Journey Into Trickery
14 Somewhere Only We Know - Parte Final
Notas iniciais
Mais uma vez editando, aviso que deu problema no link para colocar imagens sobre como seria a Freya, então postei-as nas notas ali embaixo. Quem tiver ficado curioso, olhe! Pode até comentar dizendo se imaginou parecida.
Beijos e boa leitura!
I walked across an empty land
I knew the pathway like the back of my hand
I felt the earth beneath my feet
Sat by the river and it made me complete
Oh simple thing where have you gone
I'm getting old and I need something to rely on
So tell me when you're gonna let me in
I'm getting tired and I need somewhere to begin
I came across a fallen tree
I felt the branches of it looking at me
Is this the place we used to love?
Is this the place that I've been dreaming of?
Oh simple thing where have you gone
I'm getting old and I need something to rely on
So tell me when you're gonna let me in
I'm getting tired and I need somewhere to begin
And if you have a minute why don't we go
Talk about it somewhere only we know?
This could be the end of everything
So why don't we go
Somewhere only we know?
(break)
Oh simple thing where have you gone
I'm getting old and I need something to rely on
So tell me when you're gonna let me in
I'm getting tired and I need somewhere to begin
And if you have a minute why don't we go
Talk about it somewhere only we know?
This could be the end of everything
So why don't we go
Somewhere only we know?
(instrumental)
This could be the end of everything
So why don't we go
Somewhere only we know?
Keane — Somewhere Only We Know
Miranda finalmente cruzara a entrada de Folkvang, a morada de Freya, e sentia o coração de Elaine bater ritmadamente em seu peito, do lado direito, enquanto seu verdadeiro coração batia acelerado.
As palavras da doce ninfa havia mexido com ela. Por que Miranda estava fazendo tudo aquilo? Chantageando, mentindo, enganando... De fato, não era algo que lhe fosse realmente estranho, considerando a vida pregressa que havia tido. Mas, o que mais a perturbava não eram suas ações... E sim o motivo delas.
Seria Loki tão importante para ela, de tal forma que precisaria fazer tudo aquilo? Descobrir seu passado, entender quem foi, quem é...
...Quem será, ao lado dela.
Miranda sentiu as lágrimas subirem-lhe novamente, e as limpou contra as costas do punho esquerdo. Em seguida, foi surpreendida com outra voz que ria-se abertamente como Elaine, mas muito superior em beleza, na afinação e no cristalino tom agradável de sua voz, de forma que as melhores cantoras de Midgard não poderiam sequer imaginar.
– Minhas amigas, meus amigos, vamos saudar um novo nascer do sol! – A linda e inebriante voz cantou outra vez, e Miranda sentiu-se quase que enfeitiçada. Havia magia naquilo, além de beleza, e ela precisou apenas de um olhar para ver e comprovar quem era a dona daquele incomparável gorjeio.
Ruiva, com o rosto jovial e sorridente, de aparência amável e corpo sinuoso, repleto de curvas – e sem nenhuma celulite, como poderia ser possível – erguia-se, de uma fonte construída quase que naturalmente dentro de um grande rio, Freya, a deusa da beleza, da fertilidade, do amor, da atração, da luxúria, das flores, da música e da adivinhação, completamente nua, exibindo volúpia e magnetismo em cada traço de seus belos corpo e rosto.
Enquanto escorria seus cabelos e era vestida por suas aias, Miranda reparou embasbacada na aparência atrativa da deusa. De pele alva, tinha olhos verdes-acinzentados, que brilhavam alegres com qualquer vestígio de luz que se pusesse sobre eles. Não tinha uma estatura alta, sendo alguns centímetros mais baixa do que Miranda, e, apesar dos traços que provavelmente alguma midgardiana poderia ter, com covinhas no queixo, sardas e outras características típicas, tinha uma firmeza corporal que parecia ser de uma qualidade praticamente sobrenatural, e um magnetismo que Miranda tinha certeza, nenhuma outra mulher em Midgard teria igual. Nem mesmo nos Reinos de Yggdrasil, nos quais havia Hela, a deusa da morte, ainda mais bela em traços físicos do que Freya, mas não tendo nem mesmo um centésimo do carisma e do charme sensual e, simultaneamente, adorável da deusa da beleza. Miranda podia ver cada um dos olhares masculinos parecendo perdidos na figura da deusa, que lhes soprava beijos cândidos, e sorria-lhes, parecendo inocente e cheia de prazer, simultaneamente.
