Journey Into Trickery
13 Somewhere Only We Know - Parte Três
Notas iniciais
Enfim, espero que gostem! Miranda descobre bastante sobre o passado de Loki, conhece a deusa Freya e uma curiosa serva, que poderá - ou não - ser uma interessante aliada! Para saber mais, só lendo o capítulo mesmo! E eu garanto que quem ler a última parte terá uma surpresa muito fofa, coberta de mel com açúcar para nossa história!
Só peço que deixem reviews em cada capítulo para que eu possa saber o que acharam, considerando que achei um tempinho para escrever apesar do trabalho e dificuldades em geral! :D
Beijos e boa leitura!
Edit.: olhem as notas finais, o link com a imagem de como imagino a personagem mencionada não funcionou, então postei assim.
Tudo bem. Estou perdida.
Miranda respirou fundo para se acalmar. No fundo, desde o início, tinha certa certeza intuitiva de que aquela ideia estava fadada ao fracasso.
Decidira caminhar no meio da madrugada, iluminada por um lampião a luz de velas conjurado a partir de um tronco de árvore, para tentar conhecer Vanaheim, e, quem sabe, encontrar a morada de Freya, Folkvang, ou a “van folk” como preferia pensar. Entretanto, apesar de estar em meio a deuses e seres místicos, eles aparentemente dormiam e tinham hábitos similares aos dos midgardianos. Como comer, dormir e fazer sexo.
Miranda rangeu os dentes de raiva, sentindo-se idiota pela impulsividade que a levara até ali, e também arrependida previamente por tudo que a esperava. Sabia que quando encontrasse o deus da trapaça novamente, teria de ouvir poucas e boas, no mínimo, e aturar o temperamento irascível do deus com quem já estava familiarizada. Estava tudo ficando bem de novo... Miranda revirou os olhos, e se controlou. Não. Não posso fraquejar. Não posso aceitar ser usada. Inevitavelmente, a memória de Loki lhe jurando que nada lhe aconteceria, e os belos ardentes momentos que viveram algumas horas atrás se desenharam com clareza na sua mente, logo depois de seu último pensamento. Merda. Merda.
Ela sabia que, se voltasse agora, se sentiria duplamente fracassada. Primeiro porque trairia a si mesma, pois sabia que deveria descobrir algumas coisas por si mesma, e segundo por ter se arriscado a tanto para sair de mãos vazias. Insistiu na caminhada em meio a uma floresta densa, sem saber para onde se dirigia, quebrando galhos secos e pisando pela terra levemente molhada, encostando-se a troncos frondosos de árvores de cumes altíssimos. O lado bom de ter essa magia de alquimia é que nunca mais vou gastar grana com roupa. Miranda pensou sabiamente, ao retirar seu vestido branco de um galho afiado, agora manchado de lama e sujo de musgo em algumas partes, em seguida rasgado na bainha das saias, de onde fora puxado do galho. Alguma coisa eu tenho que descobrir. Nem que seja uma taverna para encher a cara e voltar com coragem para aturar o “boss”. Um papo com os hobbits e quem sabe eu encontro o Bilbo para me emprestar o Um Anel e ficar invisível, se nesse plano ele não foi destruído ainda... Nunca mais teria que aturar DR com o inglesinho outra vez, bastava colocá-lo no dedo e...
Os pensamentos de Miranda foram subitamente substituídos por uma sensação inebriante de adrenalina e perigo. Seus ouvidos pareciam ouvir três vezes mais do que o habitual, apurados, como um felino que move as orelhas para escutar melhor os ruídos do ambiente hostil em que se encontra. Entretanto, o cenário que se delineava a sua frente não era nada assustador; Miranda sentia-se abandonada em meio a uma paisagem digna de contos de fadas, um ambiente celta, como se a qualquer momento uma fada ou algum outro ser do gênero, tão etéreo e encantador quanto, pudesse surgir em meio às árvores ancestrais, tocando seu alaúde e cantando com uma voz cristalina.
E isso era o mais estranho; tal imagem não lhe veio a mente à toa. Miranda podia jurar que, por um átimo de segundo, ouvira uma voz feminina, aguda e incrivelmente afinada, cantar vinda de algum lugar ali perto.
