Journey Into Trickery

8 This Could Be Paradise


Notas iniciais
Oiii galera! Eu sei que demorei, mas deixei um aviso no meu perfil para todos vocês, meus queridos leitores. Esse final de abril e começo de maio foi complicado, fiz as provas mais difíceis da faculdade até agora, então não tive tempo mesmo de escrever.
Ademais, gostaria de agradecer a todas as lindas leitoras que me deram recomendações e me fizeram a ficwriter mais feliz do mundo. Muitos beijos, um abração de urso e um enorme obrigada para: Hunter Demigod, LarissaZG, Yasmin Oliveira, Gigi Gold, Bacci, Mari S e LaurenPS. Menção honrosa a MSTalita que havia mandado a primeira recomendação! ♥ Tenho muito carinho por todas vocês, suas lindas!
Sobre este capítulo: POV de Thor e algumas revelações da cabecinha complicada de Loki, heheheh. A relação Miloki ficará mais aprofundada, em outros sentidos que não o carnal (que já foi há muito tempo, vamos combinar). Temos muita "viadagem" emocional pra quem curte, hehehehehe. Além disso, os perigos aumentam, e um visitante inesperado garante surpresas ao final!
Assim sendo, muitos beijos e boa leitura!

Caminhando a passos largos pelos corredores do Castelo Dourado de Asgard, Thor respirava fundo para conter a própria fúria. Enquanto passava displicentemente pelas inúmeras portas de bronze da ala dos aposentos reais, o deus do trovão franzia o cenho, preocupado com o que viria a seguir.


Tentara seu melhor na conversa que travara com o Pai de Todos. Odin, entretanto, continuava reticente como sempre fora. Seu filho mais velho muito respeitava o pai, mas também tinha ciência de que poderia ser muito teimoso com questões as quais deveria dar mais atenção e ser mais tolerante.


E a criação de Loki e de Thor sempre fora uma delas.


Thor parou de caminhar, e inspirou mais profundamente ainda. Em seus pensamentos, as cenas da discussão cansativa e frustrante repetiam-se seguidas vezes, torturando-o mentalmente. Ele inclinou a cabeça para trás, voltando-a depois lentamente para frente. Ele ainda verá. Preciso acreditar nisso. Ele terá de ver, não posso perder as esperanças, senão o que restará?


O deus do trovão enfim voltou a movimentar-se, dirigindo-se para os aposentos que antes buscava. Virou-se para a direita, para o último quarto do corredor seleto da família real, entrando no cômodo que desejava.


As paredes eram de um papel de parede verde esmeraldino, com um teto altíssimo e circular, convergindo para o ponto central do quarto. Dentro dos aposentos havia estantes altíssimas, que comportavam paredes inteiras, repletas de volumes tão antigos quanto o próprio Castelo de Asgard. Em baús de madeira velha, que estalavam ao abrir-se, dispostos próximos à cama de casal com um alto dossel verde e branco, Thor sabia haver objetos de magia e até mesmo brinquedos antigos. Mas não era exatamente aquilo que procurava.


Deixou seu olhar vagar perdido pela decoração do quarto, sentindo inúmeras memórias preencherem sua mente antes ocupada pela amargura de Odin. Há quanto tempo não entrava ali? Sabia que o que fazia era invasivo e, talvez, até mesmo errado... Mas era preciso. Sentia-se ferido, e fraco, e aquilo o ajudaria, daria-lhe forças para insistir e perseverar.


E para não se deixar levar pelo medo de que tudo que acreditava não passasse de mera ilusão. De que suas esperanças não fizessem parte de um passado remoto, de uma pessoa que há muito morrera, tornara-se alguém que ele não reconhecia, e que jamais voltaria a ser o que era.


Para poder, enfim, ainda acreditar que não o deus da trapaça, não o deus da mentira, não o infortúnio de Asgard, ou o filho de Laufey... E sim Loki, seu irmão Loki, o filho de Odin, seu companheiro inseparável; seu amigo, seu melhor amigo. Alguém inteligente, porém inseguro, astuto, porém ingênuo para com certos aspectos mundanos da vida, ainda estava vivo, no fundo da alma do deus frio e atormentado que se tornara. Thor acreditava, tinha de acreditar, que um dia lhe sorriria mais uma vez como em todos os bons dias de sua juventude, e veria no rosto de Loki o mesmo amor fraternal que um dia compartilharam.


Seu tão querido e amado irmão menor.


Enquanto sentava-se na beira da cama de Loki, lembrava-se de quando Frigga lhes apresentara pela primeira vez. Thor, ainda criança, teve de olhar para cima, para vê-lo segurado nos braços da mãe. Loki era uma criança de colo, um bebê pequeno, parecia tão frágil aos olhos também infantis de Thor, e chorava. A mãe tentava embalá-lo para que se calasse, cantando baixinho, mas Loki insistia em reclamar audivelmente, atormentando a todos os presentes.


Thor não gostara dele de início, admitia para si mesmo, em vergonha. Na verdade, sequer apreciara a ideia de ter um irmão, quando Odin viera avisar-lhe de seu nascimento. Quem era aquele bebê para tirar-lhe a atenção dos pais? Algo tão frágil, um ser tão insignificante, não merecia sequer ser levado em consideração. Por que existia? Era melhor que não tivesse sequer nascido. Ele, apenas ele, Thor, seria o futuro Rei, por que deveria existir um irmão do Rei?


E, ainda por cima, chorava, como um fraco. Thor sentiu raiva e repulsa, e teve vontade de virar-lhe as costas.

Frigga, entretanto, curvou-se deixando o bebê na mesma altura do irmão mais velho. Por algum impulso que não entendera, a criança Thor levou sua mão direita para perto dos braços do bebê, que se debatia furioso nos braços da mãe. Sentiu vontade de beliscá-lo, mas não faria essa covardia.


Instintivamente, tocou sua pele, com cuidado. A ponta de seus dedos encostou-se à pele macia e delicada do bebê. Era tão fria. A criança deveria estar congelando, com aquela temperatura.


