medo. Sentia-se em paz.

Beijaram-se longamente, até que Loki subitamente se afastou. Limpou a garganta, e Miranda cobriu sua boca, soltando um risinho debochado.

– Podemos ir à Nidavellir, então? – Loki sugeriu, sorrindo enviesado, como se nada tivesse acontecido.

Miranda entrou em seu jogo, sorrindo-lhe debochada.

– Nada me agradaria mais, senhor. – Ela falou, enquanto aninhava um de seus braços junto ao dele, aproximando seus corpos.

Loki fez menção de se afastar, mas desistiu. Não o faria. Não agora.

Enquanto se encaminhavam rumo ao túnel de Nidavellir, Loki pensou se a verdadeira conquista daquele dia fora de fato a confiança de Surtr, ou a de sua ninfa midgardiana, que ele queria que jamais se afastasse.

Ele desejou que Miranda jamais descobrisse a resposta, pois sabia que era a segunda hipótese.



***



Em um lugar perdido em meio aos confins do subterrâneo, uma mulher olhava uma enorme bacia posta em uma mesa feita de ossos humanos. Dentro dela, havia um líquido que lembrava água, mas, quando escorria para fora de seu recipiente, derretia em seus parcos pingos a mesa feita de restos mortais que o sustentava.



A mulher fechava os olhos, enquanto direcionava as mãos em direção ao líquido que se movimentava em espiral, cada vez mais rapidamente, formando um vórtice que seguia girando e girando em uma velocidade surpreendente. Sussurrou algumas palavras em sua voz grave e feminina, e o líquido foi pouco a pouco parando de girar. Quando tornou-se outra vez parado e estável, a bacia não mais refletia a imagem da mulher que pairava acima dela, encarando o que continha, e começou a formular imagens em sua superfície.


Thor Odinson aparecia refletido, seus olhos azuis brilhando de preocupação. Conversava com o Pai de Todos, e pareciam ter uma discussão atribulada, em uma mesa de jantar no castelo de Asgard. O rosto de Odin parecia inflexível, enquanto palavras rudes saíam de sua boca.

A imagem tornou-se turva, para dar lugar à outra.

Um jotun sorria enigmaticamente para um ancião anão, enquanto este reverenciava-o, e todos os outros anões dentro de uma taverna seguiam o mesmo gesto. O gigante de gelo, pequeno em estatura, mas grande em importância, agora caminhava em direção a um vulto feminino, cujo capuz cobria-lhe as feições, e a levava escadas acima.

Outra vez a imagem modificou-se e outros vultos surgiram desta vez.

Uma jovem moça de cabelos castanhos ondulados, usando uma capa marrom de viagem, dizia palavras em uma antiga língua nórdica, e elfos negros eram afugentados pela enorme energia de luz que ela havia feito com seus poderes. Seus cabelos castanhos dançavam com o movimento de incrível força e poder, enquanto seus olhos fechados concentravam-se em sua ação. Ao ver que todos os elfos fugiram, a moça sorriu de maneira travessa, e virou as costas.

Uma última vez as imagens turvaram-se, e ela teve sua derradeira visão.

Loki, o deus da trapaça, definhava preso em uma cela afastada de Asgard. Seus olhos verdes quase não brilhavam, fitando as paredes sem vida daquela prisão que duraria pela eternidade.

Até que fosse visitado pelos seus algozes. A mulher pensou, enquanto sorria malignamente.

Em seguida, ao ver que seu espelho d’água não mais lhe revelaria nada, a mulher baixou as mãos e dirigiu-se a uma curiosa cadeira também feita de ossos humanos. Na ponta de cada um de seus braços, havia uma caveira incrustada, nas quais ela descansou suas mãos.

A ruína de Loki está próxima. Pensou, enquanto seu sorriso apenas aumentava. E eu serei responsável pela melhor parte.

Ela estalou os dedos, enquanto sua fiel servente se aproximava. A mulher dirigiu-se à ela, pedindo-lhe que trouxesse sua moeda, a Moeda do Destino.

Enquanto aguardava que a servente fizesse o que ordenara, a mulher cruzou as pernas, suas saias longas, verdes e sinuosas insinuando-se por seu corpo feminino e sensual. Era alta, tinha a pele branca como a de um cadáver, lábios sempre vermelho-sangue, e olhos negros como a morte. Tinha cabelos também negros, fios da escuridão, que desciam-lhe emoldurando seus belíssimos traços, até seus seios fartos e empinados. Cada uma de suas feições era perfeitamente desenhada, mas despertava não apenas fascínio por conta daquela que era a mulher mais bela que já existira, mas também a mais temida, a mais perigosa.

Era linda, e era terrível.

A servente retornou apressando o passo, enquanto se ajoelhava em frente à sua mestra. A mulher tomou de seus dedos a moeda que pedira, que estava gasta pelos anos, feita de um material que lembrava prata, mas cuja origem era muito mais tenebrosa.