Acho que eu vou vomitar. Entretanto, se era por conta de tamanha perfeição que chocava os olhos, ou da inveja que lhe revirava o estômago, Miranda não saberia dizer.
Ela é a mistura do estereótipo de Lolita com Femme Fatale. E deu certo. Miranda ainda piscava os olhos, sem compreender, e, aos poucos, reparou que estava chamando a atenção. Olhares curiosos se dirigiam a ela e a seu vestido, que não combinava com as sedas transparentes que todos usavam, inclusive os homens. Foi uma questão de tempo até que a deusa do amor reparasse na forasteira ali presente.
Freya fez um gesto teatral que lhe pareceu completamente natural, quando seus adoráveis olhos verde-acinzentados depositaram-se em Miranda. Levou uma das mãos a boca, como se estivesse chocada, e depois sorriu-lhe largamente. A jovem mulher podia jurar que cada homem presente suspirou ao ver o sorriso da deusa da beleza.
– Meus queridos... Temos uma visitante! – Freya fez um gesto com os braços abertos, como se incentivasse seus servos e companheiros a se aproximarem de Miranda, trazendo-a para mais perto. – Vamos recebê-la como se deve em Folkvang! Quanto mais companheiros, maior é a alegria! Vamos ajudá-la a provar da hospitalidade de Vanaheim, o Reino mais belo, mais amado e mais próspero de todos os Nove! – Freya bateu palmas, incentivando a todos, que levantaram Miranda do chão, levando-a até a presença da deusa da beleza.
Fui parar em um programa de auditório? Miranda se perguntou incrédula, enquanto a deixavam na frente de Freya, que tinha um trono de madeira feito de forma a parecer várias flores se erguendo e desabrochando, inclusive decorado em seus braços com inúmeras flores do campo, de cores diversas.
A deusa do amor desceu os degraus molhados de pedra, posto que o trono ficava em uma espécie de palco construído acima da fonte que se erguia no meio do salão, e aproximou-se de Miranda tocando-lhe o rosto. Seus olhos verdes-acinzentados tornaram-se totalmente prateados, e a jovem midgardiana agradeceu a própria inteligência, por ter conseguido uma forma de proteger-se da deusa da adivinhação.
– Esta é Hale, queridos. Uma ninfa aesir. Vamos ensiná-la as delícias da paz, do amor e das boas canções, e, quem sabe, ela nunca mais desejará voltar à triste Asgard! – Freya riu gostosamente, e todos a acompanharam. Puxa-sacos e baba-ovos de merda. Miranda pensou, venenosa, mas ela mesmo achava difícil não sorrir, tamanho o carisma e a beleza contagiantes de Freya.
Nos próximos minutos, Miranda foi bombardeada com frutas, canções, doces e hidromel do palácio de Folkvang, e cumprimentada com abraços, beijos nas faces e toques sugestivos de alguns homens, e até mulheres. Acho que não apenas a Elaine é espaçosa, isso é um mal da deusa da piriguetagem e seus seguidores. Miranda pensou, desdenhosa e hipocritamente.
Depois de muita bajulação, Freya aproximou-se da jovem moça, usando um penteado e roupas diferentes, portando um sorriso convencido no rosto. Ok. Acho que já odeio essa mulher.
– Queridos. Já foi o suficiente! Podem dedicar-se a seus afazeres, como melhor lhes aprouver, desejo ter em particular com nossa convidada, e fazê-la sentir-se ainda mais à vontade. – Freya abriu-lhe um sorriso hospitaleiro e agradável, mas Miranda continuava desconfiada.
A deusa da beleza a puxou pelo braço, e pôs-se a caminhar com ela como se fossem grandes amigas. Miranda engoliu em seco, sentindo seu estômago revirar, enquanto Freya a olhava com doçura. Isso chega a ser doentio. Miranda era a inveja em pessoa.