Mas o menino Thor não esperava o que viria. Ao tocar um dos pequenos braços do bebê, Loki parou de chorar. Seus olhos se abriram, e Thor encarou suas íris verdes, que lhe fitaram atentamente. Um sentimento quente percorreu seu peito quando o olhar do bebê cruzou-se com o seu, e Thor soltou uma gargalhada. Não por deboche, ou sarcasmo, ou até por achar graça de alguma coisa. Apenas por conta de uma felicidade inexplicável, que o levara em um arroubo de emoção.

O bebê Loki sorriu-lhe de volta, e seus olhos verdes estreitaram-se de alegria. Não mais chorava ou debatia-se, mas moveu sua pequena mão direita para o dedo indicador de Thor, e fechou-se docemente a sua volta. Loki riu tão gostosamente quanto Thor, que não conseguia parar de sorrir.


– Viu, Thor? Ele já ama você. Seu irmãozinho querido. Vocês serão muito próximos, e nada nem ninguém poderão separá-los. — Frigga disse, emocionada, sorrindo com a cena de meiguice inigualável. Seus olhos brilhavam pálidos, e Thor reparou que ela aparentava estar contendo alguma espécie de tristeza, quase como se estivesse evitando chorar. Apesar de não compreender a razão, Thor sentiu-se ainda mais feliz com o comentário da mãe.


O Thor adulto sorriu com a lembrança. Era uma memória tão antiga, porém voltara-lhe vívida à sua mente. Poderia ser o efeito de, finalmente, após tantos anos, entrar no quarto de Loki, no qual crescera e guardava em si toda a essência de quem fora.

Porém seu sorriso contorceu-se em um esgar de tristeza, mais uma vez sendo invadido pela discussão que travara com Odin. Tentara, inutilmente, pedir ao Pai de Todos mais um julgamento ao seu filho. Loki cometera ações hediondas, mas era seu filho, ele deveria ter alguma clemência reservada. Como um pai poderia permitir que o próprio filho fosse condenado à prisão perpétua? Sem uma chance de reconciliação, sem uma pena que pudesse expiar seus crimes de forma que não perdesse toda e qualquer esperança?


Sem a mínima possibilidade de redenção?


Thor fechou o punho direito com força, e socou o macio colchão da cama que Loki dormira por anos e anos de sua vida. Garantira que ele não tivesse de passar suas noites em uma cela afastada, desamparado, definhando para todo o sempre, mas... O que lhe garantira? Viver como um fugitivo? Ou a possibilidade de seu pai julgá-lo com ainda menos piedade?

Seu maior, seu pior medo, era sem dúvidas... A chance de Odin declarar a execução de Loki.


E isso, em parte, seria culpa de Thor.


O deus do trovão sentiu um horrendo calafrio de medo subir-lhe à espinha, e levantou-se imediatamente. Não poderia ceder aos temores. Já começara a agir, agora tinha de terminar. Protegeria seu irmão e a chance de que ele pudesse se redimir, mesmo que fosse uma ilusão, ou que estivesse errado, ou que fosse condenado também.


Ainda que tivesse que pagar com sua vida por isso.


Thor caminhou até a cômoda ao lado da cabeceira da cama, e abriu a segunda gaveta, na qual ele sabia ter um fundo falso. Loki não tinha ciência disso, pois tinha sido uma estripulia planejada pelo irmão mais velho, o próprio Thor. Lá, guardava alguns itens que sabia que o irmão provavelmente jogaria fora.


Enquanto abria o móvel, ouviu a voz de Odin gritar-lhe, enfurecido:


– Ele traiu a família. Traiu Asgard. Traiu a todos nós. Como pode defender-lhe uma segunda chance?


Thor rangeu os dentes de raiva, remexendo na gaveta cheia de outros objetos.


– Eu sei de tudo isso, meu Pai. Não defendo suas ações. Defendo a possibilidade de outro julgamento. Um que participe mais efetivamente, e que eu possa também participar. Estive presente testemunhando as ações de Loki. Conheço seus motivos. Ainda que não justifiquem seus atos, ele deve ter sua chance de defesa, o que o senhor não lhe concedeu.


As vozes permeavam sua mente como ecos distantes, enquanto ele retirava os pertences de Loki com uma fúria cada vez menos controlada.


– Está louco? Agora duvida da autoridade dos Grandes Anciões? Quem é você para participar de um julgamento, Thor?

Thor retirou os últimos pertences que enchiam a gaveta, e finalmente tirou a tábua que escondia o fundo falso. Retirou, enfim, o que desejava do móvel, e arrumou outra vez os pertences de Loki em seu devido lugar. Inspirava fundo, mas sabia que em breve se acalmaria.


– Sou seu filho! Assim como Loki o é! Ou não mais assim o considera? Não sente piedade de seu próprio filho? Thor não mais mantivera a voz controlada neste momento da discussão, e bradava em um tom grosseiro com o pai.


– Aparentemente, eu não tenho filhos! Não homens. Não deuses. Criei apenas sombras de homens, projetos de deuses, reles crianças fracas e ingratas. Odin levantou-se, gritando mais alto ainda, deixando Thor indignado. – Acredite, Thor. Algumas vezes cheguei em verdade a me questionar se não me arrependo por ter tido vocês.


Thor sentiu como se uma espada afiada perfurasse seu coração. As palavras de Odin feriram-lhe como ele jamais imaginara ser possível, e, por segundos, ele esqueceu-se da própria raiva.


– Este é meu último aviso. Não insista mais neste assunto. Ou terei de lhe ensinar a mesma lição de anos atrás? Assim, o Pai de Todos levantou-se da mesa de reuniões em que se sentava, e deixou o filho mais velho sozinho em sua fúria.


E, naquele momento, sentado na cama de Loki, fechado em seus aposentos, Thor encontrara abrigo para sua raiva, e encorajamento para seus deveres. Não mais franzia o cenho, não mais rangia os dentes de fúria, apenas... Sorria. Seus olhos azuis brilhavam enquanto encarava, em um papel velho e mofado que escondera há anos e anos, há tempos ancestrais, algo que Loki desenhara quando tinha acabado de aprender a ler e escrever, por volta dos quatro anos de idade.