Mas não havia ninguém ao seu redor.
Ela olhou nervosamente de um lado para o outro, mas não viu nada além das árvores e da imensidão verde e escura em que se perdia, apesar da luz da lua cheia que iluminava aquela floresta. Apesar do noturno cenário idílico, Miranda começou a estranhar a falta de sons de animais, ou de ruídos noturnos normais. Geralmente as noites nas florestas não são silenciosas, com os barulhos, cantos e sons diversos produzidos pelos animais que saem à noite. Havia algo de muito estranho ali, e ela podia sentir no sangue, como se soprasse por dentro dela, junto ao vento que alcançava as folhagens das copas das altas árvores, mas até ele também era quieto, sem permitir-se fazer ruído algum
O lampião bruxuleava misteriosamente em suas mãos, e finalmente Miranda passou a sentir medo. Tinha a sensação horrivelmente desagradável de estar sendo observada. E, intuitivamente, sabia que não conseguiria ver o observador, a menos que ele assim o quisesse.
Pense. Miranda fechou os olhos e respirou fundo, tentando se acalmar, tendo a maldita sensação de que estava completamente a sós em um lugar estranho, do qual não tinha conhecimento algum a respeito. Pense. Sua mão que segurava o lampião começou a tremer, e um arrepio de terror subiu pela sua espinha dorsal. Uma sensação horrível e intuitiva lhe dizia, internamente, que quanto mais medo tivesse, mais seu observador se decidiria a não recebê-la bem.
Subitamente, Miranda ouviu claramente a voz de Loki, como se estivesse ao seu lado.
“Vivem para contemplar a natureza e trabalhar com a agricultura, camponeses tolos e acéfalos, muitos sem magia e sem conhecimento algum além do que se limita a sua vida alienada voltada para o cultivo da terra...”
A voz soberba de Loki parecia falar aos ouvidos de Miranda, que franziu o cenho, escutando com atenção.
“Vanaheim é a terra dos vanir. Encontra-se no mesmo nível de Asgard, ou seja, é um dos reinos mais elevados da existência.”
Ela sentia as batidas de seu coração acalmar-se aos poucos, e sentiu que precisava fechar os olhos para concentrar-se melhor. Assim o fez.
“Em Vanaheim, o único templo nobre existente é Folkvang, o palácio de Freya, irmã de Frey. Alguns anos atrás, Thor e eu visitamos o local por ordens de Odin. Ela é a deusa mãe da dinastia de vanir.”
Miranda sentiu-se suspirar, como se estivesse pouco a pouco relaxando. Sabia que o que estava fazendo era uma espécie de feitiço, percebia seus poucos pelos eriçarem-se e um calor familiar, decorrente da magia fluindo pelo seu sangue, soprada como uma suave brisa morna, se espalhar pelo seu corpo, tornando-a mais do que uma midgardiana. Loki a treinara tão bem que intuitivamente realizava magia, sem precisar mais de suas instruções por todo o tempo.
Ainda manteve seus olhos fechados. Em pouco tempo, lembrou-se do que lhe deu a resposta que procurava.
Miranda viu como se estivesse assistindo a alguma espécie de filme danificado, de olhos fechados, a lembrança de quando lera, há muito tempo, o capítulo sobre os vanires no livro de mitologia nórdica que Darcy lhe trouxera tempos atrás. As cores da memória eram um tanto borradas, mas ela entendia o que se passava. Não dera muita atenção ao capítulo do livro em que estava naquele momento, lendo-o de má vontade enquanto implicava com o deus da trapaça por algum motivo desimportante, entre o frustrada por saber que ele deixaria Midgard e o divertida em vê-lo irritar-se com suas provocações.
A Miranda de agora, porém, não se focava na imagem de Loki irritado, mas sim no livro que tinha em seu colo, naquele fragmento do passado, e nas palavras ali contidas. Dizia o tomo:
“Freya é a deusa mãe da dinastia de Vanir na mitologia nórdica. Filha de Njord e Skadi, e irmã de Frey, ela é a deusa do sexo, da sensualidade, da fertilidade, do amor, da beleza, da atração, da luxúria, das flores e da música.”