Enfim encontraram um banco de pedra em um jardim interno, repleto de tulipas e outras flores exóticas, no qual pássaros chilreavam de um lado para o outro. Freya riu gostosamente, e Miranda teve de se controlar para não revirar os olhos, sentando-se ao seu lado.
– É uma honra ser tão bem recebida,Vossa Graça. – Miranda sentiu-se crocitar com a graça de um corvo.
– A honra é toda minha. Vanaheim é conhecido como o Reino mais pacífico de todos, e faço questão de que continue assim, enquanto nossos visitantes tiverem boas intenções. – Ela manteve o sorriso brilhante, e Miranda se sentia tão graciosa quanto um hipopótamo, perto dela.
– Tenho as melhores. – As intenções de descobrir a verdade. Pensou.
– O que faz em nossas belas terras, adorável ninfa? – Freya parecia entusiasmadíssima com a mera ideia de saber o cotidiano de Miranda, como se nada fosse empolgá-la mais do que aquilo.
– Turismo. – Miranda sorriu, debochada, e Freya riu. Ih. Ela tem senso de humor.
– Vi que conheceu Boann. Uma senhora muito querida. – Freya apoiou o cotovelo no banco de pedra, e deixou seu queixo languidamente apoiado em uma de suas mãos, piscando delicadamente para Miranda. A jovem mulher irritava-se cada vez mais com o magnetismo inevitável da deusa da beleza, sendo incapaz de desviar os olhos de seus movimentos graciosos.
– Muito querida, de fato. Hospedou-me com todo o carinho, como Vossa Graça o faz agora. – Miranda sorriu sinceramente, pensando em Boann e nas suas atitudes doces e honestas. Havia algo de falso em Freya, não em seu agir, mas na sua doçura controlada, por mais que lhe caísse muito bem. Até a pobre idiota Elaine era, de certa forma, mais agradável.
– É um prazer para mim. – A forma com que disse aquilo soou completamente sensual, e Miranda reparou em um homem, nas portas dos jardins, voltar seu rosto interessado na direção de Freya, que lhe soprou um beijo. O rapaz saiu, satisfeito, com uma expressão abobalhada no rosto.
– Mas... Na verdade... Eu estou procurando algo. – Miranda disse, começando a pôr em prática seu papel.
– Procurando algo? – Freya pareceu levemente mais ansiosa. – Frutas, flores, beleza... Um amor? – A deusa riu gostosamente, balançando seus cabelos, e, outra vez, alguns rapazes que andavam próximos a entrada dos jardins internos pararam e fitaram a linda deusa, embasbacados.
– Na verdade... Busco uma maneira de encontrar meu caminho para casa. – Miranda disse, e sentiu uma dor no coração, pensando que, na verdade, não era nada disso o que fazia ali. Por que aquilo a incomodava?
– Está perdida, querida? – Freya pareceu comovida, e até mesmo Miranda se sentiu apreciada, à contragosto.
– De certa forma, sim. Sei como voltar para casa, mas não sei se posso fazê-lo. – Miranda deveria fingir tristeza, mas não se sentia estar de fato atuando, o que muito a perturbava.
– Não entendo, bela jovem. – Freya disse, parecendo mais atenciosa. Miranda desviou o olhar de seus olhos verde-acinzentados, e ignorou o arrepio que sentiu quando ela tocou em uma de suas mãos, para provavelmente adivinhar o que ela estava falando.
Em segundos, a memória falsa de Miranda foi adivinhada por Freya. Seus olhos ficaram outra vez totalmente prateados e ela soltou uma exclamação de choque. O salão inteiro ficou silencioso, enquanto Freya respirava profundamente para acalmar-se, e ninfas e jovens homens se aproximavam para ajudá-la, olhando Miranda com maus olhos.
– A culpa... Não é dela. Deixem-nos a sós. – Freya pôde dizer, tentando dispensar com alguma graça os que a acompanhavam.
Ao estarem novamente a sós, Freya olhou profundamente nos olhos de Miranda, franzindo o cenho, preocupada, segurando-a com delicadeza, porém firmemente, pelos ombros.