Pela superfície do papel, Thor lia uma pergunta escrita em caligrafia caprichada e invejável pelo Ancião que lhes dera aulas quando criança. O texto dizia: Qual é o modelo que deseja seguir para tornar-se, no futuro, um grande deus?


Com traços infantis feitos a tinta de aquarela, havia o desenho de um boneco loiro e disforme, com olhos pintados de azul claro, usando uma armadura nórdica brilhante, e uma longa capa vermelha. O garrancho sorria, e tinha a postura digna de um deus heróico.


Abaixo do desenho, dispunha-se a frase, escrita com uma caligrafia infantil torta e esforçada, claramente pertencente a uma criança que havia acabado de aprender a escrever há pouco: Meu irmão, Thor Odinson.


Thor alargou ainda mais seu sorriso, e deixou algumas parcas lágrimas escaparem de seus olhos azuis, brilhando outra vez esperançosos.


***

Loki e Miranda haviam seguido todo o longo e tortuoso caminho de volta a Nidavellir, e aguardavam em uma antesala do Castelo dos Anões, uma fortaleza de pedra incrustada por metais preciosos, com muros altíssimos e tetos tão vastos que fugiam à vista. Toda a construção imponente e grandiosa fora planejada para dar-se em meio a mais alta caverna dentre as que permeavam o Reino dos anões, e era ricamente ornamentada por pedras dos diversos tipos, tendo sua arquitetura planejada nos mínimos detalhes. Do piso de branco mármore às pilastras desenhadas no mesmo rico material, os anões despejaram, em toda a sua glória, seu conhecimento insuperável nas artes da ourivesaria e construção no geral.

A jovem midgardiana adentrara os enormes portões do castelo embasbacada, e continuava com a mesma expressão atônita que divertia Loki naquele momento que haviam sido recepcionados e aguardavam para ter sua conferência com o Rei.


Em meio ao cômodo senhorial do castelo, ambos sentavam-se em um divã de estofado dourado, cuja borda de ouro também dourada era ricamente ornamentada, com fios entremeados em suas bordas. O deus encontrava-se em sua forma jotun, para travar com o Senhor dos Anões o restante das negociações até que pudessem firmar-se afinal como aliados na guerra que planejavam. Precisavam entregar-lhe a fórmula que Surtr lhes presenteara como garantia de seu apoio, antes de partir rumo aos próximos aliados. Miranda, naquele preciso momento, distraia-se encarando a abóboda resplandecente de pedras preciosas incrustadas em seu teto, seu queixo levemente entreaberto, seus olhos arregalados.


O deus sentia-se simultaneamente constrangido em sua presença, um tanto desconfortável, mas sabia que tais sentimentos eram advindos de algo mais... De algo que queria negar, mas que ficava cada vez mais evidente a cada dia que passava junto a ela. — Lembre-se. — Loki chamou-lhe a atenção, evitando seus pensamentos.


Ao ouvir sua voz, Miranda abaixou o rosto, encarando-lhe com seus olhos cor de mel.


– Quando encontrarmo-nos com Hreidmar... — O deus da trapaça parou de falar, afetado pelo que vira.


Miranda tinha sua expressão esperta e travessa de sempre, mas no segundo em que seus olhos se cruzaram, ela havia abaixado levemente o rosto, mordendo timidamente o dedo indicador que levara à boca. Havia algo de estranho naquilo, mas, ao mesmo tempo, era tão esperado, como se uma parte da alma do deus considerasse aquele gesto a postura mais desejada possível.


Seu olhar desviou-se do de Loki, evitando-lhe o contato, e então ele sentiu como se o frio gelo de Jotunheim cortasse seu coração jotun, antes congelado, e agora, talvez... Não mais. Antes que ele mesmo pudesse controlar-se, sua mão se moveu até o rosto dela, puxando-o suavemente para que se voltasse para si. Olhos vermelhos mergulharam em orbes cor de mel, e Miranda sorriu da mesma maneira doce da gravura daquele curioso dia em NY.


Como poderia fazer isso? Ela nunca lhe olhara com repúdio, asco, ou até mesmo pena. Sua postura perante ele jamais mudara, mesmo descobrindo o que significava ser um jotun, um gigante de gelo, criaturas horrendas cuja mera existência pífia era limitada a histórias de terror para assustar crianças medrosas à noite. Como ela poderia agir assim, sendo ele o monstro que era? Loki não conseguia entender, mas...


– ...Quando encontrarmo-nos com Hreidmar? — Miranda perguntou, seu sorriso delicado ainda em seu rosto, e Loki, estranhamente, se sentiu desarmado. Esforçou-se para voltar a si, retirando quase que bruscamente a mão do rosto da midgardiana. Desta vez, fora ele quem desviara o olhar. Voltou seu corpo para a direita, e limpou levemente a garganta, recompondo a compostura devida. Quase podia ver a expressão da jovem moça de frustração com suas ações, e aquilo, curiosamente, o frustrava também.


– Precisarei que fique em silêncio, falando apenas quando for questionada. Estamos a um fio de terminar a primeira parte do plano, e não podemos deixar que tudo seja perdido agora por... — Miranda havia se levantado e surpreendera Loki, estando de frente para ele, seus braços cruzados, uma sobrancelha levantada em uma expressão cínica e desagradada no rosto.


– O que eu preciso fazer para você confiar nas minhas capacidades? Ganhar dos Nove Reinos no Banco Imobiliário? Olha que eu sempre roubo a carta da saída livre da prisão, hein. — A jovem moça fez indignada uma de suas típicas perguntas sem sentido, mas Loki havia se surpreendido por não ter percebido seus movimentos. O deus da trapaça passou as mãos no rosto, ainda confuso, e lhe respondeu.


– Saiu-se muito bem com Surtr. Mas esta parte das ações cabe a mim. Se quiser ajudar, é melhor que fique em silêncio. – Loki disse da maneira mais fria que conseguiu impor à sua voz, um tanto por ter sentido raiva de si mesmo com o gesto carinhoso que acabara de fazer, motivado por razões ainda piores que a própria demonstração de afeto... Ele não queria pensar nisso. Era realmente amedrontador.


