Journey Into Trickery

4 Pawns and Players


Notas iniciais
Oláááá minhas lindonas! Eu sei que não postei capítulo semana passada, quanto a isso peço sinceras desculpas, mas eu já estou na metade da faculdade e, às vezes, fica realmente difícil conciliar as coisas. Em contrapartida, o capítulo de hoje é ENORME para vocês terem uma boa leitura no feriado, ehehehe! E eu considero o melhor capítulo do Loki que eu já escrevi até hoje, ouso dizer que nunca o coloquei tão filho da mãe quanto agora, ou seja, tão Loki-like! Devo, antes de mais nada, agradecer a LINDA leitora Ms Talita, que deixou minha primeira recomendação mesmo com apenas três capítulos! Como eu sempre digo, a coisa que eu mais amo ganhar no nyah são recomendações ♥ deixa meu coraçãozinho de aprendiz de escritora muito feliz, recompensado e lisonjeado! Muito obrigada mesmo, Talitinha! Neste capítulo, Miranda começa a botar as asinhas de fora - ela tava meio quieta, avaliando o terreno - e vocês vão ver o que essa dupla tem pra mostrar. E, finalmente, o começo do plano de Loki é revelado. Só digo uma coisa: se vocês acharem ele sacana agora, não fazem nem ideia do que ele vai fazer daqui pra frente. ;P Além disso, temos alguns momentos fofos (porque não podia faltar) do nosso casal, e várias citações à mitologia nórdica, adaptadas por mim para condizerem com o contexto da história! Então é isso, espero que gostem porque eu fiquei muito satisfeita! Beijinhos e boa leitura!

Ainda aturdido enquanto tentava manter a própria compostura, Loki foi em direção a Miranda, que o encarava silenciosa, a meiguice e o divertimento brincando junto em seus brilhantes e grandes olhos cor de mel. Ele sentiu seu coração apertar a cada passo que se aproximava dela, sabendo que portava uma expressão que, em outros tempos, talvez fosse apenas motivo de chacota por parte daquela exótica mulher à sua frente.

O deus sabia que não deveria encará-la, já se sentia muito exposto com suas feições jotuns aparentes daquela maneira; não precisava mergulhar os olhos novamente naquela que, ao contrário de todos que o conheceram, não apenas aceitara sua aparência de gigante de gelo, como, inclusive, por algum mistério ininteligível... Gostara dela. E agora o olhava cheia de candura, aquelas redondas orbes tornadas tão familiares, exalando estranha pureza que não combinava em nada com o que julgava esperar da enigmática mulher.

Não devo pensar nisso. Loki se repreendeu. Por algum motivo desconhecido, sentia certo... Medo. Um sentimento tão distinto, fraco, digno apenas dos seres menores, aqueles medíocres humanos e protegidos de Odin de dias arrastados e mecânicos, em seu cotidiano simplório, sempre tão limitado. Loki estivera tão a frente disso, desde que se conhecera como filho do maior dos deuses. Embora não o fosse em realidade...

E agora, estava temeroso. Temia pela reação da humana, pelo que ela acabara de fazer-lhe, e tinha medo, muito medo pelo que aqueles hipnotizantes olhos queriam segredar-lhe; não apenas contando-lhe o que havia em sua alma, como espelhando o que poderia haver na dele, e que ele temia, mais do que seu fracasso, mais do que sua maldita relação com Thor e Odin... Pois aquilo lhe tirava seu norte, e o obrigava a confrontar-se com algo que jamais imaginara ser possível de acontecer... Ou sentir.

Rispidamente, Loki afastou-se de Miranda, dizendo-lhe seco e rude:

– ...Siga-me.

Recusou-se com todas as forças e virar-se para trás e flagrar a possível expressão de surpresa e desapontamento da humana. Por uma razão que muito o desagradava, sabia que aquilo poderia mexer com ele, embora não conseguisse aceitar a possibilidade.

Precisava apenas lembrar-se que, não importando o que a midgardiana fizesse, não poderia permitir que ela interferisse em seus planos. Não agora que estava tão perto de começar, e tão dependente de que a cadeia de eventos que planejava acontecesse exatamente da maneira que previa.

Ou seria seu fim, e talvez até mesmo o dela, e o que poderia advir disso era o que mais o perturbava, tocando fundo nos restos gelados de seu coração.

Crispou os lábios, enquanto caminhava ao perceber que o último pensamento foi capaz de fazer senti-lo certa taquicardia. Se continuasse a portar-se daquele jeito, perderia sua melhor – e única – arma que agora lhe restava: seu brilhantismo na arte do logro e do engano, que parecia ser, ultimamente, mais utilizado contra si mesmo do que para seus propósitos.

Silenciosos, caminharam por entre as rochas subterrâneas de Nidavellir, e Loki podia ouvir as expressões de assombro de Miranda com os precipícios existentes naquele rico lugar perdido entre as montanhas. Inúmeras paredes rochosas dedicadas ao minério e extração de pedras preciosas desenhavam-se por todos os cantos, e, para os olhos mais atentos, era possível avistar aqui e ali o brilho de um cristal ou pedra preciosa. Entretanto, Loki reparava, olhando-a de esguelha, que Miranda tirava do chão simples pedras, de diferentes tamanhos e formatos, deixadas antes em meio à terra batida pela erosão dos anos devido aos passos firmes dos anões. Depois de catá-las cuidadosamente, a midgardiana as guardara em um dos bolsos de suas vestes, seus gestos aparentemente displicentes não denunciando suas reais pretensões.

Concentrado, Loki ajeitou seu manto de forma que apenas partes de seu nariz e lábios ficassem visíveis. Aquele que observasse por dentro de seu capuz apenas seria capaz de ver uma pele curiosamente azulada, com cabelos negros como a noite descendo até seus ombros, e finos lábios retos em uma expressão decidida. Ele ainda se recusava a perscrutar o rosto da humana – pois poderia sentir coisas indesejadas dependendo da maldita expressão que portasse – embora estivesse curioso com seu súbito interesse por possíveis colecionáveis.

Antes que se voltasse a ela para avisar-lhe que estavam próximos a taverna, Miranda reagiu soltando uma alta interjeição de assombro.