– Você traiu seu povo... Seu pai... Se envolvendo com... Com ele? – Freya não conseguia dizer seu nome, aparentemente, estando muito alarmada, e a jovem moça não pôde deixar de se sentir constrangida ao revelar tanto perto de alguém que a fazia se sentir inferior demais.
Miranda assentiu devagar, sentindo certa tristeza real lhe afligir. Não era para ser assim. Isso não é verdade. Ou seria?
A deusa da beleza suspirou longamente, parecendo amargurada e entristecida. Subitamente, a música antes alegre do salão tornou-se triste, saudosa. – Eu compreendo. Eu realmente compreendo. – Freya olhou para Miranda, com uma mistura de raiva reprimida e tristeza profunda em seus olhos verde-acinzentados.
– Vossa Graça me permite perguntar... – Miranda tentou começar, mas foi interrompida.
– Não precisa perguntar. Eu mesma vou lhe contar. – Freya ajeitou-se no banco, e tomou a mão de Miranda outra vez. – Ele a abandonou também, não foi? – Perguntou.
Não. Miranda sentiu seu peito todo aquecer-se.
– Sim. – Mentiu, mantendo a postura triste.
– Como sempre fez. Ele não ama ninguém, minha querida. – Freya meneou a cabeça, tristemente, e, dessa vez, Miranda sentiu um nó na boca do estômago.
– Eu era uma jovem deusa quando o conheci. Tinha a mesma aparência de agora, mas não a mesma sabedoria. Não é segredo para nenhum dos meus súditos e nem mais para meu marido, que me deixou, que sempre tive vários amantes. Sou a deusa da beleza, é incontrolável para mim. – Freya disse, como se afirmasse algo totalmente aceitável. Miranda concordou, ansiosa para ouvir mais.
– Veio em visita com seu irmão, a mando do Pai de Todos. Queriam fazer boa-vizinhança, conhecendo as antigas histórias de desavenças entre os aesires e os vanires. E ah, com ele, eu estava muito disposta a praticar a melhor das vizinhanças... – Freya disse com luxúria, e Miranda podia imaginar os homens do salão se sentindo afetados pelo tom incrivelmente sensual que ela impelia aquelas palavras.
– Meu marido sempre estava fora, e eu já havia me envolvido com outros deuses. Ainda amava Odur, meu esposo que tanto me fez falta, antes dele chegar. Na época, havia tido relevante envolvimento amoroso; de quatro valentes anões, ganhei Brisingamen, um símbolo de seu amor eterno por mim, depois que nos deitamos juntos, cada noite com um deles. Disseram-me que o colar continuaria tão lindo como eu, enquanto mantivesse meu espírito intocável. Qualquer ser que deitasse seu olhar sobre Brisingamen o desejaria, tanto quanto desejam a mim. Ele só poderia ser retirado de meu pescoço por minhas mãos, por minha vontade, jamais seria forçada a perdê-lo. – Freya suspirou, fazendo uma pausa.
Uau. Que apetite sem preconceitos. Miranda pensou e conteve o riso.
– Ao me conhecer, ele, você sabe, foi cheio de galanteios. Diferente de seu irmão mais velho e loiro, mais sisudo, sério e, ao mesmo tempo, bonachão. Ele não; ele comia educadamente, bebia educadamente, falava educadamente e tinha um porte digno de um Rei, digno do filho do Pai de Todos. — A falsa bastarda pensou o que ele acharia disso, se estivesse escutando.
– Com mais intimidade, vim a descobrir que tinha um senso de humor inteligente e refinado, e, em pouco tempo, todas as minhas ninfas passaram a se derreter por ele, enquanto eu tentava ignorar a atração que sentia, e manter-me doce e agradável ao mesmo tempo. Foi uma tarefa acima de meus limites, pois era como se ele soubesse; a cada gentileza minha, ele se aproximava ainda mais, investia mais, tornando-se uma tentação inevitável. Ele sempre foi tão charmoso... — A midgardiana escutava os lamentos de Freya, controlando as controversas sensações que se formavam dentro de si.