– Essa coisa de passividade não funciona muito bem comigo. Nem no sexo, não por muito tempo, ao menos. – Miranda lhe sorriu devassamente, da forma que sempre o provocara, seus olhos cor de mel estreitando-se e brilhando lascivos na única expressão feminina que alguma vez conseguiu tirar o foco dos pensamentos – e das ações – do deus da trapaça.


– Tenha um mínimo de decoro. – Loki ralhou com ela, rispidamente, sua voz sibilando como um silvo de uma serpente. – Sei que não é da sua natureza, mas encare como um desafio. Quem sabe... Você me surpreenderia se provando capaz de se portar como uma dama. Duvido que tenha capacidade para tal. – O deus a provocou da forma que sabia que surtiria algum efeito, e Miranda fechou o rosto em uma expressão ainda mais indignada.


– Eu sei o que está fazendo. Psicologia reversa é coisa que se usa com crianças de quatro anos de idade. O que significa que não vai funcionar comigo, senhor. – A jovem moça cometeu o ato falho sem sequer perceber, e Loki cobriu os próprios lábios que se abriram em um sorriso sarcástico com uma das mãos. Era simultaneamente difícil e muito fácil manipulá-la, quando em alguns aspectos. Seu tolo orgulho sempre era uma fraqueza aparente.


– Qual é a graça? – Miranda perguntou, ainda irritada, mas subitamente arregalou os olhos e cobriu a boca por instinto. – Isso foi proposital! – Ela tentou se defender, mas Loki riu ainda mais. Por algum motivo, a companhia dela parecia cada dia mais divertida. O deus muito se entretinha ao implicar com a midgardiana e assistir suas reações.


Muito mais do que esperaria, ou até gostaria.


– Entenda isso como parte de um treinamento. Algum dos conselhos que lhe dei até hoje se provaram inverídicos? – Loki estreitou os olhos e falou alguns tons mais baixo, tornando mais gentil o tom da sua bronca de antes.


– Não, mas curiosamente eles me envolviam em uma situação de altíssimo risco e foram sempre inevitavelmente lucrativos para você. – Miranda respondeu sem emoção alguma na voz, mas o deus já a conhecia a tempo suficiente para ter percebido um sorrisinho de canto dos lábios que ameaçara se formar em seu rosto. Ela está gostando.


– Porque estamos agindo como... Parceiros. – Loki demorou ao proferir a última palavra, incutindo-lhe as maiores segundas intenções.


Miranda estreitou os olhos, como se duvidasse, mas não resistiu à pose séria e pôs-se a rir, como que de nervoso. Loki, sem entender porque, sentiu vontade de acompanhá-la nas gargalhadas. Era uma cena bela e curiosa, vê-la rir assim, seu sorriso largo alargando-se cada vez mais em seu rosto de ninfa midgardiana.


– Tudo bem. De qualquer forma, minha pequena veia jornalista fala mais alto nessas horas. Eu poderia ganhar algo com isso, sabia? Se eu estivesse com uma equipe de filmagem ou sequer uma câmera aqui, quando voltasse a Midgard eu certamente venceria o Pullitzer. Isso tudo daria um livro, imagina? “Eram os Deuses Inglesinhos...” – A jovem mulher começou a tagarelar seus absurdos novamente, enquanto Loki sentiu-se levado pelos seus pensamentos, por conta de algo que ela havia dito. “Eu poderia ganhar algo com isso.” A voz de Miranda ecoava em sua mente. De fato, o que ela ganha ao me acompanhar? Mais uma vez, o deus sentiu certo nó em seu estômago, motivado pela maldita dose de culpa que lhe vinha cada vez mais recorrentemente, ao perceber o quanto estava usando-a para seus propósitos pessoais. Não era para ser assim.


Enquanto a jovem mulher ainda falava parecendo quase incoerente, um dos servos de Hreidmar abriu uma porta lateral e aproximou-se, curvando-se elegantemente para aquele que agora chamavam “Rei Jotun” e sua companheira bastarda aesir, Hale. Encaminhou os convidados de honra até uma câmara com uma enorme janela, da qual se via um grande e vasto precipício cravejado de pedras de diamantes, formando ilusão de ótica tal como se abaixo deles só houvesse o céu noturno. Naquele ambiente, havia uma comprida mesa de madeira, com detalhes em bronze em seus pés, ricamente floreados como se desenhassem heras que subiam do chão até a superfície do objeto. Acima da mesa havia um banquete: faisões, maçãs vermelhas e verdes, jarras de diferentes tipos de vinhos e outros pratos vistosos. Além disso, ao encarar a jovem midgardiana, reparou que seu olhar estava fixo em um ponto próximo à mesa das refeições. Um enorme barril de cerveja estava ali disposto, ainda maior do que os da melhor estalagem de Nidavellir.

Ele ouviu Miranda suspirar ao seu lado, enquanto sua audição aguçada captava passos pesados, imponentes, aproximando-se. Loki tocou o ombro da midgardiana como se lhe pedisse atenção, e adotaram a postura devida antes que o Rei dos Anões adentrasse aqueles aposentos. O Rei parou a frente dos que lhe pediam a atenção, e encarou-os severamente.


Assim que o viram, curvaram-se em submissão como haviam combinado. Se algo era comum a todos os anões, inclusive aos da nobreza, era seu orgulho sem limites, gigantesco, capaz de tocar os céus de pedras preciosas de Nidavellir. E, quanto mais alto seu grau de nobreza, ainda maior era a sua pompa.


Hreidmar era exatamente aquilo que se poderia chamar de anão. Um grande anão. Sua imponência vinha da enorme coroa de ouro que usava, com longos cornos a esquerda e a direita, tão imponente e pesada que parecia ter o mesmo tamanho de sua grande e larga cabeça. Sua barba grisalha era pálida como a mais fina prata, e vestia uma capa também dourada, com o que parecia ser alguma espécie de pele de ovelha no colarinho. Seus olhos tinham um tom claro de azul acinzentado, e parecia-se com as estrelas de diamantes que brilhavam incrustadas nos tetos de Nidavellir. Tudo em sua aparência inspirava austeridade e imponência, e, mesmo sendo um anão, sequer parecia ter tamanho diminuto para um homem.