Deusa da música... Miranda abriu devagar os olhos, enquanto a imagem que antes vira pouco a pouco se desvanecia como uma flama apagada pelo vento. Sabia o que fazer.
– I walked across an empty land… — Miranda começou, e ela sentiu como se alguém ali perto houvesse prendido a respiração. Eu não canto muito bem, mas isso vai servir, espero.
– …I knew the pathway like the back of my hand. – Ela continuou, caminhando a frente, devagar, cautelosa, seus grandes olhos cor de mel atentos, mas agora não mais assustados.
I felt the earth beneath my feet, sat by the river and it made me complete… – Miranda passou a ouvir um rumorejo de águas correntes não muito longe dali.
– Oh! Simple thing where have you gone, I'm getting old and I need something to rely on – a jovem moça ia passo a passo a frente, reunindo coragem, sabendo que era aquilo o que deveria fazer.
– So tell me when you're gonna let me in, I'm getting tired and I need somewhere to begin… – Miranda parou de cantar ao ouvir uma voz doce soltar uma curta e jovial risada, e ela podia jurar que sentiu as árvores balançarem-se levemente, como se não aprovassem a interrupção da música cantada.
– Mas que bela canção para ser escolhida. Eu entendi a brincadeira. – Miranda não via ninguém, mas ouviu o som de estalos, de palmas graciosas sendo batidas com leveza. – “Diga-me quando me deixará entrar...” Você sabe bem onde está não sabe? Quase nos assustou, jovem ninfa. – A voz feminina parecia rir contente e divertida.
– Sei? – Miranda disse atônita, com sinceridade, voltando o rosto de um lado para o outro e, por fim, encarando uma árvore com galhos baixos e musgo subindo-lhe por todo o tronco. Sei. Eu acho... Em seguida, virou-se diretamente para trás, e assustou quem a seguia.
– Ah! Que pena. Estava me divertindo ao me esconder. – Uma jovem mulher, de pele alva como mármore, usando vestes soltas e sensuais, parecendo feitas de seda, repletas de transparências, deixando um enorme decote à mostra e seios fartos e empinados por baixo, ria-se como uma criança que acabara de fazer uma genial travessura. Tinha olhos azuis escuros, como o céu estrelado daquela noite de lua plena, e cabelos loiros tão amarelos que, mesmo à meia-luz do luar, pareciam claros e cheios de vida.
Uma jovem mulher, de pele alva como mármore, usando vestes soltas e sensuais, parecendo feitas de seda, repletas de transparências, deixando um enorme decote à mostra e seios fartos e empinados por baixo, ria-se como uma criança que acabara de fazer uma genial travessura. Tinha olhos azuis escuros, como o céu estrelado daquela noite de lua plena, e cabelos loiros tão amarelos que, mesmo à meia-luz do luar, pareciam claros e cheios de vida.
– E você seria... – Miranda já estava quase habituada ao surgimento de seres imprevisíveis a partir do nada, de tanto que aquilo acontecia naquela espécie de viagem.
– Uma ninfa. Como você. Não é claro? – A jovem loira mulher arregalou os olhos azuis e, em seguida, fez uma careta, rindo de se acabar depois. Que ótimo. A outra, que parece uma criança, se comporta que nem uma velha rabugenta. Agora me aparece uma gostosa patricinha que age como se estivesse no jardim de infância. Não é à toa que o inglesinho é maluco daquele jeito, acho que nenhum deles bate bem.
– Er, como eu? Ah, é claro, uma ninfa, como não percebi antes. – Miranda deu um sorriso sarcástico, e a moça lhe sorriu docemente em resposta. Mais uma imune ao sarcamo. Estou começando a sentir saudades da Leah.
– Espera. – A moça loira se aproximou e tocou um dos ombros desnudos de Miranda, que afastou-se dela, cautelosa. Em seguida, um brilho cinza-prateado perpassou os olhos azuis da bela loira, e Miranda teve um mau pressentimento.
– Você não sabe quem eu sou. Não mesmo. – A infantil mulher franziu as sobrancelhas, como se estivesse subitamente preocupada. – Mas... Mas você pediu para entrar. – Em seguida, o rosto da suposta ninfa assumiu uma aparência perigosa, como um felino selvagem.