– Pelas barbas cinzas do Gandalf! – Os olhos de Miranda brilhavam como a maior das opalas que Loki já vira naquele lugar. – Estou em Erebor! Onde está o Thorin Escudo-de-Carvalho?! – Ela fechou os punhos aproximando-os do rosto, enquanto girava em volta de si mesma, contemplando a beleza e a imponência da cidade dos anões. Finalmente haviam saído da periferia de Nidavellir e chegado ao seu centro, de onde pendia uma enorme claraboia feita não de vidro, mas de pedras preciosas brancas e transparentes como diamantes – sendo algumas das que moldaram tal beleza arquitetônica propriamente diamantes – deixando antever a luz do pôr-do-sol de mais um dia que findava nos mundos muito acima deles.

Loki não entendera palavra do que ela dissera, mas desconfiava de que se tratasse de possíveis divindades midgardianas. Abrira a boca para ter com a humana, levantando seu dedo indicador pensando em uma possível provocação sarcástica, mas desistiu no meio do caminho. Ainda sentia-se perturbado pelo beijo que ela lhe dera em sua aparência jotun, e as possíveis implicações que isso poderia trazer-lhe.

E, obviamente... Estava ainda mais aturdido por dar tamanha importância a tão simples gesto, porém também repleto de significado.

Caminharam ainda por alguns metros, passando agora por ruas feitas de pedras de brilhantes, ornamentadas delicadamente por pedras preciosas menores. Loki desprezava outros povos que não os asgardianos, mas tinha de admitir e reconhecer a beleza – e a propriedade – engenhosa daquele povo subterrâneo. Eram, apesar da fala rude e porte deselegante, grandes artesãos, mestres da arte da ourivesaria e da extração de pedras preciosas.

Haviam casas de madeira, e o ambiente era em geral simples e rústico, com exceção das enormes paredes das cavernas, ornamentadas com pedras e brilhantes que, percebia-se, brilhavam no escuro, para iluminar a noite e a escuridão dentro daquele Reino abaixo da terra. Miranda sorria como se estivesse em um estado de iluminação divina, seus brancos dentes abrindo-se em um largo sorriso que quase ia de orelha a orelha. Loki sentiu vontade de rir ao ver aquela expressão tão diferente e, ao mesmo tempo, curiosamente interessante, no rosto da jovem mulher. Pegou-se pensando, a contragosto, que poderia continuar com aqueles planos, não apenas em benefício próprio, como porque gostaria de vê-la assim mais vezes.

A luz do sol poente ia pouco a pouco abandonando a ampla caverna subterrânea, e, em meio a caminhada do estranho casal pelas ruas centrais de Nidavellir, as paredes do Reino abaixo da terra distanciavam-se cada vez mais, fazendo com que as pedras preciosas ali incrustadas parecessem para eles, de fato, com estrelas em um céu subterrâneo.

– Isso é lindo demais... – O tom de voz de Miranda havia abandonado a empolgação infantil e tola de antes, e agora ela observava a tudo, ainda evidenciando o gosto que sentia por estar naquele lugar, mas dando lugar a uma contemplação mais sincera e quase incrédula.

– É de fato belo, admito. – Loki disse, dando o braço a torcer, sua voz ainda séria e impositiva. Sentiu que se continuasse a ignorá-la, o aperto no peito que sentia apenas piorava.

– Mas que vida você não deve ter tido. – Miranda falou, como se sequer tivesse se importado com suas palavras rudes de antes, olhando-lhe sonhadoramente, porém de maneira intensa, como se pudesse ler por seus olhos agora vermelhos.

– Eu vi algumas coisas interessantes, é verdade. – Loki sorriu, embora não desejasse fazê-lo. Miranda semicerrou os olhos e lançou-lhe um de seus lascivos sorrisos provocantes, e ele não pôde deixar de pensar que ali estava uma rara beleza a qual os anões nunca haviam alcançado.

Fechou os olhos para concentrar-se novamente em seus planos, e passou uma das mãos pela testa, como se buscasse o foco para sua tarefa dentro de si. Quando abriu os olhos novamente, Miranda portava um ar estranho, convencido. Parecia curiosamente satisfeita, como se esperasse alguma coisa.

– Pois bem. Esta é a taverna. Estamos próximos ao castelo de Hreidmar, o Rei dos anões. Mas lá não seríamos bem-vindos. Muito menos em minha aparência jotun. – Ele sorriu debochado.

– Desconfio que a galera aí da sua terra é meio capial. No livro de mitologia nórdica mal tem menções a eles, falam que eles não saem lá dos iglus que eles moram... — Miranda pôs-se a tagarelar, mas o deus a interrompeu.

– Midgard não conhece muito bem as verdadeiras histórias dos Nove Reinos de Yggdrasil. Baseiam-se, em sua infinita ignorância, em lendas e mitos que têm apenas um fundo de verdade. – Loki interrompeu-a, desdenhando de seus parcos conhecimentos. – Mas de fato não há muitos povos simpáticos a jotuns. E eu não sou dessa terra. – Loki disse, desdenhando também das próprias origens, embora aquilo sempre o assombrasse desde que as descobrira.

– Não sei porque, toda criança gosta de sorvete! Seu Reino aí deve ser uma fábrica gigante da HäagenDazs, uma marca de sorvete que tem até um nome esquisito o suficiente pra fazer parte aí dessa verborragia nórdica feia pra caralho. – Miranda disse tais palavras esdrúxula com a expressão séria, as sobrancelhas franzidas pela interrupção grosseira de Loki, e a voz limpa e plácida.

Loki lembrou-se de quando experimentara tal estranha refeição congelada em Midgard, e apresentou feições de repúdio. – Eu me lembro disto. É um prato nefasto. – Loki disse, sério e pomposo, sentindo asco pelo sorvete, a refeição que o fizera quase demonstrar sua aparência jotun.

Miranda gargalhou das palavras de Loki, embora ele as tivesse proferido com seriedade sincera, e ele começou a sentir a crescente e costumeira irritação de quando estava próximo da humana. Ela sempre o tirava do sério, e isso continuava a acontecer mesmo em um terreno tão distante do que estava acostumada.

– Pare com essas besteiras. – Loki ralhou com ela, novamente sério. – O que importa é que, além dos jotuns, Hreidmar não é muito simpático... A mim. – Loki abriu um sorriso malévolo, e viu satisfeito os olhos da midgardiana brilharem de assombro e, como sempre achava curioso, também de diversão.