– Meu senhor... – Loki dissera elegantemente, seu capuz cobrindo seus olhos jotuns, seu sorriso perigoso e esperto estreitando-se delicadamente em seu rosto. – É um imenso prazer finalmente ter a chance de conferenciar convosco. Senhor Supremo de Nidavellir, Protetor dos Anões, Mestre do Ferro, Lorde Dourado. – O jotun disse, enquanto Miranda lhe fazia coro, sua voz também adotando a mesma postura delicada que a do deus, embora, ele percebesse, detivesse algum nervosismo em suas palavras.


Hreidmar fez um gesto elegante com uma de suas enormes mãos de pelugem grisalha, e sequer sorriu. Um brilho inteligente perpassou seus olhos de diamante, e Loki teve de controlar seus próprios sorrisos. Sabia que ele não imaginaria que seu maior algoz estava ali, do seu lado, secretamente em sua forma jotun.


– Não preciso que enumere meus títulos, Laufar, filho de Laufey. Sei-os desde anos ancestrais, em uma época na qual você ainda sequer sonharia em nascer. – O Rei estalou os dedos, e mais criados adentraram os aposentos, servindo maior quantidade de comida e variedade de pratos na mesa, para os convidados.


– Como quiser, Vossa Graça. – Loki disse, e voltou-se devagar para Miranda. – Acredito que tenhamos conosco algo que muito apreciaria. – O jotun começou, mas Hreidmar já os interrompeu.


– Será? Chegou ao meu conhecimento que distribuíram ouro falso aos plebeus. – O Rei mencionou diretamente o ponto, e Loki mais uma vez comprimiu outro sorriso. Ele quase podia sentir a tensão de Miranda aumentar, o que era ainda melhor para a atuação que desejava.


– De fato. Sinto muito por isso, milorde. – Loki disse dissimuladamente, e ele sentiu a respiração de Miranda tornar-se mais rápida, ao seu lado. Não fale. Por Odin, não fale.


– Apenas fizemo-lo porque pretendiam nos matar. – Miranda não se controlou, e soltou a frase de maneira deselegante. Loki inspirou fundo. Ainda preciso treiná-la.


– Não é do meu interesse o que meu povo deseja fazer com estrangeiros. Entretanto, é do meu interesse quando tentam lograr meu povo. – Hreidmar aproximou-se de Miranda, e novamente fez um floreio com uma das mãos, indicando para que ela se levantasse. – Em Nidavellir, enforcamos ladrões desse nível. O que a faz pensar que mereceria uma conferência com o Rei, depois de tamanho ultraje? – Loki reconhecia um blefe quando via um. Por mais que Hreidmar fosse vingativo e rancoroso, era muito mais interessante conseguir a fórmula de Surtr. Estando no poder dos viajantes, ele não se arriscaria a matá-los e pôr um dos que era um de seus mais antigos desejos a perder.


– Pelo mesmo motivo que o Rei Surtr tão generosamente concedeu-me uma audiência, Vossa Graça. – Miranda respondeu, cada palavra carregada de veneno. – E um lugar em seu Conselho. – A jovem moça ressaltou, e Loki sorriu. Subestimei-a.


– Mas que provas mentirosos como vocês teriam para que eu pudesse acreditar em suas palavras dúbias? – O Rei insistiu, encarando-os com asco.


– Estas. – Loki indicou Miranda com a cabeça, que unira suas mãos em uma espécie de prece. Proferiu algumas palavras em uma língua ancestral, e, ao abrir suas mãos, uma pequena esfera de luz espelhava-se em suas palmas.


– Bruxaria... – Hreidmar disse, com nojo, e Loki sabia que aquele era o momento mais perigoso. Perdera seu filho amado para artes mágicas, mas, ainda assim, desejava uma fórmula secreta baseada na mesma magia.


– Magia tão perigosa quanto a do anel que usa em seu dedo, Vossa Graça. – O deus da trapaça indicou Andvarinaut, o anel amaldiçoado que Hreidmar ganhara de Odin, quando Loki enganara seu primogênito Ótr, o prometido ao Trono, e trouxera a ruína à sua família. O Protetor dos Anões continuava, de fato, o mesmo de muitos anos atrás. Ganancioso, ambicioso, e cego pelo seu olhar cobiçoso de riquezas.


O trio encarou a esfera luminosa, e os olhos de Hreidmar rapidamente se arregalaram. Miranda exibira a caverna de gelo na qual conjurara, com a ajuda de Loki, uma rachadura no cristal congelado pendente do teto, para esconder a fórmula secreta do Rei Surtr.


– Conseguiram, enfim? – O Rei não parecia acreditar. Um sorriso ganancioso alastrou-se por seus grossos lábios, e Loki sabia que tinha ganhado.


– Depende. – Loki disse perigosamente. – Precisamos, antes, do seu juramento, Vossa Graça. – Miranda olhou duramente o Rei, que soltou uma risada de escárnio.


– Tem sorte de que não corto suas cabeças. Nunca cortei a de Loki por não poder contrariar o Pai de Todos, mas quem são vocês além de um jotun pretensioso e uma bastarda sem nome algum? – Hreidmar desdenhou, enquanto Loki segurava-se em sua diversão.


– Somos o jotun pretensioso Laufar e a bastarda Hale, sua aliada, os únicos que sabem a maneira de resgatar a fórmula de Surtr. Se morrermos, conosco morrerá o segredo. – Miranda disse, sua voz gélida como a temperatura de Loki, e o deus da trapaça se sentiu orgulhoso de sua performance.


– Não passam de párias pedintes, e ladrões enganadores. Mas a fórmula de Surtr é mais importante para meu Reino do que a justiça feita a meros golpistas como vocês. – Loki sorriu humilde. Os melhores golpistas que conhecerá, Rei dos Anões.


– É muito generoso, Vossa Graça. – Miranda agradeceu e curvou-se novamente.