– Tentei resistir, porque sabia que seu nome significava problemas. Minhas aias e amigas tentaram evitar que ele se aproximasse, mas ele usava de sua magia e conseguia sempre me encontrar quando queria. Uma vez passou uma noite escondido, transformado na forma de um pássaro negro, esperando na minha janela para que fosse dormir. Roubou-me um beijo ardente, e me deixou queimando por dentro, quase gritando para que retornasse. Ninguém além de Odur havia me feito sentir-me assim, e eu passei a me sentir muito confusa. – Miranda sentiu seu estômago revirar mais agressivamente, e, dessa vez, temeu mesmo vomitar. Não imaginava que seria tão desagradável ouvir isso, ainda mais de alguém como ela, nada menos do que a tal deusa do sexo.
– A memória daquele beijo me atormentou por dias, e passei a desejá-lo tanto quanto desejava ser amada pelo meu povo. Esqueci de ansiar pela volta de Odur, e meus súditos, acostumados a me verem triste pelo abandono que sofri de meu marido, alegraram-se, mas não faziam ideia de como realmente me sentia por dentro. Eu trocaria o ruim pelo muito pior. – Freya suspirou ainda longamente, fechando os olhos com tristeza. A jovem moça de olhos cor de mel respirou fundo e soltou a respiração devagar, esforçando-se para ignorar a dor idêntica a punhaladas que sentia em seu coração.
– Parecia que ele sabia o que se passava comigo. A partir daquela noite, sumiu por algum tempo, o suficiente para me fazer achar que quase o havia esquecido, quando apareceu em minha cachoeira sagrada, carregando um buquê com cada uma das flores de cada região de Vanaheim, com um sorriso lindo no rosto, tão belo que eu podia jurar que me senti sem reação, indefesa aos seus encantos. – Freya soluçou, e Miranda fez coro a ela. Não conseguia mais se segurar. Tinha vontade de matá-la, mas a vontade de matar o deus a que ela se referia era ainda maior.
Freya pareceu ter pensado que chorava em solidariedade a ela, pois segurou as mãos de Miranda com mais firmeza, e ela se sentiu a vontade para descarregar sua força. A deusa da beleza apertou-a também ainda mais forte, julgando que era apenas empatia. Logo, a música dos salões tornou-se ainda mais triste, como o agudo lamento do mais belo amor perdido.
– Eu não pude resistir. Cedi aos seus encantos, e, nossa, como foi bom. Como foi maravilhoso. No início, achei que tinha encontrado alguém ainda melhor que Odur, o deus dos deuses, tamanha foi minha paixão. Ele era tão lindo, charmoso, galante, cortês, sempre sabia o que dizer, sempre sabia o que fazer para me agradar, perdi a conta de quantas vezes nos deitamos juntos, e de quantas vezes ele me levou ao pleno deleite, a mim, a deusa do sexo... — A jovem moça de cabelos castanhos sentiu sua bile subir até sua garganta.
– ...Até o dia em que me pediu Brisingamen. Eu mal pude acreditar. – Freya suspirava abertamente, e fazia movimentos claros com a mão livre para evitar que alguém se aproximasse.
– O que você fez? – Miranda disse, sussurrando, sua voz rouca e trêmula, também chorosa, sentindo-se enganada como Freya.
– O que você acha? – Freya disse, soltando um uivo de dor. Miranda podia ouvir seus súditos chorarem do lado de fora dos jardins. – Eu tentei resistir, mas ele sempre conseguiu o que queria. Sempre. – Seus ombros tremeram, enquanto ela ainda chorava amplamente. – Ele disse que queria tocar com as próprias mãos o colar que pertencia a mais linda de todas – Miranda podia jurar que ouvira seu próprio coração partir-se em inúmeros pedaços dentro de seu peito – e eu terminei permitindo. Depois que o teve, sorriu largamente, e eu lhe disse: “Eu te amo, Loki. Jura que me ama também?” Ele me olhou, devagar, riu e pulou pela janela dos meus aposentos, sumindo no meio da noite. – Freya escondeu o rosto nas mãos, depois voltando-o para Miranda, que sentia como se seu coração tivesse parado. Ela chegou a se declarar para esse babaca, se abrir completamente...