– O que você fez, playboyzinho avatar? — Miranda parecia especular. – Conflitos entre realezas? – Ela debochou.

– Um pouco menos galante do que isso. – Loki disse, lembrando-se de quando Ótr, filho do Rei Anão, morrera acidentalmente em suas mãos. Uma de suas muitas “travessuras” que não saíra tão bem quando esperava. – Perdi um certo anel para seu pai quando o matei. – Loki disse, sua voz fria dizendo aquelas palavras como se não lhe significassem nada, embora tivesse se arrependido profundamente àquela época. Odin tinha grande orgulho de seu dom para a magia, superando inclusive a Thor em seus aprendizados, e o presenteara com Andvaranaut, que antes fora do falecido anão Andvari, que morava abaixo de uma cachoeira no extremo oeste de Nidavellir. O anel tinha o poder de gerar ouro, mas, curiosamente, também levava azar ao dono que o detivesse, dependendo de sua conduta. Loki muitas vezes enganava povos mais ingênuos, trocando mercadorias por ouro falso, apenas pelo estranho prazer que tinha com aqueles atos de enganação. Diziam-lhe que pagaria, e em breve isso aconteceria.

Ótr, um dos herdeiros e filhos de Hreimar, tinha o poder de transformar-se em qualquer forma animal que desejasse. Porém, um dia uma fatalidade ocorreu. Loki e Thor caçavam próximos aos limites do Reino dos anões, quando avistaram uma gorda e enorme lontra nadando perto das cachoeiras onde residia Andvari, o primeiro dono do anel que o irmão mais novo de Thor detinha no momento. Loki apostou ouro com outros companheiros de caça, que duvidavam de que poderia caçá-la mais rápido do que eles, e venceu a aposta, trapaceando. Matou-a e a levava em presente ao pai, junto a um satisfeito Thor – que não desconfiara de sua travessura -, quando, abismados, viam que o cadáver do animal pouco a pouco se fazia na imagem de um dos filhos de Hreimar, os ferimentos da lontra equivalendo aos ferimentos mortais agora em seu corpo estático.

Eram jovens e ingênuos, e não faziam ideia de como superar aquele impasse. O Rei veio a descobrir, e desejava a pior das punições para Loki. Odin, ciente da inocência do filho – apesar de desconfiar de seu dom para o logro – sentenciou-o a dar o anel de Andvari ao Rei Anão, que vingou-se de Loki banindo-o para sempre de seu Reino. O deus tinha certo rancor – e culpa – do que acontecera, mas não podia deixar de imaginar como estaria Hreimar agora... Provavelmente o anel também tivera algum efeito sobre ele, e estava muito interessado em descobrir.

– Eu ouvi direito? – Miranda disse, seus olhos esbugalhando-se cada vez mais. – Perdeu um anel? – Ela começou a rir. – Você tem ideia do que isso parece? “Sete para os Senhores Anões em seus rochosos corredores? Um para o Senhor do Escuro em seu escuro trono?” – A midgardiana não parava de rir, recitando versos estranhos entre as risadas, e Loki revirou os olhos, impaciente com suas conversas ininteligíveis.

– Não faço ideia, nem tenho interesse nas lendas do seu povo. – Ele disse grosseiro, sentindo uma pontada de culpa quando Miranda parou de rir, aparentando finalmente incomodar-se com suas atitudes grosseiras. – Não por enquanto. – Ele tentou soar galante, sorrindo-lhe forçosamente, e ela apenas estreitou os olhos.

– Eu acho curioso como conheço um certo “Anel dos Nibelungos”, uma coincidência terrível, uma história sobre um anel mágico, sabe? Está me lembrando esse papinho. Mitologia nórdica, anel perdido... Antes do Tolkien, óbvio, só teve uma história assim. Um cara chamado Alberich era o dono dessa porra? – Miranda perguntou, sua voz séria.

– Andvari. – Loki corrigiu automaticamente.

Ela abriu um sorriso de triunfo, como se significasse a mesma coisa. – Talvez os midgardianos não sejam tão ignorantes quanto você pensa.

Surpreendendo o deus, Miranda rodopiou em suas saias e abriu amplamente a porta da taverna, usando de sua nova velocidade incrível, deixando-o para trás.

Rangendo os dentes de raiva, Loki seguiu-a, embora levemente satisfeito por finalmente conseguir iniciar o que planejava.

Ajeitando o capuz de maneira que ficasse irreconhecível, o deus seguiu os passos da midgardiana, também adentrando o estabelecimento.

A mulher já estava passos a sua frente, esgueirando-se pelos corpulentos – embora diminutos – anões, com suas longas barbas e músculos grosseiros, além das barrigas imponentes em suas roupas de guerreiros ou mineradores. Muitas vezes as vestimentas se misturavam, como era típico daquele povo.

Ao pôr-do-sol, a taverna já se encontrava apinhada de pessoas, com grupos de anões viajantes jantando enormes travessas de carnes de caça junto a enormes batatas cozidas, bebendo grandes cornos de cerveja ou longos copos de hidromel. O som das risadas másculas enchia o espaço da melhor estalagem local, junto a cochichos e, por ventura, gritos ébrios. Naquela noite que iniciava sua ascensão aos céus dos reinos além, lotada estava à estalagem chamada Emmerald Eyes.

Loki perscrutou o ambiente com o olhar, até finalmente depositá-lo em um corpo usando uma longa capa marrom-clara, com curvas femininas provocando-se no tecido que pouco as valorizava. Reparou nos olhares curiosos dos anões, que se demoravam um pouco mais na altura de sua cintura, onde se empinavam os firmes e convidativos glúteos de Miranda.

Respirando fundo, o deus seguiu em sua direção, tentando ser o mais discreto possível, enquanto sentia algo desagradável subir-lhe pelo peito. Jamais fora de arrumar confusão por nada, mas sentira vontade de estraçalhar aqueles medíocres anões que cobiçavam algo que era seu.

Mais tarde. Pensou, se acalmando. Falta pouco, agora.