– Considerem minha misericórdia seu maior presente. Não desejo uma guerra contra Asgard, mas há maior traição na desgraça que Loki trouxe a minha família e à sua justiça da qual não participei, ou na ganância de Odin ao esconder consigo as gemas que deveriam ser minhas. – Hreidmar se referia a cena que seus anciões viram na estalagem, pela safira de Miranda. Loki conseguira enganá-los, dando-lhes a pista falsa de que Odin escondera consigo tesouros que deveriam, supostamente, pertencer aos Anões.


– Somos gratos eternamente, Vossa Graça. – Foi a vez de Loki se curvar, mas Hreidmar já estava impaciente.


– Hoje beberão e comerão sob meu teto. Amanhã, não me responsabilizo pelo destino de vocês. Terá sua guerra, jotun, como explicitei no documento que levaram ao Rei Surtr. Mas apenas se eu receber, em minhas mãos, a fórmula que desejo. – O Rei proferiu a leve ameaça, e Miranda e Loki lhe sorriram submissos.


– Será como deseja, Vossa Graça. – Disseram em uníssono.



***

As cerimônias se passaram sem mais delongas, com Miranda comendo realmente grata junto ao Rei, e conseguindo o respeito do Grande Anão ao virar consecutivos pints de cerveja vermelha e preta. Loki a estudava cuidadoso, e reparava no quanto havia evoluído.


Ela conseguira travar um diálogo amistoso, porém respeitoso, com o Rei, durante todo o tempo, e inclusive conquistar sua simpatia, com seus gestos incomuns para uma mulher e sua glutonice. Suas risadas eram fáceis e audíveis, e Hreidmar era um anão seco e rancoroso. Porém, Loki o vira sorrir pela primeira vez na presença da midgardiana. Aquilo lhe era curioso, e, ao mesmo tempo, desagradável.


Antigamente, se julgava enlouquecido por enxergar algo mais naquela simplória humana. Mas, aparentemente, além dele, Surtr e Hreidmar também admiraram diferentes qualidades da jovem moça. Como negar?


Havia algo de realmente encantador em Miranda, como o fascínio por uma pedra preciosa. Desperta cobiça, ganância, e o desejo de possuí-la. Feito tudo isso, entretanto, muitas pedras perdem o valor.


Mas não ela. A cada dia que passava, Loki sentia-se mais próximo dela, surpreendendo-se cada vez mais com o que viviam juntos. Miranda não era uma mera esmeralda, ou até mesmo uma safira como as que fizeram os olhos dos anões anciões brilharem em ganância.


Era um diamante. Um diamante bruto, porém de riqueza inestimável.


E que Loki queria que fosse dele, e de mais ninguém. Estaria disposto a enfrentar os Nove Reinos para isso, mas ninguém jamais a tocaria. Frustraria a cobiça de todos, e a manteria consigo, segura, dele e apenas dele...


Enquanto estivesse vivo.


Ao fim do jantar, Hreidmar ordenou aos servos que encaminhassem os visitantes ao outro extremo do castelo, a Ala Leste, na qual haveriam dormitórios para que pudessem passar confortavelmente a noite. Miranda espreguiçava-se e sorria o tempo todo, admirando seus feitos e também a beleza imponente das altas paredes cravejadas de ouro do lugar.


Foram deixados a sós, finalmente, em uma sala enorme. Ao final de um grande tapete vermelho e dourado que a cobria quase completamente, havia duas portas, uma a esquerda e outra a direita, indicando quartos separados. Na sala encontravam-se estantes gigantescas que subiam altas até o teto, pintado a óleo, assim como uma ceia frugal caso sentissem fome durante a noite. E, a um canto solitário, um grande piano de cauda.


Os servos se despediram deles alegando que, caso desejassem, poderiam chamar um dos cantores residentes no castelo a serviço do Rei Hreidmar para lhes entreter, mas ambos disseram que não era necessário. Quando finalmente ficaram realmente a sós, Miranda deu pulinhos de alegria e correu direto para o piano.


– Irado! Não tem ideia do quão valioso deve ser esse instrumento, tem? – Ela dizia, alisando a madeira branca do objeto, enquanto voltava a cabeça devagar para Loki. Aquela alegria legítima dela era contagiante, e o deus se sentia impelido a ficar mais próximo dela. Para contrariar tais instintos que o assustavam, entretanto, o deus desejou ignorá-la.


– Precisamos dormir. – Loki disse secamente. – Amanhã teremos nossa viagem mais desagradável. Deveria aproveitar enquanto pode. – O deus encaminhou-se grosseiramente ao quarto à esquerda, seu capuz cobrindo seus traços jotuns e seu olhar. Não queria que Miranda visse seus olhos, por algum motivo desconhecido.


– Então vai, ô Noturno careta. Eu vou ficar aqui, estou levemente bêbada e vou me divertir com esse rapazinho. – Ela deu leves tapinhas no piano, mas Loki a ignorou. Não desejou boa noite, e adentrou seus aposentos.


Entretanto, quando iria fechar a porta do quarto, ouviu o som dos dedos de Miranda formando uma melodia ritmada, delicada e suave. Seus dedos finos e compridos dedilhavam com precisão o teclado do piano, e ela pôs-se a cantar junto a música.


Sua voz não era afinada, tampouco lembrava o canto de perfeição lírica que ouvia nos Palácios de Asgard, das musas aesires. Porém, algo o deixava ali, estático, querendo ouvir o que ela cantava, entender aquela canção. Logo ele, que jamais dera importância a tamanhas futilidades...


When she was just a girl, she expected the world…” – Miranda cantava, e Loki sentiu um aperto no peito.

– “But it flew away from her reach, so she ran away in her sleep…” – A melodia parecia crescer, assim como a voz de Miranda, um tom feminino grave e agudo ao mesmo tempo, enquanto seus dedos dedilhavam incessantemente o piano. Loki abriu mais a porta, e viu seu rosto.

“And dreamed of para-para-paradise,
Para-para-paradise,
Para-para-paradise…

Every time she closed her eyes.” – Miranda sorriu um sorriso triste, e quando abriu os olhos novamente, orbes cor de mel mergulharam em orbes vermelhas, e Loki já não tinha mais chances.