– Pedi? – Miranda tentou entrar no jogo, esfregando as mãos, ansiosa. Depois, bateu-as em uma palma, tendo um lapso de brilhantismo. Miranda semicerrou os olhos cor de mel, respirando fundo, e sorriu seu sorriso largo, tentando soar encantadora.
– É claro que pedi. Preciso chegar a Folkvang. Preciso ter com Freya. Estamos em Vanaheim, e sei que ela é a deusa mãe da dinastia dos Vanir. – Ela abriu devagar os olhos cor de mel, deixando sua cabeça pender para o lado direito, tentando aparentar amabilidade, mostrando-se inofensiva e tão doce quanto à loira.
– Sabe mesmo? – A suposta ninfa ainda parecia desconfiada. – Tudo bem, sei como tirar a prova.
Miranda reagiu muito rápido. A jovem ninfa tentara avançar para cima dela, aparentemente buscando tocar sua mão esquerda. Assim que a mão dela se aproximou, Miranda virou seu corpo com uma velocidade incrível, reagindo instintivamente, derrubando a moça loira no chão, imobilizando-a pelos pulsos.
Em segundos, as duas estavam cara a cara, respirando fundo. A loira parecia assustada e acuada, olhando-a com assombro. Miranda sentiu-se poderosa com o medo dela, uma sensação ao mesmo tempo agradável e um tanto estranha, como se não pudesse lhe trazer algo bom. Como... Uma espécie de vício.
Tão rápido quanto da outra vez, os olhos azuis da moça tornaram a apresentar o mesmo brilho de prata, e ela respirou fundo, soltando um alto suspiro, relaxando seu corpo retesado em baixo do de Miranda.
– Ainda bem. Você falou a verdade. Não estamos acostumados a lutar, aqui. Seria um tanto difícil para mim. – A loira sorriu-lhe com candura, e Miranda não soube como reagir. Soltou os punhos da moça embaixo dela, e, antes que pudesse reagir, a moça a empurrou para o lado, e se pôs em cima dela.
– Mas você agiu com selvageria! Está na hora de receber sua punição! – A loira falava de maneira um tanto infantil, o que não combinava em nada com sua aparência adulta e seus trajes e corpo sensuais. Miranda encarou-a sem entender, fazendo uma careta de desgosto, enquanto a jovem moça impiedosamente pôs-se a fazer-lhe cócegas como se tivessem muita intimidade. A contragosto, Miranda riu pelo seu corpo que traía o que sentia no momento, sentindo-se muito constrangida.
Ah, Loki. Agora eu sei o que você sentiu. Miranda riu sem parar até que a loira decidiu o fim do castigo, e terminou de fazer-lhe cócegas.
A ninfa parou de rir, e apenas sorriu para Miranda, levantando-se e permitindo que a midgardiana também se levantasse. Ela assim o fez, com cuidado, mantendo-se cautelosa para futuros “ataques” da ‘criança de seios grandes’. O quanto eu riria do inglesinho tendo que lidar com uma dessas. A imagem de Loki sendo torturado com a infantilidade da moça a sua frente divertiu Miranda por segundos, mas depois a deixou doente de ciúmes, pensando que o deus também poderia arranjar uma maneira de ‘se divertir’ com a bela ‘criança’.
– Está se sentindo bem? – A jovem loira perguntou, pendendo por sua vez sua cabeça para um lado. – Fiz algo que a desagradou? – Agora, a ninfa parecia realmente preocupada. Seus lábios tremeram e ela parecia prestes a chorar.
Por Odin, que porra é essa? Caí no mundo das princesas da Disney de verdade?
– Não! – Miranda se adiantou, juntando as palmas da mão e sentindo-se impaciente. – Na verdade, sim. – Ao fim desta frase, a loira fechou as mãos em punho e fez uma careta de choro.
– Não, por favor, não chore! – Miranda pediu, sacudindo as mãos abertas. – Não foi isso que eu quis dizer. É apenas que... Não estou acostumada com tanta intimidade com estranhos. – A moça midgardiana disse, sentindo-se mais calma e controlada. É a sua melhor chance. Entre no jogo dela. Saque qual é a dela.
– O que são estranhos? – A loira perguntou, sorrindo docemente outra vez.