– ‘”Qual é”, colega? Ou melhor dizendo: boa noite, Lorde Estalajadeiro. Ou Ser Estalajadeiro. Ou será que é Sor? Ou Sir? Não sei, o George R. R. Martin me confunde! – Ela começou a rir, parecendo realmente divertida por estar naquele lugar tão típico para Loki, enquanto um atendente anão, usando um avental gasto e puído, apenas a encarava sem entender nada. – Deixa pra lá, meu caro Tyrion. Eu e o meu amigo aqui gostaríamos de um quarto, e prepare um banho para mim também, por obséquio, Sr. Carrapicho. – Ela sorriu sensualmente ao anão, cuja boca entreabriu-se levemente, demorando seu olhar em seu colo, pois a mulher havia se reclinado provocativamente no balcão. Loki puxou-a pelo braço, quase instintivamente, tirando-a da posição lasciva em que se encontrava. Olhou-a irritado, fuzilando-a com o olhar. Miranda apenas sorriu, satisfeita.

O homem encarou Loki, levantando as sobrancelhas. Ele apenas concordou com a cabeça. Só usaria suas palavras para o que já havia planejado, enquanto pudesse evitar.

Precisava começar o plano da melhor maneira possível, e isso significava que não poderiam haver falhas.

– Será apenas um quarto? E qual será a forma de pagamento, senhorita...? – O homem disse debochado, encarando-a com um ar devasso, enquanto esperava que ela se apresentasse, ainda estranhando o estranho casal que adentrara sua estalagem.

– Ahm... – Miranda pareceu pensar rapidamente. – Hale. Senhorita Hale. E este é meu companheiro... – Ela esperou Loki apresentar-se, e ele disse, monocordicamente:

– Laufar. – Sua voz sequer destoou uma oitava enquanto dizia a mentira. Miranda era uma boa parceira na arte da enganação, mas ainda tinha muito a aprender. Seus pés um tanto ansiosos, mexendo-se de um lado para o outro, os dedos tamborilando levemente na mesa, entre outros aspectos, poderiam deixar evidente, para um observador mais atencioso, que ela poderia estar mentindo.

Já Loki estava frio, imóvel e impassível. A imagem e semelhança de seu verdadeiro pai, Laufey.

– E como pretendem pagar a estadia? Será só por esta noite, eu presumo? – O anão dizia, tentando ver por baixo do capuz de Loki.

– Com isto. – Miranda sorriu triunfante, e Loki, antes de ver o que ela mostrara, já havia entendido.

Miranda havia transformado as pedras que encontrara no caminho em ouro, embora falso. Apenas o estudo minucioso de horas poderia dizer que aquilo não era o metal verdadeiro, tamanho o brilho e a cor parecendo genuinamente dourada da pedra. Loki levantou uma sobrancelha, surpreendendo-se. Enquanto caminhava com as mãos no bolso, aparentando apenas distração com a paisagem de Nidavellir, ela se concentrava para apresentar uma farsa capaz de enganar os anões mestres da ourivesaria.

Bem ou mal, a midgardiana volta e meia apresentava várias semelhanças com ele, e aquilo não podia deixar de sempre surpreendê-lo.

Positivamente.

Enquanto deixava algumas pedras na frente do anão, algumas cabeças curiosas olhavam de esguelha para o brilho do metal acima da mesa da recepção da taverna. O anão imediatamente mudou de postura, e fez uma profunda reverência para Miranda, finalmente apresentando-se educadamente.

– Meu nome é Mahar, milady. Sua presença em meu estabelecimento muito me honra, e estou as suas ordens.

– Relaxa, Lorde Zangado. Apenas me arranje uma bela banheira fumegante, alguns sais de banho e tenha a melhor carne de javali reservada para mim quando eu voltar. E ah. – Ela entregou-lhe mais algumas das falsas pedras de ouro. – Quero um barril de cerveja, Red Ale ou Weissbier de preferência, novinho e reservado para mim, quando eu descer para ter com o povo. – Ela falou debochada, mas o homem apenas a reverenciou ainda mais sorrindo ganancioso enquanto dava ordens aos trabalhadores para preparar tudo o que ela lhe pedira.

Loki aproximou-se de seus ouvidos, dizendo-lhe baixo o suficiente para que apenas ela pudesse ouvir, sentindo-se também triunfante ao vê-la estremecer com o contato próximo:

– Não precisou sequer da minha orientação, pequena. – Disse, debochado e provocante, mencionando como dobrara o estalajadeiro.

– Eu disse que os midgardianos te surpreenderiam. Sei como subornar alguém desde quando um policial me flagrou com maconha aos doze anos de idade. – Ela sorriu como se fosse algo digno de nota, os olhos semicerrando-se e voltando-se devagar para Loki, como se sustentasse a provocação.

– Os midgardianos jamais, mas talvez uma em especial... – Ele disse, ainda a provocando, e Miranda mordeu o lábio inferior, enquanto ele se afastava como se nada de estranho estivesse acontecendo quanto a presença inusitada dos curiosos parceiros estrangeiros.

Em seguida, um dos atendentes da estalagem veio avisar-lhes que o quarto já estava preparado, e os guiou escada acima. Miranda teve o cuidado de não dar-lhe “gorjetas”, para que o estalajadeiro não desconfiasse de sua extrema generosidade.

Entrando no quarto, ela jogou a mochila – agora transformada em uma bolsa de pano – acima do colchão da cama de casal de espaldar alto, com cortinas vermelhas que caíam do dossel, com estampas que imitavam o feitio de tapeçarias antigas. Em seguida, jogou-se de costas acima do colchão, levantando as pernas e dando gritinhos de alegria.

– A Terra-Média é aqui! – Ela ria divertida. – Mal vejo a hora de você me levar ao Condado. Ah, se o Tolkien estivesse vendo o que estou vendo...

– Não sei do que se trata este Condado, mas já lhe aviso que os próximos lugares não serão tão agradáveis. – Ele deu um sorriso enviesado.

– Do que está falando? Não vamos a Asgard realizar as suas tretas? – Miranda encarou-o desconfiada, levantando apenas a cabeça do colchão.

Loki franziu as sobrancelhas a menção da estranha última palavra, tentando entender pelo contexto o que ela significava. – Pelos meus... Planos, só iremos a Asgard no último ponto da nossa jornada. – Loki falou, cheio de segundas intenções, em vários sentidos diferentes. – Você vai entender. – O deus disse, como se isso fosse suficiente.