Aproximou-se dela devagar, enquanto Miranda alargava seu sorriso, os olhos fechados outra vez. Não parecia sorrir com alegria, e sim... Com certa melancolia. Por algum motivo, aquilo, aquela cena toda, parecia algo muito pessoal. O deus sentia-se como se estivesse invadindo um espaço secreto, um quarto trancado, e remexendo em um baú antigo, encontrando coisas que não poderia imaginar.

A melodia passou a repetir seus acordes, e Loki chegou mais próximo do piano. Uma de suas mãos acompanhou as duas mãos de Miranda, que tocavam, e, com seus ouvidos privilegiados, o deus seguiu o ritmo sem dificuldades. Ela levantou o rosto, parando de sorrir por momentos, encarando-o com uma expressão que o fez sentir-se novamente desarmado. Ela estava tão dócil, tão submissa... E ao mesmo tempo, tão triste.

“When she was just a girl, she expected the world…” – Miranda cantou outra vez, e Loki fechou os olhos instintivamente. Sabia que aquilo tinha alguma relação com o passado de Miranda, podia sentir suas emoções, adivinhar Jimmy e as pequenas agruras da vida de Miranda em cada uma daquelas notas melancólicas e sonhadoras. Tolices que em outra época fariam-no ignorá-las sem pensar duas vezes, mas, naquele momento, o tocavam profundamente.

“But it flew away from her reach, and the bullets catch in her teeth…” – A jovem moça cantava com mais tristeza, enquanto Loki pôs a mão direita acima da dela, indicando que poderia continuar sozinho. Miranda retirou a mão direita, passando a tocar apenas os acordes da esquerda, e o deus da trapaça os da direita. Sentou-se ao seu lado, no banco do pianista, e ele mesmo sentiu-se invadido pela música.

“Life goes on, it gets so heavy.

The wheel breaks the butterfly.

Every tear, a waterfall…” – Ela cantava, e Loki seguia instintivamente o crescendum da música. Miranda levantou a voz, franzindo levemente as sobrancelhas.

“In the night, the stormy night, she'll close her eyes…

In the night, the stormy night, away she'd fly…” – Ela continuou, e Loki sentiu-se surpreender-se a si mesmo ao acompanhá-la no refrão, a voz da midgardiana alta e o mais afinado que conseguia, e a do deus da trapaça baixa, sussurrando, como se contasse um segredo.

“And dreams of para-para-paradise” – Começou Miranda.

“Para-para-paradise, Para-para-paradise...” – A midgardiana cantava audivelmente, e Loki sussurrava. Por algum motivo, lembrou-se de Thor, e da infância renegada, há muito deixada para trás.

– “She'd dream of para-para-paradise... Para-para-paradise,
Para-para-paradise.” –
Loki nem sequer prestava atenção nos movimentos de sua mão direita, mas sim na lembrança que tivera ao adentrar aquelas ruínas nos bosques do Reino dos Elfos da Luz.

– “Still lying underneath the stormy skies…” – A voz de Miranda vinha de muito longe, a mão de Loki tocava automaticamente, e seus olhos se perdiam nas visões de seus pensamentos.

Thor e Loki haviam saído sozinhos da comitiva de Odin, em visita a Ljusalfheim. Enquanto o Pai de Todos estava ocupado tratando com Frey, os irmãos correram do ancião responsável por vigiá-los, fugindo pelas florestas do Reino dos Elfos da Luz. Em meio à mata densa, Thor parecia arrependido, querendo voltar. Dizia que o pai os castigaria pela desobediência, mas Loki disse-lhe que precisavam ser independentes e descobrir as coisas por si só. Thor parecia reticente, mas sempre tivera dificuldade de negar os desejos do irmão mais novo.

Loki conjurou, sozinho, uma espécie de rosa dos ventos para guiar a direção que deveriam seguir. Em minutos, encontraram o caminho para fora da floresta, enquanto Thor comemorava audivelmente a inteligência e capacidade do irmão menor.

Ambos prenderam a respiração ao ver o que o fim da floresta os reservava.

Uma enorme cachoeira, que descia de uma montanha íngreme e ampla, desenhava-se na encosta que poderiam descer com facilidade. Havia uma grande clareira, repleta de flores silvestres em volta, e a água acima e abaixo era límpida como o céu azul cerúleo daquela bela manhã.

Os dois irmãos desceram correndo e gritando, se empurrando e se divertindo. Passaram horas brincando na água, e, finalmente, quando estavam cansados, Loki brincou com o irmão mais velho.

– Não precisamos voltar, sabia. Podemos virar Reis deste lugar. Frey é tolo o suficiente para sequer desconfiar de sua existência. – Loki debochou, sorrindo espertamente para o irmão mais velho.

– Não diga isso, pequeno irmão. – Thor fechou o punho e esfregou-o na cabeça de Loki. O garoto tentou desvencilhar-se, mas o irmão era mais forte, e, secretamente, ele gostava daquele gesto. – É rude, e não é apropriado. Ademais, já temos um Reino para governar. – Thor sorriu majesticamente, olhando na direção de onde seria Asgard.

– ...Você tem. – Loki sussurrou, invejoso, entre dentes, sem que pudesse se conter.

Thor aproximou-se dele, seus olhos azuis levemente preocupados, mas Loki forçou um sorriso falso e se afastou.

– Não se preocupe. Eu sei que é assim que as coisas funcionam. Sou seu irmão mais novo. – O pequeno deus da trapaça falou dissimuladamente, mas aquela era uma ferida que, a cada vez que a remexia, sempre punha-se a sangrar novamente.

– Não é assim que as coisas funcionam. – Thor disse. Loki olhou-o, curioso.

– “She said oh-oh-oh-oh-oh-oh, I know the sun's set to rise…” – Miranda cantava muito longe, mas Loki continuava mergulhado em suas memórias.

– Pequeno irmão. Estamos muito longe de reinar. Nosso pai é sábio, e forte. Talvez, um dia, o Trono possa ser passado a um de nós... Mas não será ao mais velho. Não necessariamente. Será ao mais merecedor. Não lembra-se das palavras de nosso pai sobre o martelo dos deuses? “Apenas carregará o Mjolnir aquele que lhe for merecedor.” – Loki pôs-se a pensar. Era improvável, mas...