– Eu sei o que você está sentindo. – Freya disse, afirmando com o lindo rosto, agora tão triste que chegava a afetar até mesmo Miranda, que desejava nada menos do que assassiná-la. – Ele o fez com todas nós. Como se não bastasse tomar meu bem mais precioso, o deu de presente para Hela, a deusa da morte, sua amante também por todo este tempo. Parece que ela o daria algo em troca de Brisingamen, mas o encanto do colar fora perdido, e, em pouco tempo, Hela também fora abandonada a própria sorte. Loki fez muitos inimigos, e a deusa da morte é a mais perigosa de todos. A mim, ele não deixou nada, nem mesmo ódio... Somente tristeza. – Freya disse, e jamais parecera tão sincera aos olhos de Miranda.
– Eu... Posso imaginar. – Miranda sentiu compaixão por ela, naquele momento, e realmente entendeu os sentimentos da deusa da beleza. Não eram muito diferentes do que sentia no momento, e dos temores que sempre a consumiram.
– É por isso que eu descobri a melhor forma de superar isso. – Miranda duvidou que ela tivesse superado, depois de toda essa conversa. – Passei dias e dias tentando criar feitiços ou encantamentos para que Loki fosse punido, mas nada disso era da minha natureza. Minha natureza é diferente. – Freya sorriu levemente, soluçando com mais calma, limpando o pranto do rosto com doçura.
– O que fez, Vossa Graça? – Miranda perguntou, esforçando-se para continuar atenta, sentindo-se como se cada centímetro do seu corpo tivesse sido espancado, especialmente seu coração.
– Eu sou a dona de Brisingamen, então eu renovei sua magia. Loki escondeu o colar em algum lugar, e somente aquela que for sua verdadeira companheira será capaz de achá-lo, independentemente de sua vontade. E, assim que for encontrado, eu saberei quem ela é. Como até hoje não há notícias do paradeiro da minha querida joia, Loki continua sem conhecer o amor. Mas eu não permitirei que ele saia ileso, mesmo que não seja comigo que isso se realize. – Freya disse, sincera, sorrindo triste. O gesto fora tão puro e bonito que Miranda perdeu quase toda a raiva e humilhação que sentira perante ela.
– Isso é... Muito, muito bonito, Vossa Graça. – Miranda teve de admitir, sorrindo junto com ela.
– Sou a deusa da beleza, não sou? – Freya sorriu.
– Sim... Você é. – Miranda conformou-se, tristemente.
***
O dia já havia começado quando Miranda deixou Folkvang, sentindo-se ainda mais miserável do que quando decidira descobrir sobre o passado de Loki por conta própria. Muito bem. Enganou e teve a deusa da beleza e a deusa da morte em, literalmente, uma ‘tacada’. E uma midgardiana, então? Deve ser mais fácil do que tirar leite de criança, ou enganar a pobre da Elaine.
A midgardiana andava a esmo, e nem mesmo a linda paisagem verdejante de Vanaheim era capaz de consolá-la. Passou por colinas diversas, pastos e bosques férteis, mas nada daquilo era bonito. Mais do que nunca ela se sentia uma peça, um objeto, algo a ser consumido e jogado fora quando estragasse. Se ele o fizera com a deusa da beleza e com a deusa da morte, quem era Miranda comparada a essas duas? E provavelmente todas as outras mais que houve?
Decidiu sentar na areia da praia, de uma baía que descobrira após caminhar por um dos bosques. A tarde já caía, mas ela não sentia sono, nem fome, nem nada. Se sentia vazia, humilhada, inútil... Um objeto usado, velho, sem razão para simplesmente ter essência, sem motivos para existir.
Miranda ajeitou seu vestido e sentou-se na areia. Bastou finalmente parar de andar, e, como ondas que vêm cada vez mais altas e intensas, a vontade de chorar foi irrepreensível.
Chorou como uma criança, sentindo-se mais infantil e mais tola do que Elaine. E realmente o era. Elaine estava em seu lugar, e tinha sonhos devidos a uma ninfa, e inclusive já fora liberada e liberara Miranda de seu juramento. A ninfa sabia seus limites, e até onde poderia ir.