– Este é o momento que você toma vergonha na cara e começa a me explicar o que pretende. – Miranda disse, sua voz não mais divertida, e o deus podia reconhecer o tom de desafio que ela costumava ostentar.

Ele sorriu, divertindo-se com sua postura que tentava ser imperiosa. – Eu já lhe expliquei. Desenvolveremos seus poderes. Conquistarei a confiança de Odin. E o povo verá o filho de Laufey. – O deus disse rasteiro, e Miranda apenas fechou a expressão ainda mais.

– Eu posso ter a personalidade levemente suicida, mas não vou te ajudar enquanto não souber onde isso vai dar. Preciso saber dos meus riscos. – Miranda disse, ainda séria, sentando-se na cama.

– Não haverá riscos se seguir minhas instruções. – Loki manteve-se impassível, sustentando o desafio. Sabia que era apenas um blefe. O deus, em seguida, aproximou-se da midgardiana, deixando o rosto quase colado ao dela, enquanto seus dedos pálidos e finos passeavam pelo seu belo rosto, seu polegar parando, por último acima dos seus lábios carnudos, puxando o lábio inferior levemente para baixo. – Não pretendo perdê-la assim tão fácil.

– Não se pode perder o que nunca se teve. – Miranda disse, séria, sem reagir as carícias sensuais do deus. Suas palavras feriram-no levemente, mas ele jamais demonstraria aquilo. Do contrário, ele apenas sorriu um sorriso ainda mais largo. Fechou os olhos rapidamente, e, quando abriu-os, segurou os pulsos da midgardiana com força, deitando-a firme no colchão, prendendo-a pelos braços. Miranda respirava forte e ruidosamente, como se reagisse contra algo dentro dela.

– Eu já a tive inúmeras vezes, e posso tê-la quando desejar. – Seus olhos rubros fitavam intensamente os olhos redondos e cor de mel de Miranda, que tentavam negar o desejo animal por trás do brilho raivoso com que respondia seu olhar. — Porque sei fazê-la querer. – Ele beijou seu pescoço com afã, enquanto Miranda soltava um gemido que não pôde comprimir. Firmou ainda mais seus pulsos no colchão, e a mulher agora arfava, seus olhos semicerrados pedindo por ele.

Puseram-se a beijar-se intensamente, Miranda desta vez retribuindo, como se aceitasse a posição submissa. Porém, quando Loki começava a perder o foco do que pretendia, ele sentiu as mãos relaxadas de Miranda prendendo-se aos nós de seus dedos, enquanto ela desviava seu rosto e evitava beijá-lo outra vez. Loki olhou para as próprias mãos, e viu que sua pele começava a tornar a cor asgardiana de antes, pouco a pouco, e que Miranda havia o enganado.

Indignado pela própria ingenuidade ao não prever o movimento da mulher, que começara a passar-lhe calor e retirar seu disfarce jotun, ele afastou-se bruscamente, para que ela não pusesse tudo a perder.

Miranda apenas riu e levantou do colchão.

– Você pode ser um deus, ou um jotun, mas é apenas um homem. – Miranda sorriu travessa, satisfeita por tê-lo enganado. – E se você continuar a me subestimar pode ser que o laço da forca se aperte cada vez mais... Até não ter mais jeito.

– Quem você acha que é para me ameaçar? – Loki perguntou, bruscamente.

Miranda piscou os olhos, e seu sorriso de desdém desenhou-se em seu rosto. A ira dentro de Loki crescia cada vez mais, assim como seu desejo rejeitado, e estava difícil controlar-se e manter-se frio como deveria, em vários sentidos diferentes.

– Eu vi como você reagiu quando eu te beijei. Ficou todo perturbadinho. – Miranda debochou, e Loki sentiu-se ainda mais irritado.

– Você acha que esconde suas fraquezas muito bem, e eu posso não saber tudo o que você quer, mas já tenho uma vaga ideia. – Ela sorriu ainda mais convencida. – Mas eu não vou te ajudar a troco de nada.

– Está enganada. Não faz ideia do que pretendo. – Loki disse, sua voz desdenhosa, recuperando-se pouco a pouco do desejo frustrado. – E eu sei porque está aqui. Sei porque veio comigo. E sei muito bem o que mais quer... – O deus falou, novamente se aproximando da mulher, insinuando-se enquanto a desiludia.

Miranda apenas sorriu enviesado, sustentando com firmeza seu olhar.

– Você não sabe nada, Laufeyson. – Ela disse categoricamente, embora sem desprezo algum na voz.

Loki, surpreso, olhou-a virar-se bruscamente de costas e fechar a porta do banheiro do quarto a sua frente. Ouviu o barulho da chave sendo girada, e ele crispou os lábios, irritado com o joguinho da midgardiana.

O deus, furioso, sentou-se na cama, tentando respirar fundo para acalmar-se. Ela era uma midgardiana. Apenas isso. Não importava o sopro de Hela, nem a sua beleza, tampouco sua astúcia e nem a maneira como muitas vezes pensavam parecido. Nada disso importava. Ela era limitada, Loki não. E não seria difícil dobrá-la a seu favor.

Mas ele começava a perceber que aquilo não seria tão fácil como antes julgara.

Abriu a bolsa de pano da midgardiana, pensando que se talvez remexesse nas coisas que ela trazia consigo, pudesse ver alguma falha que pudesse ter deixado passar, apesar do contato íntimo frequente entre os dois. Lá havia muito material da S.H.I.E.L.D que seria desnecessário, a grande safira que Thor havia lhe presenteado – a qual Loki guardou nos bolsos da capa de viagem escura que usava –, e o livro de mitologia nórdica, além de outras bugigangas. Folheou o volume, irritado, como se pudesse se distrair com aquelas páginas.

Curiosamente, haviam pequenas, quase imperceptíveis, divisórias entre as folhas. Havia a gravura que já vira na toca de humanos de Miranda, na qual ela aparecia com um chapéu escuro e pontudo do qual pendia um fio dourado, segurando uma espécie de pergaminho enrolado, usando vestes negras com uma faixa azul à cintura, além de um estranho babado branco que mais lembrava um babador, abaixo de seu pescoço. Riu, lembrando-se de como achara a roupa esdrúxula conveniente para a mulher sempre tão fora dos eixos, e reparou em Jane Foster junto a ela, as duas portando sorrisos triunfantes. Sentiu uma curiosa afeição subir-lhe pelo peito ao ver Miranda, tão jovem e tão satisfeita, como se tivesse acabado de conquistar algo muito importante.