Miranda levou a palma da mão ao rosto, respirando fundo. Ainda bem que o inglesinho não está vendo isto. Estaria se cagando de rir da minha cara. Agora eu te entendo, Loki.
– Estranhos são... Pessoas... Quero dizer, entidades, deuses... — A moça parecia não ter compreendido ainda. – Vanires? Aesires? Que ainda não conhecemos. – Miranda forçou um sorriso, e a loira abriu a boca em um gesto de compreensão.
– Ah sim! Mas eu conheço todos os vanires. – A suposta ninfa disse, como se fosse motivo de orgulho.
– Isso é ótimo! – Miranda incentivou debochadamente, levantando um polegar em um gesto de aprovação, mas a loira pareceu não ter percebido o sarcasmo novamente. Preciso adaptar meus conceitos a estes lugares... – E é por isso que você não sabe quem eu sou. E, espero, foi por isso que me seguiu e não quis se revelar desde o início? – Miranda perguntou, levantando uma sobrancelha, soltando a pergunta com cuidado.
– Sim. Eu senti uma espécie de aura aesir em você. – A doce loira sorriu. – Mas fiquei calma ao descobrir que não sabe quem eu sou por não ser de Vanaheim, e que sabe mesmo um tanto sobre Freya. O mesmo que é ensinado aos aesires. – A loira parecia colocar um discreto tom esnobe quando se referia aos aesires, mas Miranda decidiu não dar muita importância para tanto.
– Eu sou Hale. Sou uma filha bastarda de Balder, e trabalho como ninfa no castelo de Asgard. Não pretendo causar discórdia alguma, apenas conversar com Freya. – Miranda tentou imitar os sorrisos da loira, e ela pareceu ter sido convencida.
– Meu nome é Elaine. Fui nomeada por Freya a deusa-ninfa virgem da beleza e dos encantos da natureza. – Ela fez uma reverência polida para Miranda, que a imitou prontamente.
Virgem. Tá explicado. Miranda mordeu os lábios em um sorriso de deboche que saiu despercebido para a ninfa loira.
– Elaine, você acha que Freya gostaria de me ver? – A jovem midgardiana perguntou com humildade, e a ninfa manteve o aspecto cortês.
– É claro que sim. É noite de lua cheia e estamos festejando os prazeres e a contemplação da natureza. Você sabe canções e é bela, e Freya ama o que é belo, e também a música. Não vejo razões para que não seja bem-vinda. – O sorriso da loira era tão brilhante e belo quanto seu corpo jovem e convidativo.
Se soubesse a DR que quero ter com a sua patroa, talvez não dissesse o mesmo.
– Então... Se não se incomodar... Poderia me mostrar o caminho? – Miranda perguntou devagar, e a loira confirmou com acenos animados de cabeça.
– Venha comigo! – Elaine deu uma das mãos para Miranda, que, sem opção, a segurou, e seguiu-a para dentro da floresta escura.
– Se quiser encontrar Freya, basta seguir seus sentidos. Onde for belo, onde houver música, onde for fértil... – A loira dizia como se cantarolasse, e Miranda não se aguentou.
– ...Onde houver sexo. – Ela engoliu em seco ao soltar a frase, e sentiu-se irritada ao perceber que só o dissera por uma estúpida sensação de posse. Maldito inglesinho de merda.
A loira parou de caminhar, e soltou a mão de Miranda. Virou-se para ela, e a jovem midgardiana já tinha se preparado para o pior, quando viu que o rosto da moça estava completamente divertido, como se Miranda tivesse proposto uma travessura engraçadíssima.
– É verdade... – A jovem ninfa sussurrou, concordando, e caiu na gargalhada. Finalmente, parecera adulta, e Miranda compartilhou de seus risos sinceros. Quando terminaram o acesso de riso, a loira continuou. – Mas não há nada de errado nisso. – Disse, piscando longamente.
– Sem dúvidas. Só há bem nisso. – Miranda sorriu languidamente, e a ninfa pareceu interessada.