Em cada face da moeda, havia um desenho diferente: de um lado um rosto, do outro, uma caveira.

A mulher fez um gesto quase rude com suas mãos para que sua aprendiz e servente se afastasse, e levantou-se do Trono de Ossos no qual sentava. Dirigiu-se em direção a mesa que havia ali próxima, e levantou as mãos, fechando os olhos e recitando algo na mesma antiga língua nórdica. A bacia subitamente moveu-se, levitando no ar, sendo levada por uma quase imperceptível nuvem, uma sombra preta que a encaminhava em direção a um armário, também feito de ossada humana, que ali havia.

A mulher enfim se posicionou a frente da mesa, no mesmo lugar que estivera quando vira as imagens que o espelho d’água lhe mostrara, e jogou a moeda para cima, enquanto proferia as seguintes palavras na língua ancestral que dizia:

“Mostre-me o destino de Loki, filho de Odin, o deus da trapaça.”

A moeda caiu, girando várias vezes acima da superfície da mesa, para enfim tombar e revelar a resposta à pergunta proferida pela mulher.

A servente se aproximara para olhar, mas a mulher levantou sua mão, impedindo que chegasse perto. Os olhos de sua aprendiz fitaram-na, um tanto feridos e desapontados, mas ela não sentiu-se emocionada, muito menos tocada. Nada a tocava, desde que passara a existir. Não sentia empatia, nem amor, nem amizade, nem nenhum dos sentimentos humanos. Estava acima disso, níveis e níveis acima, apesar de sua morada ser subterrânea.

Ela sorriu para a servente, que abaixou a cabeça, contrita, humilde em sua submissão. Em seguida, tirou a moeda de cima da mesa, e virou-a de um lado para o outro, estudando suas diferentes faces. Fez isso repetidas vezes, enquanto a servente apenas a encarava sem entender seus gestos confusos.

– Sabe o que pude ver hoje? – A mulher perguntou, referindo-se ao espelho. Sua aprendiz negou, inocentemente.

– O que já havia sentido. Há uma perturbação nos Nove Reinos. Novas forças se aproximam, e outras ancestrais se puseram em movimento. Uma guerra virá. E um jotun, uma mulher e Loki, o deus da trapaça, serão seus protagonistas. – Sorriu outra vez, ao ver os olhos verdes da servente se arregalaram em espanto.

– Quer que eu os busque, Senhora? O jotun e a mulher? – A aprendiz ofereceu-se, solícita, prevendo o pedido posterior de sua mestra.

– Sem dúvidas. – Seu sorriso mantinha-se firme em seu rosto. — Minha querida. – A mulher disse, enquanto aquela que a servia a olhava avidamente. – A vida e a morte são apenas faces da mesma moeda. É preciso que entenda a vida, para entender a morte. E vice-versa.

– Compreendo, Senhora. – A aprendiz disse, curvando-se novamente.

– Pode até compreender, minha aprendiz. Mas o importante é que Loki não compreende. E esta será sua ruína. – Ela soltou uma risada debochada, enquanto a que a ouvira tomava licença para retirar-se.

Antes que a menina saísse do recinto, a mulher lembrou-se das últimas ordens que tinha reservado.

– Ao finalmente encontrá-los, Leah... – A mulher começou. – Diga-lhes que são muito bem-vindos à minha Casa. Não haverá maior alegria para Hela, do que trazer e manter Loki no submundo. – Ela gargalhou malignamente, enquanto Leah a deixava sozinha.

A sós em meio a escuridão, a mulher levantou a moeda que havia em suas mãos. Sorriu cheia de malícia, enquanto levantou a moeda e passou-a até metade do seu rosto. Quando a moeda perpassou a metade restante, seu rosto havia se dividido em dois: uma parte, linda como a mulher que era, e a outra, horrenda como o que aferia-se instintivamente de sua real essência: uma caveira decrépita, de dentes arreganhados em um sorriso de escárnio. A morte, a inevitável.

Notas finais
Gente, não quero ser mendiga uheuhauhae mas já sendo, é que recomendação sempre dá muito gás pra fic, no sentido de dar visibilidade e tal :) eu sou muito grata a todas vocês que comentam sempre, mas, se quiserem, eu ficaria muito feliz se recebesse algumas recomendaçõezinhas, hehehe. Já tá no sétimo capítulo e tal e a história já começou, é claro que o clímax ainda nem aconteceu, mas acho que já dá pra ver um pouco aonde eu quero chegar. Então, se estão gostando como falam nos reviews, por favor recomendem! :3 *Chantagem emocional* ehuahuahe!

Agora as explicações: a frase que a Miranda falou (em norueguês heuhaauhe, um povo cuja cultura reflete muito a mitologia nórdica), significa algo como "do fogo para a água, demônio". Achei uma frase legal e de impacto, por isso quis colocar. Outra coisa: coloquei um link para cada um dos personagens, para não ter que ficar descrevendo minuciosamente e ajudar vocês a imaginarem.

Espero ouvir suas lindas opiniões! o/