Ignorou aquilo, e virou mais páginas do livro, achando a gravura de seu falecido irmão Jimmy, e lembrou-se do também finado Marcel Foster, e de como ele o levara a sentir o mais puro ódio de sua vida. Fechou os olhos, seu rosto tremendo de raiva, sentindo seu sangue jotun se congelar cada vez mais, como se a ira despertasse a verdadeira origem de suas entranhas.

Respirando fundo para voltar a concentrar-se, passou mais algumas páginas, e deixou o livro cair, aberto, ao seu colo.

Ele aparecia naquela gravura. Na tarde em que passara com Miranda e Darcy na enfadonha visita ao jardim zoológico de NY, a baixa e morena mulher havia dito que tiraria uma fotografia dos dois para “guardar para a posteridade”. Loki sequer ouvira o que ela dissera, quando Miranda pulara praticamente em seu pescoço, rindo, parecendo realmente divertida. Ela o abraçava pelas costas, pendurada em seus ombros, por onde o enlaçava, e Loki viu a si mesmo, congelado naquela imagem, tentando tirar os braços da midgardiana do contato de seu corpo, enquanto seus olhos verdes da forma asgardiana a encaravam, entre a surpresa e o desprezo.

Como que por magia, a gravura captara um momento sublime, expondo a alma da midgardiana que sempre se escondia por trás de suas máscaras de loucura e falta de senso. Miranda, de olhos quase fechados, sorria seu sorriso de menina, tão honesto e, ao mesmo tempo, de uma melancolia sem igual. O sorriso de uma criança abandonada, algo que ele conhecia muito bem. Um sorriso rejeitado em um rosto de ninfa, por um lado tão linda e ao mesmo tempo... Tão triste.

Loki levantou-se, deixando o livro cair aos seus pés, a gravura soltando-se e revoando enquanto descia, vindo a cair acima do livro agora amassado no piso dos aposentos.

Abriu a porta do banheiro com facilidade, ignorando a chave que a trancava, quebrando a porta de madeira, deixando algumas frestas em sua superfície. Miranda sequer piscou, apenas levantou os olhos enquanto Loki se aproximava, a dúvida evidente em seu rosto.

– Sim? – Ela pegou uma jarra de água separada para lavar os cabelos e despejou-a em seu rosto, enquanto o deus admirava aquela maravilha exuberante, extremamente quente e convidativa, nua e banhada pela água.

– Eu... Preciso da sua ajuda. – Loki disse, irritado consigo mesmo por proferir aquelas palavras, e, ao mesmo tempo, aliviado por algo que ele ainda não entendia.

Miranda segurou um sorriso verdadeiro que veio a formar-se em um canto de seus lábios, enquanto olhava para baixo. O deus julgou ter visto um ligeiro rubor subir às suas faces, mas poderia ser por conta da temperatura do banho.

– E vai me contar mais sobre o que pretende? – Ela insistiu, levantando as sobrancelhas e finalmente sorrindo, enquanto esfregava seu corpo, limpando-se do dia de viagem.

Como alguém pode dizer não a isso?

– Se estiver ao meu lado. – Loki disse, percebendo depois o sentido curioso que aquela frase poderia ser interpretada. Já preparava-se para corrigir o que disse, quando reparou na expressão embasbacada de Miranda, que o encarava verdadeiramente surpresa.

Ela baixou os olhos, segurando mais um sorriso, e ele desistiu de corrigir o que dissera, sentindo que, talvez, não precisasse de correção.

– Você tem sorte de jogarmos no mesmo time, avatar. – Ela sorriu e jogou água na direção de Loki, que desviou-se de maneira felina como seu gato Bilbo. Miranda riu gostosamente, e parecia finalmente relaxada.

– Venha cá. – Miranda chamou-o com os dedos.

– Não podemos. – Loki disse, embora deliciado com o convite, admirando as curvas e formas da mulher nua. – Não posso me dar ao luxo de esquentar minha temperatura, agora. – Ele sorriu enviesado.

– Não era bem disso que eu estava falando. – Miranda semicerrou os olhos, provocante, enquanto levantava-se e aproximava-se dele.

Loki sorriu enviesado, imaginando o que ela pretendia. Seu membro viril já encontrava-se ereto, depois que a agarrara louco de raiva e de tesão, e após vê-la naquela cena tão erótica. Nua e ensaboada, a mulher se aproximou, ajoelhando-se à sua frente, fazendo uma reverência levemente debochada. Loki sorriu, satisfeito. Jamais se cansaria de vê-la ajoelhada, e do que aquilo significava.

A mulher levantou a barra da capa que ele usava, lentamente, enquanto o encarava nos olhos. Loki fechou os olhos e deixou a cabeça pender para trás enquanto ela o beijava em seu membro, quando, subitamente, sentiu uma dor aguda fazê-lo urrar de dor. Miranda havia mordido-o ali.

Ela levantou-se rapidamente, e vestiu-se com a capa que despira.

– Você não anda merecendo mais do que isso, ultimamente. – Miranda o olhava travessa, satisfeita por tê-lo ludibriado mais uma vez, e Loki realmente sentia raiva, agora.

Usando de sua velocidade e força, Miranda empurrou rapidamente móveis pesados para evitar que o deus saísse tão rápido do cômodo, quando reparou em seu livro no chão. Loki podia vê-la por uma fresta na porta que quebrara, e a viu abaixando-se para olhar a foto, devagar, como se não acreditasse. Com cuidado, ela guardou-a novamente dentro do livro, no capítulo que marcava: “Sobre os Jotuns”. Quando olhou para seu rosto, ela portava a mesma expressão que a gravura magicamente havia revelado.

Naquele momento, Loki a perdoou.



***

Passado algum tempo, Loki contara-lhe partes do que pretendia. Não podia revelar-lhe o grosso do plano, até mesmo para protegê-la. Sabia que Miranda não concordaria com tudo o que pretendia, mas também não estava disposto a enfrentar o que poderia tomá-lo caso algo de ruim acontecesse a ela.