– Você não é uma ninfa virgem? – Ela perguntou inocentemente, enquanto voltavam a caminhar, e, dessa vez, Miranda conseguiu distraí-la, impedindo-a que tocasse sua mão. Havia percebido que havia uma correlação entre o toque e o brilho prateado que ela apresentava no olhar, e pensou que aquilo era algo que talvez fosse melhor se pudesse evitar.
Miranda revirou os olhos e fez uma careta. – Virgem? Pfff. É claro que não. Há muito tempo... – Ela riu como se a pergunta de Elaine fosse ridícula, e a moça pareceu ofendida.
– Não precisa ser rude, Hale. – A loira apressou o passo, evitando Miranda.
– Eu sinto muito. – Miranda parou de rir e fez uma expressão contrita. – Desculpe-me. É verdade, não tem graça nenhuma nisso. – Ela engoliu o riso, e tentou consertar a situação.
– Foi com o seu noivo? – Elaine perguntou, interessada, seus olhos azuis escuros brilhando a meia-luz.
– M-meu noivo? – Miranda gaguejou, e Elaine outra vez riu.
– Você não se sente constrangida ao falar de sexo, mas suas faces ficaram vermelhas quando mencionei seu noivo. – Ela riu ainda mais. – Sim. Seu noivo. Quando toquei sua mão, adivinhei partes de seu passado. Um dos dons que Freya me ensinou. – Elaine ainda sorria, divertida.
É bom que Freya não toque em mim nenhuma vez. Miranda pensou, alarmada, percebendo que seu raciocínio fora correto. – É... Foi com ele. – Ela tentou parecer desinteressada.
– Você está mentindo... – Elaine riu gostosamente, e Miranda ficou preocupada, temendo o que poderia ter adivinhado. Entretanto, se a moça tivesse visto algo mais perigoso, não estaria agindo de maneira tão receptiva. Os vanires eram pacíficos, e ela pareceu temerosa quando Miranda reagiu agressivamente.
– Eu sei que você teve vários homens. Eu vi alguns. Não tem problema. A nossa própria Freya acha bom ter vários parceiros... – Elaine suspirou, e olhou para a copa das árvores, suspirando suavemente. – Eu, entretanto, quero ter apenas um. Mas não sei como fazê-lo me notar. – A ninfa baixou os olhos, tristemente.
– Você só pode estar brincando. – Miranda disse, chocada, ainda seguindo a ninfa que caminhava suavemente pela grama da floresta. Ela age dessa maneira espalhafatosa e espaçosa e tem alguém que não a notou ainda?!
– Eu sei, todas dizem que é melhor ter mais experiência, mas eu queria tanto que fosse com ele... – A ninfa virgem dizia, franzindo as sobrancelhas, chateada, sem compreender ao que Miranda se referira.
– Não é isso! – A jovem midgardiana disse, mexendo as mãos desajeitadamente. A loira mexeu a cabeça para o lado, sem compreender. – Quero dizer, você é muito bonita, e tem um corpão, como algum homem não ficaria mexido com esse vestido de seda cor de rosa e transparente?
– Alguns ficam, é verdade. – Elaine riu, e diminuiu o passo. Miranda percebeu que estavam próximas do destino a que se dirigiam. – Mas não ele. Ele é tão distante... Passa os dias tocando seu alaúde, e que melodia maravilhosa que seus dedos criam, ah... – A loira parecia se derreter como uma melosa protagonista de um romance de jornaleiro.
Miranda fez uma careta de repúdio antes que a ninfa virasse para ela, no que voltou a sua expressão forçadamente simpática habitual. – Tem alguma sugestão, considerando que é tão experiente? – A loira perguntou inocentemente.
Sabe, algumas mulheres considerariam isso ofensivo. – Crie uma letra para a música que ele costuma tocar. – Miranda supôs.
– Não tenho tamanha criatividade. – A ninfa franziu as sobrancelhas, mordendo os lábios, se esforçando para pensar.
– Apareça nua para ele cantando. Impossível dar errado. – Miranda disse debochadamente, mas o rosto da loira se iluminou, como se tivesse tido uma ótima ideia.
– Excelente sugestão! Posso surpreendê-lo nua, mas... Você vai me ensinar a mais bela canção de amor dos aesires! Pelo menos a letra. E eu posso adaptá-la para a melodia que ele toca! – A loira parecia empolgadíssima, dando pulinhos de alegria e abraçando Miranda, que lhe deu curtos tapinhas nas costas, desagradada e constrangida.