Já Miranda era uma midgardiana que fora imbecil o suficiente para cair na conversa do deus da trapaça, reconhecidamente mesquinho, egoísta, frio e sem coração. Igual a como ela se sentia, antes dele surgir e mudar todas as regras do jogo. Mudar tudo dentro dela, e deixá-la assim, sozinha, abandonada.
Miranda ainda chorava abertamente quando ouviu a voz conhecida.
– O que você pensa que está fazendo?! – Loki gritava de longe, enfurecido, sua voz sibilante como uma víbora. – Já não bastou a demonstração de estupidez de ontem ao apostar naquela velha, teve a audácia de tirar minha energia para passar o dia e madrugada vagando por Vanaheim? Eu já não esperava grandes feitos da sua limitada inteligência, mas nunca imaginaria tamanho nível de burrice – Loki esbravejava, quando finalmente alcançou Miranda, que continuava sentada, olhando para ele, seu rosto inclinado.
Sua expressão tornou-se mais branda quando reparou em seu rosto molhado de lágrimas. Loki levou os dedos aos olhos, apertando-os como se estivesse exausto, e suspirou longamente antes de fazer esforço para dizer-lhe as seguintes palavras.
– Algo de ruim aconteceu? – O deus da trapaça perguntou, tentando se controlar.
Miranda simplesmente lhe estendeu o frasco onde havia depositado suas lembranças verdadeiras. Loki olhou o frasco, e Miranda sabia que ele podia ver as imagens do que escondera de Freya, e rapidamente ele entendeu.
– Você foi a Folkvang? – A ira de Loki era crescente, uma veia estourando em sua têmpora enquanto sua voz ia ficando cada vez mais baixa e perigosa. – Você foi tão estúpida, tão desprovida de qualquer discernimento que foi capaz de visitar a morada da deusa da adivinhação? – Ele puxou o braço de Miranda, que se esquivou rapidamente, com raiva, querendo ao máximo evitar voltar a chorar.
– Você já conseguiu o que quer. Só que eu não vou te deixar jogar fora. – Miranda disse, correndo para longe dele.
Em poucos minutos o deus alcançou-a, puxando-a pelos braços e não permitindo que ela se desvencilhasse. Ela voltou-se, a contragosto, mas recusando-se a olhar para suas verdes orbes hipnotizantes.
– Por favor, me solte. – Miranda disse, quase suplicando, virando o rosto para não mais ter que olhá-lo nos olhos.
– Não posso soltá-la se vai agir como uma lunática. Mais até do que de costume. – Loki disse, debochado, e Miranda desatou a chorar novamente. Merda. Não, não. Merda...
– O que diabos aconteceu? Freya lhe enlouqueceu? – Loki falava incrédulo, mas parecia um tanto preocupado pelo tom de sua voz. Entretanto, Miranda não poderia permitir cair no mesmo jogo outra vez. Não mais.
– Eu descobri a verdade. Eu sei o que você fez. – As mãos de Loki tremeram ligeiramente, e Miranda esgueirou-se para fora de seus braços, mas o deus a puxou outra vez pela mão, recuperando-se da surpresa que o fizera tremer.
– Por favor, me deixe ir. Eu não aguento mais. – Miranda chorava silenciosamente, e Loki levantou seu rosto com uma das mãos, tentando fazê-la olhar-lhe nos olhos. Ela se recusou, olhando para o mar firmemente.
– O que você descobriu? – A voz do deus da trapaça parecia mais calma e concentrada, como se houvesse entendido tudo.
– Eu sei o que você fez. O que fez com Freya. Com Hela. Sei do Brisingamen. E sei o que pretende fazer comigo, quando eu não tiver mais utilidade. Não sei quando decidirá que essa hora chegou, mas eu sei que chegará, e eu prefiro não esperar. Prefiro ir embora enquanto você ainda não me destruiu por completo. – Miranda disse secamente, e Loki a soltou, como se ele mesmo tivesse se ferido. Ele levantou o rosto e levou os dedos aos olhos novamente, virando-se de costas para Miranda, que se afastou dele. Ela podia ouvir sua respiração pesada, profunda, como se a midgardiana tivesse lhe dado um golpe fatal. Não queria nem mesmo dizer adeus, por mais que aquilo estivesse matando-a por dentro.