Quando desceram novamente ao salão da taverna, já havia uma mesa reservada a um canto para os dois. Velas, flores, e diversos ornamentos foram preparados, deixando Loki desconfortável, e, ao mesmo tempo, surpreso com a facilidade de manipular aqueles seres. Havia esquecido-se do grau de obsessão que atingia a cobiça dos anões por ouro.

Ao sentarem-se na mesa, Miranda voltara a expressão quase infantil de felicidade e empolgação com o ambiente. Bebeu mais cerveja do que o habitual – o que não era pouca coisa – e devorou, sozinha, cinco pratos de filés de javali. Volstagg teria orgulho de mim, agora. Loki pensou sem se controlar. A mulher agora teria o metabolismo muito mais acelerado, devido à sua condição quase divina.

– Maluco! ISSO TÁ MUITO BOM! – Ela quase gritava, devorando a comida à sua frente. — Sério, eu só estou esperando chegar o Gandalf, o Bilbo, o Thorin, o Balin, o Bifur, o Bofur, o Bombur, o Fili, o Kili, o Glóin, o Óin... – Enquanto Miranda tagarelava sobre nomes desconhecidos para Loki, ele deixava sua audição atenta para o que os anões comentavam. Reparara em como lançaram-lhes olhares ainda mais desconfiados quando descera, e aquele era o momento apropriado.

Loki levantou-se subitamente, e aproximou-se de um grupo de anões que não parecia ser da capital.

– Boa noite, senhores. – O deus disse, educadamente, enquanto os reverenciava levemente com um gesto da cabeça.

Os anões não lhe responderam por instantes, e um, mais gordo e mais velho, de barbas brancas que iam até seu colo, dirigiu-lhe a palavra:

– O que quer, forasteiro?

– Notícias do mundo exterior. – Loki brincou, embora tivesse um fundo de verdade. – O que me dizem dos Nove Reinos? Estive preso em algum tempo, nos confis de Jotunheim, até finalmente encontrar a passagem para outro Reino. – O deus disse placidamente, mentindo sem dificuldades.

Os anões gelaram à menção de Jotunheim. Um deles, mais jovem, deixou escapar:

– Você... – Ele o encarava, sua mão grossa e peluda descendo até o pequeno machado que levava a cintura.

Loki abaixou o capuz, expondo seu rosto jotun para todos, seu sorriso enviesado tipicamente em seu rosto.

Todos os presentes soltaram expressões de assombro em uníssono, e até o estalajadeiro parou de servir Miranda, que também o encarava um tanto aflita.

Antes que os anões pudessem buscar suas armas, Loki levantou as mãos, dizendo:

– Eu venho em paz. E tenho uma sugestão a dar ao bom povo dos anões. – Fez um gesto de rendição, as mãos próximas à cabeça, sua fala suave, mansa, como se não apresentasse perigo algum. Ele olhou para Miranda de esguelha, que sequer piscava, tentando disfarçar o nervosismo. Reparou um movimento em sua garganta, e viu que ela engolira em seco.

O anão velho ainda não acreditara, e dirigiu-se outra vez ao deus.

– Se vem em paz, jotun – ele disse, cheio de desprezo – então permita que o revistem. – O anão idoso o encarava seriamente.

– Precisamente. Como preferirem. – Loki disse enquanto fazia um gesto galante com a mão.

Alguns anões se aproximaram, e Miranda subitamente se levantou, entendendo o que deveria fazer.

Enquanto alguns revistavam Loki e nada encontravam, o velho fez um gesto para que se sentassem, e Loki continuou em pé. Entretanto, um anão sorrateiro levantou uma adaga, seu olhar desconfiado e intolerante decidido a dar cabo do deus.

Rápida como uma sombra, Miranda aproximou-se do pequeno homem, tocando-lhe as costas. Ele virou-se para ela, surpreso e irritado, e tentou atingi-la com o punhal. Ela segurou seu pulso, torcendo-o com facilidade, enquanto ele gritava de dor, soltando a faca. Rapidamente, trocou suas mãos de lugar, encostando em seus ombros. Enquanto o anão olhava para as mãos de Miranda, sem entender seus gestos, ela apenas abriu os dedos como se pudesse empurrá-lo, e ele foi lançado em direção a parede na direção oposta às suas costas, levando consigo uma tapeçaria na parede cuja moldura rachou ao atingir o chão.

– Por favor, não destruam meu estabelecimento! – Disse o estalajadeiro interesseiro, preocupado apenas com seus prejuízos.

O anão velho sequer piscara, enquanto encarava a mulher e Loki, vestidos com capas semelhantes.

– O que pretendem? – O anão perguntou, encarando fundo os olhos agora vermelhos de Loki. Parecia desafiá-lo, e não mostrava temor algum aos dois.

– Vamos a uma jornada inesperada. – Miranda começou, apenas para tirar Loki do sério. Ele fechou os olhos, ignorando a provocação da midgardiana, para que os anões não o julgassem fraco.

– Para onde? – O velho perguntou.

– Asgard. – Miranda e Loki responderam juntos, e ela sorriu seu clássico sorriso de travessura.

Os anões cochicharam baixo, e, desta vez, a taverna parecia ainda mais silenciosa.

– E por que uma missão suicida em Asgard seria do nosso interesse? – Os anões disseram, alguns rindo.

– Porque Loki Odinson encontra-se mantido em prisão perpétua, e Odin não consultou nenhum dos Nove Reinos ao tomar tal decisão. Acredito que há muitos de vocês interessados em vingança ao deus da trapaça, assim como eu. – Loki disse, sendo o algoz de si mesmo, como se realmente se interessasse naquilo.

– E eu sou Hale, antiga discípula do deus. Vim de Asgard, e sou filha bastarda de Balder com uma de suas aias. Herdei a magia de meu pai, como podem ver. – Miranda sorriu lasciva e malevolamente, e alguns poucos anões riram, fascinados por sua beleza. Loki sentiu certa raiva ao constatar isso. – E conheço caminhos que nem todos saberiam.

– Tinha que ser bastarda para foder com um jotun! – Um anão bêbado gritou do extremo canto da taverna, e Miranda, sem piscar, apenas pegou o punhal do anão que tentara atacar Loki, e atirou-a à distância, tão veloz que arrancou um naco da orelha do homem que se atrevera a dizer tais palavras. Nenhum anão se atreveu a rir outra vez, e o silêncio ainda mais sepulcral continuou a reinar dentro da taverna.