– Isso, isso. – Miranda fingiu falsa empolgação, fechando uma das mãos em punho e torcendo debochadamente por ela. – Mas não sei se saberia dizer esta música... – Fingiu frustração.
– Não. Não! Você precisa me ajudar. – A moça olhou para baixo, e depois para Miranda, como se tivesse tido outro lance de genialidade. – Se você me ajudar... Fico endividada. Pode me pedir o que quiser. – Os olhos azuis da loira brilhavam suplicantes.
– O que quiser? Você jura? E você jura que não contará a ninguém, a ninguém mesmo, o que eu lhe pedir? – O sorriso de Miranda se ampliou malignamente.
– O que quiser. Eu juro. – Elaine sorriu de volta, segurando nas mãos de Miranda e proferindo o juramento inquebrável, sem imaginar a malícia da moça que a acompanhava.
***
Miranda passara a última hora ensaiando a música que Elaine quisera, em um bosque na entrada de Folkvang, que se erguia como um imponente castelo celta, de paredes cinzas-esverdeadas, repletas de cercas-vivas, que mais pareciam feitas de folhagens do que de pedras. A moça parecia finalmente confiante, e Miranda, pela quinquagésima vez, segurava-se para não rir.
Não conheço músicas aesires, e parece que muito menos ela.
– Está pronta? – Miranda encorajou a jovem mulher.
– Sem dúvidas! – A loira sorriu bravamente, e dirigiu-se até a clareira onde dissera a Miranda que seu amor platônico costumava sentar-se e tocar seu alaúde, sozinho, todas as noites, até amanhecer.
Miranda acenou um tchauzinho de longe, pensando em quanto tempo demoraria aquele “ato”, se ela fosse bem sucedida. Espero que menos do que os anos que ela aparentemente tem de vida. Não se aguentando de curiosidade, aproximou-se, esgueirando-se por entre os arbustos, apenas para ver se a empreitada daria certo ou não.
A jovem moça loira aproximava-se, nua em pelo, da clareira, no ponto oposto de onde o jovem músico sentava-se, dedilhando aquele instrumento antigo, usando roupas como de um trovador medieval. Gente, aonde eu vim parar? Miranda não pôde deixar de se perguntar. Resolveu olhar para o rosto do rapaz que tocava docemente o instrumento de cordas, e seu queixo caiu por diversos centímetros.
Ele era simplesmente lindo. Também loiro, de olhos azuis claros, barba rala, pele bronzeada e físico definido. Uau, Elaine. Agora entendi a história de esperar. Miranda segurou-se para não rir. Mas foi impossível aguentar mais, depois de meio segundo.
– “If I fell in love with you, would you promise to be true, and help me understand? Because I've been in love before, and I found that love was more, than just holdin' hands…” – A loira impingia emoção em cada sílaba, cantando com sua doce e perfeita voz feminina soprano, e Miranda não podia se segurar mais.
Elaine, uma ninfa virgem da beleza, súdita de Freya, começara a cantar “If I Fell” dos Beatles, julgando cantar a mais bela música de amor dos aesires. Miranda colocou as duas mãos na frente do rosto, rindo silenciosamente para frente e para trás, seus olhos lacrimejando com aquela cena totalmente sem noção. Bem. Talvez seja uma das mais belas músicas de amor do meu povo. Miranda apenas parou de rir ao ver a reação inegavelmente positiva do músico, que agarrara a ninfa loira com tudo, e agora Miranda teria de esticar o pescoço para continuar a ver o espetáculo.
É. Meu trabalho aqui está feito. Miranda afastou-se da cena, ainda cobrindo a boca com uma das mãos, rindo bobamente. Acho que quando bati a cabeça no motel naquele dia, meses atrás, devo ter ficado totalmente esquizofrênica.
Ela ajeitou-se apoiando-se de costas em um tronco grosso de um carvalho, relaxando os músculos e esticando as pernas. Vou deixá-la aproveitar... A dívida que terá comigo será enorme, julgando pelo aspecto do rapaz.