Miranda virou as costas para ele e passou a caminhar pela praia. Não olharia para trás. Não podia.
A cada passo que dava, mais era difícil avançar. Era como se seu corpo não quisesse permitir o que a mente a ordenava, e, cada vez mais, as punhaladas incessantes em seu peito tornavam-se mais agudas, verdadeiramente insuportáveis.
Ela ouviu a voz dele, longe, dizer:
– E Freya lhe disse como eu nunca lhe jurei nada? – Sua voz era como fel, crua, verdadeira, ferina, e, ao mesmo tempo...
Não. Ele só quer te enganar. Só quer te enganar. São mentiras, intrigas, traições, tudo o que ele a vem envolvendo. Saia enquanto pode. Saia enquanto pode. Saia...
Miranda sentiu seus pés tropeçarem em um objeto metálico cortante. Ela baixou os olhos para o pé machucado, e seu queixo caiu em assombro. Por um segundo, não acreditou no que viu.
Um colar dourado e prateado ao mesmo tempo, brilhante como os olhos de Freya, estava parado aos pés de Miranda, em meio às areias de uma praia distante de Vanaheim. O sol já ia se pondo no horizonte marinho, e, depois de tantas dificuldades, ela não poderia acreditar naquela surpresa, no mínimo... Mágica.
No melhor dos sentidos.
Miranda abaixou-se e retirou o colar da areia, limpando-o com as mãos. Ouro, prata e pedras preciosas juntavam-se em um desenho sinuoso, arquitetado com todo o cuidado, formando a joia mais bela que ela já vira. Muito mais por seu significado do que por sua forma.
Ao voltar-se para trás, Loki estava próximo a ela, seus olhos preocupados, assustados, como os de um garoto acuado. Ela sabia o que ele se perguntava. Como aquilo fora parar ali, como estava em suas mãos, e o que aquilo significava. Também a assustava, mas, agora ela descobrira, era muito menos temível do que o que veio a ser o destino de Freya e Hela. Talvez seu futuro pudesse ser tenebroso, talvez não houvesse sequer futuro, mas ela lembrou-se das palavras de Boann, e sabia que havia esperança... Enquanto estivessem juntos.
Miranda passou alguns momentos fitando seus verdes olhos, que brilhavam preocupados, como se implorassem por ajuda. Como os do Loki criança, que ela vira em seus sonhos, a criança solitária, invejosa e amargurada, com medo de seu futuro e da verdade. As verdes orbes do adulto frio, controverso, carente, egoísta, esnobe, soberbo e que beirava a loucura, e que muitos julgavam totalmente desesperançado... Mas que ela sabia, agora, amar perdidamente.
Amava-o como era; insano ou não, trapaceiro ou não, gentil ou não. Amava sua aparência, bem como sua essência. Suas mentiras e suas verdades. Amava os verdes olhos que revelavam o maior dos perigos, e, ao mesmo tempo, de uma doçura incomparável em sua essência travessa.
Miranda pulou em seus braços, beijando-o, sem se importar com mais nada. Sofrera como nunca ao lado dele, mas também jamais se sentira como se sentia agora. Viva. Desejada. E, por mais que ele ainda não admitisse...
Subitamente, Miranda sentiu intuitivamente que precisava esconder-se. Afastou-se bruscamente de Loki, que escondeu-se no bosque próximo, e chamou-a para seguí-lo. Miranda fez que não com a cabeça, já imaginando quem a aguardava. Logo depois, ela a viu despontando em sua direção.
– Hale, ninfa Hale! – Elaine surgia da outra ponta da praia, correndo desesperada em suas sedas transparentes. – Tem de ir embora agora! Freya está furiosa! Mandou todos os seus servos atrás de você!
Notas finais
Freya "à vontade": http://twilightguide.com/tg/wp-content/uploads/2009/11/bryce-dallas-howard-13.jpg
Freya elegante: http://img.clevvertv.com/wp-content/uploads/2009/12/bryce-dallas-howard.jpg
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