– E qual a amargura que tem com o deus da trapaça? – O velho anão perguntou, perspicaz, como se não tivesse testemunhado aquela cena assustadora.

– Ele me traiu. – Miranda disse, enquanto encarava Loki, a expressão dela um tanto desagradável aos olhos do deus. – Abandonou-me, rejeitada, e tive de sobreviver sozinha. Havia me prometido que eu receberia uma alta posição na Corte de Odin, mas jogou-me nas raízes de Yggdrasil julgando-me morta. Felizmente, aqui estou. – Miranda disse, sua atuação quase impecável.

– Ele matou meu pai. – Loki disse, referindo-se a Laufey, que ele mesmo matara. Miranda quase vacilou ao encará-lo, seus olhos brilhando com a revelação desta última parte.

– Você é filho de Laufey? – O anão velho perguntou, levemente surpreso. — É um tanto baixo e fraco para um Jotun.

– Fui abandonado durante a última guerra contra Asgard. Algum asgardiano deveria planejar matar-me junto aos outros herdeiros, mas não foi bem sucedido. Criei-me sozinho, criança, nos confins de Jotunheim. É graças ao meu sangue real que devo minha eloquência. – Loki disse, debochado, mas apenas Miranda percebeu o real tom de suas palavras.

– É uma bela história, Laufeyson e Hale, mas não vejo que utilidade teria para os anões. Procure Hreimar, que nutre ódio do filho de Odin até hoje, quem sabe ele o receba. – O anão velho riu, junto a seus outros amigos, desprezando o sangue jotun de Loki.

– Ele nunca o faria. – Loki sorriu enviesado. – Compreendo suas razões. Jotunheim nunca teve boas relações exteriores. Porém, estou aqui para mudar isso. Meu pai não tem mais herdeiros. Meu povo quer vingança. E Asgard sempre nos tiranizou. Assim como a todos os outros Nove Reinos, Asgard mantém-se em uma posição de prestígio, a troco de quê? Nascimentos, linhagem hierárquica... Qual o grande valor de um nobre Asgardiano? Aqui está Hale, para provar o contrário. – Ele sorriu olhando para Miranda.

– Continuo meu ponto: não me comove, Laufeyson. – Os olhos do anão brilhavam astutos. – É melhor ter uma moeda melhor para negociar, caso não queira ser expulso... À força. Sua companheira pode ser poderosa, mas será que daria conta de uma taverna inteira cheia de anões? – Ele sorriu, dessa vez lascivamente, expondo duplo sentido para irritar Loki.

O deus controlou-se e apenas tirou a enorme safira do bolso.

– Imagino que isso possa ser de seu interesse. — Debochou o deus.

Os olhos dos anões mais próximos arregalaram-se, e os que se sentavam mais ao longe aproximaram-se para olhar.

O mais velho continuou fitando a pedra preciosa, seu rosto finalmente surpreso.

– Isto não é uma safira qualquer. Ela tem...

– Propriedades mágicas. – Loki completou. – Perfeitamente. E pertencia a Loki Odinson, e lhe foi dada por Thor, como assim soube sua aprendiz, Hale. Assim como estão, agora, inúmeras pedras preciosas escondidas com seu irmão mais velho e futuro Rei de Asgard.

O ancião não parecia acreditar. Tocava na pedra, examinava-a ao longe e de perto, e, enfim, disse:

– Ele não mente. Esta é uma das pedras mais raras de todos os Nove Reinos. – O anão encarava Loki, sua expressão totalmente modificada, agora estando ele perplexo e atônito. A pedra preciosa passava de mão em mão, e todos os anões, agora, pareciam finalmente respeitar os dois forasteiros.

– Como pode provar que está com Thor, agora? – O velho perguntou uma última dúvida esperando para ser sanada.

– Provando, meu caro. – Loki sorriu divertido, e fez um gesto para Miranda, que já havia entendido. Um anão entregou-lhe a pedra, e ela tocou-a com o dedo indicador.

A imagem de Thor, preocupado, encarando o horizonte de Asgard, pensativo, desenhou-se na superfície da pedra por meros segundos.

Em segundos, a balbúrdia tomou conta da taverna. Anões gritavam, falavam alto, discutiam e debatiam, e Loki e Miranda apenas sorriam, evitando encarar um ao outro para não levantar suspeitas. O deus sabia: já havia sido vitorioso.

O velho pediu silêncio, e todos os anões se calaram.

– Tem a sua vingança, Laufeyson. – O velho reverenciou Loki, desta vez sem debochá-lo, assim como todos os outros anões. O deus sorriu realmente triunfante ao ouvir as palavras do velho, junto a gritos de guerra dos anões, finalmente manipulados pelo deus da trapaça disfarçado de mero jotun. Sentiu seu coração bater mais forte, satisfeito com suas próprias astúcia e sagacidade.

Miranda soltou um pequeno risinho de triunfo, enquanto o anão velho levantava o rosto, sorrindo de maneira trapaceira, típica de Loki também.

– Só precisamos do pagamento adiantado. – O anão disse, e Miranda tirou dos bolsos pedras e pedras de ouro, espalhando-as por uma larga mesa, enquanto fazia uma falsa expressão inocente.

– É suficiente, eu acho. Podem ficar com o troco. – Miranda disse, sorrindo, enquanto trocava um olhar cúmplice com Loki.

– E façam com que a notícia alcance os ouvidos de Hreimar. Posso ser ainda mais generoso dependendo da rapidez com que concretizem este pedido. – Loki sorriu solícito, sua atuação impecável, audacioso, enquanto Miranda o encarava de esguelha, surpreendida com suas capacidades.

– Certamente, meu Rei Jotun. – O anão disse enquanto o reverenciava, e Loki teve de controlar-se para não rir.

Notas finais
Galerinha, ganhei mais uma fanart maravilhosa da talentosíssima desenhista Bacci! Loki e Miranda em uma situação que é muito a cara deles, enfim, não preciso descrever, a imagem diz mais que mil palavras (e esse capítulo já tem 7000 LOL)! Instagram com mais artes lindas dela: http://instagram.com/barusashi No aguardo da opinião de vocês! :D