Miranda relaxou por alguns instantes, e teve sonhos dignos de uma ninfa sonhadora, cheia de desejos por seu deus.
No caso, o deus da trapaça.
***
Fora acordada algumas horas depois, e a primeira coisa que viu foi o rosto satisfeito de Elaine, já vestida, e o céu por trás de seus cabelos loiros, despontando mais claro, sugerindo que a madrugada estava próxima ao alvorecer.
– E então? Teve fogos de artifício? – Miranda perguntou debochadamente, bocejando.
– Foi maravilhoso! – Elaine sorria ainda mais bobamente do que antes, o que surpreendeu Miranda, que julgava que isso seria impossível. – Ande, diga-me logo, o que você quer para sanar a dívida? – Os olhos azuis escuros da ninfa brilhavam espirituosos.
– Quero algum encantamento, feitiço, poção, qualquer coisa que evite que Freya adivinhe sobre mim mais do que eu desejaria que ela adivinhasse. – Miranda disse, direta e sombriamente.
– O quê? – A princípio, a loira riu, achando que tratava-se de uma brincadeira. – Hale... Está falando sério? – Ela recuou um passo.
– Você jurou. – Miranda insistiu, seus olhos fulminando os olhos azuis de Elaine, agora assustada de verdade.
– Por isso mesmo... Hale, quem é você? – Elaine perguntou, temerosa, olhando para os lados, buscando escapar.
– Você sabe as consequências de se quebrar um juramento por magia. – A jovem midgardiana disse impetuosamente.
Elaine engoliu em seco. – Pensei que poderia confiar em você. – Ela franziu as sobrancelhas, como se fosse chorar.
– Você pôde. Consegui o que você queria. Agora é a minha vez. – Miranda manteve-se firme, e a moça assentiu. Ela fechou os olhos, e proferiu palavras sem som. Em seguida, um frasco com uma substância turquesa apareceu em sua mão estendida, e ela o entregou a Miranda.
– Beba, e depois sopre no recipiente vazio. É preciso que, a cada gole, você visualize em sua mente as imagens permissíveis a serem adivinhadas. – Elaine soluçava abertamente, sentindo-se claramente desolada por trair a confiança de sua mestra. – Esconda o frasco e o mantenha seguro. Se ele se partir enquanto conversar com Freya, ela poderá descobrir as imagens que escondeu apenas olhando em seus olhos. – Elaine afastou-se a passos firmes de Miranda, mas ela segurou seu braço.
– Escute... – Miranda sentiu-se culpada. Não era tão boa naquilo quanto Loki. – Não quero lhe fazer mal. Eu lhe juro que Freya não saberá, por minhas mãos, ao menos por hoje, que foi você a me proteger de seus poderes. – Miranda tocou as mãos da jovem ninfa, que pareceu bastante surpresa.
– Eu pensei que você tivesse me enganado. – Miranda sabia que ela sentira seu coração bater em seu peito, prova do juramento feito.
– E enganei. De certa forma. Não confie em pessoas como eu. Tudo o que falamos é mentira. – Miranda falou tristemente.
– Mas você me ajudou também... Deve haver algo de bom em você. Algo que seu noivo viu. – Miranda sentiu seu rosto ruborizar completamente a menção de Loki como seu ‘noivo’, e Elaine sorriu, parecendo mais tranquila.
– Ali é a entrada de Folkvang. – A loira apontou para uma passagem bela, uma espécie de portal em meio às cercas-vivas, abrindo-se abertamente em meio aos portões do castelo.
Miranda despediu-se de Elaine, que desejou-lhe boa sorte, agora um tanto mais calma.
– Você realmente o ama muito. – A ninfa disse, e a companheira do deus da trapaça sentiu lágrimas subirem-lhe aos olhos, que limpou rapidamente, mas não tão rápido a ponto de Elaine não perceber. A doce loira lhe sorriu tristemente, e Miranda perguntou-se se, em verdade, a ninfa seria tola ou talvez mais sábia do que Miranda se permitia ser.
Notas finais
Elaine: http://2.bp.blogspot.com/-8QHCPrhcQRk/UM7_SUPAR8I/AAAAAAAAHFw/dq1FqRdybV0/s1600/actress%2BEvan%2BRachel%2BWood.jpg
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