“And so lying underneath those stormy skies
She'd say oh-oh-oh-oh-oh-oh
I know the sun must set to rise…”
– A voz da midgardiana não lhe incomodava, pelo contrário, parecia fluir harmoniosa pelas lembranças que lhe povoavam a mente.

– E eu não tenho dúvidas de que você será um páreo duro de se ganhar. – Thor desarmou Loki, antes que pudesse fugir, e mais uma vez bagunçou seus cabelos, fazendo o pequeno deus da trapaça rir. – Além de tudo, irmãozinho... – Thor disse carinhosamente, e Loki afastou-se e olhou novamente em seus olhos azuis.

– ...Nada nos separará, jamais. Você e eu somos irmãos. Nosso laço é muito forte, e jamais será desfeito. Independentemente de posições de governo. Você é minha família. E eu, a sua. Somos iguais, você e eu. – Thor lhe sorriu genuinamente, e Loki sentiu certo calor subir ao peito.

“This could be para-para-paradise, para-para-paradise, para-para-paradise...” – Loki sabia, finalmente, porque aquela música lhe lembrava tanto aquela cena. Ou porque mexera consigo, em seu íntimo.

“Somos iguais, você e eu.” Foram essas as palavras mais doces que Thor já lhe dissera, e também as mais acalentadoras, afugentando sua inveja e cobiça... Ao menos por um tempo.

– Isso poderia ser o paraíso, irmãozinho. – O jovem Thor disse, anos e anos atrás, e Loki concordou.

“This could be para-para-paradise, para-para-paradise… This could be para-para-paradise…” – As mãos de Loki e Miranda se uniram nos acordes finais, para descerem melancolicamente, e, enfim, terminarem a música.

Ao final da canção, um silêncio quase audível permeava aquela câmara. A mão direita de Miranda havia se unido a mão direita de Loki, que a cobria, enquanto a dela descansava acima do piano. O deus levantou o rosto até ela, que o encarava cerimoniosa, como se estivesse testemunhando algo muito importante.

Loki apertou a mão da midgardiana. Em outra época, lembrar de alguma vivência assim com Thor não lhe traria nada mais do que dor e ódio, mas agora, com Miranda ao seu lado, olhando-o daquela forma...

Neste momento, em que ele descobrira que haveria alguém que aceitaria sua natureza jotun, seus planos, e até mesmo suas ambições... Que haveria alguém que se arriscaria por ele, por nenhum interesse maior além de, simplesmente, estar com ele, o deus da trapaça, o deus do logro e da mentira.

Alguém que vira sua verdadeira face, seu lado negro, e ainda assim não o rejeitara. Que não tinha nada a ganhar estando ao seu lado, e tudo a perder.

Que lhe encantava como ninguém jamais o fizera, que era dele, e somente dele. Sua ninfa midgardiana...

...Sua Miranda.

– Isto poderia ser o paraíso... – Loki sussurrou aos ouvidos de Miranda, e, quando a encarou novamente, viu lágrimas formarem-se no canto de seus olhos. A midgardiana retirou sua mão com violência do piano, fazendo as teclas soltarem uma nota estridente quando a mão de Loki caiu pesada acima delas, e, em seguida, enlaçou-o urgentemente com os braços, abraçando-o com seu corpo, membros... Alma.

Beijaram-se ardentemente, por minutos, talvez horas, o tempo era relativo naquele instante. Ao se soltarem novamente, Loki levou seu dedo indicador azul ao canto dos olhos de Miranda, e limpou suas lágrimas. Ela soltou uma risada aguda, que parecia vir do fundo de seu ser. Loki entendia o que ela sentia, mas não poderia deixar de perguntar-lhe. Puxou Miranda para seu colo, que continuou enlaçando-o pelo pescoço, enquanto ele a mantinha pela cintura. Seus rostos se tocavam, e Loki fechou os olhos ao perguntar.

– Por que está triste, minha bela? – Ele não havia escolhido as palavras. Apenas saíram-lhe sem que pudesse controlar-se.

Miranda tremeu levemente, e ele a apertou com mais força contra si. Miranda desviou o rosto, e Loki mais uma vez levou suas mãos ao seu queixo, para fazê-la olhar para si. Olhos cor de mel mergulharam em olhos vermelhos, e ele sabia que ela se sentia tão desarmada quanto ele.

– Porque... Porque... – Ela engoliu em seco, e Loki temia o que viria. Julgou saber, imaginar, e desejava ferrenhamente ouvir. Mas, ao mesmo tempo, temia mais do que tudo.

– Porque eu te... – Miranda começou, mas um estrondo altíssimo atrás deles, fez Loki levantar a guarda, levando Miranda consigo em seu colo. Ela gritou enquanto ele pulava em outra direção, e escondeu o rosto em seu peito.

Uma pequena explosão havia ocorrido no meio daquela sala. Loki ouviu as trancas de cada uma das portas que permitiam o acesso aquele lugar trancarem-se com um barulho metálico, e olhou desafiador em direção aquilo que os ameaçava.

Em meio a uma densa névoa branca, ele viu cabelos negros, um contorno de estatura baixa, e longas vestes.

Miranda levantou o rosto, e seus olhos cor de mel arregalaram-se em espanto.

– Leah? – A voz da midgardiana parecia incrédula, e aquela que os acompanhava saíra da névoa, e estava plenamente visível.

– Venham comigo. Não há tempo a perder. – Loki encarou os olhos verde-esmeralda da menina que o fitava com uma expressão ferida, como se algo que ele estivesse fazendo a machucasse profundamente.

O deus da trapaça engoliu em seco, e, finalmente, depois de tanto tempo, permitiu-se, por um átimo de segundo, sentir medo. Sabia que seus planos foram traçados com maestria, mas era chegado o momento mais arriscado, que definiria o sucesso ou a ruína dele... E de Miranda.

Era chegada a hora de encontrar Hela, a deusa da morte.

Notas finais
Reviews, hein, meus amorecos? :D